{"id":24045,"date":"2026-06-26T10:00:54","date_gmt":"2026-06-26T13:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/26\/continuidade-e-coordenacao-no-modelo-chines-de-desenvolvimento\/"},"modified":"2026-06-26T10:00:54","modified_gmt":"2026-06-26T13:00:54","slug":"continuidade-e-coordenacao-no-modelo-chines-de-desenvolvimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/26\/continuidade-e-coordenacao-no-modelo-chines-de-desenvolvimento\/","title":{"rendered":"Continuidade e coordena\u00e7\u00e3o no modelo chin\u00eas de desenvolvimento"},"content":{"rendered":"<p>Entre os dias 18 de maio e 2 de junho, a convite da Embaixada da China no Brasil, um grupo de 24 brasileiros, oriundos de diversas institui\u00e7\u00f5es, participou, ao longo de duas semanas, do Semin\u00e1rio de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica promovido pelo Centro de Forma\u00e7\u00e3o Internacional de Hong Kong e Macau da Academia Nacional de Governan\u00e7a e patrocinado pelo Minist\u00e9rio do Com\u00e9rcio da Rep\u00fablica Popular da China.<\/p>\n<p>Entre os participantes, uma equipe de oito professores e pesquisadores da FGV EPPG vivenciou o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es chinesas por meio de visitas t\u00e9cnicas, semin\u00e1rios e encontros com gestores e acad\u00eamicos locais. Foi a partir dessa imers\u00e3o que reunimos as observa\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es apresentadas neste artigo.<\/p>\n<h2>Hist\u00f3ria, institui\u00e7\u00f5es e o longo prazo: as bases do desenvolvimento chin\u00eas<\/h2>\n<p>O desenvolvimento chin\u00eas das \u00faltimas quatro d\u00e9cadas impressiona n\u00e3o apenas pela velocidade do crescimento econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m pela capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o coordenada de recursos produtivos, institucionais e sociais. Contudo, reduzir essa trajet\u00f3ria \u00e0s reformas iniciadas em 1978 seria desconsiderar a profundidade hist\u00f3rica que sustenta a experi\u00eancia chinesa contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>A ideia de \u201cterra do meio\u201d carrega um sentido civilizacional que remete a mais de 5.000 anos de hist\u00f3ria e expressa uma concep\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria sobre o lugar da China no mundo, sua organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e sua rela\u00e7\u00e3o com o tempo hist\u00f3rico. A moderniza\u00e7\u00e3o chinesa, portanto, n\u00e3o pode ser compreendida como mera ado\u00e7\u00e3o de modelos externos de desenvolvimento, mas como um processo de atualiza\u00e7\u00e3o seletiva de tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, administrativas e filos\u00f3ficas.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia chinesa revela uma condi\u00e7\u00e3o institucional central: a capacidade de combinar estabilidade pol\u00edtica, continuidade burocr\u00e1tica e planejamento de longo prazo. O Estado atua diretamente na indu\u00e7\u00e3o do desenvolvimento, na organiza\u00e7\u00e3o de setores estrat\u00e9gicos e na orienta\u00e7\u00e3o da inova\u00e7\u00e3o, articulando dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, disciplina organizacional e incentivos ao desempenho.<\/p>\n<p>Essa capacidade contrasta com a experi\u00eancia brasileira, em que a necessidade permanente de articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas imediatas muitas vezes limita a continuidade de projetos estrat\u00e9gicos. O desenvolvimento chin\u00eas, contudo, n\u00e3o ocorreu sem custos ambientais. A paisagem industrial dos anos 1990, marcada pela polui\u00e7\u00e3o e pelo crescimento acelerado, deu lugar a uma pol\u00edtica que incorpora metas ambientais \u00e0 gest\u00e3o p\u00fablica, com investimentos em energia limpa, mobilidade sustent\u00e1vel e reflorestamento urbano.<\/p>\n<p>A m\u00e1xima de Xi Jinping \u2014 \u201c\u00e1guas limpas e montanhas verdes s\u00e3o t\u00e3o valiosas quanto montes de ouro e prata\u201d \u2014 sintetiza essa mudan\u00e7a: a natureza passa a ser tratada n\u00e3o apenas como recurso, mas como patrim\u00f4nio nacional.<\/p>\n<h2>Unidade e autonomia: a arquitetura administrativa da China<\/h2>\n<p>Promover desenvolvimento e inova\u00e7\u00e3o em um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais exige conciliar unidade nacional e diversidade econ\u00f4mica, social e cultural. Na China, esse desafio envolve administrar regi\u00f5es altamente industrializadas e \u00e1reas ainda em desenvolvimento, dezenas de grupos \u00e9tnicos e diferentes arranjos pol\u00edtico-econ\u00f4micos sob um mesmo Estado.<\/p>\n<p>Essa arquitetura se organiza em n\u00edveis administrativos que incluem prov\u00edncias, regi\u00f5es aut\u00f4nomas e regi\u00f5es administrativas especiais. As regi\u00f5es aut\u00f4nomas, voltadas a grupos \u00e9tnicos minorit\u00e1rios, possuem estatutos pr\u00f3prios e podem editar normas locais em \u00e1reas como educa\u00e7\u00e3o, cultura e seguran\u00e7a p\u00fablica, desde que alinhadas aos interesses nacionais. Assim, combinam certa margem de adapta\u00e7\u00e3o local com a preserva\u00e7\u00e3o do controle estrat\u00e9gico pelo governo central.<\/p>\n<p>Hong Kong e Macau, como regi\u00f5es administrativas especiais, operam sob a l\u00f3gica de \u201cum pa\u00eds, dois sistemas\u201d: preservam sistema capitalista, leis, moeda e fronteiras pr\u00f3prias, enquanto Pequim mant\u00e9m o controle sobre defesa e rela\u00e7\u00f5es exteriores. Mesmo submetidos ao planejamento nacional, como o Plano Quinquenal, os governos locais disp\u00f5em de margem para adaptar sua implementa\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, criando espa\u00e7os de desenvolvimento e inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse arranjo administrativo tamb\u00e9m tem significado pol\u00edtico. Mais do que um organograma, ele expressa a tentativa chinesa de construir um \u201csistema de poder inteiramente novo\u201d, capaz de consolidar a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa. Em <em>Sobre a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em> (1963), Hannah Arendt via a China como caso de revolu\u00e7\u00e3o \u201cpermanente\u201d, que se prolonga sem realizar plenamente seus objetivos. Para ela, superar esse impasse exigia criar um sistema de poder pr\u00f3prio e duradouro.<\/p>\n<p>Essa preocupa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m aparece no diagn\u00f3stico das lideran\u00e7as chinesas. Em semin\u00e1rio sobre governan\u00e7a, o professor Song Shiming recuperou uma fala de Xi Jinping segundo a qual o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica se relacionou, entre outros fatores, \u00e0 falta de um sistema eficaz de governan\u00e7a nacional. A leitura chinesa converge, nesse ponto, com Arendt: uma revolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o constr\u00f3i institui\u00e7\u00f5es est\u00e1veis corre o risco de n\u00e3o se consolidar. Evitar esse destino tornou-se um objetivo central do Estado chin\u00eas.<\/p>\n<p>Nesse ponto, os governos locais ganham protagonismo. Num pa\u00eds de dimens\u00e3o continental, erguer um novo sistema de governan\u00e7a depende de uma forma engenhosa de articular o centro e as localidades.<\/p>\n<p>O sistema financeiro serve como exemplo ilustrativo. Um dos princ\u00edpios de coordena\u00e7\u00e3o fundamentais \u00e9 o <em>one-level-down<\/em> <em>management<\/em>, uma l\u00f3gica de cascata em que cada n\u00edvel de governo define as regras financeiras do n\u00edvel imediatamente inferior. N\u00e3o h\u00e1 um conjunto \u00fanico de regras v\u00e1lido para todos os governos locais ao mesmo tempo. As rela\u00e7\u00f5es entre o centro e as prov\u00edncias diferem das rela\u00e7\u00f5es entre as prov\u00edncias e os munic\u00edpios, e assim sucessivamente.<\/p>\n<p>Portanto, o aspecto decisivo \u00e9 que, embora a China seja um Estado unit\u00e1rio, a rela\u00e7\u00e3o entre os n\u00edveis hier\u00e1rquicos \u00e9 flex\u00edvel. Para compreender os avan\u00e7os da China contempor\u00e2nea \u00e9 necess\u00e1rio entender o relacionamento dos n\u00edveis locais de governo e sua articula\u00e7\u00e3o com Pequim.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Essa flexibilidade talvez seja uma das chaves para entender por que a China n\u00e3o caiu na armadilha que Arendt previa. Em vez de enrijecer num comando central uniforme ou de se fragmentar em disputas locais, esse arranjo institucional encontrou um modo de conciliar as diferen\u00e7as e de ajustar-se ao longo do tempo.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia chinesa mostra que a for\u00e7a de sua governan\u00e7a est\u00e1 na combina\u00e7\u00e3o entre dire\u00e7\u00e3o central, adapta\u00e7\u00e3o local e continuidade institucional. \u00c9 essa articula\u00e7\u00e3o que permite transformar planejamento em execu\u00e7\u00e3o, com a incorpora\u00e7\u00e3o da agenda ambiental como parte de um projeto nacional de desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>Autores:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Borges da Silva<\/strong> \u2013 Coordenador do mestrado e doutorado em economia da FGV EPPG<\/p>\n<p><strong>Rayane Vieira Rodrigues<\/strong> \u2013 Professora de pol\u00edticas p\u00fablicas na FGV EPPG<\/p>\n<p><strong>Raphael Amorim Machado<\/strong> \u2013 Professor de pol\u00edticas p\u00fablicas na FGV EPPG<\/p>\n<p><strong>Marjorie Camila Madoz Pinheiro<\/strong> \u2013 Pesquisadora e doutoranda em economia na FGV EPPG<\/p>\n<p><strong>Yago de Souza Paiva<\/strong> \u2013 Professor de pol\u00edticas p\u00fablicas na FGV EPPG<\/p>\n<p><strong>C\u00e1ssia Pereira das Chagas<\/strong> \u2013 Professora de economia na FGV EPPG<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os dias 18 de maio e 2 de junho, a convite da Embaixada da China no Brasil, um grupo de 24 brasileiros, oriundos de diversas institui\u00e7\u00f5es, participou, ao longo de duas semanas, do Semin\u00e1rio de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica promovido pelo Centro de Forma\u00e7\u00e3o Internacional de Hong Kong e Macau da Academia Nacional de Governan\u00e7a e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24045"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24045"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24045\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24045"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24045"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}