{"id":23992,"date":"2026-06-24T13:37:59","date_gmt":"2026-06-24T16:37:59","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/24\/repensando-a-analise-de-politicas-publicas-no-sul-global-em-tempos-de-crises\/"},"modified":"2026-06-24T13:37:59","modified_gmt":"2026-06-24T16:37:59","slug":"repensando-a-analise-de-politicas-publicas-no-sul-global-em-tempos-de-crises","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/24\/repensando-a-analise-de-politicas-publicas-no-sul-global-em-tempos-de-crises\/","title":{"rendered":"Repensando a an\u00e1lise de pol\u00edticas p\u00fablicas no Sul Global em tempos de crises"},"content":{"rendered":"<p>Este texto, inspirado em debates recentes com acad\u00eamicos do Sul Global, discute os desafios de renova\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise de pol\u00edticas p\u00fablicas. Argumento que um campo historicamente moldado por experi\u00eancias do Norte Global e por contextos de estabilidade enfrenta dificuldades para compreender um mundo marcado por policrises, mudan\u00e7as institucionais e transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Sem pretender esgotar o tema, o texto apresenta ideias iniciais para uma agenda mais plural e integrada, especialmente relevante para o Sul Global, mas tamb\u00e9m \u00fatil para compreender as mudan\u00e7as em curso no Norte Global.<\/p>\n<h2>A forma\u00e7\u00e3o do campo e seus limites<\/h2>\n<p>A an\u00e1lise de pol\u00edticas p\u00fablicas consolidou-se internacionalmente como campo cient\u00edfico no s\u00e9culo passado. Desde sua origem, combina um duplo prop\u00f3sito: contribuir com a ci\u00eancia, explicando o funcionamento das pol\u00edticas p\u00fablicas, e contribuir para a pr\u00e1tica, buscando seu aprimoramento. Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, o campo expandiu-se, tornando-se mais internacionalizado, sofisticado e diverso.<\/p>\n<p>Esse crescimento, no entanto, veio acompanhado de um alto grau de especializa\u00e7\u00e3o. Pesquisadores passaram a se concentrar em nichos espec\u00edficos \u2014 como setores (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, meio ambiente), instrumentos (regula\u00e7\u00e3o, incentivos, governan\u00e7a) ou etapas do ciclo de pol\u00edticas p\u00fablicas (agenda, formula\u00e7\u00e3o, implementa\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o), o que levou \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de comunidades acad\u00eamicas relativamente herm\u00e9ticas, com linguagem pr\u00f3pria e debates pouco conectados entre si. Como consequ\u00eancia, limitou-se a capacidade de produzir vis\u00f5es mais integradas e abrangentes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o campo foi fortemente influenciado por tradi\u00e7\u00f5es intelectuais do Norte Global. As teorias e modelos anal\u00edticos dominantes foram desenvolvidos para explicar contextos de relativa estabilidade institucional, democracias liberais e, em muitos casos, Estados de bem-estar social. Nesses contextos, a an\u00e1lise de pol\u00edticas p\u00fablicas organizou-se em torno de quest\u00f5es como a entrada de problemas na agenda governamental e os processos de formula\u00e7\u00e3o, implementa\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas, mobilizando ampla diversidade de teorias e m\u00e9todos.<\/p>\n<p>Mas, apesar de sua sofistica\u00e7\u00e3o, essa literatura apresenta limita\u00e7\u00f5es importantes, especialmente em fun\u00e7\u00e3o dos contextos que buscava explicar. O vi\u00e9s do Norte Global restringiu a capacidade de compreens\u00e3o de realidades marcadas por desigualdades, instabilidade institucional e capacidades estatais heterog\u00eaneas. A especializa\u00e7\u00e3o excessiva fragmentou o conhecimento. Por fim, houve uma tend\u00eancia a enfatizar falhas, disfun\u00e7\u00f5es e efeitos negativos das pol\u00edticas em detrimento da identifica\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias bem-sucedidas. Esses limites tornam-se particularmente problem\u00e1ticos diante das transforma\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas.<\/p>\n<h2>Novos tempos, novos desafios<\/h2>\n<p>O contexto atual \u00e9 marcado por mudan\u00e7as profundas que desafiam os pressupostos b\u00e1sicos do campo da an\u00e1lise de pol\u00edticas p\u00fablicas. Em primeiro lugar, vivemos um per\u00edodo policrises cr\u00f4nicas. Policrises porque afetam diversas dimens\u00f5es: crises econ\u00f4micas, sanit\u00e1rias, clim\u00e1ticas, sociais, pol\u00edticas etc., que convivem e se retroalimentam. Cr\u00f4nicas porque as crises deixaram de ser eventos excepcionais, delimitados no tempo e seguidos por per\u00edodos de estabilidade.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as atuais passam a ditar um estado permanente de perturba\u00e7\u00e3o, no qual a necessidade de adapta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua torna-se a nova normalidade. As policrises exigem que governos desenvolvam capacidades cont\u00ednuas de antecipa\u00e7\u00e3o, adapta\u00e7\u00e3o, coordena\u00e7\u00e3o e aprendizado para atuar em contextos de elevada incerteza. Compreender esse cen\u00e1rio requer novos modelos anal\u00edticos.<\/p>\n<p>Em paralelo, observa-se uma eros\u00e3o da confian\u00e7a no Estado e nas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Segundo o relat\u00f3rio mais recente do V-Dem, em 2025 cerca de 74% da popula\u00e7\u00e3o mundial vivia em autocracias, e o retrocesso democr\u00e1tico j\u00e1 atinge inclusive democracias consolidadas, como os EUA.<\/p>\n<p>Esses processos sugerem que modelos anal\u00edticos desenvolvidos para contextos de democracias liberais podem n\u00e3o explicar adequadamente a realidade contempor\u00e2nea. Al\u00e9m disso, a crescente politiza\u00e7\u00e3o do Estado e da burocracia, a contesta\u00e7\u00e3o de normas institucionais e a fragiliza\u00e7\u00e3o da accountability desafiam modelos que pressup\u00f5em estabilidade institucional.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, em muitos pa\u00edses, cresce a percep\u00e7\u00e3o de perda de soberania diante de din\u00e2micas globais, como fluxos financeiros, cadeias produtivas transnacionais, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e expans\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es ilegais internacionais. Esse cen\u00e1rio \u00e9 acompanhado pela desconfian\u00e7a generalizada nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e pelo enfraquecimento da legitimidade dos Estados.<\/p>\n<p>Por fim, a r\u00e1pida dissemina\u00e7\u00e3o de novas tecnologias, especialmente da intelig\u00eancia artificial, coloca quest\u00f5es in\u00e9ditas para os Estados. Temas como regula\u00e7\u00e3o, soberania digital, uso de dados e automa\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es p\u00fablicas passam a exigir novas ferramentas anal\u00edticas.<\/p>\n<p>Nesse contexto, os modelos tradicionais de an\u00e1lise de pol\u00edticas p\u00fablicas t\u00eam dificuldade para compreender a complexidade atual, indicando a necessidade de renova\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e metodol\u00f3gica do campo.<\/p>\n<h2>Caminhos para uma agenda anal\u00edtica renovada<\/h2>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de uma nova agenda para a an\u00e1lise de pol\u00edticas p\u00fablicas exige uma mudan\u00e7a de perspectiva. Em primeiro lugar, \u00e9 necess\u00e1rio superar vis\u00f5es r\u00edgidas do ciclo de pol\u00edticas p\u00fablicas. Em vez de tratar as fases como etapas separadas, \u00e9 preciso compreender as pol\u00edticas como processos cont\u00ednuos e din\u00e2micos, nos quais decis\u00f5es s\u00e3o constantemente revisadas e adaptadas em contextos de incerteza e mudan\u00e7a e influenciadas por m\u00faltiplos atores.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, \u00e9 fundamental desenvolver abordagens capazes de lidar com a complexidade dos problemas contempor\u00e2neos. Isso envolve incorporar dimens\u00f5es como interseccionalidade, intersetorialidade e hibridez, reconhecendo a sobreposi\u00e7\u00e3o de desigualdades, a interdepend\u00eancia entre pol\u00edticas e a articula\u00e7\u00e3o entre atores estatais e n\u00e3o estatais. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso tratar as crises como elementos permanentes, e n\u00e3o excepcionais, da a\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n<p>Outro elemento central \u00e9 recolocar a pol\u00edtica (politics) no centro da an\u00e1lise das pol\u00edticas p\u00fablicas (policies). Em contextos de polariza\u00e7\u00e3o, politiza\u00e7\u00e3o da burocracia e retrocesso democr\u00e1tico, compreender pol\u00edticas p\u00fablicas exige analisar rela\u00e7\u00f5es de poder, conflitos, interesses e estrat\u00e9gias pol\u00edticas. Isso implica um di\u00e1logo mais estreito com a ci\u00eancia pol\u00edtica e uma maior aten\u00e7\u00e3o \u00e0s dimens\u00f5es institucionais e ideol\u00f3gicas que moldam a a\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio incluir n\u00e3o apenas a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas, mas seus processos de desmonte e desmantelamento. Em muitos pa\u00edses, pol\u00edticas t\u00eam sido enfraquecidas ou revertidas, tornando essencial compreender como esses processos ocorrem, quem os promove e como se organizam as formas de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Outro eixo diz respeito \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o e ao acesso \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas. Isso implica deslocar o olhar para a experi\u00eancia dos cidad\u00e3os, considerando a qualidade dos servi\u00e7os, barreiras administrativas e desigualdades de acesso. Conceitos como fardos administrativos, coprodu\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a ajudam a explicar por que pol\u00edticas formalmente existentes nem sempre se traduzem em benef\u00edcios reais e por que cidad\u00e3os perdem a confian\u00e7a no Estado.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, \u00e9 importante avan\u00e7ar em uma agenda mais propositiva, que v\u00e1 al\u00e9m da identifica\u00e7\u00e3o de falhas do Estado. Isso se conecta ao movimento internacional \u201cAdministra\u00e7\u00e3o P\u00fablica Positiva\u201d que se prop\u00f5e a ampliar o olhar anal\u00edtico para casos positivos nos quais os governos conseguem construir capacidades, entregar servi\u00e7os e gerar impacto.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Isso envolve valorizar experi\u00eancias que funcionam, compreender os fatores que contribuem para o sucesso de pol\u00edticas e promover uma abordagem que reconhe\u00e7a tanto limita\u00e7\u00f5es como potencialidades da a\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Estudar o que funciona e n\u00e3o apenas as falhas do Estado contribui para fortalecer a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es e reconhecer a a\u00e7\u00e3o do Estado que consegue produzir bons resultados mesmo em contextos marcados por restri\u00e7\u00f5es. Por fim, este movimento ajuda a n\u00e3o alimentar uma narrativa fatalista do Estado que apenas contribui para seu desmonte.<\/p>\n<p>Por fim, a renova\u00e7\u00e3o do campo exige sua descoloniza\u00e7\u00e3o. Isso implica questionar a centralidade das experi\u00eancias do Norte Global e incorporar perspectivas, conceitos e evid\u00eancias do Sul Global. Mais do que aplicar teorias existentes a novos casos, trata-se de produzir conhecimento a partir dessas realidades e construir uma compreens\u00e3o mais plural das pol\u00edticas p\u00fablicas contempor\u00e2neas.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto, inspirado em debates recentes com acad\u00eamicos do Sul Global, discute os desafios de renova\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise de pol\u00edticas p\u00fablicas. Argumento que um campo historicamente moldado por experi\u00eancias do Norte Global e por contextos de estabilidade enfrenta dificuldades para compreender um mundo marcado por policrises, mudan\u00e7as institucionais e transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. 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