{"id":23901,"date":"2026-06-21T05:58:29","date_gmt":"2026-06-21T08:58:29","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/21\/o-efeito-peltzman-do-hipercontrole-administrativo\/"},"modified":"2026-06-21T05:58:29","modified_gmt":"2026-06-21T08:58:29","slug":"o-efeito-peltzman-do-hipercontrole-administrativo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/21\/o-efeito-peltzman-do-hipercontrole-administrativo\/","title":{"rendered":"O efeito Peltzman do hipercontrole administrativo"},"content":{"rendered":"<p>Em 1975, Sam Peltzman publicou no <em>Journal of Political Economy<\/em> um dos artigos mais perturbadores da an\u00e1lise econ\u00f4mica da regula\u00e7\u00e3o. Demonstrou que a obrigatoriedade de equipamentos de seguran\u00e7a em autom\u00f3veis, cintos, freios refor\u00e7ados, <em>airbags<\/em>, n\u00e3o havia reduzido a mortalidade no tr\u00e2nsito na magnitude que a engenharia prometia.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o era comportamental: motoristas, percebendo-se mais protegidos, ajustavam a dire\u00e7\u00e3o na margem, dirigindo mais r\u00e1pido, com menos aten\u00e7\u00e3o. Parte do ganho t\u00e9cnico era consumida pelo ajuste do agente regulado. A regula\u00e7\u00e3o que pretendia salvar vidas induzia, por via reflexa, o comportamento que aumentava o risco.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>O direito administrativo brasileiro vive sua pr\u00f3pria variante do efeito Peltzman, com o vetor invertido. O aparato de controle externo, concebido para impor moralidade e proteger o er\u00e1rio, induziu no agente p\u00fablico regulado um ajuste comportamental sim\u00e9trico ao do motorista de Peltzman: comportamento defensivo, fuga da decis\u00e3o, prefer\u00eancia pela ina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O gestor racional, diante de risco pessoal de responsabiliza\u00e7\u00e3o desproporcional ao benef\u00edcio difuso de qualquer escolha inovadora, ajusta-se \u00e0 margem. S\u00f3 que o ajuste, aqui, n\u00e3o \u00e9 dirigir mais r\u00e1pido. \u00c9 n\u00e3o decidir. O ativo regulat\u00f3rio, que deveria ser mobilizado, congela. O controle prometia seguran\u00e7a institucional e entregou paralisia. \u00c9 a ilus\u00e3o decis\u00f3ria do hipercontrole: a apar\u00eancia de prote\u00e7\u00e3o que, no agregado, neutraliza parte substantiva da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica que pretendia defender.<\/p>\n<p>Nenhum setor exp\u00f5e esse arranjo com mais nitidez que o mineral.<\/p>\n<p>O Brasil re\u00fane reservas de classe mundial em ni\u00f3bio, terras raras e l\u00edtio, e ocupa posi\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica privilegiada na corrida pelos minerais cr\u00edticos da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Enquanto pa\u00edses desenvolvidos articulam acordos bilaterais de cossoberania sobre cadeias estrat\u00e9gicas e revisam suas legisla\u00e7\u00f5es miner\u00e1rias para acelerar a contrata\u00e7\u00e3o, o ordenamento brasileiro segue decompondo o ciclo miner\u00e1rio em decis\u00f5es isoladas, sequenciais, tomadas por \u00f3rg\u00e3os que n\u00e3o se comunicam. O custo dessa arquitetura n\u00e3o \u00e9 apenas regulat\u00f3rio. \u00c9 econ\u00f4mico, e a conta vence sempre no pior momento.<\/p>\n<p>A literatura sobre controle externo registrou o fen\u00f4meno como \u201capag\u00e3o das canetas\u201d: gestores percebem o risco de responsabiliza\u00e7\u00e3o individual como superior, em magnitude e probabilidade, ao benef\u00edcio difuso de qualquer decis\u00e3o inovadora.<\/p>\n<p>\u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o principal-agente desenhada contra a decis\u00e3o. O custo de decidir \u00e9 pessoal e imediato; o ganho \u00e9 coletivo e diferido. Somada a essa equa\u00e7\u00e3o a fragmenta\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os competentes, ANM, Ibama, \u00f3rg\u00e3os ambientais estaduais, ag\u00eancias de recursos h\u00eddricos, munic\u00edpios e inst\u00e2ncias de consulta a comunidades tradicionais, o resultado n\u00e3o \u00e9 coordena\u00e7\u00e3o federativa. \u00c9 um regime em que ningu\u00e9m decide porque qualquer um pode ser responsabilizado. A assimetria informacional entre regulador e operador agrava o quadro: o Estado contrata sem saber o que contrata, e o particular investe sem saber o que recebe.<\/p>\n<p>A ironia institucional \u00e9 que a solu\u00e7\u00e3o j\u00e1 existe e est\u00e1 autorizada. O art. 26 da LINDB habilita a autoridade administrativa a celebrar compromissos para \u201celiminar irregularidade, incerteza jur\u00eddica ou situa\u00e7\u00e3o contenciosa na aplica\u00e7\u00e3o do direito p\u00fablico\u201d. Lido em conjunto com o art. 70 da Constitui\u00e7\u00e3o e com a economicidade erigida em princ\u00edpio expresso pela <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2021\/lei\/l14133.htm\">Lei 14.133\/2021<\/a>, o dispositivo oferece base jur\u00eddica suficiente para que o Estado contrate por arranjos integrados onde a soma de licen\u00e7as avulsas se mostre economicamente inferior.<\/p>\n<p>Em minera\u00e7\u00e3o, esse arranjo tem nome t\u00e9cnico no comparado, <em>mining agreement<\/em>, e \u00e9 o instrumento que pa\u00edses como Austr\u00e1lia Ocidental utilizam, h\u00e1 d\u00e9cadas, para organizar num \u00fanico pacto obriga\u00e7\u00f5es regulat\u00f3rias, ambientais, econ\u00f4micas e operacionais ao longo da vida \u00fatil do empreendimento. O ferramental brasileiro existe. N\u00e3o \u00e9 usado.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o da subutiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 jur\u00eddica. \u00c9 de incentivos, e, portanto, peltzmaniana. Sem mecanismo que blinde o agente p\u00fablico signat\u00e1rio, o art. 26 transfere ao gestor o \u00f4nus integral de um c\u00e1lculo que beneficia, no longo prazo, a coletividade. Os arts. 22 e 28 da pr\u00f3pria LINDB, somados \u00e0 reforma da Lei de Improbidade Administrativa pela <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2021\/lei\/l14230.htm\">Lei 14.230\/2021<\/a>, deslocaram o crit\u00e9rio de responsabiliza\u00e7\u00e3o para o dolo ou erro grosseiro, mas a percep\u00e7\u00e3o do risco pessoal continua superior \u00e0 blindagem normativa. O gestor que se ajusta \u00e0 margem do hipercontrole prefere a licen\u00e7a avulsa, lenta e segura, ao compromisso integrado, r\u00e1pido e exposto. Prefere o que protege a si, mesmo quando custa ao pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A institucionaliza\u00e7\u00e3o externa do compromisso opera como ant\u00eddoto a esse ajuste. Homologa\u00e7\u00e3o judicial, manifesta\u00e7\u00e3o pr\u00e9via dos Tribunais de Contas ou interven\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico como <em>custos legis<\/em> reduzem o custo pessoal da decis\u00e3o e a margem em que o comportamento defensivo se manifesta. \u00c9 <em>commitment device<\/em> na chave cl\u00e1ssica da teoria dos jogos: o gestor decide porque o sistema, e n\u00e3o ele isoladamente, responde pela decis\u00e3o. Sem essa camada, qualquer instrumento consensual permanece tecnicamente dispon\u00edvel e praticamente inexistente, o que \u00e9 exatamente o quadro brasileiro.<\/p>\n<p>A consensualidade administrativa n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o suspeita, mas t\u00e9cnica prevista em lei, sistematizada pela doutrina e admitida pelo controle. Suspeito \u00e9 manter um modelo fragmentado, lento e inseguro num momento em que o pa\u00eds det\u00e9m reservas que o mundo inteiro disputa. Peltzman ensinou que toda regula\u00e7\u00e3o produz um agente que se ajusta. A pergunta institucional brasileira \u00e9 se queremos um agente p\u00fablico que se ajusta decidindo, ou um que se ajusta paralisando. Reserva geol\u00f3gica n\u00e3o vira riqueza nacional por in\u00e9rcia. Vira por contrato.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1975, Sam Peltzman publicou no Journal of Political Economy um dos artigos mais perturbadores da an\u00e1lise econ\u00f4mica da regula\u00e7\u00e3o. Demonstrou que a obrigatoriedade de equipamentos de seguran\u00e7a em autom\u00f3veis, cintos, freios refor\u00e7ados, airbags, n\u00e3o havia reduzido a mortalidade no tr\u00e2nsito na magnitude que a engenharia prometia. 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