{"id":23860,"date":"2026-06-19T05:58:15","date_gmt":"2026-06-19T08:58:15","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/19\/uma-analise-da-origem-e-racionalidade-do-modelo-de-organizacoes-sociais\/"},"modified":"2026-06-19T05:58:15","modified_gmt":"2026-06-19T08:58:15","slug":"uma-analise-da-origem-e-racionalidade-do-modelo-de-organizacoes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/19\/uma-analise-da-origem-e-racionalidade-do-modelo-de-organizacoes-sociais\/","title":{"rendered":"Uma an\u00e1lise da origem e racionalidade do modelo de organiza\u00e7\u00f5es sociais"},"content":{"rendered":"<p>O modelo das organiza\u00e7\u00f5es sociais (OS), concebido no contexto da reforma do aparelho do Estado da d\u00e9cada de 1990, buscou responder a um problema central da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira: a dificuldade do Estado em prestar determinados servi\u00e7os sociais com efici\u00eancia operacional, flexibilidade administrativa e capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s demandas contempor\u00e2neas, sem abdicar de sua responsabilidade constitucional pela garantia dos direitos fundamentais.<\/p>\n<p>A proposta institucional consistiu na constru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de coopera\u00e7\u00e3o est\u00e1vel entre Estado e sociedade civil organizada, no qual entidades privadas sem fins lucrativos, comprometidas estatutariamente com finalidades de interesse p\u00fablico, passassem a atuar em um \u201c<em>espa\u00e7o p\u00fablico n\u00e3o estatal<\/em>\u201d, conceito introduzido pelo Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado de 1995.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/saude?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_saude_q2&amp;utm_id=cta_texto_saude_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_saude&amp;utm_term=cta_texto_saude_meio_materias\"><span>Com not\u00edcias da Anvisa e da ANS, o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Sa\u00fade entrega previsibilidade e transpar\u00eancia para empresas do setor<\/span><\/a><\/p>\n<p>O conceito de espa\u00e7o p\u00fablico n\u00e3o estatal constitui o n\u00facleo distintivo do modelo das organiza\u00e7\u00f5es sociais. Seu objetivo \u00e9 aproximar do Estado entidades da sociedade civil vocacionadas, estatutariamente, com determinadas pol\u00edticas p\u00fablicas, formando uma rela\u00e7\u00e3o institucional est\u00e1vel, duradoura e cooperativa. A l\u00f3gica do modelo consiste na ideia de uma parceria permanente \u2014 quase um \u201ccasamento institucional\u201d \u2014 do que de uma rela\u00e7\u00e3o epis\u00f3dica de colabora\u00e7\u00e3o p\u00fablico-privada ou de simples contrata\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Nesse arranjo, a entidade privada n\u00e3o atua como mera executora de projetos espec\u00edficos. Ela assume compromisso permanente com a implementa\u00e7\u00e3o de determinada pol\u00edtica p\u00fablica e, por isso, compartilha objetivos, estrat\u00e9gias e mecanismos de sua governan\u00e7a com o Poder P\u00fablico. A organiza\u00e7\u00e3o social submete-se a formas permanentes de controle p\u00fablico, supervis\u00e3o institucional e governan\u00e7a compartilhada incompat\u00edveis com a l\u00f3gica tradicional da autonomia privada absoluta.<\/p>\n<p>Esse elemento diferencia profundamente o modelo das organiza\u00e7\u00f5es sociais de outros instrumentos de parceria com o terceiro setor, como as OSCIP\u00a0e as parcerias regidas pela <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2011-2014\/2014\/lei\/l13019.htm\">Lei 13.019\/2014<\/a>. Nessas modalidades, o v\u00ednculo possui car\u00e1ter tempor\u00e1rio e voltado \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de projetos espec\u00edficos. N\u00e3o h\u00e1 compartilhamento estrutural da governan\u00e7a nem exig\u00eancia do compromisso institucional duradouro com determinada pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p>O modelo das OS opera sob racionalidade diversa. A entidade qualificada torna-se parceira permanente do Estado na execu\u00e7\u00e3o continuada de atividades de interesse p\u00fablico. \u00c9 exatamente essa natureza institucional diferenciada que justifica o regime intensificado de fomento p\u00fablico previsto na <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l9637.htm\">Lei 9.637\/1998<\/a>, que inclui transfer\u00eancia de recursos, permiss\u00e3o de uso de bens p\u00fablicos e cess\u00e3o especial de servidores.<\/p>\n<p>O contrato de gest\u00e3o, nesse contexto, possui natureza totalmente diversa \u00e0 de um contrato administrativo. Trata-se de instrumento cooperativo voltado ao estabelecimento de metas institucionais, mecanismos de avalia\u00e7\u00e3o e par\u00e2metros de governan\u00e7a relacionados \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Por isso, o princ\u00edpio da impessoalidade incide predominantemente sobre a escolha da entidade parceira \u2014 e n\u00e3o sobre a sele\u00e7\u00e3o da proposta economicamente mais vantajosa, como ocorre nas licita\u00e7\u00f5es. O Estado busca identificar entidades com trajet\u00f3ria institucional, compromisso comunit\u00e1rio, ader\u00eancia \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas e voca\u00e7\u00e3o permanente para atuar naquele espa\u00e7o p\u00fablico n\u00e3o estatal.<\/p>\n<p>Entretanto, grande parte dos modelos estaduais e municipais atualmente existentes afasta-se significativamente dessa concep\u00e7\u00e3o original. Em muitos casos, a qualifica\u00e7\u00e3o transforma-se em mera pr\u00e9-habilita\u00e7\u00e3o formal de entidades privadas, enquanto o foco da sele\u00e7\u00e3o desloca-se para propostas t\u00e9cnicas e operacionais, com foco priorit\u00e1rio na economicidade, aproximando-se da l\u00f3gica concorrencial t\u00edpica dos contratos administrativos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, desaparecem elementos centrais do modelo federal, como a governan\u00e7a compartilhada, o controle estrat\u00e9gico permanente e o v\u00ednculo institucional duradouro. Em consequ\u00eancia, diversos modelos de organiza\u00e7\u00f5es adotados por entes subnacionais assumem fei\u00e7\u00e3o material muito mais pr\u00f3xima de contrata\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os do que de verdadeiras parcerias institucionais, com cogest\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o produz distor\u00e7\u00f5es importantes. O modelo deixa de funcionar como mecanismo sofisticado de coopera\u00e7\u00e3o permanente entre Estado e sociedade civil e aproxima-se progressivamente de formas indiretas de terceiriza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 fundamental distinguir conceitualmente os diferentes institutos jur\u00eddicos. O modelo federal das organiza\u00e7\u00f5es sociais possui coer\u00eancia pr\u00f3pria, fundada na ideia de espa\u00e7o p\u00fablico n\u00e3o estatal, parceria institucional est\u00e1vel, compartilhamento de governan\u00e7a e coopera\u00e7\u00e3o permanente entre Estado e sociedade civil organizada. J\u00e1 os modelos voltados \u00e0 sele\u00e7\u00e3o de projetos ou presta\u00e7\u00e3o epis\u00f3dica de servi\u00e7os operam sob l\u00f3gica diversa.<\/p>\n<p>Grande parte das experi\u00eancias estaduais e municipais constitui, na realidade, outro modelo de parceria p\u00fablica, juridicamente distinto daquele concebido pela Lei 9.637\/1998 e muito mais pr\u00f3ximo das parcerias com OSCIP ou das regidas pela Lei 13.019\/2014. Reconhecer essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para evitar distor\u00e7\u00f5es conceituais e permitir o\u00a0 aperfei\u00e7oamento adequado dos mecanismos de controle e governan\u00e7a.<\/p>\n<p>Isso se torna ainda mais relevante na sa\u00fade p\u00fablica. Os n\u00edveis de fomento estatal ampliado autorizado \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es sociais \u2014 envolvendo n\u00e3o apenas recursos financeiros, mas a cess\u00e3o de im\u00f3veis, equipamentos e pessoal p\u00fablico \u2014 exige mecanismos robustos de transpar\u00eancia, fiscaliza\u00e7\u00e3o e accountability, frequentemente ausentes em legisla\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de estados e munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Em muitas experi\u00eancias subnacionais, os controles mostram-se insuficientes: aus\u00eancia de participa\u00e7\u00e3o efetiva do Poder P\u00fablico e da sociedade civil na governan\u00e7a; baixa transpar\u00eancia sobre custos e subcontrata\u00e7\u00f5es; e concentra\u00e7\u00e3o dos controles em metas quantitativas de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o desses modelos tamb\u00e9m exige reflex\u00e3o sobre os limites constitucionais da participa\u00e7\u00e3o privada no Sistema \u00danico de Sa\u00fade. A Constitui\u00e7\u00e3o admite a participa\u00e7\u00e3o complementar da iniciativa privada no SUS, mas organiza o sistema de sa\u00fade como estrutura p\u00fablica estatal, submetida \u00e0 dire\u00e7\u00e3o \u00fanica do Poder P\u00fablico.<\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o progressiva da rede p\u00fablica estatal por estruturas predominantemente executadas por organiza\u00e7\u00f5es sociais pode enfraquecer a capacidade estatal de presta\u00e7\u00e3o direta dos servi\u00e7os, coordena\u00e7\u00e3o das redes assistenciais, planejamento sanit\u00e1rio e regula\u00e7\u00e3o p\u00fablica do sistema.<\/p>\n<p>Essa preocupa\u00e7\u00e3o torna-se especialmente sens\u00edvel na Aten\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria \u00e0 Sa\u00fade, respons\u00e1vel pela coordena\u00e7\u00e3o das redes de aten\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o territorial do cuidado e integra\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas sanit\u00e1rias.<\/p>\n<p>O desafio contempor\u00e2neo, portanto, n\u00e3o consiste em eliminar a participa\u00e7\u00e3o privada nas pol\u00edticas p\u00fablicas, mas em preservar a coer\u00eancia conceitual dos institutos jur\u00eddicos existentes e impedir que mecanismos concebidos para coopera\u00e7\u00e3o institucional permanente sejam convertidos em simples instrumentos de contrata\u00e7\u00e3o indireta de servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Nesse contexto, parece profundamente inadequado flexibilizar ou descaracterizar o modelo federal das organiza\u00e7\u00f5es sociais para adapt\u00e1-lo \u00e0s experi\u00eancias estaduais e municipais que, atualmente, v\u00eam se consolidando na sa\u00fade. O melhor talvez seja reconhecer juridicamente a exist\u00eancia desse outro instituto de parceria p\u00fablica, ajustando-o \u00e0s especificidades contempor\u00e2neas da presta\u00e7\u00e3o complementar de servi\u00e7os de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>Isso permitiria preservar a integridade conceitual e t\u00e9cnica do modelo federal das organiza\u00e7\u00f5es sociais e, ao mesmo tempo, construir disciplina jur\u00eddica pr\u00f3pria para as atuais OS da sa\u00fade, com mecanismos mais robustos de controle, governan\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o do interesse p\u00fablico, necess\u00e1rios para assegurar o interesse p\u00fablico.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O modelo das organiza\u00e7\u00f5es sociais (OS), concebido no contexto da reforma do aparelho do Estado da d\u00e9cada de 1990, buscou responder a um problema central da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira: a dificuldade do Estado em prestar determinados servi\u00e7os sociais com efici\u00eancia operacional, flexibilidade administrativa e capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s demandas contempor\u00e2neas, sem abdicar de sua responsabilidade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23860"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23860"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23860\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}