{"id":23789,"date":"2026-06-17T05:58:15","date_gmt":"2026-06-17T08:58:15","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/17\/uma-arquitetura-institucional-para-a-soberania-digital-brasileira\/"},"modified":"2026-06-17T05:58:15","modified_gmt":"2026-06-17T08:58:15","slug":"uma-arquitetura-institucional-para-a-soberania-digital-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/17\/uma-arquitetura-institucional-para-a-soberania-digital-brasileira\/","title":{"rendered":"Uma arquitetura institucional para a soberania digital brasileira"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos, a soberania digital ganhou proje\u00e7\u00e3o como uma bandeira capaz de arregimentar ambi\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas dentro de um cen\u00e1rio internacional cada vez mais relutante \u00e0 domin\u00e2ncia americana no ecossistema digital global. Infraestrutura digital, dados, semicondutores e intelig\u00eancia artificial j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o apenas vistos como insumos econ\u00f4micos. S\u00e3o instrumentos de poder. Quem controla as camadas da infraestrutura digital define as regras econ\u00f4micas, jur\u00eddicas e culturais sob as quais vivem cidad\u00e3os e empresas dos demais pa\u00edses.<\/p>\n<p>O Brasil chega tarde a essa percep\u00e7\u00e3o, mas chega. Desde 2023, sob a Presid\u00eancia de <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/lula\">Lula<\/a>, o Brasil passou a revelar os contornos de suas aspira\u00e7\u00f5es de soberania digital, inscrevendo o tema como eixo priorit\u00e1rio na agenda estrat\u00e9gica brasileira. Essa preocupa\u00e7\u00e3o tomou corpo de diferentes formas: no uso recorrente de express\u00f5es como colonialismo digital e apartheid tecnol\u00f3gico; na proposi\u00e7\u00e3o de novos marcos regulat\u00f3rios para proteger crian\u00e7as e adolescentes em ambiente virtual, enfrentar o poder de mercado das plataformas e propor a governan\u00e7a dos riscos sociais inerentes \u00e0\u00a0intelig\u00eancia artificial e \u00e0s redes sociais; na a\u00e7\u00e3o executiva direta, com medidas cautelares e notifica\u00e7\u00f5es administrativas; e em tratados bilaterais voltados \u00e0 converg\u00eancia regulat\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Falta dar um passo adiante. Uma pol\u00edtica soberana sustentada apenas pela articula\u00e7\u00e3o presidencial direta \u00e9 estruturalmente fr\u00e1gil. O Poder Executivo precisa convert\u00ea-la em arquitetura institucional permanente, capaz de operar organicamente segundo as diretrizes presidenciais, mas sem depender do impulso pessoal do chefe de Estado. Uma agenda dessa magnitude n\u00e3o pode se erguer sobre pilares fr\u00e1geis e dispersos entre m\u00faltiplos minist\u00e9rios setoriais, nem se resolve com f\u00f3runs interministeriais sem const\u00e2ncia ou poder decis\u00f3rio.<\/p>\n<p>V\u00e1rios Estados nacionais promoveram reformula\u00e7\u00f5es institucionais sobre a gest\u00e3o de suas pol\u00edticas digitais ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas e a percep\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o a que se movem esses arranjos oferece repert\u00f3rio \u00fatil para o desenho de uma futura solu\u00e7\u00e3o institucional brasileira. Entre os pa\u00edses ocidentais, vale mencionar os casos do Reino Unido e da Espanha.<\/p>\n<p>O Reino Unido instituiu o Department for Science, Innovation and Technology (DSIT), reunindo compet\u00eancias antes dispersas entre o antigo Departamento para Neg\u00f3cios, Energia e Estrat\u00e9gia Industrial e o Departamento para Digital, Cultura, M\u00eddia e Esporte, com mandato sobre IA, semicondutores, banda larga, regula\u00e7\u00e3o de plataformas e governo digital. O AI Security Institute (AISI) est\u00e1 vinculado ao DSIT.<\/p>\n<p>J\u00e1 o Information Commissioner\u2019s Office (ICO), respons\u00e1vel pela prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais, e o Office of Communications (Ofcom), autoridade reguladora das comunica\u00e7\u00f5es e respons\u00e1vel pela aplica\u00e7\u00e3o do Online Safety Act, preservam mandatos pr\u00f3prios, embora integrem o ecossistema brit\u00e2nico de governan\u00e7a digital. Mesmo n\u00e3o sendo vinculada ao DSIT, a CMA atua em coordena\u00e7\u00e3o com a Ofcom, em mat\u00e9rias que envolvam intera\u00e7\u00f5es entre concorr\u00eancia, seguran\u00e7a online e infraestruturas cr\u00edticas.<\/p>\n<p>A Espanha foi al\u00e9m, representando um dos exemplos mais avan\u00e7ados de centraliza\u00e7\u00e3o ministerial da governan\u00e7a digital, ao reunir transforma\u00e7\u00e3o digital, intelig\u00eancia artificial, telecomunica\u00e7\u00f5es, infraestruturas digitais e fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica no Minist\u00e9rio para a Transforma\u00e7\u00e3o Digital e da Fun\u00e7\u00e3o P\u00fablica.<\/p>\n<p>Sob seu guarda-chuva atuam, coordenadamente, a Red.es, entidade p\u00fablica empresarial encarregada de executar programas de transforma\u00e7\u00e3o digital, o Instituto Nacional de Ciberseguran\u00e7a (INCIBE) e a Ag\u00eancia Espanhola de Supervis\u00e3o da Intelig\u00eancia Artificial (AESIA). O referido minist\u00e9rio designou a Comisi\u00f3n Nacional de los Mercados y la Competencia (CNMC) como \u00f3rg\u00e3o coordenador dos Servi\u00e7os Digitais, agregando a fun\u00e7\u00e3o de aplicar o DSA \u00e0 miss\u00e3o de regular telecomunica\u00e7\u00f5es, audiovisual, energia, servi\u00e7os postais e transportes. Por sua vez, a Agencia Espa\u00f1ola de Protecci\u00f3n de Datos (AEPD) se manteve como a autoridade independente respons\u00e1vel pela aplica\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o de dados.<\/p>\n<p>Esses arranjos contrastam com o caso norte-americano. Os Estados Unidos ocupam uma posi\u00e7\u00e3o excepcional no cen\u00e1rio mundial: s\u00e3o sede das principais empresas de tecnologia do mundo, incluindo as Big Three (Amazon, Microsoft e Google, que juntas dominam 63% do mercado<a href=\"https:\/\/www.srgresearch.com\/articles\/cloud-market-share-trends-big-three-together-hold-63-while-oracle-and-the-neoclouds-inch-higher\"> global<\/a> de infraestrutura de nuvem) e dos <a href=\"https:\/\/hai.stanford.edu\/assets\/files\/ai_index_report_2026.pdf\">maiores laborat\u00f3rios de IA de fronteira<\/a> (do que s\u00e3o exemplos OpenAI e Anthropic, detentores das maiores receitas).<\/p>\n<p>Justamente por isso, conseguem operar com a arquitetura institucional mais fragmentada do que a maioria dos pa\u00edses. As compet\u00eancias se distribuem entre variados gabinetes, departamentos e ag\u00eancias independentes, sem minist\u00e9rio ou secretaria que re\u00fana o conjunto. A coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica fica a cargo do centro de poder norte-americano, que frequentemente recorre a instrumentos indiretos de coordena\u00e7\u00e3o, como crit\u00e9rios de contrata\u00e7\u00e3o p\u00fablica de ferramentas de IA, a fim de <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2026\/03\/17\/technology\/anthropic-pentagon-national-security-risk.html\">induzir ou coibir comportamentos do setor privado<\/a> em \u00e1reas estrat\u00e9gicas, inclusive defesa e seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o \u00e9 decisiva para o Brasil. Estados que n\u00e3o s\u00e3o o ber\u00e7o de plataformas hegem\u00f4nicas, e n\u00e3o s\u00e3o o solo onde se <a href=\"https:\/\/www.cargoson.com\/en\/blog\/number-of-data-centers-by-country\">concentram a maior parte dos data centers<\/a> de que toda a economia digital depende, n\u00e3o podem se dar ao luxo de uma governan\u00e7a digital fragmentada. Para qualquer outro pa\u00eds, a via que leva \u00e0 soberania digital passa por maior centraliza\u00e7\u00e3o coordenativa. O Brasil ainda carece desse passo.<\/p>\n<p>Insistir em transitar na contram\u00e3o dessa tend\u00eancia, encarando as diferentes facetas da agenda digital como bifurca\u00e7\u00f5es excludentes entre si, sejam elas a prote\u00e7\u00e3o de direitos individuais ou o fomento e a regula\u00e7\u00e3o de infraestruturas computacionais, \u00e9 repetir o equ\u00edvoco que esvaziou tantas estrat\u00e9gias anteriores. Pastas centradas em telecomunica\u00e7\u00f5es, pesquisa b\u00e1sica ou fomento \u00e0 inova\u00e7\u00e3o tendem a priorizar programas voltados \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o de infraestrutura e promo\u00e7\u00e3o de bolsas e editais.<\/p>\n<p>De outro lado, o enfoque isolado na camada de interface dos servi\u00e7os digitais, em nome da garantia de direitos, desperdi\u00e7a poss\u00edveis sinergias que adviriam de uma atua\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria capaz de englobar camadas infraestruturais e preocupa\u00e7\u00f5es concorrenciais, em benef\u00edcio n\u00e3o apenas do usu\u00e1rio final, mas tamb\u00e9m do pr\u00f3prio ecossistema digital do qual ele participa. Essas s\u00e3o, sem d\u00favida, condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, mas est\u00e3o longe de serem suficientes.<\/p>\n<p>A crescente plataformiza\u00e7\u00e3o da vida social fez com que o debate digital deixasse de ser espa\u00e7o exclusivo de experts voltados apenas para seus pares, quer sejam desenvolvedores de c\u00f3digo, engenheiros, economistas ou juristas, profissionais da comunica\u00e7\u00e3o e pesquisadores.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o deve ser interdisciplinar, articulando uma s\u00e9rie de temas correlacionados, como direitos fundamentais, pol\u00edtica industrial, defesa do consumidor, integridade da informa\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica externa, seguran\u00e7a nacional, regula\u00e7\u00e3o infraestrutural e concorrencial, prote\u00e7\u00e3o ao meio ambiente e arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria. A arquitetura institucional brasileira precisa nascer dessa compreens\u00e3o ampliada, que \u00e9 sobretudo pol\u00edtica, voltada para os objetivos fundamentais tra\u00e7ados na Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, dois vetores podem orientar os rumos desse debate institucional. O primeiro deles \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um Minist\u00e9rio de Assuntos Digitais. A pasta integraria compet\u00eancias hoje dispersas entre Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o, Comunica\u00e7\u00f5es, Gest\u00e3o e Inova\u00e7\u00e3o, Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o Social, Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional e Desenvolvimento, Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio e Servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Essa concentra\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias proporcionaria as condi\u00e7\u00f5es para a efetiva coordena\u00e7\u00e3o e supervis\u00e3o dos diversos \u00f3rg\u00e3os e entes vinculados, como empresas estatais (Telebr\u00e1s, Dataprev, Serpro), atores de fomento (Finep, BNDES) e ag\u00eancias reguladoras (ANPD, Anatel e Ancine), cujas compet\u00eancias e capacidades institucionais precisam ser igualmente revisitadas e, eventualmente, fundidas.<\/p>\n<p>O segundo vetor corresponde \u00e0 institui\u00e7\u00e3o de um Conselho Nacional de Soberania Digital, vinculado \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e secretariado pelo ministro de Assuntos Digitais. Sua miss\u00e3o seria definir diretrizes estrat\u00e9gicas, aprovar programas estruturantes e garantir integra\u00e7\u00e3o entre a agenda digital e as pautas governamentais a cargo das demais pastas ministeriais.<\/p>\n<p>Nesses moldes, o conselho asseguraria que um programa de incentivo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de data centers de alta capacidade computacional fosse compat\u00edvel com plano de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica sustent\u00e1vel, ou que uma pol\u00edtica de exporta\u00e7\u00e3o de recursos miner\u00e1rios estrat\u00e9gicos levasse em considera\u00e7\u00e3o a necessidade de acesso a chips computacionais de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Esse n\u00e3o \u00e9 um percurso trivial, por\u00e9m. Concentra\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias em um ponto da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica implica a perda de atribui\u00e7\u00f5es e recursos or\u00e7ament\u00e1rios em outro lugar. Significa tamb\u00e9m a redu\u00e7\u00e3o de caixas no topo de organogramas e a melhor distribui\u00e7\u00e3o de equipes dedicadas a formular, implementar e fiscalizar pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>O per\u00edodo eleitoral que se abre \u00e9 a janela adequada para avivar o debate sobre a extens\u00e3o e a viabilidade da soberania digital que desejamos para o Brasil. Quando se discute soberania digital, o desenho da estrutura institucional n\u00e3o \u00e9 detalhe t\u00e9cnico. \u00c9 a forma que condiciona o sucesso da empreitada.<\/p>\n<p>Faz sentido, portanto, que partidos, candidaturas, parlamentares, comunidade cient\u00edfica, sindicatos, empresariado nacional e movimentos sociais ocupem o debate sobre a arquitetura institucional da soberania digital brasileira, tornando-o prioridade para o mandato presidencial que ter\u00e1 in\u00edcio em 2027.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos, a soberania digital ganhou proje\u00e7\u00e3o como uma bandeira capaz de arregimentar ambi\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas dentro de um cen\u00e1rio internacional cada vez mais relutante \u00e0 domin\u00e2ncia americana no ecossistema digital global. Infraestrutura digital, dados, semicondutores e intelig\u00eancia artificial j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o apenas vistos como insumos econ\u00f4micos. S\u00e3o instrumentos de poder. 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