{"id":23749,"date":"2026-06-16T06:15:12","date_gmt":"2026-06-16T09:15:12","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/16\/regular-sem-avaliar-o-vicio-de-origem-do-decreto-das-plataformas\/"},"modified":"2026-06-16T06:15:12","modified_gmt":"2026-06-16T09:15:12","slug":"regular-sem-avaliar-o-vicio-de-origem-do-decreto-das-plataformas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/16\/regular-sem-avaliar-o-vicio-de-origem-do-decreto-das-plataformas\/","title":{"rendered":"Regular sem avaliar: o v\u00edcio de origem do decreto das plataformas"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o se questiona que democracia e livre iniciativa, pelo menos desde a nomea\u00e7\u00e3o de Acemoglu e Robinson ao Pr\u00eamio Nobel de Economia, foram os grandes motores do desenvolvimento econ\u00f4mico do Ocidente no s\u00e9culo 20. Tamb\u00e9m n\u00e3o dever\u00edamos ter d\u00favidas quanto a esses princ\u00edpios fundantes em nossa Constitui\u00e7\u00e3o Federal (heterodoxias jur\u00eddicas a parte).<\/p>\n<p>Pois o Decreto 12.975, de 2026, que reescreveu a regulamenta\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/marco-civil-internet\">Marco Civil da Internet<\/a> para detalhar a responsabilidade das plataformas, tem sido discutido sobretudo por seus limites diante do poder regulamentar e da compet\u00eancia que confere \u00e0 Autoridade Nacional de Prote\u00e7\u00e3o de Dados (ANPD). S\u00e3o discuss\u00f5es pertinentes mais no campo democr\u00e1tico e da gest\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um v\u00edcio que as antecede e que considero o mais grave, porque viola \u00e0 livre iniciativa e diz respeito ao m\u00e9todo de produ\u00e7\u00e3o da norma: o decreto foi editado sem An\u00e1lise de Impacto Regulat\u00f3rio, uma garantia dos particulares contra abusos do poder p\u00fablico. Ora, tal Decreto disciplinou um dos mercados mais complexos da economia sem o estudo que a Lei das Ag\u00eancias Reguladoras, a Lei de Liberdade Econ\u00f4mica (art. 5\u00ba) e a LINDB (art. 20) tornaram obrigat\u00f3rio. A Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica eximiu-se (por raz\u00f5es desconhecidas) de pensar e avaliar antes de agir.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de formalismo. A AIR n\u00e3o \u00e9 um carimbo burocr\u00e1tico, e sim o instrumento pelo qual o Estado se obriga a demonstrar aos particulares, com evid\u00eancias, que a interven\u00e7\u00e3o escolhida \u00e9 necess\u00e1ria, proporcional e superior \u00e0s alternativas regulat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Sua aus\u00eancia n\u00e3o \u00e9 etapa san\u00e1vel depois: uma an\u00e1lise produzida a posteriori, para justificar decis\u00e3o j\u00e1 tomada, \u00e9 racionaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o an\u00e1lise <em>ex ante<\/em>. O sentido da AIR est\u00e1 em informar a escolha antes que ela se cristalize. Quando falta, o que se perde n\u00e3o \u00e9 uma formalidade, \u00e9 a racionalidade administrativa, econ\u00f4mica e jur\u00eddica da decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas os problemas n\u00e3o param por a\u00ed, infelizmente. A hip\u00f3tese mais inc\u00f4moda para o regulador \u00e9 justamente esta: se a AIR tivesse sido feita, provavelmente teria desaconselhado o desenho adotado pelo Poder Executivo federal. Vale percorrer o racioc\u00ednio que uma an\u00e1lise t\u00e9cnica e competente teria seguido, com o devido respeito \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Ela teria come\u00e7ado pelo cen\u00e1rio-base correto, e aqui o decreto das plataformas \u00e9 caso exemplar. O ponto de partida n\u00e3o \u00e9 o v\u00e1cuo regulat\u00f3rio, mas o regime que o pr\u00f3prio Supremo Tribunal Federal fixou em 2025, ao declarar parcialmente inconstitucional o art. 19 do Marco Civil e instituir, em seu lugar, um dever de cuidado e a responsabiliza\u00e7\u00e3o por falha sist\u00eamica.<\/p>\n<p>Esse regime, \u00e9 bom lembrar, foi expressamente transit\u00f3rio: a Corte reconheceu a omiss\u00e3o e recomendou que o Congresso legislasse. O benef\u00edcio marginal do decreto, portanto, n\u00e3o \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o que ele oferece, mas apenas o incremento sobre o que o STF j\u00e1 garantia (o que parece suficiente a um observador t\u00e9cnico, diga-se de passagem). Uma AIR teria sido obrigada a medir esse incremento, e a perguntar por que um regulamento, e n\u00e3o a lei recomendada pela Corte, deveria fix\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Teria, em seguida, modelado a estrutura de incentivos que o decreto cria. Ao combinar deveres de atua\u00e7\u00e3o proativa, prazos de remo\u00e7\u00e3o e risco sancionat\u00f3rio operado pela ANPD, a norma torna economicamente racional a remo\u00e7\u00e3o preventiva de conte\u00fado l\u00edcito. Todo sistema de modera\u00e7\u00e3o comete dois erros: remover o l\u00edcito e manter o il\u00edcito. O decreto onera pesadamente apenas o segundo, com san\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o atribui custo algum ao primeiro.<\/p>\n<p>A resposta previs\u00edvel do agente \u00e9 remover por precau\u00e7\u00e3o, porque o erro de remover \u00e9 gratuito e o de manter \u00e9 car\u00edssimo. Quando o regulador zera o pre\u00e7o de um dos erros, colhe o seu excesso. O desenho induz, por constru\u00e7\u00e3o, a sobre-remo\u00e7\u00e3o que depois se lamenta, sem que se tenha cogitado de mecanismos que precificassem o erro oposto, como o \u00f4nus probat\u00f3rio do denunciante ou o direito de contranotifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Teria, ainda, comparado alternativas, e \u00e9 onde a omiss\u00e3o mais pesa. O decreto adota a regula\u00e7\u00e3o por meios: prescreve a arquitetura t\u00e9cnica, a exemplo da guarda obrigat\u00f3ria da porta l\u00f3gica de origem associada ao IP. A alternativa, conhecida e menos onerosa, \u00e9 a regula\u00e7\u00e3o por desempenho, que fixa o resultado a alcan\u00e7ar e deixa ao agente a escolha de como atingi-lo.<\/p>\n<p>A regula\u00e7\u00e3o por meios tem um defeito estrutural: congela o estado da t\u00e9cnica no momento da edi\u00e7\u00e3o e envelhece mais r\u00e1pido que a tecnologia que pretende disciplinar, num setor em que a inova\u00e7\u00e3o se move em meses. Outra alternativa ignorada \u00e9 a modula\u00e7\u00e3o por porte e risco, que reserva as obriga\u00e7\u00f5es mais pesadas \u00e0s plataformas de maior alcance, como faz o Digital Services Act europeu (n\u00e3o necessariamente o melhor modelo regulat\u00f3rio no direito comparado) ao distinguir as plataformas com mais de 45 milh\u00f5es de usu\u00e1rios das demais. Nenhuma dessas op\u00e7\u00f5es foi considerada, porque n\u00e3o houve o documento em que se as consideraria (h\u00e1 apenas vaga delega\u00e7\u00e3o desse tema \u00e0 ANPD).<\/p>\n<p>Ora, o custo dessa escolha n\u00e3o \u00e9 abstrato. Obriga\u00e7\u00f5es de conformidade s\u00e3o, em larga medida, custos fixos e de transa\u00e7\u00e3o: equipe permanente, sistemas de detec\u00e7\u00e3o e resposta, representante legal, infraestrutura de reten\u00e7\u00e3o de dados. Custos fixos n\u00e3o escalam com o tamanho da empresa, e por isso oneram proporcionalmente muito mais o pequeno do que o grande.<\/p>\n<p>Uma regula\u00e7\u00e3o uniforme, anunciada como freio \u00e0s grandes plataformas, tende a produzir o efeito inverso: eleva a barreira de entrada e protege as incumbentes da concorr\u00eancia marginal. \u00c9 o paradoxo conhecido desde Stigler, o de que a regula\u00e7\u00e3o pesada costuma ser, no fim, um bem demandado pelos pr\u00f3prios regulados de maior porte. A concentra\u00e7\u00e3o do mercado, que a norma deveria evitar, pode ser o seu resultado.<\/p>\n<p>H\u00e1, por fim, a quest\u00e3o institucional. O decreto entrega \u00e0 ANPD, rec\u00e9m-convertida em ag\u00eancia reguladora e j\u00e1 encarregada da prote\u00e7\u00e3o de dados e do ECA Digital, uma terceira e ampla frente de regula\u00e7\u00e3o sist\u00eamica das plataformas. Atribuir compet\u00eancia \u00e9 decis\u00e3o que tem custo e exige capacidade.<\/p>\n<p>Uma AIR teria perguntado se a ANPD disp\u00f5e de estrutura e quadro t\u00e9cnico para a nova miss\u00e3o, ou se a sobrecarga comprometer\u00e1 as tr\u00eas. A pergunta n\u00e3o foi feita, porque o instrumento que a faria n\u00e3o foi produzido.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Nada disso significa que as plataformas n\u00e3o devam ser reguladas. Devem, e o pr\u00f3prio STF disse que devem. O problema n\u00e3o est\u00e1 no fim, mas no meio, escolhido sem o estudo que permitiria saber se era o melhor meio. A AIR n\u00e3o diria n\u00e3o regule. Diria regule diferente, e talvez regule por lei, como a Corte pediu. \u00c9 precisamente porque n\u00e3o foi feita que hoje n\u00e3o se pode afirmar que o desenho adotado \u00e9 o adequado, nem o regulador tem como prov\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Uma norma administrativa que se dispensou de demonstrar a pr\u00f3pria racionalidade n\u00e3o re\u00fane as condi\u00e7\u00f5es de legitimidade que o ordenamento passou a exigir. Por isso n\u00e3o pode persistir como est\u00e1: n\u00e3o pelo que decidiu, mas por n\u00e3o ter pensado e justificado democraticamente sua escolha regulat\u00f3ria antes de decidir intervir no mercado.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o se questiona que democracia e livre iniciativa, pelo menos desde a nomea\u00e7\u00e3o de Acemoglu e Robinson ao Pr\u00eamio Nobel de Economia, foram os grandes motores do desenvolvimento econ\u00f4mico do Ocidente no s\u00e9culo 20. Tamb\u00e9m n\u00e3o dever\u00edamos ter d\u00favidas quanto a esses princ\u00edpios fundantes em nossa Constitui\u00e7\u00e3o Federal (heterodoxias jur\u00eddicas a parte). Pois o Decreto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23749"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23749"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23749\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}