{"id":23532,"date":"2026-06-08T05:58:15","date_gmt":"2026-06-08T08:58:15","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/08\/pec-65-o-falso-impasse-entre-banco-central-e-tesouro-nacional\/"},"modified":"2026-06-08T05:58:15","modified_gmt":"2026-06-08T08:58:15","slug":"pec-65-o-falso-impasse-entre-banco-central-e-tesouro-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/08\/pec-65-o-falso-impasse-entre-banco-central-e-tesouro-nacional\/","title":{"rendered":"PEC 65: o falso impasse entre Banco Central e Tesouro Nacional"},"content":{"rendered":"<p>A resist\u00eancia atual do governo \u00e0 <a href=\"https:\/\/www25.senado.leg.br\/web\/atividade\/materias\/-\/materia\/161269\">PEC 65\/2023<\/a> passou a se concentrar em um<br \/>\nargumento espec\u00edfico: a rela\u00e7\u00e3o entre <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/banco-central\">Banco Central<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/tesouro-nacional\">Tesouro Nacional<\/a>.<br \/>\nA preocupa\u00e7\u00e3o, externada por integrantes da equipe econ\u00f4mica, \u00e9 que a<br \/>\nreorganiza\u00e7\u00e3o institucional proposta pela PEC gere altera\u00e7\u00f5es no conceito da<br \/>\nd\u00edvida bruta do governo geral (DBGG) e na classifica\u00e7\u00e3o dos fluxos entre as<br \/>\nduas institui\u00e7\u00f5es, criando eventual ru\u00eddo fiscal em um momento politicamente<br \/>\nsens\u00edvel.<\/p>\n<p>A obje\u00e7\u00e3o merece an\u00e1lise t\u00e9cnica cuidadosa. Mas o ponto central \u00e9 que a<br \/>\nquest\u00e3o est\u00e1 essencialmente resolvida no atual texto da PEC. A obje\u00e7\u00e3o torna-<br \/>\nse, assim, menos um problema jur\u00eddico ou econ\u00f4mico e mais uma narrativa<br \/>\npol\u00edtica sobre a forma de apresentar os impactos da mudan\u00e7a institucional na<br \/>\nmetodologia estat\u00edstica.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>A PEC 65 n\u00e3o cria um BC \u201cfora do Estado\u201d, nem estabelece qualquer<br \/>\nruptura fiscal. O relat\u00f3rio divulgado pelo senador Pl\u00ednio Val\u00e9rio (PSDB-AM) em 20 de maio enquadra o BC como entidade p\u00fablica de natureza especial, integrante do setor p\u00fablico financeiro, com regime jur\u00eddico pr\u00f3prio de autoridade monet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Essa defini\u00e7\u00e3o \u00e9 relevante porque aproxima o tratamento institucional brasileiro da<br \/>\naplicabilidade dos padr\u00f5es internacionais utilizados pelo Fundo Monet\u00e1rio<br \/>\nInternacional (FMI) em seus manuais de estat\u00edsticas fiscais.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a fundamental diz respeito \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o do BC nas estat\u00edsticas<br \/>\nfiscais. Como no mundo inteiro o padr\u00e3o \u00e9 que os bancos centrais sejam<br \/>\naut\u00f4nomos dos governos centrais em termos or\u00e7ament\u00e1rios e financeiros,<br \/>\ntodos os manuais internacionais de todos os dom\u00ednios estat\u00edsticos (contas<br \/>\nnacionais, balan\u00e7o de pagamentos, monet\u00e1rias e fiscais) classificam os bancos<br \/>\ncentrais como entidades integrantes do setor p\u00fablico financeiro.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 depend\u00eancia do BC do or\u00e7amento e dos repasses do Tesouro Nacional, as estat\u00edsticas fiscais brasileiras classificam o BC como integrante do governo<br \/>\ncentral. Essa discrep\u00e2ncia do padr\u00e3o estat\u00edstico internacional j\u00e1 gerou<br \/>\nrecomenda\u00e7\u00e3o de miss\u00e3o de assist\u00eancia t\u00e9cnica do FMI e de equipe t\u00e9cnica do<br \/>\nTCU. Um dos efeitos da PEC da autonomia administrativa, or\u00e7ament\u00e1ria e<br \/>\nfinanceira do BC \u00e9 permitir o alinhamento das estat\u00edsticas fiscais brasileiras ao<br \/>\npadr\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Especificamente sobre a DBGG, o Banco Central j\u00e1 divulga atualmente essa<br \/>\nestat\u00edstica em dois conceitos. O primeiro \u00e9 o conceito nacional da DBGG, que<br \/>\ndecorre da classifica\u00e7\u00e3o estat\u00edstica pr\u00f3pria do banco central brasileiro. O segundo \u00e9 o conceito utilizado internacionalmente, que inclui os t\u00edtulos livres do Tesouro Nacional na carteira do BC. O Relat\u00f3rio de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria de mar\u00e7o de 2025 esclareceu que essa diferen\u00e7a representou aproximadamente 10,7 pontos percentuais do PIB em 2024.<\/p>\n<p>Ou seja: o mencionado \u201caumento da DBGG\u201d n\u00e3o decorre da cria\u00e7\u00e3o de<br \/>\nnenhuma nova d\u00edvida, nem de expans\u00e3o de passivos p\u00fablicos. Trata-se apenas<br \/>\nde mudan\u00e7a de conceitos estat\u00edsticos sobre passivos j\u00e1 existentes e j\u00e1<br \/>\namplamente divulgados pelo pr\u00f3prio BC.<\/p>\n<p>As opera\u00e7\u00f5es compromissadas, por exemplo, j\u00e1 integram normalmente o<br \/>\nconceito nacional da DBGG porque representam obriga\u00e7\u00e3o efetiva do setor<br \/>\np\u00fablico com o mercado. O que muda com o enquadramento do BC no setor<br \/>\np\u00fablico financeiro \u00e9 o tratamento dos t\u00edtulos livres em carteira, e n\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\necon\u00f4mica do Estado brasileiro.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 compreens\u00edvel. Em ambiente eleitoral, um hipot\u00e9tico<br \/>\naumento da DBGG poderia ser explorado como \u201cdeteriora\u00e7\u00e3o fiscal\u201d, ainda que<br \/>\nsem qualquer altera\u00e7\u00e3o material na solv\u00eancia p\u00fablica ou na necessidade de<br \/>\nfinanciamento do governo. Ressalte-se, novamente, que n\u00e3o h\u00e1 qualquer \u201caumento da DBGG\u201d, mas altern\u00e2ncia de conceitos, ambos j\u00e1 atualmente divulgados em conjunto e que continuar\u00e3o assim. Ou seja, isso n\u00e3o transforma a PEC em problema fiscal.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio. O pr\u00f3prio Manual de Estat\u00edsticas Fiscais do Banco Central<br \/>\ninforma que, pelos padr\u00f5es internacionais, bancos centrais devem ser<br \/>\nclassificados no setor p\u00fablico financeiro, como abordado acima. O arranjo<br \/>\nbrasileiro atual decorre de caracter\u00edsticas hist\u00f3ricas e institucionais espec\u00edficas,<br \/>\nespecialmente a depend\u00eancia or\u00e7ament\u00e1ria do BC em rela\u00e7\u00e3o ao or\u00e7amento<br \/>\nfiscal e o regime de repasses de or\u00e7amento do Tesouro Nacional.<\/p>\n<p>A PEC 65 reorganiza exatamente esse ponto. O BC passa a operar com<br \/>\nor\u00e7amento pr\u00f3prio, receitas pr\u00f3prias e regime or\u00e7ament\u00e1rio compat\u00edvel com a<br \/>\nnatureza de suas fun\u00e7\u00f5es. Isso n\u00e3o significa aus\u00eancia de controle p\u00fablico. O<br \/>\ntexto preserva governan\u00e7a institucional, presta\u00e7\u00e3o de contas, fiscaliza\u00e7\u00e3o pelo<br \/>\nTCU e aprecia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de despesas administrativas relevantes.<\/p>\n<p>O segundo ponto de obje\u00e7\u00e3o da equipe econ\u00f4mica seria a classifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nestat\u00edstica dos fluxos entre o BC e o Tesouro Nacional. Trata-se, no caso, de<br \/>\nfluxos determinados pela Lei 13.820\/2019, que ser\u00e1 explicitamente<br \/>\nrecepcionada pela PEC. Atualmente, esses fluxos financeiros se anulam no<br \/>\nresultado fiscal do governo central, pois a uma receita (despesa) do BC<br \/>\ncorresponde uma despesa (receita) do governo federal.<\/p>\n<p>Com a reclassifica\u00e7\u00e3o estat\u00edstica do BC para o setor p\u00fablico financeiro, esses fluxos passar\u00e3o a se dar entre esferas distintas do setor p\u00fablico. Adicionalmente, a autonomia or\u00e7ament\u00e1ria e financeira do BC implica, nas estat\u00edsticas fiscais, que suas transfer\u00eancias de resultados positivos ao Tesouro Nacional sejam assimiladas a dividendos (receitas prim\u00e1rias), enquanto a cobertura de preju\u00edzos pelo Tesouro Nacional seja considerada capitaliza\u00e7\u00e3o (despesas prim\u00e1rias). Nas diversas rodadas de interlocu\u00e7\u00e3o entre BC, governo e Senado em torno da PEC nos \u00faltimos anos, esses pontos foram sendo incorporados ao texto, que contempla robustas vacinas contra \u201cru\u00eddos fiscais\u201d.<\/p>\n<p>Em termos da mencionada volatilidade do resultado fiscal, o inciso I do \u00a7 7\u00ba do<br \/>\nart. 164 da PEC, nos termos do \u00faltimo relat\u00f3rio legislativo, responde<br \/>\npreventivamente \u00e0 essa principal cr\u00edtica fiscal. O dispositivo prev\u00ea constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\nde reserva de resultado destinada \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio institucional e \u00e0<br \/>\ncobertura de perdas e conting\u00eancias, justamente para minimizar ao m\u00e1ximo futuras necessidades de cobertura de resultado pelo Tesouro Nacional,<br \/>\ndecorrente da volatilidade inerente ao balan\u00e7o de uma autoridade monet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esse ponto \u00e9 central. O BC opera reservas internacionais, pol\u00edtica monet\u00e1ria e<br \/>\ninstrumentos de liquidez sujeitos a oscila\u00e7\u00f5es cambiais e financeiras. O regime<br \/>\nproposto permite absor\u00e7\u00e3o dessas varia\u00e7\u00f5es dentro da pr\u00f3pria din\u00e2mica<br \/>\npatrimonial da autoridade monet\u00e1ria, sem necessidade de transfer\u00eancia<br \/>\nimediata ao Tesouro ou de recomposi\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica pela Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o inciso II do referido par\u00e1grafo explicita que esses fluxos entre o<br \/>\nBC e o Tesouro Nacional n\u00e3o ser\u00e3o contabilizados nas metas fiscais para<br \/>\nreceitas, despesas ou resultado.<\/p>\n<p>Ou seja, a esses fluxos ser\u00e1 dado o mesmo tratamento atualmente existente aos cr\u00e9ditos extraordin\u00e1rios e outras exce\u00e7\u00f5es, cujos impactos s\u00e3o devidamente incorporados \u00e0s estat\u00edsticas fiscais, mas n\u00e3o sensibilizam a apura\u00e7\u00e3o das metas. Neste caso, o dispositivo da PEC possibilita a comparabilidade da apura\u00e7\u00e3o das metas fiscais ao longo do tempo, apenas da mudan\u00e7a da metodologia estat\u00edstica.<\/p>\n<p>Igualmente visando a comparabilidade intertemporal, o art. 7\u00ba prev\u00ea que as<br \/>\naltera\u00e7\u00f5es decorrentes da PEC n\u00e3o alterar\u00e3o a base de c\u00e1lculo do limite de<br \/>\ndespesa prim\u00e1rio previsto no atual regime fiscal.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, o par\u00e1grafo \u00fanico do art. 6\u00ba determina que as estat\u00edsticas<br \/>\nfiscais do BC, utilizadas para a apura\u00e7\u00e3o das metas fiscais, especifiquem<br \/>\nexplicitamente a parcela do resultado e de sua varia\u00e7\u00e3o que decorrem dos<br \/>\najustes metodol\u00f3gicos das estat\u00edsticas fiscais causados pela PEC.<\/p>\n<p>O debate p\u00fablico frequentemente trata a autonomia financeira do BC como<br \/>\ninova\u00e7\u00e3o radical. Mas a proposta tem forte componente de compatibiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nhist\u00f3rica. Antes da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, o Banco Central j\u00e1 operava com<br \/>\nreceitas pr\u00f3prias, or\u00e7amento pr\u00f3prio e rito or\u00e7ament\u00e1rio espec\u00edfico vinculado \u00e0<br \/>\nautoridade monet\u00e1ria. A PEC 65 n\u00e3o inventa qualquer \u201cprivil\u00e9gio\u201d. Ela adapta<br \/>\nao atual ambiente constitucional uma l\u00f3gica funcional historicamente associada<br \/>\n\u00e0 atividade de banco central.<\/p>\n<p>O verdadeiro problema \u00e9 o modelo atual com sua incoer\u00eancia institucional. O<br \/>\nBC administra ativos financeiros relevantes, opera pol\u00edtica monet\u00e1ria, mant\u00e9m<br \/>\ninfraestruturas cr\u00edticas como o Pix e o Sistema de Pagamentos Brasileiro,<br \/>\nsupervisiona um sistema financeiro altamente complexo e atua em epis\u00f3dios<br \/>\nde estresse sist\u00eamico, mas permanece submetido a um regime or\u00e7ament\u00e1rio<br \/>\nconcebido para \u00f3rg\u00e3os administrativos n\u00e3o financeiros.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A fala recente do presidente Gabriel Gal\u00edpolo na Comiss\u00e3o de Assuntos Econ\u00f4micos do Senado tornou isso expl\u00edcito. Ao pedir \u201cpelo amor de Deus\u201d a<br \/>\naprova\u00e7\u00e3o da autonomia do BC, Gal\u00edpolo n\u00e3o defendeu soberania institucional<br \/>\nnem aus\u00eancia de controle democr\u00e1tico. Defendeu meios m\u00ednimos para que a<br \/>\nautoridade monet\u00e1ria consiga cumprir suas fun\u00e7\u00f5es em um sistema financeiro<br \/>\ncada vez mais complexo, digitalizado e exposto a riscos cibern\u00e9ticos,<br \/>\noperacionais e prudenciais.<\/p>\n<p>Se ainda existe real obje\u00e7\u00e3o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre BC e Tesouro Nacional, e n\u00e3o<br \/>\nmero novo pretexto para impedir um necess\u00e1rio aprimoramento institucional,<br \/>\nela precisa ser explicitada tecnicamente. A PEC j\u00e1 disciplina reservas de<br \/>\nresultado, relacionamento financeiro com a Uni\u00e3o, estat\u00edsticas oficiais e<br \/>\nnatureza n\u00e3o fiscal do or\u00e7amento da autoridade monet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a discuss\u00e3o remanescente parece menos jur\u00eddica ou<br \/>\necon\u00f4mica e mais pol\u00edtica. E talvez seja justamente esse o ponto que o debate<br \/>\np\u00fablico precise finalmente reconhecer.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A resist\u00eancia atual do governo \u00e0 PEC 65\/2023 passou a se concentrar em um argumento espec\u00edfico: a rela\u00e7\u00e3o entre Banco Central e Tesouro Nacional. 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