{"id":23422,"date":"2026-06-02T08:22:13","date_gmt":"2026-06-02T11:22:13","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/02\/um-olhar-feminista-para-a-advocacia-onde-estamos-e-para-onde-vamos\/"},"modified":"2026-06-02T08:22:13","modified_gmt":"2026-06-02T11:22:13","slug":"um-olhar-feminista-para-a-advocacia-onde-estamos-e-para-onde-vamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/02\/um-olhar-feminista-para-a-advocacia-onde-estamos-e-para-onde-vamos\/","title":{"rendered":"Um olhar feminista para a advocacia: onde estamos e para onde vamos?"},"content":{"rendered":"<p><span>Eis uma breve reflex\u00e3o sobre um tema t\u00e3o falado ultimamente, mas longe de estar esgotado: a desigualdade de g\u00eanero na advocacia, incluindo a quest\u00e3o da ra\u00e7a. Na qualidade de mulher e advogada, trata-se de um assunto extremamente caro a mim e, tamb\u00e9m, ao Direito, \u00e1rea que deve (ou deveria) ser o pilar da defesa dos cidad\u00e3os, da equidade e da Justi\u00e7a. O simples fato de o assunto ainda ser alvo de apaixonados debates j\u00e1 mostra que a verdadeira igualdade entre homens e mulheres ainda n\u00e3o foi alcan\u00e7ada, da\u00ed a necessidade de n\u00e3o deixar a discuss\u00e3o esmorecer. A perspectiva feminista no Direito e na advocacia n\u00e3o interessa somente \u00e0s mulheres. A demanda toca a todos, inclusive homens, notadamente os que nutrem a esperan\u00e7a de ver uma sociedade totalmente emancipada e justa.<\/span><\/p>\n<p><span>A desigualdade de g\u00eanero na advocacia n\u00e3o \u00e9, definitivamente, por causa da quantidade de mulheres exercendo esse elevado minist\u00e9rio. A maior parte da advocacia \u00e9 exercida por mulheres. Isso \u00e9 um exemplo positivo da advocacia em compara\u00e7\u00e3o com outras \u00e1reas, principalmente se lembrarmos que h\u00e1 pouco mais de cem anos a presen\u00e7a de mulheres advogadas era uma exce\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Contudo, \u201cquantidade\u201d n\u00e3o assegura, por si s\u00f3, \u201cigualdade\u201d, especialmente quando analisamos os sal\u00e1rios e a presen\u00e7a das mulheres em espa\u00e7os efetivos de poder. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/ibge\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">IBGE<\/a>) mostram que a desigualdade salarial entre homens e mulheres se repete em todos os n\u00edveis de escolaridade. Na m\u00e9dia geral, os homens recebem R$ 3.115, enquanto as mulheres ganham R$ 2.506, uma diferen\u00e7a pr\u00f3xima de 20%. O cen\u00e1rio \u00e9 ainda mais acentuado entre profissionais com ensino superior completo: os homens t\u00eam rendimento m\u00e9dio de R$ 7.347, contra R$ 4.591 das mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span>No meio jur\u00eddico, a disparidade tamb\u00e9m aparece de forma evidente. Levantamento da <\/span><span>Ordem dos Advogados do Brasil (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/oab\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">OAB<\/a>)<\/span> <span>Nacional em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV) aponta que 41% das advogadas recebem at\u00e9 dois sal\u00e1rios-m\u00ednimos, enquanto entre os homens esse percentual \u00e9 de 27%. J\u00e1 nas faixas mais altas de renda, a diferen\u00e7a se inverte: apenas 3% das mulheres declararam rendimento acima de 20 sal\u00e1rios-m\u00ednimos, contra 8% dos homens. Os dados evidenciam que, tamb\u00e9m na advocacia, a desigualdade salarial entre homens e mulheres ainda \u00e9 uma realidade que precisa ser enfrentada.<\/span><\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/a><\/p>\n<p><span>E, sendo a advocacia um reflexo do pa\u00eds como um todo, a disparidade se agrava quando se trata da advogada preta ou parda. Ainda, se voltarmos o olhar para o alto escal\u00e3o do meio advocat\u00edcio, o fosso que separa homens e mulheres fica ainda mais evidente, pois menos de um ter\u00e7o desses cargos \u00e9 ocupado por mulheres. Isso revela tamb\u00e9m que o poder efetivo conferido \u00e0s mulheres na advocacia permanece bastante aqu\u00e9m de uma situa\u00e7\u00e3o de igualdade real. Basta constatarmos que nunca uma mulher presidiu \u2013 de maneira efetiva \u2013 o Conselho Federal da OAB. E mesmo que possamos comemorar grandes avan\u00e7os nos \u00faltimos anos, ainda \u00e9 de se lamentar que a dist\u00e2ncia entre homens e mulheres seja t\u00e3o grande!<\/span><\/p>\n<p><span>Os dados oficiais confirmam aquilo que a mera observa\u00e7\u00e3o fora da bolha sugere: o poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico, dentro da advocacia, continua nas m\u00e3os dos advogados homens. Essa n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica maldosa ou que pretenda desmerecer os relevantes trabalhos prestados por grandes advogados do sexo masculino. \u00c9 apenas uma constata\u00e7\u00e3o da realidade material que vivemos, demonstrando que h\u00e1 muito o que avan\u00e7ar em termos de isonomia e ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os de poder entre homens e mulheres, na advocacia.<\/span><\/p>\n<p><span>No s\u00e9culo XVIII Mary Wollstonecraft apresentou ao mundo uma das mais significativas reivindica\u00e7\u00f5es feministas da hist\u00f3ria, ao contestar v\u00e1rios pensadores de sua \u00e9poca, por ignorarem a igualdade \u00e0s mulheres. Dizia ela: \u201ceu n\u00e3o desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens: mas sobre si mesmas\u201d (WOLLSTONECRAFT, 2015. p.124). Tamb\u00e9m a te\u00f3rica feminista, Simone de Beauvoir, questionava o papel da mulher no mercado de trabalho e a opress\u00e3o feminina numa sociedade dominada pelo homem, ao afirmar que \u201c\u00e9 pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a dist\u00e2ncia que a separava do homem, somente o trabalho poder\u00e1 garantir-lhe uma independ\u00eancia concreta\u201d (BEAUVOIR, 1968. p.14).<\/span><\/p>\n<p><span>Por outro lado, a pauta sobre desigualdade de g\u00eanero n\u00e3o pode ignorar o aspecto da ra\u00e7a, conforme suscitado por grandes nomes do movimento, tal qual L\u00e9lia Gonzalez, que defende a luta contra o racismo estrutural, a desigualdade de g\u00eanero vinculada \u00e0 ra\u00e7a e o conceito de democracia racial, para quem: \u201cquanto mais clarinho voc\u00ea for, mais pr\u00f3ximo est\u00e1 do poder\u201d. Quando aprofundamos a an\u00e1lise da desigualdade social e econ\u00f4mica de g\u00eanero e adicionamos a\u00ed a ra\u00e7a, vemos as dificuldades hist\u00f3ricas na garantia e dignidade que n\u00f3s, enquanto sociedade, dever\u00edamos aplicar \u00e0s mulheres, principalmente \u00e0s pretas e pardas.<\/span><\/p>\n<p><span>Oportuna a advert\u00eancia de Fraser que se aplica a todos n\u00f3s, para que transformemos o \u201cfeminismo do fa\u00e7a acontecer\u201d no do \u201cimpe\u00e7a de acontecer\u201d (FRASER, et al. 2019. p.39), pois certamente quero deixar para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, incluindo minhas filhas, um sistema mais inclusivo, em que prevale\u00e7a igualdade real, sem discrimina\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a ou g\u00eanero.<\/span><\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/inteligencia.jota.info\/estudio-jota?utm_source=framer&amp;utm_medium=site&amp;utm_campai%5B%E2%80%A6%5Dlp_estudio_jota&amp;utm_content=header_topo_home_estudio_jota&amp;_gl=1*1f6aowa*_gcl_au*OTQ2MzI4NjQ2LjE3Njc2MjM1ODUuMTI1NTMxNzQ2OS4xNzY3NjIzNjc4LjE3Njc2MjM5OTQ.*_ga*OTUxMDk5NDEyLjE3MjgzMjI4Mzk.*_ga_L4XEVW3ZK0*czE3NjgyNTMzNTYkbzkyNSRnMSR0MTc2ODI1MzQwMSRqMTUkbDAkaDM3OTczNzUyMSRkS25xcDVkbHZtN1AzMWRyTHBZWXgydmRyM3BHd1gxWFFpZw..\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conhe\u00e7a o Est\u00fadio <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e as solu\u00e7\u00f5es para fortalecer a presen\u00e7a de marcas nos debates p\u00fablicos<\/a><\/p>\n<p><span>Espero que, nos breves tra\u00e7os desse texto que ofere\u00e7o, fique o convite para que todos reflitam sobre mudan\u00e7as, pois nada acontecer\u00e1 se nos mantivermos inertes ante a realidade vivida pela maioria das mulheres brancas e, de forma muito mais dram\u00e1tica, das mulheres negras. O quadro atual pede que mudan\u00e7as sejam propostas por todos aqueles que n\u00e3o se conformam e que desejam avan\u00e7o social e o aperfei\u00e7oamento do regime pol\u00edtico e econ\u00f4mico. \u00c9 necess\u00e1rio ter coragem para quebrar barreiras e se comprometer com o justo.<\/span><\/p>\n<p><span>Ofere\u00e7o, como tributo final, uma cita\u00e7\u00e3o da escritora e ativista Susan B. Anthony, a todos que se engajam nesse ativismo e que se encaixa na atualidade na qual muitas jovens pensam que todos os privil\u00e9gios que as mulheres possuem sempre foram delas: \u201cEles n\u00e3o fazem ideia de como cada cent\u00edmetro do espa\u00e7o que ela ocupa hoje foi conquistado pelo \u00e1rduo trabalho de um pequeno grupo de mulheres do passado.\u201d?<\/span><\/p>\n<p><span>A luta \u2013 na advocacia e na sociedade \u2013 continua.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eis uma breve reflex\u00e3o sobre um tema t\u00e3o falado ultimamente, mas longe de estar esgotado: a desigualdade de g\u00eanero na advocacia, incluindo a quest\u00e3o da ra\u00e7a. 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