{"id":23383,"date":"2026-06-01T06:27:34","date_gmt":"2026-06-01T09:27:34","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/01\/o-equivoco-de-a-politica-energetica-ser-comandada-pela-oferta\/"},"modified":"2026-06-01T06:27:34","modified_gmt":"2026-06-01T09:27:34","slug":"o-equivoco-de-a-politica-energetica-ser-comandada-pela-oferta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/06\/01\/o-equivoco-de-a-politica-energetica-ser-comandada-pela-oferta\/","title":{"rendered":"O equ\u00edvoco de a pol\u00edtica energ\u00e9tica ser comandada pela oferta"},"content":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, consolidou-se a ideia de que o mundo vive uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d. A express\u00e3o sugere substitui\u00e7\u00e3o estrutural: uma fonte dominante seria abandonada e trocada por outra. A hist\u00f3ria recente mostra algo diferente.<\/p>\n<p>O que ocorreu foi expans\u00e3o cumulativa e diversifica\u00e7\u00e3o. A demanda global por energia cresceu de forma persistente, impulsionada por urbaniza\u00e7\u00e3o, industrializa\u00e7\u00e3o, aumento da renda e, mais recentemente, digitaliza\u00e7\u00e3o intensiva da economia. Diante disso, a oferta \u2014 f\u00f3ssil e n\u00e3o f\u00f3ssil \u2014 simplesmente se expandiu para atender a essa press\u00e3o estrutural.<\/p>\n<p><strong>Figura 1: Evolu\u00e7\u00e3o do consumo global de energia por fonte desde meados do s\u00e9culo 20<\/strong><\/p>\n<p>Observa-se o consumo dos combust\u00edveis f\u00f3sseis (petr\u00f3leo, carv\u00e3o e g\u00e1s) se afastando, a cada ano, do das demais fontes<\/p>\n<p>De fato, houve diversifica\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Desde antes dos anos 1950, todas as fontes relevantes cresceram em termos absolutos. O carv\u00e3o n\u00e3o desapareceu com o petr\u00f3leo. O petr\u00f3leo n\u00e3o foi suprimido pelo g\u00e1s. O avan\u00e7o das renov\u00e1veis tampouco eliminou os f\u00f3sseis. E o sistema energ\u00e9tico global se ampliou como um todo.<\/p>\n<p>Esse padr\u00e3o revela um erro recorrente na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas: concentrar o debate na oferta e ignorar a vari\u00e1vel central que move o sistema \u2014 a demanda. Enquanto se discute quais fontes restringir ou incentivar, a demanda continua avan\u00e7ando, impulsionada por infraestrutura, transporte, saneamento, refrigera\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia artificial. Se a demanda cresce, a oferta se reorganiza. N\u00e3o h\u00e1 atalhos para essa realidade f\u00edsica.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Para compreender essa din\u00e2mica, \u00e9 \u00fatil recorrer \u00e0 Curva de Kuznets. Nos anos 1950, Simon Kuznets mostrou que o crescimento n\u00e3o produz efeitos lineares. Nos est\u00e1gios iniciais, a desigualdade aumenta; apenas depois de amadurecimento institucional come\u00e7a a diminuir. O crescimento primeiro cria tens\u00e3o, depois gera mecanismos de corre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica aparece tamb\u00e9m na chamada \u201cCurva de Kuznets do Cora\u00e7\u00e3o\u201d, em trabalho que publicamos<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Figura 2: Rela\u00e7\u00e3o entre PIB per capita e press\u00e3o sangu\u00ednea sist\u00f3lica m\u00e9dia (1980\u20132008) para pa\u00edses selecionados<\/strong><\/p>\n<p>Economias emergentes apresentam din\u00e2mica distinta das economias de alta renda<\/p>\n<p>Em pa\u00edses de baixa renda, o aumento do PIB esteve associado \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o da press\u00e3o arterial m\u00e9dia. Mudan\u00e7as r\u00e1pidas no padr\u00e3o de consumo ocorreram antes da consolida\u00e7\u00e3o de sistemas de sa\u00fade e preven\u00e7\u00e3o. J\u00e1 em economias de alta renda, a rela\u00e7\u00e3o se inverteu: crescimento passou a vir acompanhado de melhor governan\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o e infraestrutura, reduzindo riscos.<\/p>\n<p>O ponto central \u00e9 estrutural: desenvolvimento reorganiza o metabolismo social antes de produzir equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>O mesmo pode ocorrer com a energia. Afinal, h\u00e1 forte correla\u00e7\u00e3o entre PIB e consumo energ\u00e9tico. Nos est\u00e1gios iniciais, pa\u00edses constroem estradas, portos, redes el\u00e9tricas e ind\u00fastrias pesadas. O crescimento exige insumos f\u00edsicos. Essa \u00e9 a fase ascendente da curva energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>A vari\u00e1vel capaz de reorganizar essa trajet\u00f3ria \u00e9 a intensidade energ\u00e9tica \u2014 a quantidade de energia necess\u00e1ria para gerar uma unidade de PIB. Economias com alta intensidade consomem muito para produzir riqueza; economias mais eficientes geram mais valor com menos energia relativa. Pa\u00edses maduros reduziram essa intensidade nas \u00faltimas d\u00e9cadas; economias em industrializa\u00e7\u00e3o ainda operam com n\u00edveis mais elevados.<\/p>\n<p>Mesmo quando a intensidade cai, o consumo absoluto pode continuar subindo se o PIB crescer mais r\u00e1pido. \u00c9 o que ocorre globalmente. Por isso, a ideia simplificada de \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o descreve adequadamente a realidade. O mundo n\u00e3o substituiu fontes; acumulou-as para sustentar uma demanda crescente.<\/p>\n<p>Se as pol\u00edticas p\u00fablicas continuarem focadas predominantemente na oferta, o resultado ser\u00e1 tens\u00e3o entre crescimento e restri\u00e7\u00e3o. Pa\u00edses na fase ascendente n\u00e3o podem reduzir consumo absoluto sem comprometer desenvolvimento. O caminho n\u00e3o \u00e9 negar crescimento, mas antecipar efici\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Moderniza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, redu\u00e7\u00e3o de perdas, planejamento urbano racional e investimento em ci\u00eancia permitem reduzir intensidade energ\u00e9tica. Energia firme e previs\u00edvel \u00e9 elemento estrat\u00e9gico nesse processo.<\/p>\n<p>O desafio do s\u00e9culo 21 n\u00e3o \u00e9 interromper o desenvolvimento, mas organiz\u00e1-lo. N\u00e3o se constr\u00f3i prosperidade restringindo energia, mas tornando-a mais produtiva. Pa\u00edses que entendem isso ampliam sua autonomia; os que ignoram permanecem vulner\u00e1veis. Energia n\u00e3o \u00e9 apenas insumo \u2014 \u00e9 poder estrutural. Estrat\u00e9gia energ\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 ret\u00f3rica ou slogan. \u00c9 fundamento de soberania.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0305750X20300796?via%3Dihub\">https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0305750X20300796?via%3Dihub<\/a>.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, consolidou-se a ideia de que o mundo vive uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d. A express\u00e3o sugere substitui\u00e7\u00e3o estrutural: uma fonte dominante seria abandonada e trocada por outra. A hist\u00f3ria recente mostra algo diferente. O que ocorreu foi expans\u00e3o cumulativa e diversifica\u00e7\u00e3o. A demanda global por energia cresceu de forma persistente, impulsionada por urbaniza\u00e7\u00e3o, industrializa\u00e7\u00e3o, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23383"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23383"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23383\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23383"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23383"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23383"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}