{"id":23326,"date":"2026-05-28T20:03:29","date_gmt":"2026-05-28T23:03:29","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/28\/procura-se-um-editorial-responsavel-paulo-gonet-fez-o-certo\/"},"modified":"2026-05-28T20:03:29","modified_gmt":"2026-05-28T23:03:29","slug":"procura-se-um-editorial-responsavel-paulo-gonet-fez-o-certo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/28\/procura-se-um-editorial-responsavel-paulo-gonet-fez-o-certo\/","title":{"rendered":"Procura-se um editorial respons\u00e1vel: Paulo Gonet fez o certo"},"content":{"rendered":"<p>A contemporaneidade foi genialmente denominada por Robert Musil de <em>era da \u201cestupidez\u201d<\/em>, entendida como uma interrup\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia que paira como esp\u00edrito do tempo sobre a sociedade, transformando homens em ref\u00e9ns de ideologias que os empurram contra si mesmos. \u00c9 nesse registro que se insere o editorial do Estad\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/opiniao\/procura-se-um-procurador-geral-da-republica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cProcura-se um procurador-geral da Rep\u00fablica\u201d<\/a>, publicado no \u00faltimo dia 24 de maio.<\/p>\n<p>O editorial n\u00e3o s\u00f3 relativizou a grav\u00edssima conduta do ex-governador Romeu Zema como tratou com deseleg\u00e2ncia a autoridade do procurador-geral da Rep\u00fablica, um dos mais respeitados juristas brasileiros.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Por \u00f3bvio, n\u00e3o tenho a pretens\u00e3o de auxiliar um dos jornais mais tradicionais do Brasil a elaborar seus textos. Contudo, o conhecimento de recursos lingu\u00edsticos e liter\u00e1rios nos \u00e9 comum (a mim e ao Estad\u00e3o, ao Zema n\u00e3o sei) e certamente o conhecimento do g\u00eanero \u201cs\u00e1tira\u201d n\u00e3o escapa ao jornal, e est\u00e1 para al\u00e9m da minha vontade: a literatura e o uso liter\u00e1rio v\u00eam moldando-o.<\/p>\n<p>S\u00e1tira, nos termos precisos de Massaud Mois\u00e9s, \u00e9 g\u00eanero que usa humor, tom narrativo e atitude cr\u00edtica para denunciar aspectos exagerados da realidade, e sua mobiliza\u00e7\u00e3o exige, acima de tudo, uma sensibilidade aguda para transformar uma realidade em objeto de produ\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, a partir de um dos recursos ret\u00f3ricos mais importantes, a ironia.<\/p>\n<p>Ou seja, n\u00e3o \u00e9 a presen\u00e7a de fantoches que confere a uma mensagem esse estatuto. Foge-me \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de que maneira quaisquer desses adjetivos poderiam ser associados a Zema, a quem falta precisamente a sensibilidade. O que seus fantoches fizeram foi clara e detalhadamente imputar a pr\u00e1tica de crimes a ministros do STF. Pouco importa o ve\u00edculo: fantoche, intelig\u00eancia artificial ou adulto fantasiado. A imputa\u00e7\u00e3o de crime a magistrados da mais alta Corte da Rep\u00fablica n\u00e3o \u00e9 s\u00e1tira, e possui um nome jur\u00eddico espec\u00edfico: cal\u00fania.<\/p>\n<p>H\u00e1 um agravante que o editorial ignorou: a decis\u00e3o retratada no v\u00eddeo n\u00e3o foi arbitr\u00e1ria, ilegal ou manifestamente abusiva. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 constitucionalmente correta, proferida no exerc\u00edcio regular da jurisdi\u00e7\u00e3o constitucional. O que o desenho sugeria n\u00e3o era discord\u00e2ncia pol\u00edtica, mas que um ministro vendeu sua jurisdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa mesma decis\u00e3o foi tamb\u00e9m utilizada pelo senador Alessandro Vieira, em evidente abuso de autoridade, para indiciar o ministro Gilmar Mendes na CPI do Crime Organizado. Em uma democracia, um senador da Rep\u00fablica indiciar um juiz por causa de um <em>habeas corpus <\/em>e o Estad\u00e3o, talvez com saudosismo temporal anterior a 1988, optou por culpar a v\u00edtima.<\/p>\n<p>Dando toda raz\u00e3o a Musil, o editorial conseguiu a proeza de defender a indig\u00eancia intelectual de Zema e Vieira, generosidade que tamb\u00e9m estendeu aos atos de part\u00edcipes do 8 de janeiro, que quase se sagraram m\u00e1rtires pela pena do editorial. Nesse exato momento, imaginei que o editorial afirmaria que o 8 de janeiro n\u00e3o passou de uma reuni\u00e3o de velhinhas com b\u00edblia na m\u00e3o expressando insatisfa\u00e7\u00e3o. Ufa! N\u00e3o chegamos a esse ponto (ainda!).<\/p>\n<p>Cabe a pergunta ao Estad\u00e3o: se algu\u00e9m retratasse nominalmente seus pr\u00f3prios jornalistas, chefes de reda\u00e7\u00e3o ou propriet\u00e1rios recebendo dinheiro para publicar editoriais, o jornal consideraria isso caricatura democr\u00e1tica inofensiva? Lembrando que, do ponto de vista jur\u00eddico, a venda de um editorial nem de longe tem a gravidade da afirma\u00e7\u00e3o da venda de uma decis\u00e3o judicial.<\/p>\n<p>O problema recrudesce na era das redes sociais, e isso porque imagens caricaturais circulam descontextualizadas, com alcance massivo, e cristalizam percep\u00e7\u00f5es com for\u00e7a simb\u00f3lica superior \u00e0 de qualquer decis\u00e3o judicial. Fato \u00e9 que o imagin\u00e1rio popular n\u00e3o distingue met\u00e1fora de acusa\u00e7\u00e3o factual, e retratar reiteradamente um ministro recebendo vantagens para decidir processos associa sua atividade jurisdicional \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o foi um qualquer que fez a associa\u00e7\u00e3o: foi um governador de estado.<\/p>\n<p>Ao defend\u00ea-lo, o Estad\u00e3o chancela o baix\u00edssimo n\u00edvel do debate p\u00fablico atual, a descredibiliza\u00e7\u00e3o do Judici\u00e1rio a partir de informa\u00e7\u00f5es fraudulentas e procura induzir o eleitorado a desconfiar de autoridades p\u00fablicas, e o faz tentando esconder o fato de que um jornal \u00e9 tudo, menos imparcial e desinteressado, o que nos leva a perguntar quem, de fato, s\u00e3o os fantoches nessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Outrossim, o editorial tentou reduzir o epis\u00f3dio a mera quest\u00e3o privada de honra. Um ministro do Supremo acusado de corrup\u00e7\u00e3o no exerc\u00edcio da jurisdi\u00e7\u00e3o constitucional n\u00e3o est\u00e1 diante de desaven\u00e7a pessoal. A dimens\u00e3o institucional \u00e9 clara, e o pr\u00f3prio debate sobre compet\u00eancia o confirma. Basta olharmos os grotescos v\u00eddeos, a real mensagem era a cria\u00e7\u00e3o na percep\u00e7\u00e3o da sociedade que o STF \u00e9 corrupto e degenerado.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Uma palavra final ainda \u00e9 necess\u00e1ria. Quem atua com direito constitucional sabe o que representa ter <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/paulo-gonet\">Paulo Gonet<\/a> na PGR: um profissional amplamente respeitado na corpora\u00e7\u00e3o e na academia. Talvez o Estad\u00e3o sinta falta de um tempo em que a PGR era mais omissa diante dos ataques \u00e0 democracia e ao STF.<\/p>\n<p>Foi exatamente essa omiss\u00e3o que for\u00e7ou o STF a instaurar o inqu\u00e9rito das fake news, sem o qual, dificilmente haveria democracia a defender hoje. N\u00e3o \u00e9 o STF que amea\u00e7a a democracia brasileira. O real perigo est\u00e1 nos lobbies que trabalham para deix\u00e1-lo enfraquecido e desprotegido. A imprensa deveria ser o primeiro obst\u00e1culo a isso, n\u00e3o seu instrumento.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A contemporaneidade foi genialmente denominada por Robert Musil de era da \u201cestupidez\u201d, entendida como uma interrup\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia que paira como esp\u00edrito do tempo sobre a sociedade, transformando homens em ref\u00e9ns de ideologias que os empurram contra si mesmos. \u00c9 nesse registro que se insere o editorial do Estad\u00e3o \u201cProcura-se um procurador-geral da Rep\u00fablica\u201d, publicado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23326"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23326"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23326\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23326"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23326"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}