{"id":23318,"date":"2026-05-28T16:11:50","date_gmt":"2026-05-28T19:11:50","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/28\/licoes-de-economia-e-humanidade-com-o-papa\/"},"modified":"2026-05-28T16:11:50","modified_gmt":"2026-05-28T19:11:50","slug":"licoes-de-economia-e-humanidade-com-o-papa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/28\/licoes-de-economia-e-humanidade-com-o-papa\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es de economia e humanidade com o papa"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cNeste sentido, a verdadeira alternativa n\u00e3o \u00e9 entre entusiasmo ou medo, mas entre duas formas de constru\u00e7\u00e3o: um progresso que serve \u00e0s pessoas e aos povos, ou um progresso que os submete \u00e0s l\u00f3gicas de poder\u201d. (Papa Le\u00e3o XIV)<\/em><\/p>\n<p>Recentemente o papa Le\u00e3o XIV publicou a enc\u00edclica <em>Magnifica Humanitas<\/em>, que tem como tema a salvaguarda da pessoa humana na era da digitaliza\u00e7\u00e3o, da <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/inteligencia-artificial\">intelig\u00eancia artificial<\/a> e da rob\u00f3tica. Trata-se de texto que, al\u00e9m da beleza e das esperadas reflex\u00f5es religiosas e filos\u00f3ficas, aborda os aspectos jur\u00eddicos e econ\u00f4micos mais importantes da nossa era, os quais ser\u00e3o sintetizados no presente artigo.<\/p>\n<p>Com efeito, a enc\u00edclica representa uma cr\u00edtica contundente ao neoliberalismo e \u00e0 teoria econ\u00f4mica predominante (<em>mainstream<\/em>), insistindo na conclus\u00e3o de que a transforma\u00e7\u00e3o digital exige, simultaneamente, a descoberta da verdade como bem comum, a tutela da dignidade do trabalho e a salvaguarda da liberdade contra todas as formas de depend\u00eancia e mercantiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Sob v\u00e1rios aspectos, a nova enc\u00edclica refor\u00e7a e atualiza a famosa <em>Rerum Novarum<\/em>, que faz 135 anos e que teve uma participa\u00e7\u00e3o fundamental nos rumos do constitucionalismo e do Estado Social no Ocidente. O que \u00e9 bastante interessante \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre os princ\u00edpios da chamada doutrina social da Igreja a discuss\u00f5es jur\u00eddicas e econ\u00f4micas de grande relev\u00e2ncia:<\/p>\n<p>O princ\u00edpio do bem comum est\u00e1 associado ao papel do Estado para a organiza\u00e7\u00e3o justa da sociedade civil;<br \/>\nO princ\u00edpio da destina\u00e7\u00e3o universal dos bens est\u00e1 associado \u00e0 fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e \u00e0 solidariedade, inclusive no que diz respeito \u00e0 necessidade de \u201cdevolver ao pobre o que lhe corresponde\u201d. A novidade \u00e9 que agora tal princ\u00edpio \u00e9 explicitamente estendido aos bens imateriais e culturais, a\u00ed inclu\u00eddos patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas tecnologias e dados. Nessa parte, o papa j\u00e1 adianta a sua preocupa\u00e7\u00e3o com a concentra\u00e7\u00e3o desses bens nas m\u00e3os de poucos, sem formas adequadas de partilha e acesso.<br \/>\nO princ\u00edpio da subsidiariedade \u2013 segundo o qual o que pessoas, fam\u00edlias e comunidades podem fazer n\u00e3o deve ser absorvido por inst\u00e2ncias superiores, que devem reconhecer, proteger e promover a liberdade e a criatividade das inst\u00e2ncias inferiores \u2013 conecta-se \u00e0 necess\u00e1ria presen\u00e7a do Estado \u2013 que continua a ter o importante papel de \u201cpermitir que todos os sujeitos sociais desempenhem sua miss\u00e3o sem serem esmagados\u201d \u2013 e \u00e0 sua efic\u00e1cia perante os \u201cgrandes sujeitos tecnol\u00f3gicos\u201d, a fim de que estes n\u00e3o adotem processos impostos a partir de cima, de modo opaco e unilateral, mas sim \u201cque sejam orientados para o bem comum atrav\u00e9s da transpar\u00eancia, da responsabilidade e de formas concretas de participa\u00e7\u00e3o (auditorias independentes, transpar\u00eancia sobre algoritmos, acesso equitativo aos dados, instrumentos de recurso).\u201d<br \/>\nO princ\u00edpio da solidariedade exige que escolhas em mat\u00e9rias de dados, algoritmos, plataformas e intelig\u00eancia artificial tenham em conta n\u00e3o s\u00f3 a vantagem imediata de alguns, mas tamb\u00e9m a repercuss\u00e3o sobre o conjunto dos povos e sobre as gera\u00e7\u00f5es futuras.<br \/>\nO princ\u00edpio da justi\u00e7a social, que tanto tem uma dimens\u00e3o estrutural \u2013 j\u00e1 que \u00e9 visto a partir da perspectiva de que \u201cas injusti\u00e7as n\u00e3o surgem apenas das escolhas erradas dos indiv\u00edduos, mas tamb\u00e9m de estruturas, mecanismos e sistemas econ\u00f4micos e culturais que, de forma quase autom\u00e1tica, produzem desigualdades\u201d \u2013 como uma dimens\u00e3o reparadora \u2013 pois deve recompor rela\u00e7\u00f5es destru\u00eddas e reintegrar quem foi exclu\u00eddo por injusti\u00e7as, guerra, colonialismo, discrimina\u00e7\u00f5es raciais ou de g\u00eanero, viol\u00eancias contra povos inteiros e explora\u00e7\u00e3o \u2013 passa a estar relacionado ao fato de que, no ambiente digital, n\u00e3o pode haver novas formas de exclus\u00e3o e priva\u00e7\u00e3o de liberdade, o que ocorre com pr\u00e1ticas como veda\u00e7\u00e3o de acesso a tecnologias, vigil\u00e2ncia invasiva e sancionamento de grupos sociais por algoritmos opacos que reproduzem preconceitos e discrimina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Todos esses princ\u00edpios s\u00e3o mencionados para se chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que \u201cuma ordem social justa na era digital \u00e9 aquela que garante a todos um acesso equitativo \u00e0s oportunidades, protege os pequenos e mais fr\u00e1geis, combate o \u00f3dio e a desinforma\u00e7\u00e3o, submete a utiliza\u00e7\u00e3o de dados e das tecnologias \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o publica, de modo que o crit\u00e9rio n\u00e3o seja apenas o lucro, mas a dignidade de cada pessoa e o bem-estar dos povos.\u201d<\/p>\n<p>Todos esses assuntos s\u00e3o examinados a partir de um pressuposto essencial: \u201cAs inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas \u2013 entre elas a intelig\u00eancia artificial \u2013 n\u00e3o s\u00e3o neutras: podem aumentar a participa\u00e7\u00e3o e a justi\u00e7a, ou, pelo contr\u00e1rio, agravar desigualdades, controle e exclus\u00e3o\u201d. Da\u00ed por que, nesse ponto, o papa se afasta das vis\u00f5es mais otimistas em torno da tecnologia, partindo da premissa de que a tecnologia tanto pode melhorar significativamente a vida da humanidade como causar danos.<\/p>\n<p>Ao assim fazer, o papa associa corretamente as discuss\u00f5es sobre tecnologia ao poder, mostrando suas preocupa\u00e7\u00f5es com o dom\u00ednio impressionante que alguns poucos agentes t\u00eam sobre o g\u00eanero humano e o mundo inteiro: \u201cDevemos perguntar-nos com realismo quem det\u00e9m hoje este poder e para que fins o orientam\u201d.<\/p>\n<p>Ao alinhavar as respostas, reconhece que, se antes eram Estados que orientavam e dirigiam a inova\u00e7\u00e3o, hoje \u201cos principais motores do desenvolvimento privado s\u00e3o sujeitos privados, frequentemente transnacionais\u201d. \u201cO poder tecnol\u00f3gico assume, destarte, uma identidade in\u00e9dita, predominantemente \u2018privada\u2019 e, portanto, ainda mais dif\u00edcil de discernir, gerir e orientar para o bem comum\u201d.<\/p>\n<p>Prosseguindo em suas reflex\u00f5es, a Enc\u00edclica questiona o paradigma tecnocr\u00e1tico, apontando os riscos de um desenvolvimento tecnol\u00f3gico que, al\u00e9m de avan\u00e7ar sem a matura\u00e7\u00e3o \u00e9tica e social adequada, \u00e9 capitaneado pelos poucos agentes privados que est\u00e3o no controle de plataformas, infraestruturas, dados e capacidade de computa\u00e7\u00e3o: \u201cQuando um poder desta magnitude se concentra na m\u00e3o de poucos, ele tende a tornar-se opaco e fugir ao controle p\u00fablico, aumentando o risco dum desenvolvimento distorcido que gera novas depend\u00eancias, exclus\u00f5es, manipula\u00e7\u00f5es e desigualdades\u201d.<\/p>\n<p>Apesar de reconhecer as vantagens e facilidades proporcionadas pelas novas tecnologias, o papa tamb\u00e9m destaca os in\u00fameros riscos, dentre os quais os ambientais e os pessoais, argumentando que a delega\u00e7\u00e3o excessiva de fun\u00e7\u00f5es humanas para as m\u00e1quinas pode trazer o consequente enfraquecimento da opini\u00e3o pr\u00f3pria e da criatividade, al\u00e9m da enganosa apar\u00eancia de objetividade, j\u00e1 que as m\u00e1quinas refletem os par\u00e2metros culturais de quem os concebeu e treinou com todos os seus m\u00e9ritos e defeitos.<\/p>\n<p>Ademais, isso pode comprometer o aperfei\u00e7oamento humano, pois \u201cuma tecnologia que classifica e otimiza o que j\u00e1 existe pode tornar-se, sem querer, um obst\u00e1culo \u00e0 mudan\u00e7a e ao crescimento. Para um algoritmo, o erro \u00e9 algo a corrigir; para uma pessoa, pode ser o in\u00edcio de uma mudan\u00e7a profunda\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, o ponto essencial de suas preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9 que as novas tecnologias nunca dizem respeito apenas a quest\u00f5es t\u00e9cnicas, pois, ao interferirem e afetarem a vida das pessoas, elas trazem impactos em direitos, oportunidades, reputa\u00e7\u00e3o e liberdade. Da\u00ed os riscos de discrimina\u00e7\u00f5es e marginaliza\u00e7\u00f5es, usos anti-humanos, como as armas aut\u00f4nomas, e aus\u00eancia de responsabilidades na delega\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es importantes, como a de selecionar algu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c9 marcante a preocupa\u00e7\u00e3o do papa com a \u201cinjusti\u00e7a silenciosa\u201d que pode ser perpetrada pelas m\u00e1quinas, sobretudo diante da advert\u00eancia de que \u201cn\u00e3o podemos considerar a IA moralmente neutra\u201d. Nesse contexto, em respeito ao homem, as regras de responsabilidade precisam ficar claras em todas as etapas e estas precisam passar por filtros minimamente democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Segundo o papa, \u201cn\u00e3o precisamos de uma IA mais moral, se esta moral for decidida por poucos. Precisamos de uma pol\u00edtica mais presente, capaz de reduzir a velocidade onde tudo se acelera e de proteger os espa\u00e7os onde as comunidades ainda podem participar e questionar-se\u201d.<\/p>\n<p>Partindo da premissa de que a intelig\u00eancia artificial tende, como qualquer outro avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, a refor\u00e7ar o poder daqueles que j\u00e1 t\u00eam, o papa sustenta que a propriedade de dados deve ser regulamentada e que a intelig\u00eancia artificial precisa ser desarmada, inclusive no aspecto econ\u00f4mico e cognitivo: \u201cDesarmar significa quebrar esta equival\u00eancia entre poder t\u00e9cnico e direito de governar\u201d, \u201csignifica retir\u00e1-la dos monop\u00f3lios, torn\u00e1-la discut\u00edvel, contest\u00e1vel e, portanto, habit\u00e1vel, devolvendo-a \u00e0 pluralidade das culturas humanas e das formas de vida\u201d. \u201cPortanto, n\u00e3o basta regul\u00e1-la: deve ser desarmada e tornada acolhedora\u201d.<\/p>\n<p>Diante dos riscos de que se imprima \u00e0 intelig\u00eancia artificial uma vis\u00e3o anti-humana, o papa critica as insufici\u00eancias da l\u00f3gica da efici\u00eancia, sob o argumento de que \u201co poder t\u00e9cnico, se n\u00e3o for equilibrado, n\u00e3o nos torna mais capazes; torna-nos mais s\u00f3s e mais expostos a l\u00f3gicas de dom\u00ednio e de exclus\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O papa tamb\u00e9m se preocupa com posi\u00e7\u00f5es transumanistas ou p\u00f3s-humanistas que, ao verem seres humanos como mat\u00e9rias a serem aperfei\u00e7oadas ou ultrapassadas, podem levar \u00e0 ideia de que alguns sejam menos \u00fateis, desej\u00e1veis e dignos e que, em nome do progresso, admitam-se \u201csacrif\u00edcios necess\u00e1rios\u201d e que mais fr\u00e1geis paguem o pre\u00e7o de uma suposta otimiza\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o papa prop\u00f5e tr\u00eas vetores que precisam orientar a atual revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica: (i) a busca da verdade, (ii) a prote\u00e7\u00e3o do trabalho e (iii) a prote\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria liberdade e individualidade dos homens.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 busca da verdade, o papa alerta para os problemas de desinforma\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o e seus impactos sobre a vida das pessoas e das democracias. Afinal, quem det\u00e9m controle das plataformas e meios de comunica\u00e7\u00e3o tem enorme poder de influenciar o imagin\u00e1rio coletivo e de apresentar como desej\u00e1vel uma determinada vis\u00e3o da realidade, o que pode ser determinante para as escolhas das pessoas.<\/p>\n<p>Da\u00ed propor uma nova ecologia da comunica\u00e7\u00e3o, a fim de que tenhamos espa\u00e7os de debate nos quais prevale\u00e7am a argumenta\u00e7\u00e3o e a averigua\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s da rea\u00e7\u00e3o impulsiva, comunica\u00e7\u00e3o transparente e orientada para a verdade, novos processos educacionais, especialmente de crian\u00e7as e jovens, e medidas para conter os riscos do ambiente digital.<\/p>\n<p>No que toca \u00e0 dignidade do trabalho, o papa critica as tecnologias que degradam o trabalho, contribuindo para a precariedade e a desigualdade. Da\u00ed real\u00e7ar a necessidade de se combater qualquer forma de explora\u00e7\u00e3o, o que exige, dentre outras medidas, apoio aos sindicatos, prote\u00e7\u00e3o do emprego, requalifica\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A defesa do trabalho \u00e9 feita tamb\u00e9m \u00e0 luz da liberdade econ\u00f4mica, que est\u00e1 em xeque \u201cquando as condi\u00e7\u00f5es concretas impedem que muitos se beneficiem verdadeiramente dela\u201d. Da\u00ed a conclus\u00e3o de que \u201cuma sociedade justa requer um Estado presente e institui\u00e7\u00f5es civis capazes de superar a l\u00f3gica da efici\u00eancia, orientando explicitamente recursos, criatividade e normas em favor dos mais vulner\u00e1veis.\u201d<\/p>\n<p>Nessa parte, a Enc\u00edclica refor\u00e7a \u00e0s cr\u00edticas ao <em>trickle down<\/em>, afirmando que \u201cas experi\u00eancias das \u00faltimas d\u00e9cadas mostram que, nas crises econ\u00f4micas e financeiras, s\u00e3o sempre os pobres a pagar o pre\u00e7o mais elevado, revelando-se frequentemente ilus\u00f3rias as teorias que prometem um autom\u00e1tico e geral bem-estar\u201d.<\/p>\n<p>Em face disso, s\u00e3o propostas novas m\u00e9tricas, complementares ao PIB, para a avalia\u00e7\u00e3o dos resultados econ\u00f4micos, a partir de par\u00e2metros que mensurem a dignidade do trabalho, a prosperidade compartilhada, a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades e a salvaguarda do meio ambiente.<\/p>\n<p>Para o papa, \u201cna era da IA e da rob\u00f3tica, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel confiar-se apenas \u00e0 \u2018m\u00e3o invis\u00edvel do mercado\u2019: a pol\u00edtica tem a tarefa de orientar as din\u00e2micas econ\u00f4mico-tecnol\u00f3gicas para o bem comum, promovendo o trabalho digno, a inclus\u00e3o social e uma distribui\u00e7\u00e3o equitativa dos benef\u00edcios da inova\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O papa prop\u00f5e, ent\u00e3o, medidas importantes para reduzir a desigualdade econ\u00f4mica entre pessoas e pa\u00edses, o que envolve (i) acesso aos benef\u00edcios da inova\u00e7\u00e3o, incluindo cuidados, conhecimento, instrumentos e oportunidades; (ii) prote\u00e7\u00e3o do trabalho; e (iii) leis justas de redistribui\u00e7\u00e3o, incluindo sistemas tribut\u00e1rios progressivos, que aliviem os mais pobres e exijam mais dos mais ricos. Em suma, \u201cfiscalidade, prote\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas industriais devem corrigir os desequil\u00edbrios criados pela concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e pelo poder. Estes crit\u00e9rios n\u00e3o s\u00e3o um trav\u00e3o \u00e0 inova\u00e7\u00e3o; tornam-na, na realidade, vi\u00e1vel e humana\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, a enc\u00edclica apresenta grande preocupa\u00e7\u00e3o em salvaguardar a liberdade contra a depend\u00eancia e a mercantiliza\u00e7\u00e3o em face da economia da aten\u00e7\u00e3o e da manipula\u00e7\u00e3o: \u201cQuando modelos empresariais prosperam \u00e0 custa da fraqueza humana, a pessoa \u00e9 tratada como um meio e n\u00e3o como um fim, e quem concebe estes sistemas assume uma responsabilidade moral que n\u00e3o pode ser ignorada.\u201d \u201c\u00c9 urgente promover uma utiliza\u00e7\u00e3o das tecnologias que reforce a liberdade interior: educa\u00e7\u00e3o para a sobriedade digital, prote\u00e7\u00e3o dos menores e combate a modelos que prosperam \u00e0 custa da vulnerabilidade\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o papa chama aten\u00e7\u00e3o para os riscos do controle social por meio da tecnologia: \u201cPor isso, na era digital, a liberdade n\u00e3o \u00e9 apenas algo interior: \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o p\u00fablica, que exige regras claras, transpar\u00eancia, possibilidades de recurso e limites ao uso de tecnologias invasivas, para que a t\u00e9cnica permane\u00e7a ao servi\u00e7o da pessoa e n\u00e3o se torne uma forma de dom\u00ednio das consci\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 o alerta para a necessidade de quebrar as correntes novas formas de escravid\u00e3o, ressaltando que parte da economia digital assenta no trabalho silencioso e mal remunerado de milhares de seres humanos e da extra\u00e7\u00e3o indevida de recursos ambientais.<\/p>\n<p>Nesse ponto, a discuss\u00e3o est\u00e1 conectada \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es do papa com o colonialismo digital: \u201cO colonialismo apresenta, nos nossos dias, um rosto in\u00e9dito. N\u00e3o domina apenas os corpos, mas apropria-se dos dados, transformando as vidas pessoais em informa\u00e7\u00f5es que podem ser exploradas. Inteiros territ\u00f3rios, sobretudo aqueles com menor relev\u00e2ncia geopol\u00edtica e maior fragilidade estrutural, s\u00e3o atualmente atravessados por uma nova l\u00f3gica de extra\u00e7\u00e3o: a dos fluxos sanit\u00e1rios, perfis epidemiol\u00f3gicos, mapas gen\u00e9ticos e dados demogr\u00e1ficos. S\u00e3o estas as novas \u2018terras raras\u2019 do poder: informa\u00e7\u00f5es vitais que, uma vez relacionadas entre si, podem utilizar-se para desenvolver modelos preditivos, orientar estrat\u00e9gias de investimento, antecipar crises e, sobretudo, selecionar quem e o que importa\u201d. As novas express\u00f5es de escravatura alimentam-se de cadeias econ\u00f4micas e infraestruturas digitais.<\/p>\n<p>Como se pode observar a partir desta brev\u00edssima s\u00edntese, a enc\u00edclica dialoga com temas jur\u00eddicos e econ\u00f4micos da maior import\u00e2ncia, dentre os quais a o fun\u00e7\u00e3o social da propriedade \u2013 inclu\u00eddos a\u00ed os bens imateriais, papel do Estado na sociedade e na economia, a responsabilidade dos grandes agentes econ\u00f4micos na gest\u00e3o de dados e plataformas, os riscos do governo algor\u00edtmico e das discrimina\u00e7\u00f5es algor\u00edtmicas, as causas estruturais de desigualdade na era digital, bem como a necessidade de inclus\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de pobreza.<\/p>\n<p>Todos esses assuntos s\u00e3o tratados a partir de um fio condutor comum, que dialoga com as preocupa\u00e7\u00f5es de muitos juristas, economistas e outros estudiosos, dentre os quais eu me incluo: a tecnologia n\u00e3o \u00e9 neutra nem necessariamente boa; pelo contr\u00e1rio, tem sido escolhida e implementada a partir dos interesses de grandes agentes econ\u00f4micos, tornando-se instrumento de poder e favorecimento de poucos em detrimento de muitos.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, a enc\u00edclica refor\u00e7a a necessidade de regula\u00e7\u00e3o e \u201cdesarmamento\u201d da tecnologia, assim como nos incentiva a pensar no papel do Estado e da sociedade civil na luta pela conforma\u00e7\u00e3o da tecnologia com a prote\u00e7\u00e3o do homem e pela distribui\u00e7\u00e3o mais equitativa dos benef\u00edcios das inova\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como se destacou na ep\u00edgrafe, precisamos decidir se queremos um progresso que serve \u00e0s pessoas e aos povos ou um progresso que os submete \u00e0s l\u00f3gicas de poder. As nossas decis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es de hoje ir\u00e3o definir se controlaremos a tecnologia ou se seremos controlados por ela.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNeste sentido, a verdadeira alternativa n\u00e3o \u00e9 entre entusiasmo ou medo, mas entre duas formas de constru\u00e7\u00e3o: um progresso que serve \u00e0s pessoas e aos povos, ou um progresso que os submete \u00e0s l\u00f3gicas de poder\u201d. (Papa Le\u00e3o XIV) Recentemente o papa Le\u00e3o XIV publicou a enc\u00edclica Magnifica Humanitas, que tem como tema a salvaguarda [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23318"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23318"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23318\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}