{"id":23157,"date":"2026-05-23T05:13:13","date_gmt":"2026-05-23T08:13:13","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/23\/do-controle-a-performance-o-papel-das-agencias-reguladoras-nas-concessoes\/"},"modified":"2026-05-23T05:13:13","modified_gmt":"2026-05-23T08:13:13","slug":"do-controle-a-performance-o-papel-das-agencias-reguladoras-nas-concessoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/23\/do-controle-a-performance-o-papel-das-agencias-reguladoras-nas-concessoes\/","title":{"rendered":"Do controle \u00e0 performance: o papel das ag\u00eancias reguladoras nas concess\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 algo de paradoxal na cr\u00edtica mais recorrente \u00e0s ag\u00eancias reguladoras brasileiras: acusa-se o excesso de burocracia ao mesmo tempo em que se cobra mais rigor na fiscaliza\u00e7\u00e3o. O problema, por\u00e9m, raramente est\u00e1 na quantidade de controle. Est\u00e1 na qualidade do que se controla. Em muitos contratos de concess\u00e3o p\u00fablica, as ag\u00eancias ainda operam com uma l\u00f3gica predominantemente formal, verificando o cumprimento de obriga\u00e7\u00f5es processuais e documentais em vez de aferir o que realmente importa: a entrega de resultados ao usu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Esse modelo de fiscaliza\u00e7\u00e3o baseado no cumprimento de ritos, o chamado \u201ccontrole de conformidade\u201d, tem ra\u00edzes hist\u00f3ricas compreens\u00edveis. Quando as primeiras ag\u00eancias reguladoras foram criadas no Brasil, na segunda metade dos anos 1990, a prioridade era garantir seguran\u00e7a jur\u00eddica a um setor de infraestrutura rec\u00e9m-privatizado e ainda pouco maduro. O contrato era o escudo. Cumprir o contrato era, em si, a entrega.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Tr\u00eas d\u00e9cadas depois, o cen\u00e1rio mudou. Os contratos de concess\u00e3o se tornaram mais complexos, de longa dura\u00e7\u00e3o e com m\u00faltiplas vari\u00e1veis de performance: \u00edndices de disponibilidade de servi\u00e7o, satisfa\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio, metas de investimento, padr\u00f5es de qualidade operacional. O contrato deixou de ser apenas um instrumento de outorga e passou a ser um instrumento de governan\u00e7a. E, com essa mudan\u00e7a, o papel das ag\u00eancias precisaria ter evolu\u00eddo na mesma dire\u00e7\u00e3o, o que nem sempre aconteceu.<\/p>\n<h2>O que significa regular por resultados<\/h2>\n<p>A regula\u00e7\u00e3o por resultados (ou regula\u00e7\u00e3o baseada em desempenho) desloca o foco da fiscaliza\u00e7\u00e3o do \u201ccomo\u201d para o \u201cqu\u00ea\u201d. Em vez de verificar se o concession\u00e1rio seguiu o procedimento correto, a ag\u00eancia passa a perguntar: o servi\u00e7o chegou? Chegou com qualidade? O usu\u00e1rio foi atendido?<\/p>\n<p>Trata-se de uma transi\u00e7\u00e3o sofisticada, que exige mudan\u00e7as institucionais profundas. A ag\u00eancia precisa de capacidade t\u00e9cnica para definir m\u00e9tricas de desempenho cr\u00edveis, sistemas de monitoramento robustos e mecanismos de incentivo e san\u00e7\u00e3o que, de fato, induzam o comportamento desejado do concession\u00e1rio. Sem esses elementos, a regula\u00e7\u00e3o por resultados vira apenas ret\u00f3rica e um conjunto de indicadores que ningu\u00e9m persegue de verdade.<\/p>\n<p>O setor aeroportu\u00e1rio brasileiro ilustra bem essa tens\u00e3o. A ANAC evoluiu significativamente na estrutura\u00e7\u00e3o de matrizes de desempenho nos contratos de concess\u00e3o das rodadas mais recentes. H\u00e1 indicadores de pontualidade, de qualidade percebida pelo passageiro, de efici\u00eancia operacional. Mas a discuss\u00e3o sobre a efetividade do <em>enforcement<\/em> desses indicadores, inclusive em situa\u00e7\u00f5es de inadimplemento reiterado, continua em aberto. A pergunta que fica \u00e9: at\u00e9 que ponto o descumprimento de metas tem consequ\u00eancias reais e imediatas para o concession\u00e1rio?<\/p>\n<h2>A armadilha da captura regulat\u00f3ria<\/h2>\n<p>Um dos maiores riscos nessa transi\u00e7\u00e3o \u00e9 o da captura regulat\u00f3ria- o fen\u00f4meno pelo qual a ag\u00eancia passa a atuar mais no interesse do concession\u00e1rio do que no interesse p\u00fablico. N\u00e3o se trata necessariamente de corrup\u00e7\u00e3o. Na maioria dos casos, trata-se de um processo silencioso e gradual: a assimetria de informa\u00e7\u00e3o entre regulador e regulado, a depend\u00eancia t\u00e9cnica dos dados fornecidos pelo pr\u00f3prio concession\u00e1rio e a press\u00e3o institucional por estabilidade contratual criam condi\u00e7\u00f5es para que o regulador assuma, quase sem perceber, a perspectiva do setor.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2019\/lei\/l13848.htm\">Lei 13.848\/2019<\/a>, o marco legal das ag\u00eancias reguladoras, avan\u00e7ou em mecanismos de governan\u00e7a destinados a mitigar esse risco, tais como a maior transpar\u00eancia nas decis\u00f5es, fortalecimento das ouvidorias e exig\u00eancia de an\u00e1lises de impacto regulat\u00f3rio. Mas a implementa\u00e7\u00e3o dessas ferramentas ainda \u00e9 desigual entre as ag\u00eancias e muitas vezes carece de efetividade pr\u00e1tica.<\/p>\n<h2>O contrato como instrumento vivo<\/h2>\n<p>Outro ponto que merece aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a gest\u00e3o din\u00e2mica do contrato de concess\u00e3o ao longo de sua vig\u00eancia. Concess\u00f5es de longa dura\u00e7\u00e3o (20, 30, \u00e0s vezes 50 anos) s\u00e3o firmadas num contexto que, inevitavelmente, se transforma. Novas tecnologias surgem, as demandas dos usu\u00e1rios mudam, crises econ\u00f4micas alteram a equa\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio financeiro do contrato. A ag\u00eancia que atua apenas como fiscal do instrumento original, sem capacidade de adaptar e renegociar de forma tecnicamente fundamentada, torna-se um ator passivo num cen\u00e1rio que exige protagonismo.<\/p>\n<p>A regula\u00e7\u00e3o contratual inteligente pressup\u00f5e que a ag\u00eancia seja capaz de distinguir o que \u00e9 inadimpl\u00eancia do concession\u00e1rio do que \u00e9 inadequa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio contrato \u00e0s circunst\u00e2ncias supervenientes. Essa distin\u00e7\u00e3o, que parece simples no papel, exige corpo t\u00e9cnico qualificado, independ\u00eancia institucional real e disposi\u00e7\u00e3o para exercer julgamento, algo que vai muito al\u00e9m do cumprimento de protocolos.<\/p>\n<h2>O que precisamos construir<\/h2>\n<p>A agenda para fortalecer o papel das ag\u00eancias nos contratos de concess\u00e3o n\u00e3o passa, necessariamente, por mais regula\u00e7\u00e3o. Passa por regula\u00e7\u00e3o mais qualificada. Isso significa investir em tr\u00eas dire\u00e7\u00f5es priorit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Primeiro, capacidade anal\u00edtica. Ag\u00eancias que dependem dos dados do concession\u00e1rio para fazer a fiscaliza\u00e7\u00e3o est\u00e3o estruturalmente em desvantagem. \u00c9 preciso investir em sistemas pr\u00f3prios de coleta e an\u00e1lise de dados, com capacidade de auditoria independente dos indicadores contratuais.<\/p>\n<p>Segundo, transpar\u00eancia ativa. A presta\u00e7\u00e3o de contas das ag\u00eancias ao usu\u00e1rio do servi\u00e7o (e n\u00e3o apenas ao poder concedente) precisa se tornar pr\u00e1tica sistem\u00e1tica. O cidad\u00e3o que usa o aeroporto, a rodovia ou o servi\u00e7o de saneamento tem direito a saber se as metas contratuais est\u00e3o sendo cumpridas e quais s\u00e3o as consequ\u00eancias quando n\u00e3o est\u00e3o.<\/p>\n<p>Terceiro, enforcement cr\u00edvel. Penalidades contratuais que nunca s\u00e3o aplicadas perdem sua fun\u00e7\u00e3o dissuas\u00f3ria. O concession\u00e1rio que aprende que o descumprimento de metas n\u00e3o gera consequ\u00eancias reais passa a precificar o inadimplemento como um custo de fazer neg\u00f3cio. Reverter esse padr\u00e3o exige uma ag\u00eancia disposta a aplicar san\u00e7\u00f5es\u00a0 (e um arcabou\u00e7o jur\u00eddico que respalde essa atua\u00e7\u00e3o sem transformar cada ato de fiscaliza\u00e7\u00e3o em lit\u00edgio).<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que o Brasil tem, nas suas ag\u00eancias reguladoras, um arcabou\u00e7o institucional com d\u00e9cadas de acumula\u00e7\u00e3o de conhecimento setorial. O desafio n\u00e3o \u00e9 partir do zero, \u00e9 fazer a transi\u00e7\u00e3o de uma cultura de controle para uma cultura de performance. Essa transi\u00e7\u00e3o, vale dizer, \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de escolha pol\u00edtica: ela depende de que a regula\u00e7\u00e3o seja tratada como pol\u00edtica de Estado, e n\u00e3o como vari\u00e1vel de ajuste nos momentos de crise.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algo de paradoxal na cr\u00edtica mais recorrente \u00e0s ag\u00eancias reguladoras brasileiras: acusa-se o excesso de burocracia ao mesmo tempo em que se cobra mais rigor na fiscaliza\u00e7\u00e3o. O problema, por\u00e9m, raramente est\u00e1 na quantidade de controle. Est\u00e1 na qualidade do que se controla. 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