{"id":23155,"date":"2026-05-23T05:13:13","date_gmt":"2026-05-23T08:13:13","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/23\/sem-robo-sem-milhoes-e-dentro-do-sus\/"},"modified":"2026-05-23T05:13:13","modified_gmt":"2026-05-23T08:13:13","slug":"sem-robo-sem-milhoes-e-dentro-do-sus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/23\/sem-robo-sem-milhoes-e-dentro-do-sus\/","title":{"rendered":"Sem rob\u00f4, sem milh\u00f5es e dentro do SUS"},"content":{"rendered":"<p>O c\u00e2ncer de pr\u00f3stata \u00e9 o tumor mais frequente entre homens brasileiros depois do c\u00e2ncer de pele n\u00e3o melanoma. Todos os anos, milhares de pacientes enfrentam n\u00e3o apenas o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a, mas tamb\u00e9m o medo das sequelas do tratamento: perda urin\u00e1ria, disfun\u00e7\u00e3o sexual e cirurgias de alto custo frequentemente associadas a hospitais privados e tecnologias inacess\u00edveis.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, a evolu\u00e7\u00e3o da cirurgia prost\u00e1tica pareceu seguir uma l\u00f3gica inevit\u00e1vel: quanto mais avan\u00e7ada a tecnologia, melhores os resultados. A cirurgia rob\u00f3tica transformou-se em s\u00edmbolo mundial de precis\u00e3o, menor sangramento e recupera\u00e7\u00e3o funcional mais r\u00e1pida. Mas tamb\u00e9m aprofundou um problema estrutural da sa\u00fade contempor\u00e2nea: a desigualdade no acesso.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/saude?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_saude_q2&amp;utm_id=cta_texto_saude_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_saude&amp;utm_term=cta_texto_saude_meio_materias\"><span>Com not\u00edcias da Anvisa e da ANS, o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Sa\u00fade entrega previsibilidade e transpar\u00eancia para empresas do setor<\/span><\/a><\/p>\n<p>Plataformas rob\u00f3ticas custam milh\u00f5es de reais, exigem manuten\u00e7\u00e3o sofisticada, treinamento especializado e permanecem concentradas em poucos centros de excel\u00eancia, quase sempre vinculados \u00e0 rede privada. Enquanto isso, no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/SUS\">SUS<\/a>), a maioria dos homens continua sendo operada pela cirurgia aberta convencional, t\u00e9cnica eficiente no controle do c\u00e2ncer, mas tradicionalmente associada a recupera\u00e7\u00e3o mais lenta e maior impacto funcional no p\u00f3s-operat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o ultrapassa a discuss\u00e3o m\u00e9dica. Ela envolve financiamento p\u00fablico, incorpora\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e o pr\u00f3prio papel constitucional do SUS como sistema universal. Em um pa\u00eds marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, discutir inova\u00e7\u00e3o em sa\u00fade significa discutir tamb\u00e9m quem ter\u00e1 acesso real a ela.<\/p>\n<p>Em um cen\u00e1rio de restri\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria permanente, toda nova tecnologia incorporada ao sistema p\u00fablico disputa recursos com aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, vacina\u00e7\u00e3o, preven\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o da assist\u00eancia. O debate sobre inova\u00e7\u00e3o, portanto, tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtico, econ\u00f4mico e jur\u00eddico. N\u00e3o basta que uma tecnologia seja moderna. \u00c9 necess\u00e1rio avaliar se ela pode ser aplicada em escala, de forma sustent\u00e1vel, sem ampliar ainda mais as desigualdades j\u00e1 existentes.<\/p>\n<p>Foi justamente nesse contexto que uma linha de pesquisa desenvolvida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro come\u00e7ou a questionar uma das premissas mais consolidadas da urologia contempor\u00e2nea: os melhores resultados da cirurgia rob\u00f3tica dependem realmente do rob\u00f4?<\/p>\n<p>A pergunta surgiu a partir de uma observa\u00e7\u00e3o simples. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, ao mesmo tempo em que os rob\u00f4s se popularizavam, tamb\u00e9m ocorreu uma mudan\u00e7a importante na pr\u00f3pria l\u00f3gica da cirurgia prost\u00e1tica. O foco deixou de ser apenas a retirada completa do tumor. A preserva\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica passou a ocupar papel central.<\/p>\n<p>Nervos, esf\u00edncteres urin\u00e1rios e estruturas delicadas da pelve passaram a ser preservados de maneira mais cuidadosa, reduzindo sequelas funcionais associadas \u00e0 cirurgia prost\u00e1tica \u2014 especialmente incontin\u00eancia urin\u00e1ria e disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til. A cirurgia tornou-se menos agressiva n\u00e3o apenas porque surgiram m\u00e1quinas mais sofisticadas, mas porque houve um refinamento progressivo do conhecimento anat\u00f4mico e da t\u00e9cnica cir\u00fargica.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese levantada pelos pesquisadores era direta: talvez parte dos benef\u00edcios atribu\u00eddos \u00e0 rob\u00f3tica estivesse relacionada menos \u00e0 m\u00e1quina e mais \u00e0 mudan\u00e7a da estrat\u00e9gia operat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Foi dessa hip\u00f3tese que surgiu, no Hospital Universit\u00e1rio Pedro Ernesto, a Prostatectomia Radical Retrop\u00fabica Anat\u00f4mica Anter\u00f3grada Aberta, AORP \u2013 sigla em Ingl\u00eas, t\u00e9cnica que adapta \u00e0 cirurgia aberta princ\u00edpios modernos de preserva\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica usados na cirurgia rob\u00f3tica.<\/p>\n<p>O objetivo nunca foi substituir a cirurgia rob\u00f3tica nem negar seus avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos. A proposta era outra: reproduzir princ\u00edpios anat\u00f4micos modernos sem depender de plataformas milion\u00e1rias e inacess\u00edveis para grande parte do sistema p\u00fablico brasileiro.<\/p>\n<p>Os primeiros pacientes foram operados em estudo piloto iniciado em 2015. Embora pequeno, o trabalho trouxe resultados promissores. Parte dos pacientes recuperou a contin\u00eancia urin\u00e1ria logo ap\u00f3s a retirada da sonda, e a maioria j\u00e1 apresentava controle urin\u00e1rio em poucos meses.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a cirurgia do c\u00e2ncer de pr\u00f3stata, a perda involunt\u00e1ria de urina \u00e9 uma das complica\u00e7\u00f5es mais temidas pelos pacientes. O impacto ultrapassa a dimens\u00e3o f\u00edsica e afeta autoestima, rela\u00e7\u00f5es sociais, trabalho e qualidade de vida. Muitos homens relatam isolamento social, inseguran\u00e7a e dificuldade de retomar atividades cotidianas simples.<\/p>\n<p>Entre 2016 e 2019, a equipe da UERJ conduziu um ensaio cl\u00ednico randomizado com 220 pacientes com c\u00e2ncer de pr\u00f3stata localizado. Metade foi submetida \u00e0 cirurgia aberta convencional; a outra metade realizou a AORP.<\/p>\n<p>O estudo possui uma caracter\u00edstica particularmente relevante: foi realizado integralmente dentro da rotina do SUS, envolvendo residentes supervisionados por cirurgi\u00f5es experientes em hospital universit\u00e1rio p\u00fablico. Isso significa que os resultados observados n\u00e3o dependiam de condi\u00e7\u00f5es artificiais de centros privados altamente selecionados, mas de um ambiente real de assist\u00eancia p\u00fablica brasileira.<\/p>\n<p>Os resultados demonstraram redu\u00e7\u00e3o do sangramento cir\u00fargico, menos complica\u00e7\u00f5es p\u00f3s-operat\u00f3rias e recupera\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria mais r\u00e1pida nos pacientes submetidos \u00e0 nova t\u00e9cnica, sem preju\u00edzo do controle oncol\u00f3gico da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses ap\u00f3s a cirurgia, os \u00edndices de contin\u00eancia urin\u00e1ria foram significativamente superiores no grupo operado pela AORP. Ao mesmo tempo, os resultados oncol\u00f3gicos permaneceram equivalentes aos da cirurgia convencional, sem aumento de margens cir\u00fargicas positivas ou sinais de pior controle tumoral.<\/p>\n<p>Mas talvez o aspecto mais relevante da experi\u00eancia brasileira esteja al\u00e9m das estat\u00edsticas cir\u00fargicas.<\/p>\n<p>A pesquisa produzida na UERJ questiona uma l\u00f3gica cada vez mais dominante na sa\u00fade contempor\u00e2nea: a ideia de que inova\u00e7\u00e3o depende necessariamente da aquisi\u00e7\u00e3o de equipamentos sofisticados importados de centros ricos.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da AORP prop\u00f5e caminho diferente. Em vez de apenas importar solu\u00e7\u00f5es desenvolvidas em sistemas ricos, os pesquisadores buscaram adaptar princ\u00edpios cient\u00edficos modernos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es concretas do SUS. O centro da inova\u00e7\u00e3o deixou de ser exclusivamente a m\u00e1quina e passou a incluir estrat\u00e9gia cir\u00fargica, treinamento anat\u00f4mico e reorganiza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa negar a import\u00e2ncia da cirurgia rob\u00f3tica. O ponto central \u00e9 outro: sistemas p\u00fablicos universais precisam discutir n\u00e3o apenas incorpora\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m sustentabilidade, escala e acesso.<\/p>\n<p>Em pa\u00edses marcados por desigualdade estrutural e limita\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria permanente, a discuss\u00e3o sobre inova\u00e7\u00e3o inevitavelmente se conecta \u00e0 pr\u00f3pria efetividade do direito constitucional \u00e0 sa\u00fade. Afinal, tecnologias altamente sofisticadas t\u00eam pouco impacto coletivo quando permanecem restritas a parcelas pequenas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria da AORP ainda depende de valida\u00e7\u00e3o multic\u00eantrica e reprodu\u00e7\u00e3o em outros hospitais. Como toda inova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, os resultados precisam ser confirmados em diferentes contextos, equipes e popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas uma conclus\u00e3o j\u00e1 parece evidente: hospitais p\u00fablicos brasileiros tamb\u00e9m podem produzir conhecimento original, competitivo e internacionalmente relevante.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Talvez o maior m\u00e9rito da experi\u00eancia conduzida no Hospital Pedro Ernesto seja justamente esse: lembrar que medicina de alta qualidade n\u00e3o depende apenas de m\u00e1quinas sofisticadas, mas tamb\u00e9m de intelig\u00eancia cl\u00ednica, forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica s\u00f3lida e capacidade de produzir solu\u00e7\u00f5es compat\u00edveis com a realidade social do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No debate contempor\u00e2neo sobre inova\u00e7\u00e3o em sa\u00fade, essa talvez seja uma das discuss\u00f5es mais importantes \u2014 e mais urgentes \u2014 para o futuro do SUS.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O c\u00e2ncer de pr\u00f3stata \u00e9 o tumor mais frequente entre homens brasileiros depois do c\u00e2ncer de pele n\u00e3o melanoma. 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