{"id":22758,"date":"2026-05-09T07:00:11","date_gmt":"2026-05-09T10:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/09\/a-inadimplencia-que-nasce-do-mau-credito\/"},"modified":"2026-05-09T07:00:11","modified_gmt":"2026-05-09T10:00:11","slug":"a-inadimplencia-que-nasce-do-mau-credito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/09\/a-inadimplencia-que-nasce-do-mau-credito\/","title":{"rendered":"A inadimpl\u00eancia que nasce do mau cr\u00e9dito"},"content":{"rendered":"<div>O avan\u00e7o recente da <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span> das fam\u00edlias voltou, com raz\u00e3o, ao centro da agenda econ\u00f4mica. N\u00e3o se trata de um tema restrito ao or\u00e7amento dom\u00e9stico. Quando mais brasileiros deixam de honrar compromissos financeiros, o problema transborda para o consumo, deteriora <span class=\"il\">a<\/span> qualidade do <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span>, amplia vulnerabilidades sociais e exp\u00f5e falhas persistentes no funcionamento do sistema financeiro.<\/div>\n<div>\nOs n\u00fameros ajudam <span class=\"il\">a<\/span> dimensionar o problema. <span class=\"il\">A<\/span> <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span> da carteira de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> para pessoas f\u00edsicas ultrapassou 5% no come\u00e7o do ano e est\u00e1 em patamar equivalente ao registrado em 2012. Nas linhas de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> livre \u2014 mais acess\u00edveis e bem mais caras \u2014 <span class=\"il\">a<\/span> <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span> m\u00e9dia \u00e9 ainda maior, chegando na casa dos 7%. Quando ampliamos <span class=\"il\">a<\/span> lupa e olhamos para <span class=\"il\">a<\/span> <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span> do cart\u00e3o de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> rotativo, o <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> mais caro da economia brasileira (pelo menos no mercado legal), <span class=\"il\">a<\/span> <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span> j\u00e1 ultrapassa o n\u00edvel de 60% e vem crescendo fortemente desde 2021.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<\/div>\n<div>\u00c0 primeira vista, o quadro atual \u00e9 desconcertante. O desemprego est\u00e1 em m\u00ednima hist\u00f3rica, <span class=\"il\">a<\/span> ocupa\u00e7\u00e3o aumentou e <span class=\"il\">a<\/span> renda m\u00e9dia real dos consumidores avan\u00e7ou nos \u00faltimos anos. Em tese, esse deveria ser um ambiente mais favor\u00e1vel para <span class=\"il\">a<\/span> adimpl\u00eancia. \u00c9 justamente por isso que <span class=\"il\">a<\/span> alta da <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span> tem intrigado quem acompanha o tema: ela prospera quando os indicadores mais intuitivos do mercado de trabalho apontam noutra dire\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>\nEsse aparente paradoxo ajuda <span class=\"il\">a<\/span> localizar <span class=\"il\">a<\/span> raiz do problema. <span class=\"il\">A<\/span> escalada da <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span> das fam\u00edlias nos \u00faltimos anos decorre menos de um n\u00edvel elevado do endividamento total e mais da qualidade desse endividamento. Em outras palavras, o problema est\u00e1 menos na quantidade de fam\u00edlias com d\u00edvidas, mas mais no tipo de d\u00edvida que elas est\u00e3o contraindo. O tra\u00e7o mais preocupante \u00e9 o crescente e desordenado endividamento em modalidades de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span>emergenciais e de curto prazo, sobretudo no <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> rotativo do cart\u00e3o de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> e do cheque especial.<\/div>\n<div>\nIsso ajuda <span class=\"il\">a<\/span> separar sintoma de causa. \u00c9 exatamente nesse segmento de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> rotativo de acesso f\u00e1cil que se concentram os juros mais altos, os prazos mais curtos e o maior potencial de desorganiza\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento familiar. Ali\u00e1s, essa \u00e9 uma boa regra de bolso: quanto maior <span class=\"il\">a<\/span> facilidade para usar uma linha de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span>, mais cara ela ser\u00e1. E quando entendemos que as fam\u00edlias est\u00e3o abusando das linhas de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> mais caras da economia brasileira, ao mesmo tempo que o Brasil tem o patamar geral de juros entre os mais elevados do mundo, compreendemos que estamos endividando as nossas fam\u00edlias com taxas de juros entre as mais elevadas do mundo. Sob essa perspectiva, \u00e9 f\u00e1cil entender por que as fam\u00edlias brasileiras, de acordo com dados do Banco Central, comprometem cerca de 30% da renda familiar com o pagamento de servi\u00e7os da d\u00edvida.<\/div>\n<div>\nE quando analisamos o padr\u00e3o de consumo das fam\u00edlias \u2013 que claramente est\u00e1 mudando desde <span class=\"il\">a<\/span> pandemia, com o consumo cada vez mais intensivo de diversos servi\u00e7os digitais (streamings, aplicativos de transporte, aplicativos de refei\u00e7\u00e3o, bets, encomendas internacionais, jogos online etc.) \u2013 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel apontar nenhum consumo espec\u00edfico como determinante para o aumento generalizado da <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span>.<\/div>\n<div>\nVeja, por exemplo, o caso das bets, apontado em an\u00e1lises recentes como <span class=\"il\">a<\/span> catapulta da atual crise nacional de <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span>. Apesar da crescente visibilidade e do crescimento do consumo de apostas de quota fixa \u2013 em um fen\u00f4meno que nada difere dos fen\u00f4menos de crescimento dos streamings ou dos diversos aplicativos de compras online \u2013 seu impacto agregado na economia e no consumo geral das fam\u00edlias \u00e9 bastante limitado. Segundo dados oficiais da Secretaria de Pr\u00eamios e Apostas do Minist\u00e9rio da Fazenda (SPA-MF), o gasto agregado das fam\u00edlias brasileiras com bets legais em 2025 representou cerca de 0,46% do consumo agregado das fam\u00edlias (medido pelo IBGE dentro das Contas Nacionais de 2025). E, mais, esse gasto representa cerca de metade do consumo agregado de streaming e menos de um ter\u00e7o do consumo agregado de aparelhos de celular e acess\u00f3rios. Em resumo, do mesmo modo que n\u00e3o faz sentido afirmar que <span class=\"il\">a<\/span> <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span> das fam\u00edlias tem como fator determinante gastos com streaming e celulares, n\u00e3o faz sentido tal afirma\u00e7\u00e3o para bets.<\/div>\n<div>\nNa verdade, o que os dados evidenciam com clareza \u00e9 que o crescimento da <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span> n\u00e3o se explica pelas escolhas de consumo das fam\u00edlias, mas pelas escolhas sobre como elas contratam o <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> que est\u00e1 financiando esse consumo. Ou seja, n\u00e3o existe reorganiza\u00e7\u00e3o na cesta de consumo que neutralize um problema que \u00e9 inerente ao atual modelo do mercado de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> brasileiro. Nem mesmo um programa amplo de renegocia\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas ser\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o definitiva.<\/div>\n<div>\nNo contexto atual, o <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> rotativo de curto prazo \u2013 em vez de funcionar como instrumento de enfrentamento pontual das emerg\u00eancias da vida ou de antecipa\u00e7\u00e3o pontual de consumo, at\u00e9 que haja tempo h\u00e1bil para uma tomada de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> mais atrativa \u2013 passa <span class=\"il\">a<\/span> operar como instrumento recorrente de amplia\u00e7\u00e3o do consumo e, consequentemente, vira um mecanismo permanente de compress\u00e3o da renda, empurrando milh\u00f5es de consumidores para uma din\u00e2mica de rolagem cada vez mais insustent\u00e1vel.<\/div>\n<div>\nEm grande medida, esse cen\u00e1rio tamb\u00e9m se explica pela r\u00e1pida expans\u00e3o da bancariza\u00e7\u00e3o e da oferta de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> no Brasil \u2013 como mais um efeito da acelera\u00e7\u00e3o do processo de digitaliza\u00e7\u00e3o da sociedade nos anos p\u00f3s-pandemia \u2013 que ampliou o acesso da popula\u00e7\u00e3o <span class=\"il\">a<\/span> instrumentos financeiros mais sofisticados. Isso \u00e9 positivo e deve ser celebrado! O problema \u00e9 que esse processo n\u00e3o foi acompanhado, na mesma velocidade, de educa\u00e7\u00e3o financeira e de capacidade concreta das fam\u00edlias de lidarem com m\u00faltiplas obriga\u00e7\u00f5es num ambiente de juros proibitivos, em que n\u00e3o h\u00e1 margem de erro. O acesso avan\u00e7ou mais r\u00e1pido do que o aprendizado. E, nesse descompasso, o <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> f\u00e1cil se transformou, para muitos, em <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> perigoso.<\/div>\n<div>\nEm s\u00edntese: juros excessivamente caros, uso desordenado de linhas de <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span> rotativo e dificuldade das fam\u00edlias para lidar com esse tipo de endividamento explicam n\u00e3o apenas o descompasso entre emprego, renda e <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span>, mas, principalmente, <span class=\"il\">a<\/span> disparada recente da <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span>. N\u00e3o se trata de um desajuste pontual <span class=\"il\">a<\/span> ser simplesmente remediado. Trata-se de problemas estruturais hist\u00f3ricos e de uma din\u00e2mica de consumo alicer\u00e7ada em incentivos mal posicionados.<\/div>\n<div>\nIsso n\u00e3o significa que <span class=\"il\">a<\/span> proposta de um programa federal amplo de renegocia\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas das fam\u00edlias seja descart\u00e1vel. Pode aliviar o passivo acumulado, reduzir danos imediatos e reinserir parte das fam\u00edlias na vida financeira saud\u00e1vel. Mas \u00e9 preciso reconhecer seu limite: renegocia\u00e7\u00e3o \u00e9 rem\u00e9dio posterior. Atenua os efeitos, n\u00e3o elimina as causas.<\/div>\n<div>\n<span class=\"il\">A<\/span> solu\u00e7\u00e3o duradoura exige atacar <span class=\"il\">a<\/span> estrutura do problema. Isso passa por reduzir o custo do <span class=\"il\">cr\u00e9dito<\/span>, aumentar <span class=\"il\">a<\/span> concorr\u00eancia e <span class=\"il\">a<\/span> transpar\u00eancia, desestimular o uso recorrente de modalidades rotativas como extens\u00e3o da renda e tratar educa\u00e7\u00e3o financeira como parte da infraestrutura econ\u00f4mica do pa\u00eds. O Brasil n\u00e3o reduzir\u00e1 <span class=\"il\">a<\/span> <span class=\"il\">inadimpl\u00eancia<\/span> de forma consistente e duradoura renegociando d\u00edvidas velhas ou interferindo nas escolhas de consumo das fam\u00edlias. Vai conseguir quando criar as condi\u00e7\u00f5es estruturais que diminuam <span class=\"il\">a<\/span> oferta e demanda, em larga escala, de d\u00edvidas ruins.<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O avan\u00e7o recente da inadimpl\u00eancia das fam\u00edlias voltou, com raz\u00e3o, ao centro da agenda econ\u00f4mica. 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