{"id":22647,"date":"2026-05-06T09:00:22","date_gmt":"2026-05-06T12:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/06\/estado-debate-influenciadores-como-se-eles-nao-existissem\/"},"modified":"2026-05-06T09:00:22","modified_gmt":"2026-05-06T12:00:22","slug":"estado-debate-influenciadores-como-se-eles-nao-existissem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/05\/06\/estado-debate-influenciadores-como-se-eles-nao-existissem\/","title":{"rendered":"Estado debate influenciadores como se eles n\u00e3o existissem"},"content":{"rendered":"<p>O mercado brasileiro de influ\u00eancia digital movimenta R$ 22 bilh\u00f5es por ano (Hypereditor, 2026), cresceu 12% no \u00faltimo ciclo e re\u00fane 3,8 milh\u00f5es de profissionais (Influencer Marketing Hub, 2024). \u00c9 um setor que atravessa sa\u00fade p\u00fablica, educa\u00e7\u00e3o, consumo, pol\u00edtica e cultura. E, nos \u00faltimos anos, o Estado brasileiro finalmente come\u00e7ou a prestar aten\u00e7\u00e3o nele, embora ainda tenha dificuldades para interpret\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Recentemente, o notici\u00e1rio foi tomado pela Opera\u00e7\u00e3o Rifa Limpa, que investiga sorteios ilegais e lavagem de dinheiro envolvendo os influenciadores Chrys Dias e Raphael Sousa, do perfil de fofoca Choquei. Para al\u00e9m das manchetes policiais, esses epis\u00f3dios refor\u00e7am uma crise de identidade na categoria ao aprofundar um processo de \u201ccontamina\u00e7\u00e3o\u201d por associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\">Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/a><\/p>\n<p>Como revela a pesquisa \u201cVozes da Influ\u00eancia\u201d (Portas; Souza, 2026), um dos maiores temores do criador de conte\u00fado profissional \u00e9 ser reduzido ao estigma do \u201cinfluenciador\u201d \u2013 um termo que, no imagin\u00e1rio popular e agora no notici\u00e1rio policial, tornou-se sin\u00f4nimo de enriquecimento r\u00e1pido e falta de \u00e9tica e transpar\u00eancia. Quando o Estado interv\u00e9m apenas de forma reativa e penal, ele acaba por chancelar esse arqu\u00e9tipo, ignorando a massa de trabalhadores que busca desvincular sua imagem da ostenta\u00e7\u00e3o vazia para construir uma carreira baseada na credibilidade.<\/p>\n<p>O descompasso entre o que o Estado v\u00ea e o que o criador vive \u00e9 sistem\u00e1tico. Enquanto o Congresso Nacional acumula 88 projetos de lei sobre o tema (com acelera\u00e7\u00e3o expressiva a partir de 2024), como mostra o relat\u00f3rio \u201cDo Feed ao Plen\u00e1rio\u201d (Ramos<em> et. al,<\/em> 2025), o foco recai quase sempre na puni\u00e7\u00e3o e no controle. A aten\u00e7\u00e3o existe, mas o que falta \u00e9 escuta.<\/p>\n<h3>Uma profiss\u00e3o que n\u00e3o sabe o pr\u00f3prio nome<\/h3>\n<p>O primeiro achado da pesquisa \u201cVozes da Influ\u00eancia\u201d \u00e9 revelador dessa crise: a maioria dos entrevistados rejeita o termo \u201cinfluenciador\u201d. Preferem \u201ccriador de conte\u00fado\u201d, \u201ccomunicador\u201d ou \u201cartista\u201d. A palavra carrega uma conota\u00e7\u00e3o de superficialidade, algu\u00e9m cuja fun\u00e7\u00e3o se resume a vender ilus\u00f5es de <em>lifestyle,<\/em> produtos de origem duvidosa ou que prejudicam a sa\u00fade das pessoas.<\/p>\n<p>Casos de repercuss\u00e3o criminal, como os das rifas e bets, refor\u00e7am justamente essa identidade que os profissionais \u00e9ticos tentam evitar. Essa disputa n\u00e3o \u00e9 apenas sem\u00e2ntica; ela afeta a credibilidade com a audi\u00eancia e a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o coletiva. Uma categoria que n\u00e3o consegue se nomear de forma consensual e que \u00e9 constantemente associada a um estigma ruim ter\u00e1 dificuldades imensas em negociar os termos de sua pr\u00f3pria regula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>A vulnerabilidade que o debate regulat\u00f3rio ignora<\/h3>\n<p>Para al\u00e9m desses questionamentos, h\u00e1, ainda, o cotidiano da precariza\u00e7\u00e3o. Os criadores descrevem um mercado estruturalmente assim\u00e9trico: marcas que imp\u00f5em prazos de pagamento longos e ag\u00eancias que concentram o poder de barganha.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio \u201cDo Feed ao Planalto\u201d (Ramos; Balby; Brombine, 2025) revela que o Executivo Federal usa esses profissionais como \u201cmegafones\u201d para vacina\u00e7\u00e3o ou turismo, mas n\u00e3o desenvolveu iniciativas de empreendedorismo digital ou outras pol\u00edticas de incentivo. N\u00e3o existe sequer um CNAE espec\u00edfico para a atividade, o que torna invi\u00e1vel criar pol\u00edticas fiscais ou prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria para um setor onde 75% da for\u00e7a de trabalho \u00e9 feminina.<\/p>\n<h3>O custo que ningu\u00e9m contabiliza e o papel do Judici\u00e1rio<\/h3>\n<p>O terceiro eixo \u00e9 a sa\u00fade mental. Press\u00e3o por engajamento e exposi\u00e7\u00e3o a discursos de \u00f3dio criam um cen\u00e1rio de esgotamento desses profissionais. <em>\u201cO tempo todo [as pessoas] est\u00e3o esperando voc\u00ea escorregar numa casca de banana. E a\u00ed tem um momento na vida que voc\u00ea n\u00e3o tem mais estrutura emocional para isso\u201d<\/em>, comentou um criador na pesquisa \u201cVozes da Influ\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Essa vulnerabilidade emocional \u00e9 agravada por uma ambival\u00eancia institucional que o estudo \u201cDo Feed aos Tribunais\u201d (Garrote <em>et. al,<\/em> 2026) ajuda a desvendar. Diferentemente do Legislativo e do Executivo que operam com l\u00f3gicas reativas ou instrumentais, o Judici\u00e1rio brasileiro n\u00e3o opera com reatividade ou omiss\u00e3o. Em vez disso, ele alterna \u201clentes\u201d conforme o caso: ora enxerga o influenciador pela lente do trabalho e da atividade econ\u00f4mica, ora pela lente do il\u00edcito e do risco social.<\/p>\n<p>Essa instabilidade jur\u00eddica fica clara quando observamos como os criadores recorrem aos tribunais. Na aus\u00eancia de suporte eficiente das plataformas, o Judici\u00e1rio tornou-se o \u201cbalc\u00e3o de socorro\u201d para profissionais que tentam reaver o acesso a contas hackeadas ou perfis suspensos sem explica\u00e7\u00e3o. Nesses processos, a Justi\u00e7a \u00e9 procurada com o fim de reconhecer a atividade como forma de subsist\u00eancia econ\u00f4mica, e a relev\u00e2ncia do pronto restabelecimento da conta.<\/p>\n<p>O reconhecimento da natureza profissional do criador de conte\u00fado nos tribunais se d\u00e1 de forma fragmentada. O mesmo judici\u00e1rio que protege o acesso \u00e0 conta pode, em outro contexto, utilizar a \u201cvitrine\u201d das redes sociais para presumir um padr\u00e3o de vida elevado ou um potencial de gera\u00e7\u00e3o de dano social. Em casos espec\u00edficos, o Judici\u00e1rio j\u00e1 come\u00e7ou a tatear essa distin\u00e7\u00e3o, entre o que \u00e9 fato e o que \u00e9 performance nas redes \u2014 como em decis\u00f5es que diferenciam a ostenta\u00e7\u00e3o digital (muitas vezes uma ferramenta de marketing) da realidade financeira real do indiv\u00edduo para fins de justi\u00e7a gratuita.<\/p>\n<h2>O abismo entre o \u201cfeed\u201d e a lei<\/h2>\n<p>Colocados lado a lado, os quatro estudos do Reglab descrevem um descompasso sistem\u00e1tico. O Legislativo v\u00ea o influenciador como um problema moral; o Executivo, como ferramenta de comunica\u00e7\u00e3o; o Judici\u00e1rio, como uma categoria difusa e pouco sistematizada.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\">Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/a><\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios criadores descrevem uma profiss\u00e3o marcada por vulnerabilidades e um custo humano invis\u00edvel. Casos como o da Opera\u00e7\u00e3o Rifa Limpa tendem a alimentar a narrativa de que influenciadores precisam de mais controle. O que os dados mostram, contudo, \u00e9 que a crise de identidade do setor \u00e9 alimentada pela falta de pol\u00edticas p\u00fablicas pr\u00f3prias e que eventual regula\u00e7\u00e3o sem escuta dos influenciadores produzir\u00e1 pol\u00edticas inadequadas, mantendo um mercado bilion\u00e1rio operando sob a sombra do estigma e da inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><em>Este artigo \u00e9 baseado em quatro estudos produzidos pelo Reglab \u2013 Centro de Estrat\u00e9gia e Regula\u00e7\u00e3o: \u201cDo Feed ao Plen\u00e1rio\u201d (2025), \u201cDo Feed ao Planalto\u201d (2025), \u201cDo Feed aos Tribunais\u201d (2026) e \u201cVozes da Influ\u00eancia\u201d (2026), o \u00faltimo em parceria com o Redes Cordiais. Todos os estudos est\u00e3o dispon\u00edveis em reglab.com.br<\/em><\/p>\n<p>GARROTE, M.; PORTAS, I. A.; NOMURA, D. N.; BROMBINE, G. Do Feed aos Tribunais: o Judici\u00e1rio brasileiro e os Influenciadores Digitais. Radar Reglab. n. 4. S\u00e3o Paulo: Reglab, 2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/reglab.com.br\/do-feed-aos-tribunais-influenciadores-judiciario<\/p>\n<p>HYPEAUDITOR. State of Influencer Marketing 2026. [S. l.]: HypeAuditor, 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/hypeauditor.com\/pt\/uploaded-files\/state-of-im-2026.pdf\">https:\/\/hypeauditor.com\/pt\/uploaded-files\/state-of-im-2026.pdf<\/a>. Acesso em: 23 abr. 2026.<\/p>\n<p>INFLUENCER MARKETING HUB. Influencer Marketing Benchmark Report 2024. [S. l.]: Influencer Marketing Hub, 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/influencermarketinghub.com\/influencer-marketing-benchmark-report\/. Acesso em: 23 abr. 2026.<\/p>\n<p>PORTAS, I. A.; SOUZA, S. M. Vozes da Influ\u00eancia: percep\u00e7\u00f5es de criadores digitais sobre identidade, mercado e responsabilidade. S\u00e3o Paulo: Reglab\/Redes Cordiais, 2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/reglab.com.br\/vozes-da-influencia-criadores-de-conteudo\/<\/p>\n<p>RAMOS, P. H. R.; BALBY, L. BROMBINE, G. Do Feed ao Planalto: o Executivo Federal e os Influenciadores Digitais. Radar Reglab. n. 4. S\u00e3o Paulo: Reglab, 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/reglab.com.br\/novo-relatorio-reglab-poder-executivo-federal-e-as-lacunas-de-politica-publica-para-influenciadores-digitais\/<\/p>\n<p>RAMOS, P. H. R.; GARROTE, M.; BROMBINE, G.; SOUZA, S. Do Feed ao Plen\u00e1rio: o debate sobre regulamenta\u00e7\u00e3o de influenciadores Digitais no Congresso Nacional. Radar Reglab. n. 2. S\u00e3o Paulo: Reglab, 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/reglab.com.br\/feed-ao-plenario\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mercado brasileiro de influ\u00eancia digital movimenta R$ 22 bilh\u00f5es por ano (Hypereditor, 2026), cresceu 12% no \u00faltimo ciclo e re\u00fane 3,8 milh\u00f5es de profissionais (Influencer Marketing Hub, 2024). \u00c9 um setor que atravessa sa\u00fade p\u00fablica, educa\u00e7\u00e3o, consumo, pol\u00edtica e cultura. 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