{"id":22192,"date":"2026-04-19T05:58:38","date_gmt":"2026-04-19T08:58:38","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/19\/regimes-de-resolucao-no-brasil-evidencias-de-um-modelo-orientado-a-liquidacao\/"},"modified":"2026-04-19T05:58:38","modified_gmt":"2026-04-19T08:58:38","slug":"regimes-de-resolucao-no-brasil-evidencias-de-um-modelo-orientado-a-liquidacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/19\/regimes-de-resolucao-no-brasil-evidencias-de-um-modelo-orientado-a-liquidacao\/","title":{"rendered":"Regimes de resolu\u00e7\u00e3o no Brasil: evid\u00eancias de um modelo orientado \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O sistema financeiro brasileiro disp\u00f5e de instrumentos destinados ao tratamento de crises em institui\u00e7\u00f5es financeiras, especialmente a interven\u00e7\u00e3o, o Regime de Administra\u00e7\u00e3o Especial Tempor\u00e1ria (RAET) e a liquida\u00e7\u00e3o extrajudicial. Esses mecanismos foram concebidos a partir de uma l\u00f3gica dual, voltada tanto \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da estabilidade do sistema quanto \u00e0 retirada ordenada de institui\u00e7\u00f5es invi\u00e1veis do mercado.<\/p>\n<p>Embora o desenho normativo contemple essas duas dimens\u00f5es, a an\u00e1lise emp\u00edrica dos dados do <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/banco-central\">Banco Central<\/a> revela um desbalanceamento relevante. Na pr\u00e1tica, a liquida\u00e7\u00e3o extrajudicial emerge como desfecho predominante dos regimes especiais, indicando uma dist\u00e2ncia entre a estrutura te\u00f3rica do sistema e sua aplica\u00e7\u00e3o concreta.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Os dados extra\u00eddos da base p\u00fablica do Banco Central indicam um total de 1.002 regimes analisados, dos quais aproximadamente 759 correspondem \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o extrajudicial, 178 \u00e0 interven\u00e7\u00e3o e apenas 65 ao RAET. Em termos percentuais, cerca de 75% dos casos resultam em liquida\u00e7\u00e3o, 18% em interven\u00e7\u00e3o e apenas 6% em RAET. Esses n\u00fameros evidenciam, de forma clara, a centralidade da liquida\u00e7\u00e3o no funcionamento pr\u00e1tico do sistema.<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>A an\u00e1lise temporal dos regimes revela um comportamento igualmente relevante. Observa-se um pico significativo de utiliza\u00e7\u00e3o nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, per\u00edodo marcado por elevada infla\u00e7\u00e3o, instabilidade macroecon\u00f4mica e crises banc\u00e1rias recorrentes. Nesse contexto, o uso intensivo de regimes especiais refletia a necessidade de resposta estatal a um ambiente financeiro altamente vol\u00e1til.<\/p>\n<p>A partir dos anos 2000, verifica-se uma redu\u00e7\u00e3o substancial no n\u00famero de regimes decretados. Esse movimento est\u00e1 associado ao fortalecimento da regula\u00e7\u00e3o prudencial, \u00e0 estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e ao amadurecimento institucional do sistema financeiro brasileiro. Ainda assim, a estrutura dos regimes permaneceu essencialmente inalterada, mantendo caracter\u00edsticas concebidas em um contexto hist\u00f3rico distinto.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da distribui\u00e7\u00e3o quantitativa, a an\u00e1lise qualitativa dos dados revela a aus\u00eancia de um ciclo consistente de recupera\u00e7\u00e3o institucional. N\u00e3o se observa, de forma relevante, casos em que institui\u00e7\u00f5es tenham ingressado em regimes especiais e retornado ao mercado em condi\u00e7\u00f5es normais de opera\u00e7\u00e3o. Mesmo quando medidas preventivas s\u00e3o adotadas, observa-se frequentemente sua evolu\u00e7\u00e3o para liquida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica sugere que os regimes, na pr\u00e1tica, n\u00e3o operam como instrumentos de revers\u00e3o da crise, mas como etapas intermedi\u00e1rias de um processo que culmina na retirada da institui\u00e7\u00e3o do sistema financeiro. O modelo, portanto, revela uma voca\u00e7\u00e3o mais orientada \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o do que \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A baixa efetividade dos regimes preventivos pode ser explicada por fatores estruturais. No caso da interven\u00e7\u00e3o, os efeitos jur\u00eddicos da medida impactam diretamente a confian\u00e7a dos agentes econ\u00f4micos. A suspens\u00e3o de obriga\u00e7\u00f5es e as restri\u00e7\u00f5es operacionais dificultam a continuidade das atividades, comprometendo a viabilidade da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O RAET, embora concebido como instrumento de preserva\u00e7\u00e3o da atividade, apresenta utiliza\u00e7\u00e3o reduzida e n\u00e3o demonstra capacidade consistente de revers\u00e3o da crise. Sua aplica\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica, n\u00e3o tem sido suficiente para evitar a evolu\u00e7\u00e3o para regimes mais gravosos.<\/p>\n<p>As medidas prudenciais previstas na Lei 9.447\/1997 tamb\u00e9m enfrentam limita\u00e7\u00f5es relevantes. Sua implementa\u00e7\u00e3o depende da atua\u00e7\u00e3o de agentes privados, como acionistas ou potenciais adquirentes, o que condiciona sua efetividade \u00e0 exist\u00eancia de interesse de mercado. Na aus\u00eancia desse interesse, a solu\u00e7\u00e3o tende a evoluir para a liquida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, a liquida\u00e7\u00e3o extrajudicial assume papel central no funcionamento do modelo brasileiro. Sua elevada incid\u00eancia indica que o sistema, embora estruturado como progressivo, opera, na pr\u00e1tica, como mecanismo de retirada de institui\u00e7\u00f5es invi\u00e1veis do mercado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a experi\u00eancia demonstra elevado grau de judicializa\u00e7\u00e3o do regime, com impactos financeiros relevantes para o Banco Central, decorrentes de lit\u00edgios associados \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o extrajudicial. Esse fator refor\u00e7a a percep\u00e7\u00e3o de que o modelo n\u00e3o apenas privilegia a liquida\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m apresenta custos relevantes em sua execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O caso do grupo Master ilustra de forma concreta essa din\u00e2mica. O grupo era estruturado em torno do Banco Master S.A., do Banco Master M\u00faltiplo S.A. e da Will Financeira. Diante do agravamento da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-financeira, foi aplicada inicialmente solu\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter preservacionista, com a ado\u00e7\u00e3o do RAET no Banco Master M\u00faltiplo.<\/p>\n<p>Entretanto, a deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es operacionais, especialmente no \u00e2mbito da Will Financeira, comprometeu a viabilidade do grupo. A tentativa de recupera\u00e7\u00e3o mostrou-se insuficiente, culminando na liquida\u00e7\u00e3o das principais entidades. O caso evidencia que, mesmo quando instrumentos preventivos s\u00e3o empregados, a aus\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es estruturais para a recupera\u00e7\u00e3o conduz, em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise emp\u00edrica dos dados do Banco Central permite concluir que o modelo brasileiro de resolu\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria, embora estruturado a partir de uma l\u00f3gica dual entre preserva\u00e7\u00e3o e liquida\u00e7\u00e3o, opera, na pr\u00e1tica, com predomin\u00e2ncia desta \u00faltima.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o de aproximadamente 75% dos casos em liquida\u00e7\u00e3o, aliada \u00e0 aus\u00eancia de evid\u00eancia consistente de recupera\u00e7\u00e3o institucional, indica que os regimes especiais n\u00e3o t\u00eam sido eficazes na promo\u00e7\u00e3o da continuidade das institui\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n<p>Nesse contexto, imp\u00f5e-se a reflex\u00e3o sobre a necessidade de aperfei\u00e7oamento do modelo, especialmente no que se refere \u00e0 efetividade dos instrumentos preventivos e \u00e0 capacidade de implementa\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es que conciliem estabilidade sist\u00eamica e preserva\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref1\">[1]<\/a> BANCO CENTRAL DO BRASIL. Consulta de regimes especiais. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.bcb.gov.br\/estabilidadefinanceira\/consulta_regesp?Regesp_Internet_page=1&amp;CnpjNull=true<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sistema financeiro brasileiro disp\u00f5e de instrumentos destinados ao tratamento de crises em institui\u00e7\u00f5es financeiras, especialmente a interven\u00e7\u00e3o, o Regime de Administra\u00e7\u00e3o Especial Tempor\u00e1ria (RAET) e a liquida\u00e7\u00e3o extrajudicial. Esses mecanismos foram concebidos a partir de uma l\u00f3gica dual, voltada tanto \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da estabilidade do sistema quanto \u00e0 retirada ordenada de institui\u00e7\u00f5es invi\u00e1veis do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22192"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22192"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22192\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}