{"id":22137,"date":"2026-04-16T13:10:31","date_gmt":"2026-04-16T16:10:31","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/16\/por-que-a-invasao-da-venezuela-nao-chocou-os-brasileiros\/"},"modified":"2026-04-16T13:10:31","modified_gmt":"2026-04-16T16:10:31","slug":"por-que-a-invasao-da-venezuela-nao-chocou-os-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/16\/por-que-a-invasao-da-venezuela-nao-chocou-os-brasileiros\/","title":{"rendered":"Por que a invas\u00e3o da Venezuela n\u00e3o chocou os brasileiros?"},"content":{"rendered":"<p>De acordo com <a href=\"https:\/\/quaest.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/GENIALQUAESTJAN26VENEZUELA.pdf\">pesquisa<\/a> Quaest divulgada em janeiro, quase metade dos brasileiros aprova a invas\u00e3o dos Estados Unidos na Venezuela, enquanto a maioria rejeita a condena\u00e7\u00e3o feita pelo presidente Lula. O medo de que o Brasil \u201cvire uma Venezuela\u201d segue mobilizando eleitores, mais entre lulistas do que entre bolsonaristas \u2014 sobre essa rela\u00e7\u00e3o, vale lembrar das tens\u00f5es recentes geradas pelo tarifa\u00e7o de Donald Trump, discutidas anteriormente <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/para-alem-do-estado-e-do-direito\/os-brasileiros-estao-mais-interessados-em-politica-externa\">nesta coluna<\/a>.<\/p>\n<p>Contudo, a percep\u00e7\u00e3o dos brasileiros sobre a Venezuela nem sempre foi negativa. Durante os anos 2000, Hugo Ch\u00e1vez e Lula pareciam ser os grandes l\u00edderes da esquerda latino-americana. Portanto, de onde vem essa avalia\u00e7\u00e3o cada vez mais negativa da opini\u00e3o p\u00fablica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Venezuela?<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>O impacto do ataque estadunidense ao pa\u00eds vizinho demonstra que a pol\u00edtica externa deixou de ser um assunto restrito a diplomatas. Tanto nas ruas quanto nas principais redes sociais, os brasileiros est\u00e3o debatendo esse fato internacional e suas poss\u00edveis consequ\u00eancias para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2026.<\/p>\n<p>Embora o Brasil tenha constru\u00eddo ao longo do tempo a imagem de uma na\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e diplom\u00e1tica, o debate p\u00fablico recente mostra opini\u00f5es cada vez mais intensas dos brasileiros sobre assuntos internacionais, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Venezuela <a href=\"https:\/\/repositorio.ufpe.br\/handle\/123456789\/246\">(Lira, 2025)<\/a>.<\/p>\n<h2>As rela\u00e7\u00f5es Brasil-Venezuela<\/h2>\n<p>Parte dessa mudan\u00e7a est\u00e1 associada \u00e0 atua\u00e7\u00e3o das elites pol\u00edticas, que passaram a expressar publicamente avalia\u00e7\u00f5es cr\u00edticas sobre o pa\u00eds vizinho desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010, influenciando a forma como o tema passou a circular no debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>Mesmo antes do bolsonarismo existir como movimento pol\u00edtico, a direita brasileira tradicional \u2013 na \u00e9poca, PSDB e DEM \u2013 utilizava o risco de \u201cvenezualiza\u00e7\u00e3o\u201d do Brasil para alertar a opini\u00e3o p\u00fablica sobre a perman\u00eancia do PT no poder.<\/p>\n<p>A entrada da Venezuela de Ch\u00e1vez no Mercosul, em 2012, apoiada pelo governo brasileiro na \u00e9poca, tornou-se um ponto de inflex\u00e3o: governo e oposi\u00e7\u00e3o, liderados pelo PT e pelo PSDB, respectivamente, transformaram a pol\u00edtica externa em arena de disputa pol\u00edtica interna, cujos sinais passaram a ser interpretados e reproduzidos pela opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<h2>Como chegamos at\u00e9 aqui?<\/h2>\n<p>A continuidade do regime sob Nicol\u00e1s Maduro aprofundou a politiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es exteriores brasileiras. O agravamento do autoritarismo e da crise econ\u00f4mica na Venezuela desencadeou uma onda migrat\u00f3ria para pa\u00edses vizinhos, incluindo o Brasil, com efeitos diretos nos estados fronteiri\u00e7os. Em 2015, Roraima decretou situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia diante do aumento expressivo do fluxo de imigrantes venezuelanos em sua fronteira, evidenciando como a crise regional passou a gerar impactos concretos na agenda dom\u00e9stica brasileira.<\/p>\n<p>A crise migrat\u00f3ria levou o tema ao centro da agenda pol\u00edtica. A nova Lei de Migra\u00e7\u00e3o, aprovada em 2017, ampliou direitos, mas provocou rea\u00e7\u00e3o de grupos da direita, que passaram a enquadrar a imigra\u00e7\u00e3o como uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a nacional, o que acabou por resultar em vetos \u00e0 lei. Em 2018, esse discurso ganhou for\u00e7a e se traduziu em epis\u00f3dios de viol\u00eancia contra venezuelanos, sobretudo em Roraima.<\/p>\n<p>Esse contexto ajuda a explicar a mudan\u00e7a nas percep\u00e7\u00f5es sobre a imigra\u00e7\u00e3o no Brasil. Embora o pa\u00eds registre historicamente baixo fluxo migrat\u00f3rio, o Censo de 2022 aponta crescimento no n\u00famero de imigrantes latino-americanos, especialmente venezuelanos. A participa\u00e7\u00e3o desse grupo saltou de 27,3% em 2010 para 72% em 2022. Ao mesmo tempo, estudos recentes indicam um aumento de atitudes negativas em rela\u00e7\u00e3o aos imigrantes.<\/p>\n<p>Contudo, pesquisas de opini\u00e3o realizadas entre 2014 e 2023 pelo <a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1Vq275i3ek9Kc-Ds9tcj36EuMRc_X4gPp\/view\">projeto<\/a> \u201cO Brasil, as Am\u00e9ricas e o mundo\u201d (BAM) mostram que, apesar de pequenas oscila\u00e7\u00f5es, a avalia\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a de estrangeiros permanece majoritariamente positiva <a href=\"https:\/\/repositorio.ufpe.br\/handle\/123456789\/246\">(Lira, 2025)<\/a>.<\/p>\n<h2>O que mudou nos \u00faltimos anos<\/h2>\n<p>Nos \u00faltimos anos, a polariza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m passou a influenciar a pol\u00edtica externa brasileira. Temas internacionais entraram na disputa pol\u00edtico-partid\u00e1ria para mobilizar eleitores, e a Venezuela tornou-se seu principal s\u00edmbolo. Governado pela esquerda desde 1999 e alvo dos EUA, o pa\u00eds \u00e9 frequentemente usado como exemplo de autoritarismo e de colapso econ\u00f4mico. No Brasil, a aproxima\u00e7\u00e3o com Caracas foi associada aos governos do PT e explorada por advers\u00e1rios, popularizando slogans como \u201co Brasil n\u00e3o vai virar Venezuela\u201d, recorrente desde 2018.<\/p>\n<p>A ret\u00f3rica parece ter surtido efeito. Houve uma mudan\u00e7a significativa nas percep\u00e7\u00f5es dos brasileiros ao longo do tempo. A Figura 1 mostra uma queda consistente na avalia\u00e7\u00e3o da Venezuela: em 2010, predominavam opini\u00f5es positivas, enquanto, em 2023, o pa\u00eds passou a ser majoritariamente avaliado negativamente.<\/p>\n<p>Observa-se ainda o aumento das avalia\u00e7\u00f5es mais intensamente negativas e uma redu\u00e7\u00e3o expressiva da taxa de n\u00e3o resposta, indicando que os brasileiros passaram a expressar mais sua opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a tamb\u00e9m se reflete na forma como os brasileiros avaliam as rela\u00e7\u00f5es exteriores do Brasil com a Venezuela. A partir de 2019, o pa\u00eds passa a ser cada vez mais percebido como uma amea\u00e7a, segundo dados do <a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1Vq275i3ek9Kc-Ds9tcj36EuMRc_X4gPp\/view\">BAM (2023)<\/a>.<\/p>\n<p>Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria a partir dos dados do Latinobar\u00f4metro (2010-2023)<\/p>\n<p>Em conjunto, esses dados indicam um cen\u00e1rio de polariza\u00e7\u00e3o, em que a rela\u00e7\u00e3o entre o Brasil e a Venezuela \u00e9 majoritariamente percebida como de \u201camizade\u201d ou \u201camea\u00e7a\u201d, com pouco espa\u00e7o para avalia\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias.<\/p>\n<p>O padr\u00e3o sugere que a avalia\u00e7\u00e3o sobre a Venezuela acompanha a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dom\u00e9stica, \u00e0 medida que os discursos das elites, majoritariamente cr\u00edticos, passam a orientar a forma como o tema \u00e9 interpretado pela opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<h2>Uma coisa \u00e9 os EUA, outra \u00e9 Trump<\/h2>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos, os brasileiros parecem fazer uma distin\u00e7\u00e3o que nem sempre aparece no debate pol\u00edtico: enquanto t\u00eam uma percep\u00e7\u00e3o positiva do pa\u00eds, rejeitam seu presidente. Essa clivagem j\u00e1 se impunha desde 2017 e se acentuou nos dados mais recentes, com menos indecis\u00e3o e mais opini\u00f5es extremas, sugerindo uma crescente solidifica\u00e7\u00e3o dos julgamentos.<\/p>\n<p>Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria a partir dos dados do Latinobar\u00f4metro (2017 e 2023)<\/p>\n<p>Os dados indicam que, embora os sinais das elites sejam centrais para moldar a opini\u00e3o p\u00fablica no Brasil, eles n\u00e3o s\u00e3o convergentes no caso dos Estados Unidos. A direita tende a avaliar os EUA positivamente, a extrema direita personaliza essa rela\u00e7\u00e3o em torno de Trump, como ilustrou Jair Bolsonaro ao declarar \u201c<em>I love you<\/em>\u201d em 2019, e a esquerda mant\u00e9m uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, hoje pouco mobilizadora. Esse desalinhamento ajuda a explicar por que a imagem dos EUA permanece relativamente est\u00e1vel, sem se traduzir em forte polariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso da Venezuela, o sinal das elites \u00e9 mais n\u00edtido e polarizado. H\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, a direita, e depois o bolsonarismo, utiliza o pa\u00eds como atalho cognitivo para alertar contra governos de esquerda. \u00c0 esquerda, o posicionamento \u00e9 mais amb\u00edguo: embora Lula nunca tenha sido pr\u00f3ximo de Maduro, o PT seguiu reconhecendo o regime chavista. A aus\u00eancia de um sinal claro entre as elites progressistas tornou a Venezuela um tema politicamente custoso no debate eleitoral e cada vez mais isolado no debate brasileiro.<\/p>\n<h2>Conclus\u00e3o<\/h2>\n<p>O sequestro de Maduro no terceiro dia do ano foi um recado claro de Washington sobre a \u201cnova ordem mundial\u201d. Retirar um presidente de um pa\u00eds soberano \u00e0 for\u00e7a \u00e9 algo grav\u00edssimo para as normas formais e informais das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. O Brasil, que sempre defendeu a autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos e o respeito ao direito internacional, tem relativizado a quest\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Os <a href=\"https:\/\/quaest.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/GENIALQUAESTJAN26VENEZUELA.pdf\">dados<\/a> da Quaest mostram uma ruptura na opini\u00e3o p\u00fablica em rela\u00e7\u00e3o a todos esses elementos. A partir da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dom\u00e9stica, as pessoas se sentem \u00e0 vontade para naturalizar os ataques estadunidenses, mesmo sem simpatizar com Trump. A imagem negativa da Venezuela e do regime chavista foi constru\u00edda ao longo de anos pelas elites e acabou se cristalizando na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando a pol\u00edtica externa entra na l\u00f3gica da polariza\u00e7\u00e3o, o custo \u00e9 claro. Em nome da disputa interna, parte da opini\u00e3o p\u00fablica aceita o que antes seria inaceit\u00e1vel. A pol\u00edtica dom\u00e9stica passou a falar mais alto do que as regras do sistema internacional.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De acordo com pesquisa Quaest divulgada em janeiro, quase metade dos brasileiros aprova a invas\u00e3o dos Estados Unidos na Venezuela, enquanto a maioria rejeita a condena\u00e7\u00e3o feita pelo presidente Lula. 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