{"id":22019,"date":"2026-04-13T12:58:56","date_gmt":"2026-04-13T15:58:56","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/13\/tributacao-de-remessas-internacionais-relativas-a-servicos-puros-sob-a-cdt-argentina-brasil\/"},"modified":"2026-04-13T12:58:56","modified_gmt":"2026-04-13T15:58:56","slug":"tributacao-de-remessas-internacionais-relativas-a-servicos-puros-sob-a-cdt-argentina-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/13\/tributacao-de-remessas-internacionais-relativas-a-servicos-puros-sob-a-cdt-argentina-brasil\/","title":{"rendered":"Tributa\u00e7\u00e3o de remessas internacionais relativas a servi\u00e7os puros sob a CDT Argentina-Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Em uma economia marcada pela internacionaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode ignorar o fato de que as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas perpassam fronteiras. No contexto da Am\u00e9rica do Sul n\u00e3o poderia ser diferente e por isso o Acordo de Dupla Tributa\u00e7\u00e3o vigente entre Brasil e Argentina (CDT) se mostra t\u00e3o relevante.<\/p>\n<p>Tome-se como exemplos pagamentos realizados por empresas residentes no Brasil para servi\u00e7os de assist\u00eancia administrativa prestados por entidades residentes na Argentina, a fim de determinar a adequa\u00e7\u00e3o da reten\u00e7\u00e3o do imposto de renda na fonte. Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o bastante corriqueira no dia a dia empresarial, mas que ainda suscita disputas relevantes quanto a sua tributa\u00e7\u00e3o frente ao CDT, como se pode ver no <a href=\"https:\/\/processo.stj.jus.br\/repetitivos\/temas_repetitivos\/pesquisa.jsp?novaConsulta=true&amp;tipo_pesquisa=T&amp;cod_tema_inicial=1287&amp;cod_tema_final=1287\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tema 1287<\/a>, pendente de julgamento no Superior Tribunal de Justi\u00e7a (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/stj\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">STJ<\/a>).<\/p>\n<p>Mais especificamente, os referidos pagamentos costumam ser originados de diversos servi\u00e7os prestados transnacionalmente, inclusive intragrupo, a exemplo de servi\u00e7os de assist\u00eancia administrativa em \u00e1reas como finan\u00e7as, compras, recursos humanos, marketing, distribui\u00e7\u00e3o e vendas. Suas caracter\u00edsticas essenciais s\u00e3o: (i) presta\u00e7\u00e3o inteiramente fora do Brasil; (ii) aus\u00eancia de transfer\u00eancia de tecnologia ou <em>know-how<\/em>; (iii) aus\u00eancia de transfer\u00eancia de direitos sobre intang\u00edveis; e (iv) natureza de apoio dentro do grupo empresarial.<\/p>\n<p>Nesse contexto, as quest\u00f5es tribut\u00e1rias relevantes focam em dois aspectos fundamentais que devem ser analisados sob a perspectiva da hermen\u00eautica convencional, \u00e0 luz dos coment\u00e1rios sobre os modelos da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/ocde\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">OCDE<\/a>) e da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/busca\/onu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ONU<\/a>): a classifica\u00e7\u00e3o dos pagamentos derivados desses servi\u00e7os sob a CDT; e o consequente poder de tributar do Brasil para tributar tais pagamentos por meio de reten\u00e7\u00e3o de imposto de renda na fonte<\/p>\n<h2>Classifica\u00e7\u00e3o sob a CDT e o poder de tributar do Brasil<\/h2>\n<p>O CDT, seguindo os Modelos da OCDE e da ONU, estabelece regras de distribui\u00e7\u00e3o da compet\u00eancia tribut\u00e1ria entre o Estado de origem e o de resid\u00eancia. O Artigo VII regula a tributa\u00e7\u00e3o dos lucros empresariais, prevendo que sejam tributados exclusivamente no Estado de resid\u00eancia da empresa, salvo se esta exer\u00e7a atividade no outro Estado por meio de estabelecimento permanente. De acordo com a interpreta\u00e7\u00e3o consolidada na doutrina internacional, nos Coment\u00e1rios da OCDE e da ONU, bem como na jurisprud\u00eancia e pr\u00e1tica administrativa de ambos os Estados signat\u00e1rios, o conceito de lucros empresariais tem um amplo escopo que inclui qualquer renda derivada do exerc\u00edcio de uma atividade empresarial, incluindo expressamente os lucros da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Tamb\u00e9m se reconhece que, na aus\u00eancia de uma disposi\u00e7\u00e3o espec\u00edfica no acordo que regule determinado tipo de lucro, os lucros empresariais se enquadram no escopo do Artigo 7 (ou VII, segundo o numeral romano adotado no CDT).<\/p>\n<p>Os servi\u00e7os de apoio administrativo analisados n\u00e3o se enquadram em outras disposi\u00e7\u00f5es do CDT, como profiss\u00f5es aut\u00f4nomas, regras especiais para categorias espec\u00edficas de servi\u00e7os, ou cl\u00e1usula de outras rendas. Tamb\u00e9m n\u00e3o possuem as caracter\u00edsticas essenciais para sua qualifica\u00e7\u00e3o como royalties sob o Artigo XII, \u00e0 luz das considera\u00e7\u00f5es que seguem.<\/p>\n<h2>Inaplicabilidade do regime de royalties<\/h2>\n<p>Royalties, conforme o Artigo XII(3) do CDT, envolvem remunera\u00e7\u00e3o pelo uso ou direito de uso de propriedade intelectual, ou pela transfer\u00eancia de <em>know-how<\/em> quando h\u00e1 transfer\u00eancia de tecnologia. A defini\u00e7\u00e3o abrange pagamentos pelo uso de direitos autorais, patentes, marcas registradas, f\u00f3rmulas ou procedimentos secretos, equipamentos industriais, comerciais ou cient\u00edficos, e informa\u00e7\u00f5es relativas a experi\u00eancias industriais, comerciais ou cient\u00edficas.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/tributos?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_tributos_q2&amp;utm_id=cta_texto_tributos_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_tributos&amp;utm_term=cta_texto_tributos_meio_materias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Tributos, plataforma de monitoramento tribut\u00e1rio para empresas e escrit\u00f3rios com decis\u00f5es e movimenta\u00e7\u00f5es do Carf, STJ e STF<\/a><\/p>\n<p>Conforme os Coment\u00e1rios da OCDE e da ONU, a defini\u00e7\u00e3o de royalties se aplica a pagamentos pelo uso ou direito de uso dos direitos mencionados, abrangendo tanto pagamentos sob licen\u00e7a quanto compensa\u00e7\u00e3o por c\u00f3pia ou infra\u00e7\u00e3o de direitos. A diferen\u00e7a entre o tratamento tribut\u00e1rio dos royalties e a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os puros \u00e9 evidente: a remunera\u00e7\u00e3o pela transfer\u00eancia de conhecimento ou pelo direito de usar um intang\u00edvel est\u00e1 na base de todas as situa\u00e7\u00f5es do Artigo XII(3). Os servi\u00e7os analisados n\u00e3o implicam transfer\u00eancia de tecnologia ou <em>know-how<\/em>, n\u00e3o incluem transfer\u00eancia de direitos sobre intang\u00edveis, nem s\u00e3o acess\u00f3rios a opera\u00e7\u00f5es dessa natureza, sendo portanto inadequada sua classifica\u00e7\u00e3o como royalties.<\/p>\n<h2><strong>O Protocolo de Emenda de 2018<\/strong><\/h2>\n<p>O Artigo 20 do Protocolo de Emenda de 2018 ao CDT Brasil-Argentina estabelece que as disposi\u00e7\u00f5es do par\u00e1grafo 3 do Artigo XII se aplicam \u00e0 renda proveniente da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os t\u00e9cnicos e assist\u00eancia t\u00e9cnica, cient\u00edfica, administrativa ou similar. A presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os t\u00e9cnicos \u00e9 definida como execu\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os dependentes de conhecimento t\u00e9cnico especializado, incluindo assist\u00eancia administrativa, consultoria, ou aconselhamento permanente pelo cedente de processo ou f\u00f3rmula secreta que permita o uso efetivo do processo ou f\u00f3rmula atribu\u00edda.<\/p>\n<p>O objetivo desta regra \u00e9 esclarecer e evitar fragmenta\u00e7\u00e3o contratual nos casos em que a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os t\u00e9cnicos seja fundamental para contratos remunerados por royalties. Assim, independentemente da aplica\u00e7\u00e3o do conceito de servi\u00e7o t\u00e9cnico, tal servi\u00e7o s\u00f3 pode ser tratado como royalty se houver rela\u00e7\u00e3o entre o servi\u00e7o e um evento econ\u00f4mico que se enquadre no Artigo XII(3) \u2014 ou seja, uma transfer\u00eancia de conhecimento ou o direito de usar um intang\u00edvel.<\/p>\n<p>Essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ada pelo fato de que outros acordos de dupla tributa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neos ao CDT \u2013 como os celebrados com a Su\u00ed\u00e7a e a Noruega-, por meio de seus protocolos, prev\u00eaem expressamente a inclus\u00e3o de rendimentos provenientes de assist\u00eancia t\u00e9cnica e de servi\u00e7os t\u00e9cnicos no \u00e2mbito do Artigo XII. A refer\u00eancia do Protocolo de Emenda tinha a inten\u00e7\u00e3o de esclarecer que royalties inclu\u00edam presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os com transfer\u00eancia de tecnologia ou <em>know-how<\/em>, n\u00e3o de expandir o escopo a servi\u00e7os sem tal transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>As interpreta\u00e7\u00f5es internas no Brasil que tentaram expandir o escopo da tributa\u00e7\u00e3o sobre servi\u00e7os sem transfer\u00eancia de conhecimento se deparam com o contexto da CDT e a impossibilidade de decidir unilateralmente expandir o poder de tributar que a CDT n\u00e3o concede. Essa interpreta\u00e7\u00e3o brasileira tamb\u00e9m colide com o conceito de assist\u00eancia t\u00e9cnica na Argentina, que se refere \u00e0 transfer\u00eancia efetiva de conhecimento e tecnologia do provedor para aplica\u00e7\u00e3o \u00e0 atividade produtiva. \u00c9 evidente, ent\u00e3o, que o significado compartilhado pelas Partes da cl\u00e1usula prevista no referido Protocolo de Emenda sob o coment\u00e1rio nunca poderia ter sido aquele que vem sendo dado pelas autoridades brasileiras, haja vista que o significado expresso no Protocolo de Emenda \u00e9 simples esclarecimento em rela\u00e7\u00e3o ao artigo original XII (3), que de forma alguma estende seu escopo de aplica\u00e7\u00e3o \u00e0 assist\u00eancia t\u00e9cnica ou servi\u00e7os t\u00e9cnicos que n\u00e3o transfiram conhecimento e que, como tal, deveria qualificar-se como servi\u00e7os puros sob o Artigo VII do CDT.<\/p>\n<p>O Coment\u00e1rio ao Artigo 12 do Modelo da OCDE refor\u00e7a a distin\u00e7\u00e3o: no contrato de <em>know-how<\/em>, uma parte concorda em passar \u00e0 outra conhecimento e expertise n\u00e3o divulgados ao p\u00fablico, diferindo dos contratos de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os puros, nos quais uma parte usa habilidades pr\u00f3prias para realizar trabalhos para outra. Pagamentos sob contratos de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os geralmente se enquadram no Artigo 7.<\/p>\n<p>Assim, para as situa\u00e7\u00f5es em que as remessas internacionais derivadas de servi\u00e7os puros sejam classificadas como lucro empresarial e que os prestadores de servi\u00e7o n\u00e3o possuam estabelecimento permanente no Brasil, n\u00e3o h\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o espec\u00edfica que prevale\u00e7a sobre o Artigo VII do CDT. Conclui-se que, quando os servi\u00e7os prestados constituem servi\u00e7os puros, tais como os servi\u00e7os de assist\u00eancia t\u00e9cnica sem transfer\u00eancia de tecnologia: (i) os lucros devem ser classificados como lucros empresariais nos termos do Artigo VII; e (ii) o regime de royalties n\u00e3o \u00e9 aplic\u00e1vel por aus\u00eancia de transfer\u00eancia de tecnologia ou direitos sobre intang\u00edveis. Na medida em que o prestador argentino n\u00e3o possua estabelecimento permanente no Brasil, o poder de tributar corresponde exclusivamente ao Estado de resid\u00eancia e, portanto, o Brasil n\u00e3o tem compet\u00eancia para tributar tais pagamentos por meio de reten\u00e7\u00e3o na fonte.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma economia marcada pela internacionaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode ignorar o fato de que as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas perpassam fronteiras. No contexto da Am\u00e9rica do Sul n\u00e3o poderia ser diferente e por isso o Acordo de Dupla Tributa\u00e7\u00e3o vigente entre Brasil e Argentina (CDT) se mostra t\u00e3o relevante. Tome-se como exemplos pagamentos realizados por empresas residentes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22019"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22019"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22019\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22019"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22019"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22019"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}