{"id":21949,"date":"2026-04-09T19:01:23","date_gmt":"2026-04-09T22:01:23","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/09\/agrotoxico-ilegal-abastece-o-campo-brasileiro-com-logistica-e-faccao-por-tras\/"},"modified":"2026-04-09T19:01:23","modified_gmt":"2026-04-09T22:01:23","slug":"agrotoxico-ilegal-abastece-o-campo-brasileiro-com-logistica-e-faccao-por-tras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/09\/agrotoxico-ilegal-abastece-o-campo-brasileiro-com-logistica-e-faccao-por-tras\/","title":{"rendered":"Agrot\u00f3xico ilegal abastece o campo brasileiro com log\u00edstica e fac\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p>Os defensivos agr\u00edcolas se tornaram uma frente estrat\u00e9gica para a infiltra\u00e7\u00e3o do crime organizado no agroneg\u00f3cio brasileiro, com riscos que preocupam o setor. Esse \u00e9 um dos mercados il\u00edcitos das organiza\u00e7\u00f5es criminosas, que migraram das cidades para se fixar no interior e \u00e1reas rurais, com log\u00edsticas pr\u00f3prias e neg\u00f3cios rent\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, organiza\u00e7\u00f5es criminosas como o Primeiro Comando da Capital (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/pcc\">PCC<\/a>) passaram a disputar territ\u00f3rios nas zonas agr\u00edcolas, onde encontram infraestrutura consolidada para o transporte, menor presen\u00e7a do Estado e cadeias produtivas com grande circula\u00e7\u00e3o financeira, de acordo com diagn\u00f3stico do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP).<\/p>\n<p>\u201cEssa combina\u00e7\u00e3o cria oportunidades para que \u00e1reas agr\u00edcolas funcionem como hubs log\u00edsticos para diferentes mercados il\u00edcitos\u201d, explica Leonardo Silva, pesquisador s\u00eanior do FBSP. O mercado de defensivos agr\u00edcolas ilegais \u00e9 uma das mais novas minas de ouro da interioriza\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/inteligencia.jota.info\/economia-legal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conhe\u00e7a a newsletter especial Economia Legal sobre como a inseguran\u00e7a p\u00fablica impacta seu setor e como se antecipar \u00e0 manchete.<\/a><\/p>\n<p>Esses produtos se movimentam por elos log\u00edsticos pr\u00f3prios do crime organizado, que formam a chamada \u201cRota Caipira\u201d, conectando fronteiras ao interior do pa\u00eds. Dados da <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/Receita%20Federal\">Receita Federal<\/a> e da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/PRF\">PRF<\/a>) obtidos pelo <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong>, somados a levantamentos do setor, d\u00e3o pistas sobre o espa\u00e7o ocupado por esse mercado ilegal.<\/p>\n<p>O volume total de agrot\u00f3xicos apreendidos nas rodovias federais, incluindo produtos contrabandeados, falsificados, adulterados ou sem registro no pa\u00eds, chegou a 127 toneladas em 2025, mais do que o dobro das 62,9 toneladas apreendidas em 2024. Antes, em 2023, o volume se aproximava de 200 toneladas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, as apreens\u00f5es de agrot\u00f3xicos irregulares pela Receita cresceram 55% entre 2020 e 2025, atingindo R$ 16,4 milh\u00f5es. Mas o pico foi em 2023, com quase R$ 60 milh\u00f5es apreendidos.<\/p>\n<p>As oscila\u00e7\u00f5es nas apreens\u00f5es n\u00e3o indicam, necessariamente, quedas nesse mercado ilegal, mas subnotifica\u00e7\u00e3o e limita\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os de controle. \u201cOs n\u00fameros variam conforme o foco das opera\u00e7\u00f5es e as prioridades estrat\u00e9gicas. Em alguns per\u00edodos, a fiscaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 direcionada para determinados tipos de il\u00edcitos ou regi\u00f5es espec\u00edficas, o que pode influenciar o volume de apreens\u00f5es\u201d, explica o chefe do setor de enfrentamento aos crimes transfronteiri\u00e7os da PRF, Thiago de Castro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a detec\u00e7\u00e3o pelas autoridades \u00e9 complexa: os defensivos s\u00e3o ocultados como outras mercadorias, enviados em pequenas cargas ou fragmentados. O uso de estradas vicinais e vias secund\u00e1rias tamb\u00e9m tem sido uma estrat\u00e9gia de sucesso para evitar fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes, a identifica\u00e7\u00e3o exige conhecimento t\u00e9cnico espec\u00edfico. Sem essa qualifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil distinguir um produto falsificado ou irregular apenas pela an\u00e1lise visual\u201d, afirma Castro.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros da Receita Federal sugerem ainda que mercado ilegal de defensivos agr\u00edcolas n\u00e3o se restringe a rotas rodovi\u00e1rias, mas envolve cadeias internacionais de fornecimento e distribui\u00e7\u00e3o. A concentra\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica das apreens\u00f5es refor\u00e7a esse ponto.<\/p>\n<p>No ano passado, as maiores apreens\u00f5es ocorreram em cidades como Eldorado (MS), quase na fronteira com o Paraguai; e em Boa Vista, capital pr\u00f3xima \u00e0 divisa com a Venezuela e Guiana. Em 2026, o padr\u00e3o se mant\u00e9m, com Mato Grosso do Sul, Goi\u00e1s e Rio Grande do Sul entre os estados com maior n\u00famero de apreens\u00f5es at\u00e9 agora.<\/p>\n<h2>Oportunidades de mercado<\/h2>\n<p>Tradicionalmente, as regi\u00f5es de fronteira com Paraguai e Bol\u00edvia, funcionam como principal porta de entrada do contrabando de drogas, armas e cigarros. Essas rotas foram ent\u00e3o adotadas para o tr\u00e1fico de defensivos agr\u00edcolas ilegais, que se conectam \u00e0 malha de transporte do agroneg\u00f3cio leg\u00edtimo.<\/p>\n<p>\u201cAs organiza\u00e7\u00f5es criminosas aproveitam a infraestrutura log\u00edstica j\u00e1 existente para ampliar a distribui\u00e7\u00e3o de insumos agr\u00edcolas ilegais\u201d, comenta Nilto Mendes, gerente de Combate a Produtos Ilegais da CropLife Brasil.<\/p>\n<p>Assim, a Rota Caipira do crime usa um corredor log\u00edstico que atravessa desde as fronteiras do Mato Grosso do Sul e Paran\u00e1, at\u00e9 polos agr\u00edcolas de Goi\u00e1s, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e S\u00e3o Paulo. Ela tamb\u00e9m se formou a partir de uma oportunidade de mercado: uma ampla e pulverizada infraestrutura rodovi\u00e1ria, justamente para o escoamento da produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, somada a brechas de fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora o uso desse corredor por organiza\u00e7\u00f5es como o PCC seja conhecido, especialistas apontam que o enfrentamento \u00e9 afetado pela extens\u00e3o territorial, multiplicidade de vias secund\u00e1rias e a adapta\u00e7\u00e3o constante das organiza\u00e7\u00f5es criminosas.<\/p>\n<p>Essa rede opera com divis\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es, envolvendo transportadoras, caminh\u00f5es e intermedi\u00e1rios locais para pulverizar a distribui\u00e7\u00e3o e confundir a fiscaliza\u00e7\u00e3o, segundo as investiga\u00e7\u00f5es. Para impedir que os produtos sejam rastreados, elas falsificam r\u00f3tulos e reutilizam embalagens. Por fim, o mercado do insumo agr\u00edcola se consolidou como um dos elos de lavagem de dinheiro das fac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Contudo, a estrat\u00e9gia log\u00edstica e operacional n\u00e3o foi um \u00fanico fator a permitir que esse mercado florescesse. O pr\u00f3prio desenvolvimento do agroneg\u00f3cio brasileiro gera uma demanda sempre crescente por insumos agr\u00edcolas, o que, na falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o mais robusta sobre os materiais aplicados pelos produtores, fomentou a atratividade do mercado ilegal de defensivos.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Agricultura e Pecu\u00e1ria (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/MAPA\">MAPA<\/a>) \u00e9 respons\u00e1vel por opera\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o e controle sobre o uso de defens\u00edvos agr\u00edcolas, mas a avali\u00e7\u00e3o do setor \u00e9 que os pre\u00e7os baixos, aliados a lacunas na fiscaliza\u00e7\u00e3o e na rastreabilidade, facilitam a ades\u00e3o ao mercado ilegal.<\/p>\n<p>A pesquisadora do Ipea Maria Paula Gomes dos Santos comenta que o avan\u00e7o faz parte de uma estrat\u00e9gia mais ampla do crime organizado. \u201cAs organiza\u00e7\u00f5es criminosas t\u00eam buscado novos mercados com alta circula\u00e7\u00e3o financeira e menor capacidade de fiscaliza\u00e7\u00e3o. O agroneg\u00f3cio re\u00fane essas caracter\u00edsticas\u201d, afirma.<\/p>\n<p>E a demanda n\u00e3o deve diminuir. Segundo o Sindicato Nacional da Ind\u00fastria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), a \u00e1rea tratada com defensivos deve alcan\u00e7ar 2,6 bilh\u00f5es de hectares em 2025, com crescimento de 6,1% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Nesse cen\u00e1rio, estimativas do setor indicam que produtos ilegais podem representar at\u00e9 um quinto do volume total de defensivos usados no Brasil<\/p>\n<p>A presen\u00e7a desses produtos, al\u00e9m de representar concorr\u00eancia desleal, cria riscos operacionais e comerciais para produtores e empresas, al\u00e9m de levantar preocupa\u00e7\u00f5es ambientais e sanit\u00e1rias. Produtos sem registro podem contaminar solos e mananciais, al\u00e9m de gerar res\u00edduos acima dos limites permitidos, por exemplo.<\/p>\n<p>Agora, uma nova preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a penetra\u00e7\u00e3o do crime possa ser facilitada pela press\u00e3o de pre\u00e7os exercida em fertilizantes e insumos agr\u00edcolas, devido a conflitos geopol\u00edticos. O in\u00edcio da Guerra no Ir\u00e3, em fevereiro, fez disparar o pre\u00e7o da ureia, utilizada na fabrica\u00e7\u00e3o de fertilizantes nitrogenados. Com isso, o produtor precisar\u00e1 cortar custos e pode ter um incentivo a mais para migrar para o mercado ilegal de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<h2>Combate \u00e0 nova fronteira do crime no agro<\/h2>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio e de seu papel estrat\u00e9gico, o mercado ilegal de defensivos agr\u00edcolas passou a ganhar mais prioridade no combate ao crime organizado. Ele ganhou aten\u00e7\u00e3o em iniciativas como o Programa Vigia, do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, e opera\u00e7\u00f5es integradas no \u00e2mbito do Plano Nacional de Fronteiras.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o conjunta entre for\u00e7as de seguran\u00e7a, aduana e fiscaliza\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria tamb\u00e9m tem aumentado as apreens\u00f5es e permitido mapear rotas utilizadas pelo crime organizado. Ainda assim, especialistas avaliam que a din\u00e2mica do crime organizado tem evolu\u00eddo de forma mais r\u00e1pida do que a capacidade de resposta do Estado.<\/p>\n<p>Nilto Mendes, da CropLife Brasil, aponta que, embora as apreens\u00f5es tenham aumentado, elas ainda n\u00e3o s\u00e3o suficientes para conter a expans\u00e3o das redes criminosas, j\u00e1 que elas operam com log\u00edstica estruturada e distribui\u00e7\u00e3o pulverizada.<\/p>\n<p>Na perspectiva da pesquisadora do Ipea Maria Paula Gomes dos Santos, o avan\u00e7o do crime organizado para atividades econ\u00f4micas legais, como cadeias produtivas agr\u00edcolas, e por meio de mecanismos de lavagem de dinheiro torna o combate ainda mais complexo. Isso exigiria esfor\u00e7os melhor coordenados.<\/p>\n<p>Nessa linha, um ponto cr\u00edtico \u00e9 a necessidade de integra\u00e7\u00e3o entre diferentes \u00f3rg\u00e3os, desde as for\u00e7as de seguran\u00e7a at\u00e9 a vigil\u00e2ncia agr\u00edcola. A aus\u00eancia de compartilhamento sistem\u00e1tico de dados e de estrat\u00e9gias conjuntas entre fiscaliza\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia e investiga\u00e7\u00e3o limita a capacidade de atua\u00e7\u00e3o. Ainda, em regi\u00f5es de fronteira, a coopera\u00e7\u00e3o internacional tamb\u00e9m \u00e9 essencial para reduzir a entrada de produtos ilegais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, esse combate passa por aprimorar a integra\u00e7\u00e3o entre for\u00e7as de seguran\u00e7a, fiscaliza\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria e intelig\u00eancia financeira, com foco na identifica\u00e7\u00e3o de redes de lavagem de dinheiro ligadas ao <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/agroneg%C3%B3cio\">agroneg\u00f3cio<\/a>. A recomenda\u00e7\u00e3o aparece em an\u00e1lises do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), reunidas no Boletim de An\u00e1lise Pol\u00edtico-Institucional, que apontam a necessidade de ampliar opera\u00e7\u00f5es conjuntas e fortalecer o monitoramento de rotas log\u00edsticas utilizadas pelo crime organizado, por exemplo.<\/p>\n<p>Com a conex\u00e3o t\u00e3o forte entre crime e demanda do agroneg\u00f3cio, o enfrentamento ao problema depender\u00e1 de estrat\u00e9gias integradas entre seguran\u00e7a p\u00fablica, fiscaliza\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas agr\u00edcolas.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os defensivos agr\u00edcolas se tornaram uma frente estrat\u00e9gica para a infiltra\u00e7\u00e3o do crime organizado no agroneg\u00f3cio brasileiro, com riscos que preocupam o setor. 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