{"id":21798,"date":"2026-04-06T05:03:11","date_gmt":"2026-04-06T08:03:11","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/06\/a-ia-acelera-a-escrita-mas-ainda-precisamos-escrever-tanto\/"},"modified":"2026-04-06T05:03:11","modified_gmt":"2026-04-06T08:03:11","slug":"a-ia-acelera-a-escrita-mas-ainda-precisamos-escrever-tanto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/06\/a-ia-acelera-a-escrita-mas-ainda-precisamos-escrever-tanto\/","title":{"rendered":"A IA acelera a escrita; mas ainda precisamos escrever tanto?"},"content":{"rendered":"<p><span>Na faculdade, aprendi que escrever bem era escrever dif\u00edcil. O texto rebuscado, a frase longa, o uso de express\u00f5es em latim eram as marcas de quem dominava o Direito. Havia quase um culto \u00e0 densidade: quanto mais complexa a linguagem da pe\u00e7a, mais s\u00e9ria parecia, mais legitimidade transmitia. Esse era o padr\u00e3o ensinado, admirado e reproduzido ao longo de gera\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span>O tempo do processo f\u00edsico deu lugar ao tempo do processo eletr\u00f4nico. A internet se entranhou nas nossas vidas e, com ela, consolidou-se uma sociedade conectada. Hoje o Brasil \u00e9 o segundo pa\u00eds do mundo em que as pessoas mais passam tempo conectadas \u00e0 internet: s\u00e3o 9 horas e 13 minutos por dia, em m\u00e9dia, sendo mais de 3 horas e meia dedicadas exclusivamente \u00e0s redes sociais.<\/span><span> \u00c9 uma sociedade que l\u00ea r\u00e1pido, l\u00ea pouco, l\u00ea no celular. Uma sociedade de textos curtos, de v\u00eddeos de 60 segundos, de notifica\u00e7\u00f5es que disputam aten\u00e7\u00e3o a cada instante.<\/span><\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p><span>\u00c9 nesse cen\u00e1rio que a intelig\u00eancia artificial generativa chegou aos escrit\u00f3rios de advocacia, procuradorias, defensorias e tribunais, prometendo ganhos de produtividade sem precedentes. E, de fato, <\/span><a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/brasil\/pesquisa-mostra-que-76-dos-advogados-usam-ia-para-elaboracao-de-pecas-processuais\/\"><span>pesquisa recente<\/span><\/a><span> indica que 76% dos advogados j\u00e1 usam IA generativa para elabora\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as processuais.<\/span><\/p>\n<p><span>Mais agilidade, mais produtividade. Tudo isso \u00e9 real e bem-vindo. Mas h\u00e1 uma pergunta que raramente aparece nesse entusiasmo: estamos usando a intelig\u00eancia artificial para melhorar a comunica\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e resolver problemas, ou apenas para escrever mais texto em menos tempo?<\/span><\/p>\n<h1>Se o processo \u00e9 eletr\u00f4nico, precisamos escrever tanto?<\/h1>\n<p><span>A incorpora\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial nos nossos processos de trabalho traz a oportunidade de repensar n\u00e3o apenas como, mas por que executamos nossas atividades. E quando pensamos nos porqu\u00eas, \u00e9 preciso lembrar que o desenho do processo judicial foi pensado para um mundo de papel e caneta.<\/span><\/p>\n<p><span>O fluxo era linear e f\u00edsico: o processo sa\u00eda de uma mesa, chegava \u00e0 pr\u00f3xima, aguardava despacho, voltava, seguia adiante. Cada etapa exigia um registro escrito porque era o \u00fanico meio de comunica\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel. O texto longo n\u00e3o era s\u00f3 uma escolha est\u00e9tica, era tamb\u00e9m uma necessidade operacional. Era o papel que carregava a informa\u00e7\u00e3o de um ponto ao outro.<\/span><\/p>\n<p><span>Quando o processo migrou para o ambiente eletr\u00f4nico, essa l\u00f3gica poderia ter sido repensada. No entanto, o que fizemos, em grande medida, foi digitalizar o papel. Os sistemas de processo eletr\u00f4nico n\u00e3o transformaram o modelo cartorial, colocaram-no em telas. Continuamos produzindo os mesmos documentos, com os mesmos formatos, para percorrer os mesmos caminhos, agora em PDF.<\/span><\/p>\n<p><span>No entanto, o ambiente digital abre possibilidades que o papel nunca teve. Um sistema eletr\u00f4nico pode trocar informa\u00e7\u00f5es por dados estruturados (campos preenchidos, formul\u00e1rios padronizados, respostas automatizadas). Tudo isso poderia tramitar e s\u00f3 gerar texto narrativo quando houvesse necessidade de fundamenta\u00e7\u00e3o humana. No entanto, o que fizemos foi exatamente o contr\u00e1rio: inserimos dados preciosos de forma n\u00e3o estruturada no processo, usando longos textos, e depois queremos usar IA para extrair esses dados dos documentos em PDF.<\/span><\/p>\n<p><span>E \u00e9 aqui que reside um dos limites mais vis\u00edveis da forma como a IA generativa foi incorporada ao processo jur\u00eddico at\u00e9 agora. Em vez de questionar se o modelo de comunica\u00e7\u00e3o processual ainda faz sentido, ela foi usada para turbinar esse mesmo modelo, produzindo texto mais r\u00e1pido e em maior volume. A prova de que essa l\u00f3gica deixou de fazer sentido \u00e9 que, na fase seguinte do processo, usamos IA para resumir o texto gerado nas etapas anteriores. Ou seja, a IA est\u00e1 sendo usada para gerar o longo texto que depois pedimos a ela para resumir.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Se o processo hoje acontece em telas, a forma como apresentamos a informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m poderia mudar. Em vez de longas narrativas lineares, \u00e9 poss\u00edvel comunicar melhor por meio de estruturas que dialogam com a forma como as pessoas leem no ambiente digital. Em vez de esconder a informa\u00e7\u00e3o em blocos densos de texto, \u00e9 poss\u00edvel torn\u00e1-la vis\u00edvel, naveg\u00e1vel e compreens\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span>O design jur\u00eddico prop\u00f5e exatamente isso: organizar conte\u00fados de maneira visual, clara e orientada \u00e0 compreens\u00e3o, utilizando elementos como estrutura\u00e7\u00e3o por t\u00f3picos, fluxos, tabelas, destaques e linguagem simplificada.<\/span><\/p>\n<p><span>A tecnologia dispon\u00edvel hoje, para al\u00e9m da IA generativa, permitiria repensar profundamente como a informa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica circula. No entanto, nosso olhar est\u00e1 mais voltado para o aumento da velocidade da escrita do que para as novas possibilidades que a tecnologia traz de reinventar a comunica\u00e7\u00e3o e o pr\u00f3prio tr\u00e2mite do processo. E talvez esse seja o verdadeiro salto que ainda n\u00e3o demos: sair de uma l\u00f3gica centrada na produ\u00e7\u00e3o de texto para uma l\u00f3gica centrada na comunica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<h1>Dif\u00edcil \u00e9 escrever simples<\/h1>\n<p><span>E nessa escrita jur\u00eddica agora acelerada pela IA, existe outra reflex\u00e3o importante que est\u00e1 por tr\u00e1s de um mito: o de que escrever dif\u00edcil \u00e9 sinal de intelig\u00eancia ou preparo t\u00e9cnico. No Direito, essa cren\u00e7a persiste com for\u00e7a particular. H\u00e1 um prazer quase est\u00e9tico no texto herm\u00e9tico, como se a complexidade da linguagem conferisse legitimidade \u00e0 complexidade do argumento.<\/span><\/p>\n<p><span>Mas qualquer pessoa que j\u00e1 tentou explicar um conceito jur\u00eddico dif\u00edcil de forma simples sabe que isso \u00e9 muito mais trabalhoso. Exige dom\u00ednio profundo do conte\u00fado, capacidade de s\u00edntese, empatia com quem vai ler e, acima de tudo, uma mudan\u00e7a de mentalidade: sair da l\u00f3gica (ego\u00edstica) de demonstrar conhecimento para a l\u00f3gica (emp\u00e1tica) de gerar compreens\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Escrever simples n\u00e3o \u00e9 abandonar a formalidade nem vulgarizar a linguagem. \u00c9 retirar o excesso sem perder o essencial \u2013 e isso exige mais, n\u00e3o menos, capacidade t\u00e9cnica. Exige desapegar do juridiqu\u00eas que mais serve ao ego de quem escreve do que ao entendimento de quem l\u00ea.<\/span><\/p>\n<p><span>N\u00e3o \u00e9 por acaso que o <\/span><span>Plain Language Movement<\/span><span> \u2014 o movimento pela linguagem simples \u2014 ganhou for\u00e7a em sistemas jur\u00eddicos ao redor do mundo e foi adotado como diretriz oficial em pa\u00edses como Estados Unidos, Reino Unido e Nova Zel\u00e2ndia.<\/span><span> No Brasil, recentemente, a Lei n\u00ba 15.263\/2025 instituiu a pol\u00edtica nacional de linguagem simples, estabelecendo diretrizes obrigat\u00f3rias para os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, como o uso de palavras comuns e de f\u00e1cil compreens\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>E, em se tratando de advocacia p\u00fablica, um bom exemplo seria pensarmos nos pareceres jur\u00eddicos. N\u00e3o basta que sejam longos, bonitos e demonstrem conhecimento. \u00c9 preciso, acima de tudo, que possam ser compreendidos pelo gestor p\u00fablico que precisa tomar uma decis\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<h1>Resolver problemas, n\u00e3o produzir texto<\/h1>\n<p><span>O sistema jur\u00eddico foi criado para resolver problemas. O processo \u00e9 o meio. O texto \u00e9 uma ferramenta dentro desse meio. Mas em algum momento parece que o texto ganhou vida pr\u00f3pria e passou a ser confundido com o resultado.<\/span><\/p>\n<p><span>A advocacia p\u00fablica vive um momento raro de redefini\u00e7\u00e3o. E esse momento exige uma pergunta mais profunda do que \u201ccomo incorporo a IA ao meu fluxo de trabalho?\u201d. Exige perguntar: <\/span><span>qual \u00e9, afinal, o nosso papel?<\/span><span> Somos profissionais que escrevem textos ou somos profissionais que resolvem problemas e, para isso, escrevem?<\/span><\/p>\n<p><span>A l\u00f3gica atual parece orientada por um equ\u00edvoco, que \u00e9 medir produtividade pelo volume de produ\u00e7\u00e3o textual. Mais p\u00e1ginas, mais pe\u00e7as, mais manifesta\u00e7\u00f5es. Com a IA generativa, esse equ\u00edvoco pode se tornar imenso, porque agora \u00e9 poss\u00edvel gerar mais volume com muito menos esfor\u00e7o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Isso exige uma mudan\u00e7a de mentalidade que n\u00e3o vem com a instala\u00e7\u00e3o de um software. Vem de uma decis\u00e3o institucional (e individual) sobre o que significa \u201cfazer bonito\u201d no Direito. \u00c9 sobre uma pergunta mais fundamental: nossa atua\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo compreendida por quem precisa dela? Estamos resolvendo problemas ou produzindo documentos sobre problemas?<\/span><\/p>\n<h1>Bonito \u00e9 o que resolve e o que se entende<\/h1>\n<p><span>A era de cultuar quem escreve dif\u00edcil acabou. A era de medir a qualidade do trabalho jur\u00eddico pelo n\u00famero de p\u00e1ginas tamb\u00e9m. Num processo que j\u00e1 \u00e9 eletr\u00f4nico, escrever muito e escrever complicado n\u00e3o \u00e9 sinal de excel\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p><span>Quando ju\u00edzes e advogados utilizam IA para escrever, o volume de texto s\u00f3 cresce. Quem faz bonito, no Direito de hoje, \u00e9 quem resolve o problema e consegue explicar isso de um jeito f\u00e1cil de entender.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Se a IA vai escrever conosco, que \u00e9 a forma mais honesta de colocar, ent\u00e3o que ela nos ajude a escrever de forma mais simples, compreens\u00edvel e direta. Que ela ajude a condensar em um par\u00e1grafo o que antes levaria tr\u00eas p\u00e1ginas. Que ela proponha vers\u00f5es mais claras da mesma informa\u00e7\u00e3o. Que ela seja treinada, configurada e usada n\u00e3o como ferramenta de produ\u00e7\u00e3o de volume, mas como aliada de uma comunica\u00e7\u00e3o jur\u00eddica desenhada para o ambiente digital e voltada \u00e0 sociedade dos dias de hoje.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na faculdade, aprendi que escrever bem era escrever dif\u00edcil. O texto rebuscado, a frase longa, o uso de express\u00f5es em latim eram as marcas de quem dominava o Direito. 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