{"id":21793,"date":"2026-04-05T05:58:21","date_gmt":"2026-04-05T08:58:21","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/05\/quando-o-descarte-falha-tjsp-e-responsabilizacao-pelo-desvio-de-dispositivos-medicos\/"},"modified":"2026-04-05T05:58:21","modified_gmt":"2026-04-05T08:58:21","slug":"quando-o-descarte-falha-tjsp-e-responsabilizacao-pelo-desvio-de-dispositivos-medicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/05\/quando-o-descarte-falha-tjsp-e-responsabilizacao-pelo-desvio-de-dispositivos-medicos\/","title":{"rendered":"Quando o descarte falha: TJSP e responsabiliza\u00e7\u00e3o pelo desvio de dispositivos m\u00e9dicos"},"content":{"rendered":"<p>O setor de dispositivos m\u00e9dicos \u00e9 um dos mais intensamente regulados no pa\u00eds. Da fabrica\u00e7\u00e3o \u00e0 importa\u00e7\u00e3o, da distribui\u00e7\u00e3o ao descarte, cada etapa da cadeia \u00e9 submetida a exig\u00eancias sanit\u00e1rias rigorosas, justamente porque qualquer desvio pode repercutir diretamente sobre a sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, a jurisprud\u00eancia criminal brasileira concentra-se, historicamente, em casos de falsifica\u00e7\u00e3o, adultera\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o, altera\u00e7\u00e3o, contrabando ou importa\u00e7\u00e3o irregular de produtos sujeitos \u00e0 vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria e destinados a fins terap\u00eauticos ou medicinais.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/saude?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_saude_q2&amp;utm_id=cta_texto_saude_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_saude&amp;utm_term=cta_texto_saude_meio_materias\"><span>Com not\u00edcias da Anvisa e da ANS, o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Sa\u00fade entrega previsibilidade e transpar\u00eancia para empresas do setor<\/span><\/a><\/p>\n<p>O recente ac\u00f3rd\u00e3o da 13\u00aa C\u00e2mara de Direito Criminal do Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/TJSP\">TJSP<\/a>), contudo, chama a aten\u00e7\u00e3o por destacar um ponto menos explorado \u2013 e n\u00e3o menos sens\u00edvel \u2013 dessa cadeia: o desvio de dispositivos m\u00e9dicos que haviam sido regularmente destinados \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2><strong>Um caso fora do padr\u00e3o cl\u00e1ssico<\/strong><\/h2>\n<p>No julgamento da Apela\u00e7\u00e3o Criminal 1517035-79.2019.8.26.0050, o TJSP manteve a condena\u00e7\u00e3o de quatro r\u00e9us pelo crime previsto no artigo 273, \u00a71\u00ba-B, incisos V e VI, do C\u00f3digo Penal, em raz\u00e3o da comercializa\u00e7\u00e3o de mais de 500 tesouras cir\u00fargicas de proced\u00eancia ignorada, adquiridas de estabelecimento sem licen\u00e7a sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O ponto que singulariza o caso n\u00e3o est\u00e1 apenas na tipifica\u00e7\u00e3o penal \u2013 j\u00e1 conhecida nos crimes contra a sa\u00fade p\u00fablica \u2013, mas na origem dos produtos. As tesouras n\u00e3o eram falsificadas. Eram dispositivos m\u00e9dicos aut\u00eanticos, fabricados por empresa regularmente estabelecida e importados de forma l\u00edcita. Tampouco havia, segundo narrou o ac\u00f3rd\u00e3o, qualquer evid\u00eancia de falha material relacionada \u00e0 seguran\u00e7a ou \u00e0 efic\u00e1cia do produto.<\/p>\n<p>Ainda assim, os dispositivos haviam sido corretamente destinados ao descarte pela importadora, em raz\u00e3o de problemas no n\u00famero de s\u00e9rie identificados durante a fabrica\u00e7\u00e3o. A conduta da empresa, nesse ponto, foi considerada inteiramente l\u00edcita e compat\u00edvel com as boas pr\u00e1ticas regulat\u00f3rias.<\/p>\n<p>O crime surgiu depois.<\/p>\n<h2><strong>O desvio da cadeia de destrui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>O ac\u00f3rd\u00e3o reconstr\u00f3i com detalhes a cadeia paralela montada pelos acusados. N\u00e3o se tratou de um epis\u00f3dio isolado de posse ou tentativa oportunista de revenda. Conforme destacado pelo relator, <em>\u201cos acusados praticaram condutas que v\u00e3o muito al\u00e9m da simples importa\u00e7\u00e3o ou posse de produto sem registro\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Houve, segundo o TJSP, um esfor\u00e7o coordenado para a comercializa\u00e7\u00e3o das tesouras em larga escala, com negocia\u00e7\u00e3o ativa com pretensos compradores, organiza\u00e7\u00e3o de encontros presenciais, entrega de amostras e ajuste de valores expressivos. Os produtos, ainda conforme decidiu o Tribunal, <em>\u201csequer tinham origem l\u00edcita identificada, tampouco foram acompanhados de documenta\u00e7\u00e3o regular\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Esse ponto \u00e9 particularmente relevante tanto sob a \u00f3tica regulat\u00f3ria quanto sob a \u00f3tica penal. A licitude do produto em sua origem fabril n\u00e3o se confunde com a licitude de sua circula\u00e7\u00e3o. Uma vez exclu\u00eddo da cadeia autorizada \u2013 especialmente quando destinado \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o -, o dispositivo perde qualquer aptid\u00e3o jur\u00eddica para reingresso no mercado.<\/p>\n<p>Do ponto de vista estritamente criminal, a relev\u00e2ncia jur\u00eddica da conduta consiste na veda\u00e7\u00e3o \u00e0 livre circula\u00e7\u00e3o de produtos de proced\u00eancia ignorada e desacompanhados da correspondente documenta\u00e7\u00e3o fiscal ou autoriza\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria.<\/p>\n<h2><strong>O mercado paralelo e o risco sist\u00eamico<\/strong><\/h2>\n<p>Outro aspecto enfatizado no voto diz respeito \u00e0 consci\u00eancia da irregularidade. Para o TJSP, <em>\u201cquem adquire material hospitalar fora da cadeia autorizada sabe perfeitamente da irregularidade\u201d<\/em>. O fundamento \u00e9 simples e consistente: apenas fabricantes e distribuidores licenciados podem comercializar dispositivos m\u00e9dicos, sempre acompanhados de documenta\u00e7\u00e3o fiscal e certifica\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O ac\u00f3rd\u00e3o ainda faz refer\u00eancia a um <em>modus operandi<\/em> conhecido das autoridades: produtos destinados \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o s\u00e3o desviados e revendidos a pre\u00e7os vis, criando um mercado paralelo altamente lucrativo e dif\u00edcil de rastrear. Trata-se de um risco sist\u00eamico, que, segundo compreendeu o Tribunal, colocaria em xeque a sa\u00fade p\u00fablica como um todo, independentemente da aptid\u00e3o das tesouras para uso regular, e que, portanto, mereceria repress\u00e3o penal espec\u00edfica, mediante a imposi\u00e7\u00e3o de penas severas.<\/p>\n<p>O que se faz, no caso em quest\u00e3o, \u00e9 antecipar o \u00e2mbito de incid\u00eancia da tutela penal com o objetivo de evitar a ocorr\u00eancia de dano efetivo ao bem jur\u00eddico protegido.<\/p>\n<h2><strong>A t\u00eanue fronteira entre a regula\u00e7\u00e3o administrativa e a tutela penal<\/strong><\/h2>\n<p>Tratando-se de \u00e2mbito extremamente regulado, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que o eventual descumprimento do regramento legal e administrativo aplic\u00e1vel \u00e0 importa\u00e7\u00e3o, comercializa\u00e7\u00e3o e descarte de dispositivos m\u00e9dicos representa risco juridicamente relevante para todos os atores do setor.<\/p>\n<p>De igual maneira, n\u00e3o raras vezes esse descumprimento acabaria por resultar, tamb\u00e9m, em responsabilidade penal, notadamente nos casos de falsifica\u00e7\u00e3o e adultera\u00e7\u00e3o destes dispositivos ou produtos, em raz\u00e3o do evidente risco que poderiam representar \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>O precedente do TJSP, entretanto, vai al\u00e9m destas situa\u00e7\u00f5es e reconhece a relev\u00e2ncia penal da conduta em contexto no qual, apesar de n\u00e3o ter havido adultera\u00e7\u00e3o ou falsifica\u00e7\u00e3o, estavam as tesouras cir\u00fargicas desacompanhadas dos documentos sanit\u00e1rios capazes de atestar a sua origem. Entende n\u00e3o haver, portanto, \u201clegitimidade sanit\u00e1ria\u201d para o com\u00e9rcio das tesouras, mesmo sendo elas aut\u00eanticas e, em princ\u00edpio, aptas para uso.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese f\u00e1tica em discuss\u00e3o acende um alerta por representar uma antecipa\u00e7\u00e3o e uma amplia\u00e7\u00e3o significativas do espectro de incid\u00eancia do Direito Penal, atingindo n\u00e3o apenas as etapas de fabrica\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o destes produtos, mas, tamb\u00e9m, o seu descarte.<\/p>\n<p>Dito de outro modo, a decis\u00e3o do Tribunal Paulista aplica uma presun\u00e7\u00e3o de risco \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica a partir do marco legal representado pelo art. 273, \u00a71\u00ba-B, do C\u00f3digo Penal, que equipara a aus\u00eancia de rastreio da origem dos dispositivos \u00e0 sua efetiva adultera\u00e7\u00e3o ou falsifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pol\u00eamica desta conclus\u00e3o, parece-nos, fica por conta da pena a ser eventualmente aplicada. Sim, pois o tipo penal em quest\u00e3o prev\u00ea uma pena de 10 a 15 anos de reclus\u00e3o \u2013 que j\u00e1 \u00e9 bastante significativa e superior, inclusive, \u00e0 pena de delitos graves como tr\u00e1fico de drogas, lavagem de dinheiro e corrup\u00e7\u00e3o \u2013 para ambas as condutas, tanto de adultera\u00e7\u00e3o ou falsifica\u00e7\u00e3o, quanto para o com\u00e9rcio de produtos de proced\u00eancia ignorada, a indicar uma poss\u00edvel despropor\u00e7\u00e3o na aplica\u00e7\u00e3o da reprimenda penal.<\/p>\n<p>Da\u00ed porque torna-se especialmente relevante que se observe, com a devida aten\u00e7\u00e3o, os processos de descarte, terceiriza\u00e7\u00e3o e rastreabilidade de produtos regulados, inclusive no relacionamento entre fabricantes, empresas de log\u00edstica reversa e prestadores de servi\u00e7os de destrui\u00e7\u00e3o, como forma de mitigar riscos administrativos e penais.<\/p>\n<p>Ao afirmar que a comercializa\u00e7\u00e3o de produtos m\u00e9dicos destinados ao descarte configura crime contra a sa\u00fade p\u00fablica independentemente de adultera\u00e7\u00e3o f\u00edsica, o TJSP refor\u00e7a uma mensagem clara ao mercado: compliance regulat\u00f3rio n\u00e3o se encerra na fabrica\u00e7\u00e3o nem na importa\u00e7\u00e3o. Ele se estende at\u00e9 o destino final do produto.<\/p>\n<h2><strong>Um alerta para o setor regulado<\/strong><\/h2>\n<p>O precedente \u00e9 relevante porque desloca o foco do debate. N\u00e3o se trata apenas de combater falsifica\u00e7\u00f5es ou importa\u00e7\u00f5es clandestinas, mas de reconhecer que o desvio p\u00f3s-descarte tamb\u00e9m integra o n\u00facleo de risco sanit\u00e1rio com a mesma gravidade. A decis\u00e3o reafirma que a tutela penal da sa\u00fade p\u00fablica alcan\u00e7a toda a cadeia, inclusive suas etapas finais, frequentemente invisibilizadas.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Para um setor altamente regulado, o recado \u00e9 inequ\u00edvoco: falhas na governan\u00e7a do descarte n\u00e3o s\u00e3o meros problemas operacionais. Podem gerar consequ\u00eancias penais severas, ainda que o produto, em si, jamais tenha apresentado defeito cl\u00ednico. N\u00e3o basta, portanto, exercer o controle de qualidade na produ\u00e7\u00e3o do dispositivo, devendo as empresas envolvidas observarem, tamb\u00e9m, as regras adequadas para o seu descarte, de modo a evitar situa\u00e7\u00f5es como a que foi objeto do julgamento em quest\u00e3o.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O setor de dispositivos m\u00e9dicos \u00e9 um dos mais intensamente regulados no pa\u00eds. Da fabrica\u00e7\u00e3o \u00e0 importa\u00e7\u00e3o, da distribui\u00e7\u00e3o ao descarte, cada etapa da cadeia \u00e9 submetida a exig\u00eancias sanit\u00e1rias rigorosas, justamente porque qualquer desvio pode repercutir diretamente sobre a sa\u00fade p\u00fablica. 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