{"id":21775,"date":"2026-04-03T06:24:05","date_gmt":"2026-04-03T09:24:05","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/03\/quem-tem-medo-de-erika-hilton\/"},"modified":"2026-04-03T06:24:05","modified_gmt":"2026-04-03T09:24:05","slug":"quem-tem-medo-de-erika-hilton","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/04\/03\/quem-tem-medo-de-erika-hilton\/","title":{"rendered":"Quem tem medo de Erika Hilton?"},"content":{"rendered":"<p><span><em>Quem tem medo do g\u00eanero?<\/em> \u00e9 o t\u00edtulo de um livro de Judith Butler, em que ela analisa o cen\u00e1rio pol\u00edtico mundial e a cria\u00e7\u00e3o fantasiosa da ideologia de g\u00eanero. Fizemos um pastiche usando o mesmo t\u00edtulo, porque \u00e9 a categoria g\u00eanero que est\u00e1 em quest\u00e3o, mas queremos falar de uma pessoa espec\u00edfica e de um fato recente ocorrido no Brasil: a elei\u00e7\u00e3o da deputada federal <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/erika-hilton\">Erika Hilton<\/a> (PSOL-SP) para a presid\u00eancia da Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos da Mulher da <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/camara-dos-deputados\">C\u00e2mara dos Deputados<\/a>.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Todo o espectro pol\u00edtico, seja no campo conservador, seja no campo progressista, de parlamentares a movimentos sociais, passando por pesquisadoras e jornalistas, todos que usam os pronomes elas ou eles t\u00eam medo da deputada Erika Hilton.<\/span><\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p><span>Vamos trilhar este texto por uma via que tem sido interditada no debate pol\u00edtico pelo medo do bolsonarismo: a via da autocr\u00edtica. Tentando contornar as barreiras da <em>realpolitik<\/em>, \u00e9 preciso retomar as posi\u00e7\u00f5es do governo em rela\u00e7\u00e3o ao debate de g\u00eanero, insistir na responsabilidade do Congresso Nacional na garantia da isonomia de g\u00eanero e repensar a postura de mulheres que defendem os direitos das mulheres desde a teoria at\u00e9 os movimentos sociais.<\/span><\/p>\n<p><span>Vamos come\u00e7ar colocando as cadeiras em seus devidos lugares. A Comiss\u00e3o da Mulher \u00e9 um espa\u00e7o de baixa relev\u00e2ncia nos equil\u00edbrios pol\u00edticos da C\u00e2mara dos Deputados, assim, o esperado seria que os ru\u00eddos da elei\u00e7\u00e3o seguissem a mesma tend\u00eancia. O que vimos fica entre o esperado e a surpresa: a forma\u00e7\u00e3o de uma arena de ataques m\u00faltiplos que mobilizaram a pergunta sobre quem conta como mulher, quem pode ter poder, quais s\u00e3o as palavras autorizadas no debate p\u00fablico, quem pode discordar de quem. Tudo isso porque a deputada Erika Hilton \u00e9 uma travesti negra.<\/span><\/p>\n<p><span>Estar\u00edamos muito contentes se a representatividade pol\u00edtica de mulheres fosse uma dimens\u00e3o da democracia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual representantes e representados estivessem, genuinamente, preocupados nas \u00faltimas semanas. Tamb\u00e9m estar\u00edamos atentas se a qualidade do trabalho das pessoas eleitas para presidir a Comiss\u00e3o da Mulher estivesse sob controle social.<\/span><\/p>\n<p><span>A teoria da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 um tema cl\u00e1ssico na ci\u00eancia pol\u00edtica, n\u00e3o h\u00e1 nada de disruptivo e inovador em discuti-la inclusive quando se trata da representa\u00e7\u00e3o de quem tem baixo poder pol\u00edtico. H\u00e1 poucos dias, vale o registro, faleceu J\u00fcrgen Habermas, um fil\u00f3sofo que pensou muito sobre legitimidade pol\u00edtica e direitos. Importantes feministas do campo da filosofia e da teoria pol\u00edtica travaram debates dif\u00edceis com Habermas sobre a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das diferen\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p><span>Por\u00e9m, n\u00e3o estamos contentes ou alertas, porque nada disso \u00e9 verdade. A verdade \u00e9 sobre uma deputada travesti atacada da direita \u00e0 esquerda, transformada em bode expiat\u00f3rio por todos e todas que t\u00eam medo do g\u00eanero. Esse medo, como \u00e9 pr\u00f3prio dessa emo\u00e7\u00e3o, foi camuflado na disputa pela presid\u00eancia da Comiss\u00e3o da Mulher. Mas o que est\u00e1 camuflado n\u00e3o deixa de existir, ent\u00e3o, se n\u00e3o podemos ver, podemos nos afinar e ouvir. Com aten\u00e7\u00e3o, o que escutamos \u00e9 apenas o som ambiente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>O som ambiente \u00e9 o som uniforme, que est\u00e1 presente, mas n\u00e3o para ser realmente escutado, \u00e9 um som com uma finalidade espec\u00edfica: compor um ambiente, sem se destacar. Quem grita, quem sobe o tom, atrapalha essa atmosfera, estraga o clima e entrega o plano. No caso, o plano de camuflar o medo do g\u00eanero. Esse medo faz o campo progressista tapar os ouvidos quando a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 avaliada como embara\u00e7osa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Por\u00e9m, quem rompe o que est\u00e1 posto n\u00e3o pode apenas sussurrar. A deputada Erika Hilton e as mulheres negras e\/ou mulheres trans s\u00e3o submetidas a n\u00edveis mais intensos de vigil\u00e2ncia e julgamento sobre sua postura p\u00fablica, principalmente quando rompem o som ambiente. O xingamento de imbeCIS ou cadelas incomodou algumas pessoas, mas esse inc\u00f4modo n\u00e3o pode ser descontextualizado porque seu sentido depende da forma como a polidez na linguagem tem sido articulada politicamente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>H\u00e1 estudos importantes que sustentam que a impolidez na linguagem (veiculada na internet, por exemplo) tem sido uma estrat\u00e9gia da extrema direita exatamente contra as mulheres e a popula\u00e7\u00e3o LGBT. Apontam, inclusive, que essa \u00e9 uma das formas de eros\u00e3o da democracia. Mas o que Hilton fez ao mobilizar a linguagem impolida foi o exato oposto disso. Sejamos honestas, a linguagem incomodou, mas isso \u00e9 camuflagem, n\u00e3o s\u00e3o os adjetivos que incomodam, mas o sujeito do discurso.<\/span><\/p>\n<p><span>Como bode expiat\u00f3rio, Erika Hilton foi acusada em duas chaves diferentes que merecem ser mencionadas: o voto contr\u00e1rio que proferiu em rela\u00e7\u00e3o ao aumento da pena para o crime de feminic\u00eddio, e a repetitiva acusa\u00e7\u00e3o de que \u00c9rika seria \u201cagressiva\u201d, \u201cradical\u201d ou \u201cconflituosa\u201d. Jornais publicaram artigos de opini\u00e3o que avaliavam o comportamento da deputada como raivosa e intolerante. Ela foi inclusive comparada a Jair Bolsonaro por ter usado a palavra cadelas.<\/span><\/p>\n<p><span>Mulheres podem (deveriam, inclusive) ser antipunitivistas. Como falamos no <\/span><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/artigos\/nao-e-a-familia-e-por-causa-da-mulher-os-feminicidios-de-2025\"><span>\u00faltimo texto<\/span><\/a><span>, h\u00e1 uma permiss\u00e3o de conserva\u00e7\u00e3o que a sociedade fornece aos homens para que mantenham as mulheres em posi\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o. Essa permiss\u00e3o social n\u00e3o acaba com mais tempo de pris\u00e3o para os feminicidas ou agressores. Sabemos que a puni\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de puni\u00e7\u00e3o, portanto, in\u00fatil para qualquer possibilidade de lidar com o devir.<\/span><\/p>\n<p><span>Mulheres cis, pessoas feministas, movimento social podem se posicionar contra o punitivismo, crimin\u00f3logas podem explicar sua fun\u00e7\u00e3o, gestoras p\u00fablicas podem contra-argumentar, \u00e9 assim que se faz pol\u00edtica. Esse epis\u00f3dio foi transformado em prova de falta de representatividade pol\u00edtica de Hilton e isso \u00e9 uma acusa\u00e7\u00e3o muito s\u00e9ria para qualquer membro do poder legislativo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>J\u00e1 o enquadramento de Hilton como uma figura \u201cagressiva\u201d, \u201cradical\u201d ou \u201cconflituosa\u201d segue outro padr\u00e3o conhecido na pol\u00edtica: mulheres que exercem autoridade ou expressam posi\u00e7\u00f5es firmes s\u00e3o frequentemente retratadas como descontroladas, exageradas, deselegantes e inapropriadas. As pessoas negras tamb\u00e9m. Essa imagem n\u00e3o \u00e9 apenas uma reprodu\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos, ela flerta com os crimes de discrimina\u00e7\u00e3o: racismo, transfobia e, quem sabe\u00a0 existir\u00e1, a misoginia.<\/span><\/p>\n<p><span>A extrema direita, em outra via, articula seu medo da Deputada de forma abertamente transf\u00f3bica, mas a esquerda eleita tamb\u00e9m tem medo do g\u00eanero, embora camufle seu p\u00e2nico em frases feitas e no sil\u00eancio conveniente. H\u00e1 mulheres que tamb\u00e9m t\u00eam medo do g\u00eanero, mas, acionando o patriarcado (a opress\u00e3o fruto da divis\u00e3o sexual do trabalho e da exclus\u00e3o da esfera p\u00fablica) contra o g\u00eanero (o que h\u00e1 s\u00e3o processos sociais, um corpo \u00e9 s\u00f3 um corpo at\u00e9 que algu\u00e9m diga que \u00e9 de mulher ou de homem).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Ao insistir que a experi\u00eancia da mulher n\u00e3o \u00e9 a mesma que a experi\u00eancia das mulheres transsexuais e travestis, as feministas radicais e os homens de esquerda est\u00e3o dizendo que o patriarcado imp\u00f5e \u00e0s mulheres uma opress\u00e3o espec\u00edfica que s\u00f3 mulheres cis podem mobilizar politicamente e experienciar pessoalmente. Com isso, as mulheres fora do marco da heteronormatividade t\u00eam direitos humanos, mas n\u00e3o os direitos das mulheres. Como discutimos isso sem medo? Debatendo g\u00eanero e n\u00e3o s\u00f3 patriarcado.<\/span><\/p>\n<p><span>Ao compreender que o patriarcado \u00e9 uma estrutura machista que oprime mulheres cis,, os homens progressistas e as feministas radicais est\u00e3o recusando a exist\u00eancia da categoria g\u00eanero. \u00c9 evidente que n\u00e3o fazem isso da mesma forma violenta e desumanizadora que a extrema direita faz, mas isso n\u00e3o os torna menos respons\u00e1veis pela aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas, ideias, teoriza\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es humanas baseadas na isonomia de g\u00eanero.<\/span><\/p>\n<p><span>Estamos propondo uma redu\u00e7\u00e3o do debate, dir\u00e3o algumas. Outras dir\u00e3o que estamos reduzindo a import\u00e2ncia da hist\u00f3ria de viol\u00eancia contra as mulheres. Em nossa defesa, j\u00e1 adiantamos a resposta: estamos ampliando o debate porque leis n\u00e3o t\u00eam donas. As mulheres cis n\u00e3o s\u00e3o senhoras do crime de feminic\u00eddio. Normas jur\u00eddicas se fazem em aplica\u00e7\u00e3o e esse \u00e9 um processo incessante e aberto.<\/span><\/p>\n<p><span>O medo do g\u00eanero \u00e9 refor\u00e7ado quando entendemos que a subordina\u00e7\u00e3o das mulheres apontada pela cr\u00edtica ao patriarcado \u00e9 uma experi\u00eancia que pode ser atribu\u00edda de forma exclusiva ao que vivem as mulheres com \u00fatero. De forma camuflada, esse medo do outro tamb\u00e9m penetra socialmente e termina refor\u00e7ando a fantasia de que existe algo como uma ideologia de g\u00eanero. <\/span><\/p>\n<p><span>Precisamos exercitar nossa capacidade de proteger as diversas formas de ser, de viver a sexualidade, de ter prazer, de participar da reprodu\u00e7\u00e3o humana e de criar educa\u00e7\u00e3o sexual. Temos que exercitar nossas emo\u00e7\u00f5es nas artes, nas ruas, na vida p\u00fablica contra a fantasia da ideologia de g\u00eanero.<\/span><\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p><span>A categoria g\u00eanero prop\u00f5e-se a \u201cdesconstruir a materialidade dos corpos\u201d e incluir \u2013 o que foi considerado inintelig\u00edvel e destinado ao exterm\u00ednio \u2013 tamb\u00e9m no campo dos direitos. Podemos passar dias e noites discutindo sobre como vamos diluir o essencialismo e o identitarismo e recolocar-nos como feministas entre n\u00f3s mesmas e para o mundo, mas fa\u00e7amos isso sem criar bodes expiat\u00f3rios e sem medo.<\/span><\/p>\n<p><span>Vida longa ao mandato de Erika Hilton.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem tem medo do g\u00eanero? \u00e9 o t\u00edtulo de um livro de Judith Butler, em que ela analisa o cen\u00e1rio pol\u00edtico mundial e a cria\u00e7\u00e3o fantasiosa da ideologia de g\u00eanero. 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