{"id":21518,"date":"2026-03-24T05:59:20","date_gmt":"2026-03-24T08:59:20","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/03\/24\/habeas-corpus-em-favor-da-vitima-de-crimes-sexuais-parte-2\/"},"modified":"2026-03-24T05:59:20","modified_gmt":"2026-03-24T08:59:20","slug":"habeas-corpus-em-favor-da-vitima-de-crimes-sexuais-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/03\/24\/habeas-corpus-em-favor-da-vitima-de-crimes-sexuais-parte-2\/","title":{"rendered":"Habeas corpus em favor da v\u00edtima de crimes sexuais \u2013 parte 2"},"content":{"rendered":"<p>Voltamos \u00e0 carga, querido leitor, com o tema da viol\u00eancia processual contra a mulher e os novos usos do <em>habeas corpus <\/em>para esse efeito. Tema espinhoso, novidadeiro e qui\u00e7\u00e1 pol\u00eamico, sabemos. Mas, antes disso, diga-se com clareza: tema <em>necess\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 porque, se pretend\u00eassemos que o mandado de seguran\u00e7a fosse o \u00fanico instrumento adequado para o que se vaticina nesta edi\u00e7\u00e3o da coluna (assim como na anterior e na pr\u00f3xima) \u2013 seja o MS em mat\u00e9ria criminal, seja o MS em mat\u00e9ria c\u00edvel ou trabalhista \u2013, perder\u00edamos muito em termos de legitimidade, de plasticidade e de efetividade.<\/p>\n<p><em>Adelante<\/em>.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p><strong>O <em>habeas corpus <\/em>como instrumento constitucional de tutela da liberdade em sentido amplo: atualizando o legado de Ruy Barbosa<\/strong><\/p>\n<p>No sentido do uso ampliado do <em>habeas corpus<\/em> \u2013 ami\u00fade repulsado pela jurisprud\u00eancia nacional novecentista \u2013, n\u00e3o custar\u00e1 evocar a chamada \u201cdoutrina brasileira do <em>habeas corpus<\/em>\u201d, sob o g\u00eanio imorredouro de Ruy Barbosa (1892), que concebia o <em>habeas corpus<\/em> como instrumento de tutela ampla da liberdade contra os abusos do poder, recusando leituras estreitas que o limitassem aos constrangimentos estritamente f\u00edsicos. Nessa dire\u00e7\u00e3o, toda forma de coa\u00e7\u00e3o ilegal \u00e0 liberdade humana legitimaria a atua\u00e7\u00e3o do rem\u00e9dio constitucional (BARBOSA, 1892).<\/p>\n<p>Tal concep\u00e7\u00e3o aberta permite, no constitucionalismo contempor\u00e2neo, ressignificar o <em>habeas corpus<\/em> como meio de prote\u00e7\u00e3o da mulher v\u00edtima de viol\u00eancia quando submetida a constrangimentos institucionais de toda ordem, revitimiza\u00e7\u00f5es ou omiss\u00f5es estatais que restrinjam sua liberdade existencial. A elasticidade do rem\u00e9dio heroico exsurge, nos albores do s\u00e9culo 21, como t\u00e9cnica constitucionalmente adequada de conten\u00e7\u00e3o do arb\u00edtrio estatal, especialmente em contextos de exce\u00e7\u00e3o (VIEIRA, 2012).<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a literatura hist\u00f3rico-constitucional destaca que essa concep\u00e7\u00e3o ampliada antecipou, em certa medida, a l\u00f3gica de instrumentos posteriores \u2013 como nomeadamente o mandado de seguran\u00e7a \u2013, ao admitir tutela contra constrangimentos que, embora n\u00e3o configurassem pris\u00e3o formal, afetassem concretamente a liberdade. Essa matriz interpretativa bem se harmoniza, insista-se, com o esp\u00edrito normativo da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que jamais restringiu o manejo do <em>habeas corpus<\/em> por crit\u00e9rio de sujeito processual, g\u00eanero ou posi\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o penal.<\/p>\n<p>E, nessa dire\u00e7\u00e3o, ao deslocar o foco do <em>writ <\/em>para a prote\u00e7\u00e3o da mulher v\u00edtima de viol\u00eancia, a presente proposta reconstr\u00f3i o n\u00facleo sem\u00e2ntico da \u201cliberdade\u201d em chave existencial: a liberdade ambulatorial pode ser tisnada por medo fundado, por aus\u00eancia de medidas protetivas eficazes ou por ambiente judicial hostil. \u00c9 do que se trata: se o <em>habeas corpus<\/em> serve para conter abusos de poder, ele tamb\u00e9m pode ser empregado contra abusos processuais que convertam a audi\u00eancia em mecanismo de viol\u00eancia institucional, em sintonia com a Lei n\u00ba 14.245\/2021.<\/p>\n<p>A ressignifica\u00e7\u00e3o proposta n\u00e3o suprime garantias do acusado. Ao contr\u00e1rio, restaura o devido processo legal substancial, ao exigir que a prova seja produzida em ambiente minimamente humano, sem agress\u00f5es simb\u00f3licas, sob pena de nulidade do ato instrut\u00f3rio.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, o <em>habeas corpus<\/em> pode operar como instrumento de tutela imediata da dignidade da pessoa e de sua liberdade em sentido amplo para, por exemplo, <strong>(i)<\/strong> sustar audi\u00eancia abusiva, <strong>(ii)<\/strong> declarar nulidades por viola\u00e7\u00e3o \u00e0 dignidade e \u00e0 paridade de armas e <strong>(iii)<\/strong> reconhecer suspei\u00e7\u00e3o superveniente do magistrado quando houver toler\u00e2ncia reiterada a pr\u00e1ticas revitimizantes (como veremos adiante). Tal serventia, outrossim, se bem que melhor talhada para o processo penal, tamb\u00e9m est\u00e1 presente em contextos graves de abuso processual que se descortinem no processo civil ou trabalhista, como temos apontado.<\/p>\n<p>Sigamos a destrin\u00e7ar essas possibilidades, com foco mais direto e imediato.<\/p>\n<p><strong>Crimes sexuais, revitimiza\u00e7\u00e3o institucional e nulidade da audi\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Nos processos penais envolvendo crimes contra a liberdade e dignidade sexual, a audi\u00eancia de instru\u00e7\u00e3o e julgamento representa momento de extrema vulnerabilidade para a v\u00edtima. A toler\u00e2ncia judicial a perguntas invasivas, estere\u00f3tipos de g\u00eanero, exposi\u00e7\u00e3o indevida da intimidade da v\u00edtima, culpabiliza\u00e7\u00e3o indireta ou invers\u00e3o do \u00f4nus narrativo configura grave viola\u00e7\u00e3o \u00e0 dignidade da pessoa humana, \u00e0 paridade de armas e ao devido processo legal substancial. Mesma ideia vale para processos trabalhistas e c\u00edveis que examinem les\u00f5es ou amea\u00e7as de natureza similar (como, p. ex., o ass\u00e9dio moral ou a discrimina\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o de sexo ou g\u00eanero, que <em>a priori <\/em>n\u00e3o configuram fato t\u00edpico penal).<\/p>\n<p>Nessas hip\u00f3teses, o constrangimento ilegal n\u00e3o se limita a uma irregularidade formal, mas assume car\u00e1ter estrutural, apto a comprometer a legitimidade de todo o processo penal. O <em>habeas corpus<\/em> revela-se, portanto, como instrumento id\u00f4neo para o reconhecimento da nulidade da audi\u00eancia, inclusive em sede de recurso especial, quando demonstrado que o rito processual operou como mecanismo de viol\u00eancia institucional e viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos.<\/p>\n<p>Nos crimes sexuais, a audi\u00eancia de instru\u00e7\u00e3o e julgamento frequentemente se converte em espa\u00e7o de reprodu\u00e7\u00e3o de viol\u00eancias j\u00e1 vivenciadas pela v\u00edtima no contexto do crime. A aus\u00eancia de preparo t\u00e9cnico de operadores do direito, a perman\u00eancia de estere\u00f3tipos mis\u00f3ginos e a defici\u00eancia na condu\u00e7\u00e3o judicial do ato podem transformar o ambiente processual em cen\u00e1rio de tortura, humilha\u00e7\u00e3o, deslegitima\u00e7\u00e3o do relato e sofrimento ps\u00edquico intenso.<\/p>\n<p>Perguntas que insinuam consentimento t\u00e1cito, julgamento moral da conduta sexual, explora\u00e7\u00e3o da vida \u00edntima ou questionamentos sobre roupas, comportamentos e hist\u00f3rico afetivo comp\u00f5em pr\u00e1ticas que extrapolam o exerc\u00edcio leg\u00edtimo da ampla defesa, configurando clara viola\u00e7\u00e3o \u00e0s garantias fundamentais da v\u00edtima enquanto sujeito de direitos. N\u00e3o se trata de mero excesso verbal ou falta de sensibilidade, mas de mecanismo de revitimiza\u00e7\u00e3o institucional que reitera desigualdades estruturais e inviabiliza a obten\u00e7\u00e3o de um depoimento verdadeiramente livre, espont\u00e2neo e protegido.<\/p>\n<p>A chamada revitimiza\u00e7\u00e3o institucional, nesses casos, n\u00e3o s\u00f3 subverte a l\u00f3gica de prote\u00e7\u00e3o inerente ao processo penal contempor\u00e2neo, como compromete a pr\u00f3pria confiabilidade epist\u00eamica da prova produzida. Uma v\u00edtima constrangida, intimidada ou exposta a agress\u00f5es simb\u00f3licas tem sua narrativa afetada por fatores externos que desestabilizam emocionalmente sua participa\u00e7\u00e3o e contaminam a higidez do ato processual.<\/p>\n<p>O sistema de justi\u00e7a, ao permitir tais pr\u00e1ticas, viola n\u00e3o apenas a dignidade humana, mas tamb\u00e9m o dever jur\u00eddico de assegurar condi\u00e7\u00f5es adequadas para o exerc\u00edcio efetivo do direito de participa\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, nos termos previstos por normativas internacionais como a Conven\u00e7\u00e3o de Bel\u00e9m do Par\u00e1 e as diretrizes da ONU para a prote\u00e7\u00e3o de mulheres e meninas v\u00edtimas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o disso, a nulidade da audi\u00eancia (ou de atos em audi\u00eancia) n\u00e3o pode(m) ser tratada(s) como uma consequ\u00eancia extrema ou excepcional. Ao contr\u00e1rio, quando o ambiente processual se mostra estruturalmente hostil, parcial ou violento, a \u00fanica resposta juridicamente compat\u00edvel com o devido processo legal substancial \u00e9 reconhecer que o ato instrut\u00f3rio est\u00e1 maculado em sua ess\u00eancia. O il\u00edcito deixa de ser formal e passa a ser substancial, atingindo o \u00e2mago da produ\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria e afetando a pr\u00f3pria legitimidade do exerc\u00edcio jurisdicional. A reconstitui\u00e7\u00e3o do ato n\u00e3o busca privilegiar a v\u00edtima em detrimento da defesa, mas restaurar as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de justi\u00e7a procedimental e simetria de tratamento entre os sujeitos processuais.<\/p>\n<p>Eis porque, tamb\u00e9m por essa perspectiva, o <em>habeas corpus<\/em> emerge como instrumento apto n\u00e3o apenas para corrigir abusos manifestos, mas para assegurar que a v\u00edtima n\u00e3o continue submetida a um processo que funciona como extens\u00e3o da viol\u00eancia sofrida. Nessa linha de racioc\u00ednio, quando a audi\u00eancia \u00e9 conduzida de maneira contr\u00e1ria aos direitos humanos da v\u00edtima, h\u00e1 viola\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade de locomo\u00e7\u00e3o em sua dimens\u00e3o moral e psicol\u00f3gica, j\u00e1 que a pessoa passa a ser compelida a participar de um ato que lhe imp\u00f5e sofrimento ilegal e desnecess\u00e1rio. Insista-se, pois: o rem\u00e9dio constitucional n\u00e3o se limita e nem deve ser limitado \u00e0 tutela de r\u00e9us ou investigados; ele tamb\u00e9m atua para impedir que o processo se converta em instrumento de opress\u00e3o e para garantir que a marcha processual ocorra em conformidade com padr\u00f5es m\u00ednimos de humanidade, dignidade e respeito.<\/p>\n<p>Logo, a utiliza\u00e7\u00e3o do <em>habeas corpus<\/em> para declarar a nulidade da audi\u00eancia em crimes sexuais n\u00e3o representa alargamento indevido do instituto, mas aplica\u00e7\u00e3o coerente de sua fun\u00e7\u00e3o garantista. Ao reconhecer a viol\u00eancia institucional \u2013 por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o \u2013 e corrigir atos instrut\u00f3rios contaminados por pr\u00e1ticas abusivas, o Judici\u00e1rio fortalece a credibilidade do processo, assegura a prote\u00e7\u00e3o integral da v\u00edtima e reafirma que a justi\u00e7a n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ada \u00e0s custas da dignidade humana de quem j\u00e1 se encontra em situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Lei Mariana Ferrer como fundamento normativo para o <em>habeas corpus<\/em> em favor da v\u00edtima<\/strong><\/p>\n<p>A Lei n\u00ba 14.245\/2021, batizada formalmente como Lei Mariana Ferrer, constitui marco normativo relevante no enfrentamento da viol\u00eancia institucional no processo penal, especialmente nos crimes contra a dignidade sexual. Ao impor o dever de preserva\u00e7\u00e3o da integridade f\u00edsica, ps\u00edquica e moral da v\u00edtima e vedar expressamente pr\u00e1ticas atentat\u00f3rias \u00e0 sua dignidade durante a instru\u00e7\u00e3o processual, a lei positivou comandos diretamente vinculados aos princ\u00edpios constitucionais da dignidade da pessoa humana e do devido processo legal substancial.<\/p>\n<p>A inobserv\u00e2ncia dos deveres estabelecidos pela Lei Mariana Ferrer n\u00e3o configura mera infra\u00e7\u00e3o infraconstitucional, mas verdadeiro v\u00edcio de legalidade constitucional dos atos processuais. Quando a audi\u00eancia \u00e9 conduzida em desacordo com esses par\u00e2metros, permitindo pr\u00e1ticas revitimizantes ou humilhantes, resta caracterizado constrangimento ilegal apto a justificar a impetra\u00e7\u00e3o de habeas corpus em favor da v\u00edtima. Ademais, a postura reiteradamente permissiva ou conivente do magistrado diante dessas viola\u00e7\u00f5es pode constituir elemento objetivo para o reconhecimento da suspei\u00e7\u00e3o superveniente, desde que amparada em provas constantes dos autos.<\/p>\n<p>A Lei 14.245\/2021 assume papel central na consolida\u00e7\u00e3o de uma prote\u00e7\u00e3o normativa robusta contra pr\u00e1ticas revitimizantes, funcionando como verdadeiro <em>estatuto m\u00ednimo de garantia procedimental<\/em> da v\u00edtima em crimes contra a dignidade e liberdade sexual. Ao estabelecer balizas \u00e9ticas e jur\u00eddicas para a condu\u00e7\u00e3o da audi\u00eancia, a Lei Mariana Ferrer n\u00e3o apenas inseriu comandos pontuais no C\u00f3digo de Processo Penal, mas redesenhou a pr\u00f3pria compreens\u00e3o institucional sobre o papel da v\u00edtima no processo penal contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o positivou um dever jur\u00eddico de cuidado, impondo ao magistrado, ao membro do Minist\u00e9rio P\u00fablico, ao defensor e a todos os demais atores processuais a obriga\u00e7\u00e3o de assegurar um ambiente de respeito, prote\u00e7\u00e3o e dignidade, sintonizado com tratados internacionais ratificados pelo Brasil e com a concep\u00e7\u00e3o moderna de acesso \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A normatividade da lei revela que o ordenamento jur\u00eddico reconhece expressamente a vulnerabilidade estrutural das v\u00edtimas de crimes sexuais durante a instru\u00e7\u00e3o processual. Trata-se de reconhecimento legislativo expl\u00edcito de que o processo penal, quando conduzido sem filtros protetivos, pode reproduzir viol\u00eancias t\u00e3o graves quanto aquelas sofridas no pr\u00f3prio delito.<\/p>\n<p>A preserva\u00e7\u00e3o da integridade ps\u00edquica e moral deixa de ser mera expectativa \u00e9tica e converte-se em verdadeira obriga\u00e7\u00e3o legal, cuja viola\u00e7\u00e3o compromete a legitimidade da atua\u00e7\u00e3o jurisdicional e desnatura o conte\u00fado democr\u00e1tico do devido processo legal. Assim, a audi\u00eancia realizada em contexto de humilha\u00e7\u00e3o, sexualiza\u00e7\u00e3o, culpabiliza\u00e7\u00e3o ou estigmatiza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima constitui ato incompat\u00edvel com o modelo constitucional de processo penal garantista.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica feminista ao sistema de justi\u00e7a criminal, especialmente no tratamento das v\u00edtimas de crimes sexuais, encontra s\u00f3lida base em doutrinas contempor\u00e2neas, que demonstra como a estrutura judicial tradicional, ao reproduzir estere\u00f3tipos de g\u00eanero e narrativas patriarcais, frequentemente converte o processo penal em ambiente de humilha\u00e7\u00e3o, desconfian\u00e7a e viol\u00eancia institucional.<\/p>\n<p>Para Carmen Campos, p. ex., a forma como operadores do direito interagem com a v\u00edtima \u2014 seja por meio de perguntas invasivas, desqualifica\u00e7\u00e3o de sua experi\u00eancia ou toler\u00e2ncia a condutas ofensivas \u2014 constitui um prolongamento da viol\u00eancia original, refor\u00e7ando a necessidade de mecanismos concretos de prote\u00e7\u00e3o e de um redesenho procedimental que impe\u00e7a pr\u00e1ticas revitimizantes (CAMPOS, 2017).<\/p>\n<p>Essa leitura \u00e9 refor\u00e7ada por Neto Borges, cuja an\u00e1lise demonstra que o sistema de justi\u00e7a criminal, ao operar segundo padr\u00f5es masculinos e excludentes, tende a transformar a instru\u00e7\u00e3o processual em espa\u00e7o de viol\u00eancia institucional, descredibiliza\u00e7\u00e3o da palavra da v\u00edtima e reprodu\u00e7\u00e3o de assimetrias de g\u00eanero (BORGES, 2021).<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, as consequ\u00eancias jur\u00eddicas da inobserv\u00e2ncia \u00e0 Lei Mariana Ferrer n\u00e3o podem ser esvaziadas ou reduzidas \u00e0 categoria de irregularidade san\u00e1vel. A viola\u00e7\u00e3o dos seus comandos representa afronta direta \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, por vulnerar simultaneamente a dignidade da pessoa humana, a prote\u00e7\u00e3o integral da v\u00edtima, o devido processo legal e a veda\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia institucional.<\/p>\n<p>Diante dessa natureza, o <em>habeas corpus<\/em> se apresenta como rem\u00e9dio constitucional adequado para a corre\u00e7\u00e3o de tais ilegalidades, ainda que impetrado pela v\u00edtima. Isso porque, ao ser compelida a participar de uma audi\u00eancia em condi\u00e7\u00f5es degradantes, a v\u00edtima sofre coa\u00e7\u00e3o moral e psicol\u00f3gica que restringe sua liberdade de locomo\u00e7\u00e3o em sua dimens\u00e3o existencial \u2014 aquela que protege o ser humano contra tratamentos indignos e degradantes.<\/p>\n<p>A for\u00e7a normativa da Lei Mariana Ferrer tamb\u00e9m fornece par\u00e2metros objetivos para a aferi\u00e7\u00e3o da suspei\u00e7\u00e3o superveniente do magistrado, quando sua conduta revela toler\u00e2ncia ou coniv\u00eancia com pr\u00e1ticas atentat\u00f3rias \u00e0 dignidade da v\u00edtima. A suspei\u00e7\u00e3o, tradicionalmente analisada sob a \u00f3tica da parcialidade em rela\u00e7\u00e3o ao r\u00e9u, pode e deve ser reinterpretada \u00e0 luz do texto legal que imp\u00f5e ao juiz um dever de atua\u00e7\u00e3o protetiva.<\/p>\n<p>Se o magistrado permite ou legitima atos abusivos \u2014 como a realiza\u00e7\u00e3o de perguntas vexat\u00f3rias, a admiss\u00e3o de provas irrelevantes com finalidade de constrangimento, ou a falta de controle de condutas ofensivas de advogados \u2014 sua atua\u00e7\u00e3o se afasta da imparcialidade objetiva exigida pelo devido processo legal. Nessas hip\u00f3teses, a viola\u00e7\u00e3o deixa de ser epis\u00f3dica e assume contornos estruturais, aptos a justificar n\u00e3o apenas a nulidade da audi\u00eancia, mas tamb\u00e9m a sua substitui\u00e7\u00e3o na condu\u00e7\u00e3o do feito. Tal suspei\u00e7\u00e3o, ademais, tamb\u00e9m deve ser reconhecida quando aquela toler\u00e2ncia ou coniv\u00eancia de vi\u00e9s mis\u00f3gino tiver sede no processo c\u00edvel ou trabalhista.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Assim, a Lei Mariana Ferrer n\u00e3o apenas autoriza, mas <em>exige<\/em> uma leitura ampliada e protetiva do habeas corpus quando utilizado em favor da v\u00edtima. O rem\u00e9dio constitucional torna-se instrumento de conten\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia institucional, mecanismo de repara\u00e7\u00e3o imediata de constrangimentos ilegais e ferramenta de efetiva\u00e7\u00e3o das garantias fundamentais que estruturam o processo penal democr\u00e1tico. Ao reconhecer a v\u00edtima como sujeito de direitos e destinat\u00e1ria de tutela integral, a legisla\u00e7\u00e3o refor\u00e7a a ideia de que o sistema de justi\u00e7a n\u00e3o pode \u2014 nem simbolicamente, nem concretamente \u2014 ser espa\u00e7o de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Por ora \u00e9 isto, estimado leitor. No m\u00eas que vem, encerraremos estas reflex\u00f5es, discutindo a(s) legitimidade(s) para o <em>habeas corpus <\/em>que se impetra em prol da dignidade e da liberdade da mulher no imo dos processos judiciais \u2013 e, notadamente, no processo penal \u2013, assim como outros temas processuais conexos da maior relev\u00e2ncia. Afinal, n\u00e3o basta apontar o caminho; h\u00e1 que descrev\u00ea-lo, ao menos, se se pretende que algu\u00e9m se atreva a trilh\u00e1-lo. E n\u00e3o se esque\u00e7a: para d\u00favidas, sugest\u00f5es ou cr\u00edticas, o endere\u00e7o eletr\u00f4nico de sempre (<a href=\"mailto:dunkel2015@gmail.com\">dunkel2015@gmail.com<\/a>).<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltamos \u00e0 carga, querido leitor, com o tema da viol\u00eancia processual contra a mulher e os novos usos do habeas corpus para esse efeito. Tema espinhoso, novidadeiro e qui\u00e7\u00e1 pol\u00eamico, sabemos. Mas, antes disso, diga-se com clareza: tema necess\u00e1rio. At\u00e9 porque, se pretend\u00eassemos que o mandado de seguran\u00e7a fosse o \u00fanico instrumento adequado para o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21518"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21518"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21518\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21518"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}