{"id":21261,"date":"2026-03-13T07:05:56","date_gmt":"2026-03-13T10:05:56","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/03\/13\/anp-tem-competencia-legal-para-fixar-novo-modelo-de-revisao-tarifaria\/"},"modified":"2026-03-13T07:05:56","modified_gmt":"2026-03-13T10:05:56","slug":"anp-tem-competencia-legal-para-fixar-novo-modelo-de-revisao-tarifaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/03\/13\/anp-tem-competencia-legal-para-fixar-novo-modelo-de-revisao-tarifaria\/","title":{"rendered":"ANP tem compet\u00eancia legal para fixar novo modelo de revis\u00e3o tarif\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>A recente impugna\u00e7\u00e3o administrativa apresentada por transportadoras de g\u00e1s natural contra a Resolu\u00e7\u00e3o 991\/2026 editada pela Ag\u00eancia Nacional do Petr\u00f3leo, G\u00e1s Natural e Biocombust\u00edveis (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/ANP\">ANP<\/a>) reacendeu o debate sobre os limites jur\u00eddicos da atua\u00e7\u00e3o das ag\u00eancias reguladoras no Brasil. A norma instituiu um novo regime tarif\u00e1rio para o transporte de g\u00e1s natural em conformidade com as diretrizes da chamada nova Lei do G\u00e1s (<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2021\/lei\/l14134.htm\">Lei 14.134\/2021<\/a>).<\/p>\n<p>Embora alguns transportadores tenham questionado a legalidade da revis\u00e3o tarif\u00e1ria \u2014 especialmente quanto \u00e0 metodologia de valora\u00e7\u00e3o da Base Regulat\u00f3ria de Ativos (BRA) \u2014, a controv\u00e9rsia n\u00e3o revela ilegalidade normativa. Trata-se, na realidade, de uma diverg\u00eancia econ\u00f4mica t\u00edpica dos processos de revis\u00e3o regulat\u00f3ria em setores de infraestrutura.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>O presente artigo visa demonstrar que (i) a Resolu\u00e7\u00e3o 991\/2026 encontra s\u00f3lido fundamento legal e constitucional; (ii) representa exerc\u00edcio leg\u00edtimo da compet\u00eancia regulat\u00f3ria da ANP e (iii) regulamenta modelo que busca assegurar simultaneamente remunera\u00e7\u00e3o justa e adequada aos transportadores e prote\u00e7\u00e3o ao consumidor.<\/p>\n<h2>Compet\u00eancia normativa da ANP e a Resolu\u00e7\u00e3o ANP 991\/2026<\/h2>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 estruturou modelo de interven\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica baseado na regula\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, delegando ao legislador a cria\u00e7\u00e3o de entidades especializadas para disciplinar setores complexos da infraestrutura nacional.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a ANP foi institu\u00edda pela Lei 9.478\/1997 com compet\u00eancia para regular as atividades da ind\u00fastria do petr\u00f3leo e g\u00e1s natural, incluindo a defini\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios para c\u00e1lculo das tarifas de transporte dutovi\u00e1rio.<\/p>\n<p>No exerc\u00edcio dessa compet\u00eancia legal, a ag\u00eancia editou a Resolu\u00e7\u00e3o 991\/2026, que estabelece o regime tarif\u00e1rio aplic\u00e1vel ao sistema de transporte de g\u00e1s natural com quatro objetivos centrais: garantir acesso n\u00e3o discriminat\u00f3rio \u00e0 infraestrutura, promover ambiente competitivo, assegurar remunera\u00e7\u00e3o justa e adequada aos investimentos realizados pelos transportadores e proteger os consumidores e usu\u00e1rios dos bens e servi\u00e7os do g\u00e1s natural.<\/p>\n<p>O novo regime tarif\u00e1rio estrutura-se em torno de tr\u00eas elementos fundamentais: a Receita M\u00e1xima Permitida (RMP), Taxa de Retorno Regulat\u00f3ria e a revis\u00e3o da Base Regulat\u00f3ria de Ativos (BRA).<\/p>\n<p>A Resolu\u00e7\u00e3o em an\u00e1lise concretiza a implementa\u00e7\u00e3o da Nova Lei do G\u00e1s ao regulamentar o modelo de contrata\u00e7\u00e3o por entrada e sa\u00edda (<em>entry-exit<\/em>); aperfei\u00e7oar os crit\u00e9rios de c\u00e1lculo tarif\u00e1rio baseado em Receita M\u00e1xima Permitida; estabelecer metodologia mais transparente para a valora\u00e7\u00e3o e deprecia\u00e7\u00e3o da base regulat\u00f3ria de ativos e prever revis\u00f5es peri\u00f3dicas com base na efici\u00eancia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Trata-se, portanto, de instrumento normativo necess\u00e1rio \u00e0 efetividade da pol\u00edtica p\u00fablica definida na nova Lei do G\u00e1s.<\/p>\n<h2>A legalidade do novo modelo tarif\u00e1rio e sua aplica\u00e7\u00e3o imediata aos contratos legados<\/h2>\n<p>A atividade de transporte de g\u00e1s natural, conforme estabelecido no art. 177 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, \u00e9 monop\u00f3lio da Uni\u00e3o. Nos termos da Lei 14.134\/2021, a presta\u00e7\u00e3o dessa atividade econ\u00f4mica, que inclui a constru\u00e7\u00e3o, a amplia\u00e7\u00e3o, a opera\u00e7\u00e3o e a manuten\u00e7\u00e3o das instala\u00e7\u00f5es, passou a ser exercida exclusivamente em regime de outorga de autoriza\u00e7\u00e3o, precedida de procedimento de chamamento p\u00fablico.<\/p>\n<p>O prazo de vig\u00eancia dos antigos contratos de concess\u00e3o e das atuais autoriza\u00e7\u00f5es \u00e9 geralmente longo para permitir que o capital do agente econ\u00f4mico seja remunerado e seu investimento amortizado. Durante a vig\u00eancia desses ajustes, a ANP pode e deve rever as tarifas e a metodologia do seu c\u00e1lculo, baseada em estudos t\u00e9cnicos que justifiquem a racionalidade e coer\u00eancia dos novos crit\u00e9rios, assegurando remunera\u00e7\u00e3o justa e adequada aos transportadores e evitando excessiva onerosidade aos consumidores e usu\u00e1rios dos bens e servi\u00e7os de g\u00e1s (art. 5\u00ba B, \u00a73\u00ba, do Decreto 10.712\/2021).<\/p>\n<p>Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) consagrou o Princ\u00edpio da Defer\u00eancia, segundo o qual as decis\u00f5es das ag\u00eancias reguladoras s\u00e3o dotadas de expertise, revelando- e mais aptas a apreciar mat\u00e9rias t\u00e9cnicas de sua compet\u00eancia.<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>A Diretoria da ANP aprovou por decis\u00e3o motivada a Resolu\u00e7\u00e3o 991\/2026, com fundamento em estudos t\u00e9cnicos e an\u00e1lise dos efeitos pr\u00e1ticos da nova metodologia tarif\u00e1ria, ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o de consultas p\u00fablicas, em cumprimento ao art. 20, da LINDB.<\/p>\n<p>Verifica-se da simples leitura da Resolu\u00e7\u00e3o ANP 991\/2026 que os crit\u00e9rios de revis\u00e3o do novo ciclo tarif\u00e1rio foram aprimorados, sem invalidar dados apresentados pelos agentes econ\u00f4micos. N\u00e3o h\u00e1, portanto, retroatividade jur\u00eddica.<\/p>\n<p>A estabilidade das rela\u00e7\u00f5es contratuais, advinda da seguran\u00e7a jur\u00eddica, impede t\u00e3o somente que os novos crit\u00e9rios de revis\u00e3o tarif\u00e1ria atinjam os ciclos anteriores, porque aqueles atos aconteceram no passado e nele se encerraram. Contudo, a nova revis\u00e3o tarif\u00e1ria, incluindo a dos contratos legados formalizados sob o imp\u00e9rio de legisla\u00e7\u00e3o revogada, devem observar os crit\u00e9rios ora em vigor.<\/p>\n<p>Isso porque n\u00e3o existe a completa integraliza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, ou seja, a rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica nasceu no passado, perdura no presente e projeta-se para o futuro. Assim, os efeitos da nova norma alcan\u00e7am a rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica j\u00e1 constitu\u00edda, mas n\u00e3o encerrada, sem que isso implique retroatividade.<\/p>\n<p>Nos setores regulados, n\u00e3o existe direito adquirido \u00e0 perpetua\u00e7\u00e3o de determinada metodologia tarif\u00e1ria. O que o ordenamento jur\u00eddico protege s\u00e3o receitas j\u00e1 apropriadas e situa\u00e7\u00f5es definitivamente consolidadas.<\/p>\n<p>A Resolu\u00e7\u00e3o 991\/2026 n\u00e3o revisa tarifas passadas nem altera receitas j\u00e1 auferidas. Ela disciplina apenas os ciclos tarif\u00e1rios futuros. Assim, a incid\u00eancia do novo modelo regulat\u00f3rio sobre contratos legados que ainda produzem efeitos n\u00e3o configura retroatividade jur\u00eddica, mas aplica\u00e7\u00e3o prospectiva de nova disciplina normativa a rela\u00e7\u00f5es continuadas.<\/p>\n<p>Cumpre destacar que esta \u00e9 a primeira revis\u00e3o tarif\u00e1ria das transportadoras Nova Transportadora do Sudeste (NTS) e Transportadora Associada de G\u00e1s (TAG), em raz\u00e3o do vencimento dos contratos legados iniciais e a metodologia proposta pela ANP n\u00e3o configura ruptura, mas preserva a l\u00f3gica regulat\u00f3ria adotada anteriormente, ao considerar os ganhos econ\u00f4micos j\u00e1 percebidos pelo transportador como par\u00e2metro para a defini\u00e7\u00e3o das novas tarifas.<\/p>\n<p>As regras do artigo 31 da Lei 11.909\/2009 (revogada) e artigo 44 da Lei 14.134\/2021 que preservam as tarifas e os crit\u00e9rios definidos at\u00e9 ent\u00e3o e a receita j\u00e1 auferida pelo transportador n\u00e3o conferem imutabilidade ao modelo tarif\u00e1rio dos contratos legados, sob pena de criar privil\u00e9gio ilegal ao transportador em detrimento do interesse p\u00fablico.<\/p>\n<p>Em setores de infraestrutura regulada, a estabilidade jur\u00eddica n\u00e3o decorre da imutabilidade das regras, mas da previsibilidade institucional dos processos regulat\u00f3rios. Nesse sentido, a atualiza\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica das tarifas constitui instrumento essencial para preservar simultaneamente a confian\u00e7a dos investidores, a efici\u00eancia econ\u00f4mica e a prote\u00e7\u00e3o do consumidor.<\/p>\n<h2>Conclus\u00e3o<\/h2>\n<p>A an\u00e1lise jur\u00eddica desenvolvida permite afirmar que a ANP possui compet\u00eancia legal expressa para editar a Resolu\u00e7\u00e3o 991\/2026; inexiste retroatividade normativa ao aplicar os novos crit\u00e9rios e metodologias aos contratos legados; a revis\u00e3o metodol\u00f3gica da BRA constitui exerc\u00edcio leg\u00edtimo de discricionariedade t\u00e9cnica e o processo regulat\u00f3rio observou a participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica adequada.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a incid\u00eancia do novo modelo tarif\u00e1rio limita-se aos ciclos regulat\u00f3rios subsequentes, alcan\u00e7ando apenas os contratos legados ainda sujeitos a revis\u00e3o tarif\u00e1ria futura, sem afetar per\u00edodos j\u00e1 encerrados ou receitas regularmente apropriadas em ciclos anteriores. Trata-se, portanto, de aplica\u00e7\u00e3o prospectiva do regime regulat\u00f3rio, plenamente compat\u00edvel com os princ\u00edpios da seguran\u00e7a jur\u00eddica e da prote\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a leg\u00edtima.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref1\"><\/a>[1] REsp n\u00b0 1834266\/PR<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A recente impugna\u00e7\u00e3o administrativa apresentada por transportadoras de g\u00e1s natural contra a Resolu\u00e7\u00e3o 991\/2026 editada pela Ag\u00eancia Nacional do Petr\u00f3leo, G\u00e1s Natural e Biocombust\u00edveis (ANP) reacendeu o debate sobre os limites jur\u00eddicos da atua\u00e7\u00e3o das ag\u00eancias reguladoras no Brasil. 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