{"id":21238,"date":"2026-03-12T11:59:41","date_gmt":"2026-03-12T14:59:41","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/03\/12\/roubo-de-cargas-recua-nas-estatisticas-mas-mercado-ilegal-mantem-crime-ativo-no-brasil\/"},"modified":"2026-03-12T11:59:41","modified_gmt":"2026-03-12T14:59:41","slug":"roubo-de-cargas-recua-nas-estatisticas-mas-mercado-ilegal-mantem-crime-ativo-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/03\/12\/roubo-de-cargas-recua-nas-estatisticas-mas-mercado-ilegal-mantem-crime-ativo-no-brasil\/","title":{"rendered":"Roubo de cargas recua nas estat\u00edsticas, mas mercado ilegal mant\u00e9m crime ativo no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Ao reduzir a velocidade para passar por uma lombada em uma rua do Graja\u00fa, no extremo sul de <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/sao-paulo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">S\u00e3o Paulo<\/a>, um motorista que transportava carne foi surpreendido por dois homens armados que surgiram de lados opostos da via. Em poucos segundos, os criminosos cercaram a van. Um deles abriu a porta e empurrou o motorista para o banco do meio. O outro entrou na cabine e abaixou o bon\u00e9 do ajudante de entregas, que o acompanhava na viagem, para impedir que ele visse o trajeto percorrido pelos assaltantes. Os dois foram mantidos sob vigil\u00e2ncia enquanto os criminosos assumiam o controle do ve\u00edculo.<\/p>\n<p>Para preservar suas identidades, o <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong> optou por utilizar nomes fict\u00edcios nesta reportagem. Aqui, os trabalhadores ser\u00e3o chamados de Carlos, Marcos e Renato. Os tr\u00eas atuam h\u00e1 mais de 20 anos no transporte de mercadorias e fazem entregas frequentes na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, al\u00e9m de rotas regulares para o interior e o litoral do estado.<\/p>\n<p>Eles trabalham na chamada distribui\u00e7\u00e3o urbana de mercadorias, utilizando ve\u00edculos menores \u2013 geralmente vans ou utilit\u00e1rios como Fiorino \u2013 que facilitam a circula\u00e7\u00e3o em \u00e1reas densamente povoadas. Em cada viagem, transportam entre uma e uma tonelada e meia de produtos, principalmente carnes destinadas ao abastecimento de supermercados, a\u00e7ougues e restaurantes.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/inteligencia.jota.info\/economia-legal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conhe\u00e7a a newsletter especial Economia Legal sobre como a inseguran\u00e7a p\u00fablica impacta seu setor e como se antecipar \u00e0 manchete.<\/a><\/p>\n<p>Pelo valor agregado e pela facilidade de revenda, esse tipo de mercadoria \u00e9 considerado carga de alto risco no setor log\u00edstico. Por isso, os ve\u00edculos utilizados nas entregas contam com sistemas de rastreamento, que permitem \u00e0s empresas acompanhar em tempo real o deslocamento da carga e auxiliar nas investiga\u00e7\u00f5es policiais ap\u00f3s o crime.<\/p>\n<p>No epis\u00f3dio envolvendo Carlos e Marcos, os criminosos assumiram o controle do ve\u00edculo e conduziram os trabalhadores at\u00e9 outro ponto da cidade enquanto a mercadoria era retirada da van. Nenhum dos dois ficou ferido.<\/p>\n<p>\u201cA ordem deles \u00e9 n\u00e3o mexer nas coisas do trabalhador. Eles querem s\u00f3 a mercadoria\u201d, relatou uma das v\u00edtimas ao <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong>.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o semelhante ocorreu com um terceiro colega. Renato foi v\u00edtima de dois roubos recentes \u2013 o primeiro em dezembro de 2025 e o segundo neste m\u00eas, com praticamente a mesma abordagem.<\/p>\n<p>Assim como nos outros epis\u00f3dios, o motorista foi liberado ap\u00f3s o descarregamento da carga e n\u00e3o sofreu agress\u00f5es f\u00edsicas. Em todas as ocorr\u00eancias, os trabalhadores registraram boletim de ocorr\u00eancia e prestaram depoimento \u00e0s autoridades.<\/p>\n<p>Casos como esses ajudam a ilustrar um problema que, apesar da queda recente nas ocorr\u00eancias, continua sendo um dos principais desafios estruturais da log\u00edstica brasileira e, portanto, do desenvolvimento econ\u00f4mico. Levantamentos do setor de transporte e entrevistas com autoridades indicam que o crime permanece concentrado em grandes polos econ\u00f4micos e depende de um mercado clandestino organizado.<\/p>\n<h2>Menos ocorr\u00eancias, mas impacto econ\u00f4mico elevado<\/h2>\n<p>N\u00fameros p\u00fablicos do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/ministerio-da-justica-e-seguranca-publica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">MJSP<\/a>), analisados pelo <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong>, indicam que foram registrados cerca de 8.570 roubos e furtos de carga no Brasil em 2025, o equivalente a aproximadamente 23 ocorr\u00eancias por dia.<\/p>\n<p>O n\u00famero representa uma queda de cerca de 14% em rela\u00e7\u00e3o a 2024, quando o pa\u00eds registrou mais de 10 mil ocorr\u00eancias, conforme o mesmo levantamento.<\/p>\n<p>Apesar da redu\u00e7\u00e3o nas estat\u00edsticas, o impacto econ\u00f4mico permanece elevado. O estudo da Nstech, empresa de tecnologia que desenvolve sistemas de monitoramento e gest\u00e3o de risco para o transporte de cargas, indica que os preju\u00edzos causados por roubos de carga no Brasil somaram cerca de R$ 900 milh\u00f5es em 2025, considerando ocorr\u00eancias monitoradas pelo setor log\u00edstico.<\/p>\n<p>Para especialistas do setor, a queda nas ocorr\u00eancias n\u00e3o significa necessariamente um enfraquecimento estrutural do crime. Em muitos casos, o que se observa \u00e9 uma reorganiza\u00e7\u00e3o das quadrilhas, que passam a concentrar esfor\u00e7os em cargas de maior valor ou com maior facilidade de revenda.<\/p>\n<p>Avalia\u00e7\u00e3o semelhante \u00e9 feita pelo setor de transporte. De acordo com a \u00e1rea de seguran\u00e7a da Associa\u00e7\u00e3o Nacional do Transporte de Cargas e Log\u00edstica (NTC&amp;Log\u00edstica), entidade que representa empresas do transporte rodovi\u00e1rio de cargas, o roubo de cargas est\u00e1 diretamente relacionado \u00e0 pr\u00f3pria estrutura log\u00edstica do pa\u00eds. Atualmente, cerca de 75% das mercadorias circulam por rodovias no Brasil, o que amplia significativamente a exposi\u00e7\u00e3o das cargas em circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com a entidade, o fen\u00f4meno tamb\u00e9m costuma envolver cadeias criminosas organizadas, com planejamento pr\u00e9vio, monitoramento de rotas e redes estruturadas de recepta\u00e7\u00e3o capazes de absorver rapidamente as mercadorias roubadas.<\/p>\n<p>Ao <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong>, a NTC&amp;Log\u00edstica afirmou que a possibilidade de reinserir rapidamente essas mercadorias em circuitos irregulares de comercializa\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos fatores que sustentam economicamente esse tipo de crime. Em geral, cargas roubadas s\u00e3o dispersas em pequenas quantidades para dificultar a identifica\u00e7\u00e3o da origem dos produtos, especialmente quando se trata de itens de consumo r\u00e1pido, como alimentos, bebidas, produtos de higiene e eletr\u00f4nicos de menor porte.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o da entidade, a absor\u00e7\u00e3o dessas mercadorias pode ocorrer em diferentes n\u00edveis do mercado. Em alguns casos, os produtos acabam chegando ao consumidor final por meio de ofertas com pre\u00e7os significativamente mais baixos do que os praticados no com\u00e9rcio formal. Em outras situa\u00e7\u00f5es, investiga\u00e7\u00f5es apontam a atua\u00e7\u00e3o de intermedi\u00e1rios ou comerciantes que fragmentam os produtos e os redistribuem em diferentes pontos de venda.<\/p>\n<p>Um exemplo desse tipo de estrutura foi identificado em uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal que investigou uma quadrilha especializada em roubo de cargas de caminh\u00f5es dos Correios e do Mercado Livre em rodovias de Minas Gerais e da Bahia. De acordo com a PF, o grupo utilizava bloqueios na estrada, lanternas de alta pot\u00eancia para desorientar motoristas e conduzia os ve\u00edculos para estradas vicinais antes de saquear seletivamente as cargas, demonstrando conhecimento pr\u00e9vio sobre os produtos transportados. As mercadorias roubadas eram levadas para um ponto que funcionava como centro de recep\u00e7\u00e3o e redistribui\u00e7\u00e3o dos produtos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da perda direta da carga, o setor aponta que o crime gera custos operacionais relevantes para as transportadoras. Em alguns casos, o impacto da criminalidade sobre o transporte de mercadorias chega a afetar diretamente a distribui\u00e7\u00e3o de produtos para consumidores. Levantamento publicado pela <strong>Folha de S.Paulo<\/strong> mostrou que, no Rio de Janeiro, os Correios chegaram a restringir entregas em cerca de 44% dos CEPs da cidade devido ao risco de assaltos e ataques a carteiros e ve\u00edculos de transporte de encomendas.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, isso significava que moradores dessas regi\u00f5es precisavam retirar encomendas diretamente em ag\u00eancias da empresa ou aguardar entregas realizadas em opera\u00e7\u00f5es especiais de seguran\u00e7a, \u00e0s vezes com o apoio de escolta ou acompanhamento policial. O caso passou a ser citado por especialistas em log\u00edstica como exemplo de como a viol\u00eancia pode interferir no funcionamento da cadeia de distribui\u00e7\u00e3o, ampliar custos operacionais e afetar o acesso da popula\u00e7\u00e3o a servi\u00e7os de entrega e com\u00e9rcio eletr\u00f4nico.<\/p>\n<p>Para a associa\u00e7\u00e3o, reduzir os espa\u00e7os para comercializa\u00e7\u00e3o irregular tende a dificultar a transforma\u00e7\u00e3o da carga roubada em ganho econ\u00f4mico, mas o enfrentamento do problema exige uma estrat\u00e9gia mais ampla que envolva preven\u00e7\u00e3o, fiscaliza\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o entre diferentes \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<h2>Um crime dif\u00edcil de medir<\/h2>\n<p>Parte da dificuldade de compreender o fen\u00f4meno est\u00e1 na pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o de dados. Dados obtido pelo <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong> junto \u00e0 Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/PRF\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PRF<\/a>) mostra que as ocorr\u00eancias registradas nas rodovias federais passaram de 850 casos em 2023 para 795 em 2024 e 689 em 2025.<\/p>\n<p>Conforme o coordenador das \u00e1reas especializadas de combate ao crime da PRF, Oliveira Neto, \u201cesses dados s\u00e3o extra\u00eddos do sistema da PRF, ou seja, das ocorr\u00eancias em que a corpora\u00e7\u00e3o esteve diretamente envolvida ou que foram registradas em nossas unidades. Eles n\u00e3o compreendem a totalidade das ocorr\u00eancias.\u201d<\/p>\n<p>Isso ocorre porque muitos crimes acabam sendo registrados posteriormente em delegacias estaduais. \u201cMuitas vezes o caminhoneiro sofre o roubo em um estado, mas s\u00f3 registra a ocorr\u00eancia no destino da viagem\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Segundo a PRF, os roubos de carga tendem a se concentrar nos principais corredores log\u00edsticos do pa\u00eds \u2013 regi\u00f5es que combinam grande circula\u00e7\u00e3o de mercadorias e acesso r\u00e1pido a rotas alternativas utilizadas para dispersar as cargas roubadas.<\/p>\n<p>Entre os trechos mais visados est\u00e3o rodovias como BR-116, BR-381 e BR-101, importantes eixos log\u00edsticos do pa\u00eds. A BR-116 conecta o Nordeste ao Sul passando por grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. A BR-381 liga Minas Gerais ao interior paulista, enquanto a BR-101 percorre grande parte do litoral brasileiro e conecta diversos polos industriais e portu\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s fazemos levantamentos peri\u00f3dicos desses \u00edndices e direcionamos as opera\u00e7\u00f5es para os estados e rodovias onde identificamos maior incid\u00eancia\u201d, explicou Oliveira Neto.<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es policiais indicam que o roubo de cargas costuma seguir um padr\u00e3o relativamente estruturado. Quadrilhas monitoram rotas log\u00edsticas e identificam ve\u00edculos que transportam mercadorias com alto valor de revenda.<\/p>\n<p>A abordagem pode ocorrer durante paradas em postos de <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/combust%C3%ADvel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">combust\u00edvel<\/a>, congestionamentos ou trechos urbanos das rodovias. Em muitos casos, os motoristas s\u00e3o mantidos sob vigil\u00e2ncia enquanto a carga \u00e9 transferida para outros ve\u00edculos, que levam as mercadorias para galp\u00f5es clandestinos.<\/p>\n<p>Investigadores tamb\u00e9m identificaram casos em que o crime ocorre dentro da pr\u00f3pria cadeia log\u00edstica. \u201cNesses casos, os criminosos conseguem informa\u00e7\u00f5es de transportadoras ou centros log\u00edsticos e cooptam motoristas para desviar a carga, simulando posteriormente um roubo\u201d, informou a Pol\u00edcia Civil de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O levantamento tamb\u00e9m revela forte concentra\u00e7\u00e3o regional do problema. O Sudeste responde por cerca de 68% dos preju\u00edzos causados por roubos de carga no pa\u00eds, refletindo a densidade econ\u00f4mica e log\u00edstica da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O eixo formado por S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais concentra alguns dos principais corredores rodovi\u00e1rios e centros de distribui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o que amplia a exposi\u00e7\u00e3o das cargas ao risco de roubo.<\/p>\n<p>Em outras regi\u00f5es, o perfil do transporte \u00e9 diferente. No Centro-Oeste, por exemplo, predominam cargas ligadas ao escoamento da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola em rotas mais longas e menos urbanizadas. Gr\u00e3os e outras commodities, transportados em grandes volumes, tamb\u00e9m tendem a ter menor liquidez no mercado clandestino em compara\u00e7\u00e3o com mercadorias industrializadas ou eletr\u00f4nicas, que s\u00e3o mais f\u00e1ceis de revender.<\/p>\n<h2>O que est\u00e1 sendo roubado \u2013 e quando<\/h2>\n<p>Relat\u00f3rios do setor log\u00edstico indicam mudan\u00e7as importantes no perfil das cargas mais visadas por quadrilhas especializadas. Conforme a pesquisa da Nstech, que monitora opera\u00e7\u00f5es que somam mais de R$ 2,3 trilh\u00f5es em mercadorias transportadas, aponta que cargas fracionadas ainda representam cerca de metade dos preju\u00edzos causados por roubos no pa\u00eds, embora sua participa\u00e7\u00e3o venha diminuindo gradualmente.<\/p>\n<p>No setor de transporte, o termo se refere a remessas menores que compartilham o mesmo ve\u00edculo com mercadorias de diferentes empresas ou destinat\u00e1rios. Em vez de um caminh\u00e3o transportar apenas a carga de um \u00fanico cliente, ele leva produtos de v\u00e1rias empresas ao mesmo tempo, que ser\u00e3o entregues em diferentes endere\u00e7os ao longo da rota.<\/p>\n<p>Esse modelo \u00e9 comum na distribui\u00e7\u00e3o urbana e regional. Caminh\u00f5es, vans ou utilit\u00e1rios fazem diversas paradas ao longo do trajeto para abastecer supermercados, farm\u00e1cias, restaurantes e pequenos com\u00e9rcios, transportando volumes menores destinados a diferentes clientes.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, alguns produtos espec\u00edficos v\u00eam ganhando espa\u00e7o entre os principais alvos das quadrilhas. Entre os segmentos com maior crescimento est\u00e3o alimentos, medicamentos e eletr\u00f4nicos, mercadorias com alta liquidez e facilidade de revenda no mercado clandestino.<\/p>\n<p>O roubo de cargas tamb\u00e9m afeta o transporte de produtos perigosos, como combust\u00edveis e qu\u00edmicos. De acordo com Eduardo Leal, executivo da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Transporte e Log\u00edstica de Produtos Perigosos (ABTLP), esse tipo de crime costuma ter caracter\u00edsticas diferentes em compara\u00e7\u00e3o com outros segmentos do transporte.<\/p>\n<p>\u201cQuando se trata de produtos perigosos, muitas vezes o interesse n\u00e3o \u00e9 o caminh\u00e3o em si, mas o produto transportado. Em v\u00e1rios casos ocorre o transbordo do combust\u00edvel para outros tanques e o ve\u00edculo \u00e9 posteriormente abandonado\u201d, explicou.<\/p>\n<p>De acordo com o representante da associa\u00e7\u00e3o, os combust\u00edveis desviados costumam ser direcionados para canais informais de comercializa\u00e7\u00e3o, como redes ilegais de distribui\u00e7\u00e3o ou pontos de venda irregulares. Al\u00e9m do preju\u00edzo econ\u00f4mico para as transportadoras, essas ocorr\u00eancias tamb\u00e9m trazem riscos ambientais e de seguran\u00e7a, j\u00e1 que o manuseio inadequado pode provocar vazamentos, inc\u00eandios ou outros acidentes.<\/p>\n<p>O segmento aliment\u00edcio, por exemplo, ampliou sua participa\u00e7\u00e3o no preju\u00edzo total causado por roubos de carga, passando de 20,1% para 26,5%, segundo a Nstech. Medicamentos tamb\u00e9m aparecem entre os produtos com crescimento nas ocorr\u00eancias.<\/p>\n<p>Investigadores e especialistas do setor log\u00edstico apontam que esses produtos costumam ser alvos frequentes por reunirem duas caracter\u00edsticas valorizadas pelas quadrilhas: alta demanda e facilidade de revenda. Entre as cargas mais visadas est\u00e3o carnes, caf\u00e9, bebidas e alimentos industrializados, que podem ser rapidamente redistribu\u00eddos para pequenos com\u00e9rcios ou mercados informais.<\/p>\n<p>No caso dos medicamentos, o interesse costuma se concentrar em produtos de maior valor agregado ou de uso cont\u00ednuo, como insulina e rem\u00e9dios utilizados em tratamentos hospitalares. Por serem itens de alta procura e relativamente f\u00e1ceis de comercializar, essas mercadorias podem ser revendidas rapidamente, muitas vezes em pequenos estabelecimentos ou redes informais de venda.<\/p>\n<p>Outro fator relevante \u00e9 o crescimento das ocorr\u00eancias na chamada \u00faltima milha da distribui\u00e7\u00e3o \u2013 etapa final da cadeia log\u00edstica em que as mercadorias s\u00e3o entregues em centros urbanos e os ve\u00edculos realizam m\u00faltiplas paradas ao longo do trajeto.<\/p>\n<h2>A economia da recepta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Autoridades que investigam o fen\u00f4meno apontam que o roubo de cargas s\u00f3 se sustenta devido \u00e0 exist\u00eancia de um mercado clandestino estruturado para absorver essas mercadorias.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o existe roubo se n\u00e3o existir o posterior repasse da mercadoria\u201d, afirma o delegado Christian Waichert, titular da Delegacia Especializada de Crimes Contra o Transporte de Cargas do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>\u201cO roubo ou furto de mercadorias ocorre justamente para uma comercializa\u00e7\u00e3o posterior. Por isso, identificar e punir o receptador \u00e9 essencial para reduzir esse tipo de crime.\u201d<\/p>\n<p>Ao <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong>, a NTC&amp;Log\u00edstica tamb\u00e9m destacou que a din\u00e2mica de absor\u00e7\u00e3o dessas mercadorias varia conforme o tipo de produto e as caracter\u00edsticas da cadeia log\u00edstica. Itens de consumo r\u00e1pido tendem a ser dispersos rapidamente em pequenas quantidades, enquanto cargas de maior valor ou que exigem armazenamento e log\u00edstica mais complexa podem envolver intermedi\u00e1rios ou estruturas de distribui\u00e7\u00e3o mais organizadas.<\/p>\n<p>A entidade observa ainda que o ambiente digital passou a integrar essa din\u00e2mica de comercializa\u00e7\u00e3o. Assim como ocorre com produtos de origem regular, plataformas online e redes sociais ampliaram os canais de venda dispon\u00edveis no mercado, o que pode facilitar a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias de origem irregular quando n\u00e3o h\u00e1 mecanismos eficazes de rastreabilidade.<\/p>\n<p>Investiga\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Federal (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/Pol%C3%ADcia%20Federal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PF<\/a>) realizadas em 2025 ajudam a ilustrar como essas cadeias de recepta\u00e7\u00e3o funcionam na pr\u00e1tica. No in\u00edcio do ano, agentes apuraram a atua\u00e7\u00e3o de um grupo suspeito de furtar cargas transportadas por caminh\u00f5es dos Correios em rotas entre S\u00e3o Paulo e cidades do Par\u00e1. Conforme a PF, o esquema teria causado preju\u00edzos superiores a R$ 35 milh\u00f5es ao longo de cerca de cinco anos.<\/p>\n<p>J\u00e1 em outra opera\u00e7\u00e3o deflagrada no meio do ano, investigadores miraram uma quadrilha suspeita de roubar cargas transportadas por caminh\u00f5es dos <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/Correios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Correios<\/a> e do <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/Mercado%20Livre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mercado Livre<\/a> em rodovias que cortam Minas Gerais e a Bahia. De acordo com as apura\u00e7\u00f5es, os criminosos interceptavam os ve\u00edculos e levavam as mercadorias para um ponto utilizado para armazenar, separar e redistribuir os produtos roubados antes da revenda.<\/p>\n<p>No caso de S\u00e3o Paulo, apura\u00e7\u00f5es conduzidas pela Pol\u00edcia Civil indicam que n\u00e3o existe um \u00fanico destino para as mercadorias roubadas, mas alguns caminhos aparecem com frequ\u00eancia nas investiga\u00e7\u00f5es. Segundo o delegado Paul Henry Verduraz, da Divis\u00e3o de Investiga\u00e7\u00e3o sobre Furtos, Roubos e Recepta\u00e7\u00e3o de Ve\u00edculos e Cargas do Departamento Estadual de Investiga\u00e7\u00f5es Criminais (DEIC), as quadrilhas costumam tentar transformar a carga em dinheiro o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, utilizando canais que dificultem o rastreamento.<\/p>\n<p>\u201cNormalmente a carga roubada \u00e9 dividida rapidamente em pequenos lotes. Os produtos de maior prefer\u00eancia nessa modalidade s\u00e3o alimentos e bebidas, cigarros, eletr\u00f4nicos, produtos de higiene e roupas. Esses itens s\u00e3o escolhidos porque giram r\u00e1pido e s\u00e3o dif\u00edceis de rastrear\u201d, explicou o delegado.<\/p>\n<p>De acordo com Verduraz, a venda para estabelecimentos menores \u00e9 um dos destinos mais comuns. \u201cOutra rota muito comum \u00e9 a venda para mercadinhos, bares ou lojas menores, geralmente por meio de receptadores\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda casos em que as cargas roubadas s\u00e3o levadas para outros estados ou regi\u00f5es do pa\u00eds, estrat\u00e9gia utilizada pelas quadrilhas para reduzir o risco de identifica\u00e7\u00e3o da mercadoria e facilitar a revenda. Segundo o delegado, isso costuma ocorrer com produtos de maior valor agregado, como eletrodom\u00e9sticos, eletr\u00f4nicos, medicamentos, pneus e pe\u00e7as automotivas.<\/p>\n<p>Epis\u00f3dios registrados em diferentes estados tamb\u00e9m mostram que parte dessas cargas pode aparecer em feiras populares ou mercados informais. No Rio de Janeiro, por exemplo, opera\u00e7\u00f5es policiais e a\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 identificaram a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias sem comprova\u00e7\u00e3o de origem em espa\u00e7os como a feira de Acari, na zona norte da cidade.<\/p>\n<p>O local ficou conhecido ao longo dos anos como um dos maiores mercados informais da regi\u00e3o e j\u00e1 foi alvo de diversas opera\u00e7\u00f5es por suspeita de comercializa\u00e7\u00e3o de produtos irregulares ou sem nota fiscal. Em diferentes ocasi\u00f5es, autoridades relataram que mercadorias provenientes de cargas roubadas ou desviadas acabavam sendo revendidas em bancas e pequenos com\u00e9rcios ligados ao circuito da feira, muitas vezes misturadas a produtos de origem regular.<\/p>\n<p>A feira foi encerrada oficialmente pela prefeitura do Rio de Janeiro em 2023, ap\u00f3s anos de opera\u00e7\u00f5es policiais e den\u00fancias sobre a venda de produtos sem origem comprovada no local.<\/p>\n<p>Conforme investigadores e especialistas do setor log\u00edstico, a rapidez dessa redistribui\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos fatores que dificultam a recupera\u00e7\u00e3o das cargas roubadas, j\u00e1 que os produtos podem ser fragmentados e espalhados por diferentes pontos de venda poucas horas ap\u00f3s o crime.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do delegado, medidas que permitam atingir financeiramente os respons\u00e1veis \u2013 como multas, apreens\u00e3o de bens e rastreamento de patrim\u00f4nio \u2013 poderiam aumentar a efetividade das investiga\u00e7\u00f5es e reduzir o incentivo econ\u00f4mico ao crime.<\/p>\n<h2>Preven\u00e7\u00e3o e tecnologia<\/h2>\n<p>Al\u00e9m da atua\u00e7\u00e3o policial, estrat\u00e9gias de preven\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m t\u00eam sido adotadas por governos locais e pelo setor log\u00edstico para reduzir a incid\u00eancia de roubos de carga.<\/p>\n<p>Conforme a Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal (PRF), o combate a esse tipo de crime depende de uma combina\u00e7\u00e3o entre policiamento direcionado, investiga\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o com outras for\u00e7as de seguran\u00e7a. Quando grupos criminosos respons\u00e1veis por esses roubos s\u00e3o identificados e presos, o impacto costuma aparecer rapidamente nas estat\u00edsticas.<\/p>\n<p>\u201cQuando conseguimos prender a quadrilha inteira, a regi\u00e3o normalmente registra uma queda significativa desse tipo de crime por alguns meses\u201d, afirmou o coordenador das \u00e1reas especializadas de combate ao crime da PRF, Oliveira Neto.<\/p>\n<p>Ainda assim, o crime tende a se adaptar \u00e0s a\u00e7\u00f5es policiais. \u201cQuando intensificamos o policiamento em uma \u00e1rea, muitas vezes os criminosos migram para outra regi\u00e3o\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das opera\u00e7\u00f5es policiais, experi\u00eancias locais mostram que o uso de tecnologia e a integra\u00e7\u00e3o entre diferentes \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a tamb\u00e9m podem contribuir para reduzir ocorr\u00eancias.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 o munic\u00edpio de Jundia\u00ed, importante polo log\u00edstico no interior de S\u00e3o Paulo, a cerca de 60 quil\u00f4metros da capital. Segundo a prefeitura, a cidade reduziu em 52% os registros de roubo de cargas em 2025, resultado atribu\u00eddo \u00e0 integra\u00e7\u00e3o entre for\u00e7as policiais e ao uso intensivo de tecnologia.<\/p>\n<p>\u201cHoje temos mais de 400 c\u00e2meras de leitura de placas integradas \u00e0s pol\u00edcias estaduais e sistemas de monitoramento em tempo real\u201d, afirmou Guilherme Balbino Rigo, secret\u00e1rio municipal de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Experi\u00eancias desse tipo v\u00eam sendo acompanhadas por autoridades de seguran\u00e7a e pelo setor log\u00edstico como poss\u00edveis caminhos para reduzir a incid\u00eancia do crime em regi\u00f5es com grande circula\u00e7\u00e3o de mercadorias \u2013 especialmente em um pa\u00eds em que o transporte rodovi\u00e1rio segue sendo o principal eixo de distribui\u00e7\u00e3o de produtos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao reduzir a velocidade para passar por uma lombada em uma rua do Graja\u00fa, no extremo sul de S\u00e3o Paulo, um motorista que transportava carne foi surpreendido por dois homens armados que surgiram de lados opostos da via. 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