{"id":20948,"date":"2026-03-02T10:59:17","date_gmt":"2026-03-02T13:59:17","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/03\/02\/corte-idh-mexico-e-responsavel-pela-tortura-e-feminicidio-de-jovem-mae-de-17-anos\/"},"modified":"2026-03-02T10:59:17","modified_gmt":"2026-03-02T13:59:17","slug":"corte-idh-mexico-e-responsavel-pela-tortura-e-feminicidio-de-jovem-mae-de-17-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/03\/02\/corte-idh-mexico-e-responsavel-pela-tortura-e-feminicidio-de-jovem-mae-de-17-anos\/","title":{"rendered":"Corte IDH: M\u00e9xico \u00e9 respons\u00e1vel pela tortura e feminic\u00eddio de jovem m\u00e3e de 17 anos"},"content":{"rendered":"<p>A Corte Interamericana de Direitos Humanos (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/corte-idh\">Corte IDH<\/a>) condenou o M\u00e9xico pelo desaparecimento, tortura e feminic\u00eddio de Lilia Alejandra Garc\u00eda Andrade, trabalhadora de uma f\u00e1brica de pl\u00e1sticos em Ciudad Ju\u00e1rez, situada na fronteira com os Estados Unidos.<\/p>\n<p>O Estado reconheceu que a cidade \u00e9 assolada pela viol\u00eancia de g\u00eanero e pela impunidade generalizada, impulsionadas pelo grande fluxo migrat\u00f3rio e pela presen\u00e7a controladora do narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\">Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/a><\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca dos acontecimentos, Lilia tinha 17 anos e era m\u00e3e de dois filhos \u2013 uma menina de um ano e oito meses e um menino de cinco meses. Em 14 de fevereiro de 2001, ela saiu para trabalhar \u00e0s 6h e retornaria \u00e0s 20h, como fazia rotineiramente.<\/p>\n<p>Ela foi vista pela \u00faltima vez prestes a embarcar em um \u00f4nibus de volta para casa, depois de encerrar o expediente. Sua m\u00e3e a aguardava na parada de destino, mas ela n\u00e3o apareceu no hor\u00e1rio de costume.<\/p>\n<p>Na primeira hora da madrugada, Norma foi \u00e0 pol\u00edcia registrar um boletim de ocorr\u00eancia sobre o desaparecimento. As autoridades, por\u00e9m, informaram que s\u00f3 poderiam iniciar uma investiga\u00e7\u00e3o entre 48 e 72 horas depois do sumi\u00e7o.<\/p>\n<p>A m\u00e3e voltou \u00e0 pol\u00edcia em 16 de fevereiro, e os agentes finalmente tomaram seu depoimento. No entanto, ela relatou ter ouvido dos policiais: \u201cSenhora, por que est\u00e1 se fazendo de desentendida? Sua filha foi embora porque n\u00e3o a suportava mais. A senhora a mantinha em r\u00e9dea curta, por isso ela foi embora. A senhora procurou por ela com o pai de seus filhos? Temos mais de 2 mil pessoas desaparecidas e somos apenas dois agentes para procur\u00e1-las.\u201d<\/p>\n<p>Em 19 de fevereiro, \u00e0s 22h15, a dona de uma barraca de comidas relatou ter visto uma mulher sendo for\u00e7ada a entrar em um carro branco, estacionado nas proximidades do com\u00e9rcio. Com a ajuda de bin\u00f3culos, disse ter presenciado o estupro de uma jovem de baixa estatura por um rapaz, dentro do ve\u00edculo. Ela chamou a pol\u00edcia por diversas vezes, mas n\u00e3o foi atendida de imediato. Quando a viatura chegou, o carro j\u00e1 havia partido.<\/p>\n<p>O corpo de Lilia Alejandra Garc\u00eda Andrade foi encontrado em 21 de fevereiro de 2001, em um terreno baldio, a 500 metros do local relatado pela comerciante. O laudo da aut\u00f3psia apontou que a jovem foi v\u00edtima de asfixia, causada por estrangulamento mec\u00e2nico. Foram encontradas evid\u00eancias de que ela foi v\u00edtima de atos sexuais repetidos ou da participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias pessoas em seu estupro.<\/p>\n<p>Entre 2001 e 2010, a investiga\u00e7\u00e3o sobre o homic\u00eddio esteve a cargo de diversas promotorias, sem avan\u00e7os significativos. Ap\u00f3s um longo processo, marcado pela falta de devida dilig\u00eancia por parte das autoridades e por d\u00favidas quanto \u00e0 integridade e \u00e0 exaustividade da an\u00e1lise das provas, em 2023 foi iniciado um processo contra o principal suspeito do feminic\u00eddio no Tribunal Superior de Justi\u00e7a de Chihuahua, atualmente em curso.<\/p>\n<p>Em virtude dos fatos, a Corte IDH declarou o M\u00e9xico internacionalmente respons\u00e1vel pela viola\u00e7\u00e3o dos direitos \u00e0 vida, \u00e0 integridade pessoal, \u00e0 liberdade contra a tortura, \u00e0 liberdade individual, \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, \u00e0 igualdade e ao direito de viver livre de viol\u00eancia, em preju\u00edzo de Lilia Alejandra Garc\u00eda Andrade.<\/p>\n<p>Os ju\u00edzes tamb\u00e9m declararam o Estado internacionalmente respons\u00e1vel pelos ataques e amea\u00e7as sofridos por Norma Esther Andrade, m\u00e3e de Lilia, que se converteu em ativista de direitos humanos e foi v\u00edtima de dois atentados em raz\u00e3o da luta por justi\u00e7a no caso de sua filha.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o tribunal responsabilizou o Estado pela viola\u00e7\u00e3o das garantias judiciais, da tutela jurisdicional e da igualdade, devido \u00e0 falta de uma investiga\u00e7\u00e3o adequada dos eventos sofridos por Lilia Alejandra e sua m\u00e3e. Tamb\u00e9m reconheceu as viola\u00e7\u00f5es \u00e0 integridade pessoal, liberdade de movimento e direito \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, em preju\u00edzo dos de Lilia, Norma Andrade e Jos\u00e9 Garc\u00eda, bem como de seus filhos, Jade Tikva e Jos\u00e9 Kaleb Garc\u00eda Andrade, reconhecendo. Por fim, a Corte tamb\u00e9m responsabilizou o Estado pela viola\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 verdade dos familiares de Lilia Alejandra Garc\u00eda Andrade.<\/p>\n<p>O Estado reconheceu parcialmente a sua responsabilidade por n\u00e3o cumprir o seu dever de preven\u00e7\u00e3o relativamente \u00e0s viola\u00e7\u00f5es do direito \u00e0 vida, \u00e0 integridade pessoal, \u00e0 liberdade pessoal, aos direitos da crian\u00e7a, \u00e0 igualdade perante a lei e ao direito de viver livre de viol\u00eancia, em detrimento de Lilia Alejandra Garc\u00eda Andrade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, devido \u00e0 falta de estruturas especializadas para fornecer mecanismos judiciais eficazes, reconheceu a viola\u00e7\u00e3o das garantias judiciais, da prote\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\">Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/a><\/p>\n<h2>Diverg\u00eancias sobre tortura e feminic\u00eddio<\/h2>\n<p>Na opini\u00e3o majorit\u00e1ria da Corte, a responsabiliza\u00e7\u00e3o estatal por atos de tortura sexual n\u00e3o deve se limitar \u00e0 pr\u00e1tica direta cometida por agentes do Estado, mas tamb\u00e9m em situa\u00e7\u00f5es de instiga\u00e7\u00e3o, consentimento, aquiesc\u00eancia e omiss\u00e3o quando tais atos poderiam ter sido evitados \u2013 como foi no caso de Lilia.<\/p>\n<p>No caso concreto, a maioria entendeu que o Estado deveria ter acionado um dever refor\u00e7ado de preven\u00e7\u00e3o e busca imediata, levando em conta o contexto de viol\u00eancia estrutural contra as mulheres reconhecidamente existente em Cuidad Ju\u00e1rez. De acordo com a senten\u00e7a, houve omiss\u00e3o grave na resposta dos policiais \u00e0 den\u00fancia de desaparecimento e no alerta feito pela comerciante sobre o ataque no carro.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o da ju\u00edza Patricia P\u00e9rez Goldberg, do Chile, contudo, n\u00e3o h\u00e1 fundamentos suficientes para imputar diretamente ao Estado a pr\u00e1tica de atos de tortura cometidos por particulares. Ela emitiu um voto parcialmente dissidente, em que defendeu que a situa\u00e7\u00e3o deveria se enquadrar no \u00e2mbito da obriga\u00e7\u00e3o convencional de preven\u00e7\u00e3o, sendo a viola\u00e7\u00e3o relativa ao dever de dilig\u00eancia refor\u00e7ada.<\/p>\n<p>\u201cUma conclus\u00e3o que equipara a neglig\u00eancia na investiga\u00e7\u00e3o ou busca \u00e0 imputa\u00e7\u00e3o direta de tortura acaba por obscurecer as diferen\u00e7as conceituais entre o dever de preven\u00e7\u00e3o e a atribui\u00e7\u00e3o de atos de tortura, tornando a an\u00e1lise desta \u00faltima sem sentido\u201d, pontuou.<\/p>\n<p>Para Goldberg, para que se possa responsabilizar o Estado, o risco de tortura deve ser \u201ccomprovadamente previs\u00edvel, presente, pessoal e real\u201d. \u201cNo presente caso, por\u00e9m, os autos n\u00e3o demonstram que as autoridades tiveram qualquer oportunidade concreta de agir para prevenir os atos de viol\u00eancia sofridos por Lilia Alejandra Garc\u00eda Andrade, al\u00e9m das omiss\u00f5es na ativa\u00e7\u00e3o precoce dos mecanismos de busca. Portanto, creio que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de uma falha manifesta que permita responsabilizar o Estado internacionalmente por atos de tortura cometidos por terceiros\u201d.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaFvFd73rZZflK7yGD0I\">Inscreva-se no canal de not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> no WhatsApp e fique por dentro das principais discuss\u00f5es do pa\u00eds!<\/a><\/p>\n<p>O juiz Alberto Borea Odr\u00eda, do Peru, compartilha da vis\u00e3o da magistrada chilena. \u201cNem as autoridades nem a denunciante tinham conhecimento do sofrimento a que Lilia Garc\u00eda estava sendo submetida no momento da den\u00fancia. E, como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar que os agentes estatais \u201ccondenaram\u201d deliberadamente ou \u201cdeixaram de prevenir\u201d a ocorr\u00eancia de eventos dos quais n\u00e3o tinham conhecimento, o Tribunal n\u00e3o pode concluir que o crime de tortura foi cometido\u201d, afirmou, tamb\u00e9m em voto parcialmente dissidente.<\/p>\n<p>O peruano manifestou tamb\u00e9m discord\u00e2ncia sobre a inclus\u00e3o do termo \u201cfeminic\u00eddio\u201d na senten\u00e7a, termo que, segundo ele, n\u00e3o possu\u00eda exist\u00eancia normativa ou doutrinal consolidada \u00e0 \u00e9poca dos eventos em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Classificar legalmente a morte de Lilia Garc\u00eda Andrade como feminic\u00eddio \u00e9 anacr\u00f4nico, pois implica a aplica\u00e7\u00e3o retroativa de uma categoria que n\u00e3o fazia parte do quadro conceitual ou do sistema jur\u00eddico aplic\u00e1vel \u00e0 \u00e9poca dos fatos. \u201cTal classifica\u00e7\u00e3o desconsideraria os princ\u00edpios da legalidade e da n\u00e3o retroatividade, consagrados no Artigo 9\u00ba da Conven\u00e7\u00e3o Americana sobre Direitos Humanos, que estabelece que \u2018ningu\u00e9m pode ser condenado por qualquer ato ou omiss\u00e3o que n\u00e3o constitu\u00eda crime segundo a legisla\u00e7\u00e3o aplic\u00e1vel \u00e0 \u00e9poca em que foi cometido\u2019\u201d.<\/p>\n<h2>Projeto de vida<\/h2>\n<p>Os ju\u00edzes Rodrigo Mudrovitsch, do Brasil, e Ricardo P\u00e9rez Manrique, do Uruguai, emitiram voto parcialmente dissidente para defender a autonomia do direito ao projeto de vida, como t\u00eam feito com frequ\u00eancia nas \u00faltimas senten\u00e7as da Corte IDH.<\/p>\n<p>Os magistrados afirmaram que Lilia Alejandra teve violado o seu pr\u00f3prio sentido de existir, ressaltando-se que integrava um grupo triplamente vulner\u00e1vel: era menor de idade, mulher e em situa\u00e7\u00e3o de pobreza. Eles lembraram que o crime n\u00e3o s\u00f3 privou a de exercer a maternidade em plenitude, mas de suas aspira\u00e7\u00f5es e potencialidades, como o sonho de ingressar na universidade e construir uma carreira como jornalista.<\/p>\n<p>\u201cO desaparecimento, a tortura sexual e o feminic\u00eddio de Lilia Alejandra representaram a ruptura definitiva de suas aspira\u00e7\u00f5es e potencialidades, privando-a n\u00e3o somente de sua vida em sentido biol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m do desenvolvimento pleno da sua personalidade, o que inclu\u00eda da possibilidade de desenvolver sua identidade, de construir uma carreira, de estabelecer v\u00ednculos afetivos duradouros e de exercer em plenitude a maternidade\u201d.<\/p>\n<p>Mudrovitsch e Manrique destacaram a viola\u00e7\u00e3o do direito no seu contexto coletivo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres residentes em Ciudad Ju\u00e1rez. \u201cA intersec\u00e7\u00e3o entre o cen\u00e1rio de viol\u00eancia sistem\u00e1tica de g\u00eanero e a persistente situa\u00e7\u00e3o de impunidade contribui para precarizar a perspectiva de vida das mulheres e as coloca em uma situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade agravada. Essa realidade afeta suas vidas e integridade f\u00edsica, al\u00e9m de restringir de forma significativa o exerc\u00edcio pleno de seus direitos, impactando diretamente suas aspira\u00e7\u00f5es pessoais, profissionais e existenciais\u201d.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) condenou o M\u00e9xico pelo desaparecimento, tortura e feminic\u00eddio de Lilia Alejandra Garc\u00eda Andrade, trabalhadora de uma f\u00e1brica de pl\u00e1sticos em Ciudad Ju\u00e1rez, situada na fronteira com os Estados Unidos. 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