{"id":20941,"date":"2026-03-02T05:58:30","date_gmt":"2026-03-02T08:58:30","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/03\/02\/linguagem-precisao-e-responsabilidade-na-advocacia\/"},"modified":"2026-03-02T05:58:30","modified_gmt":"2026-03-02T08:58:30","slug":"linguagem-precisao-e-responsabilidade-na-advocacia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/03\/02\/linguagem-precisao-e-responsabilidade-na-advocacia\/","title":{"rendered":"Linguagem, precis\u00e3o e responsabilidade na advocacia"},"content":{"rendered":"<p>Em 1946, George Orwell publicou o ensaio <em><a href=\"https:\/\/www.orwellfoundation.com\/the-orwell-foundation\/orwell\/essays-and-other-works\/politics-and-the-english-language\/?utm_source=chatgpt.com\">Politics and the English Language<\/a>.<\/em> Logo nas primeiras linhas, afirmou que o ingl\u00eas escrito de seu tempo havia se tornado \u201cugly and inaccurate\u201d. Textos feios e imprecisos. A cr\u00edtica n\u00e3o se dirigia ao gosto liter\u00e1rio, mas ao pensamento exposto por meio de palavras escritas. Para Orwell, linguagem descuidada n\u00e3o apenas reflete racioc\u00ednio confuso; ela o alimenta, pois forma e conte\u00fado se degradam mutuamente.<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o me permanece bastante atual, inclusive, e especialmente, no cotidiano dos juristas. A advocacia \u00e9 uma profiss\u00e3o da palavra. Peti\u00e7\u00f5es, pareceres, contratos, memoriais e votos s\u00e3o constru\u00eddos por meio de linguagem. N\u00e3o se trata de ornamento ou de manejo da vaidade. A escrita \u00e9 instrumento de trabalho e meio de produ\u00e7\u00e3o de efeitos jur\u00eddicos.<\/p>\n<p>Quando a linguagem se torna vaga, o racioc\u00ednio jur\u00eddico tende a acompanh\u00e1-la. Ambiguidades desnecess\u00e1rias deslocam responsabilidades, fragilizam argumentos e dificultam a compreens\u00e3o de quem decide.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Orwell n\u00e3o se limitou ao diagn\u00f3stico. Prop\u00f4s seis regras simples para combater os v\u00edcios da escrita: <em>(i)<\/em> evitar met\u00e1foras gastas; <em>(ii)<\/em> preferir palavras curtas quando bastarem; <em>(iii)<\/em> cortar o que n\u00e3o acrescenta sentido; <em>(iv)<\/em> n\u00e3o recorrer \u00e0 voz passiva quando a ativa estiver dispon\u00edvel; <em>(v) <\/em>evitar jarg\u00f5es e termos estrangeiros se houver equivalente corrente; e, por fim, <em>(vi)<\/em> romper qualquer dessas regras antes de dizer algo francamente b\u00e1rbaro.<\/p>\n<p>As regras n\u00e3o pretendem produzir minimalismo artificial. Prestam-se a funcionar como disciplina intelectual. Exigem que o autor saiba exatamente o que quer dizer antes de escrever e que submeta o texto a revis\u00e3o rigorosa. O processo \u00e9 menos liter\u00e1rio e mais moral: n\u00e3o se trata de eleg\u00e2ncia, mas de responsabilidade. Na advocacia, essa responsabilidade \u00e9 intensificada.<\/p>\n<p>O excesso verbal pode criar falsa apar\u00eancia de profundidade. Express\u00f5es latinas, constru\u00e7\u00f5es impessoais e per\u00edodos longos produzem impress\u00e3o de t\u00e9cnica. Palavras incompreens\u00edveis s\u00e3o antes mecanismo de inseguran\u00e7a do escritor, que deseja se apresentar como aquele que escreve com suntuosidade. Mas, t\u00e9cnica n\u00e3o se confunde com obscuridade nem com vaidade. Quando o texto depende de densidade verbal ou palavras no estilo rococ\u00f3 para sustentar o argumento, \u00e9 prov\u00e1vel que ele ainda n\u00e3o esteja suficientemente estruturado.<\/p>\n<p>A quarta regra de Orwell (evitar a voz passiva quando a ativa \u00e9 poss\u00edvel) revela ponto sens\u00edvel para o direito. A voz passiva dilui agentes. \u201cFoi decidido\u201d, \u201cforam constatados\u201d, \u201crestou evidenciado\u201d s\u00e3o f\u00f3rmulas gastas. No entanto, identificar quem decidiu, quem constatou, quem afirmou n\u00e3o \u00e9 detalhe estil\u00edstico. \u00c9 elemento de imputa\u00e7\u00e3o e responsabilidade. A estrutura sint\u00e1tica pode aproximar ou afastar o leitor da compreens\u00e3o efetiva dos fatos e das consequ\u00eancias jur\u00eddicas.<\/p>\n<p>Ao longo de quase quarenta anos de leituras e escritas profissionais, aprendi que escrever demanda revis\u00e3o constante. Substituir constru\u00e7\u00f5es imprecisas por formula\u00e7\u00f5es diretas. Abdicar de termos incompreens\u00edveis. Desconfiar de \u201csempre\u201d e \u201cnunca\u201d, sobretudo em mat\u00e9ria jur\u00eddica, onde os absolutos raramente sobrevivem ao confronto com os fatos. Cortar p\u00e1ginas que pareciam necess\u00e1rias. Reduzir adjetivos. Como na frase atribu\u00edda a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Juan_Rulfo\">Juan Rulfo<\/a>: <em>\u201cNo come\u00e7o, voc\u00ea deve escrever levado pelo vento, at\u00e9 sentir que est\u00e1 voando. A partir da\u00ed, o ritmo e a atmosfera se desenham sozinhos. \u00c9 s\u00f3 seguir o voo. Quando voc\u00ea achar que chegou aonde queria chegar \u00e9 que come\u00e7a o verdadeiro trabalho: cortar, cortar muito\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Evidente que escrever um romance ou uma poesia envolve cronologias distintas daquelas dos contratos, peti\u00e7\u00f5es e memoriais. Por\u00e9m, aqui tamb\u00e9m o verdadeiro trabalho n\u00e3o \u00e9 escrever uma sucess\u00e3o impensada de palavras, algumas incompreens\u00edveis, outras clich\u00eas insuport\u00e1veis, mas sim cortar e cortar muito. Esse \u00e9 o esfor\u00e7o que a advocacia respons\u00e1vel precisa fazer.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia tamb\u00e9m ensina que precis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplifica\u00e7\u00e3o indevida, mas delimita\u00e7\u00e3o: saber at\u00e9 onde vai o argumento e onde ele termina. A linguagem que respeita esses limites fortalece a confian\u00e7a entre advogado, cliente e julgador. A que os obscurece pode gerar ru\u00eddo desnecess\u00e1rio e, em casos extremos, comprometer a pr\u00f3pria credibilidade.<\/p>\n<p>Orwell advertia que a linguagem pol\u00edtica tende a tornar mentiras plaus\u00edveis e dar apar\u00eancia de solidez ao que \u00e9 apenas vento. A advocacia n\u00e3o pode se permitir esse desvio. O compromisso profissional imp\u00f5e que a palavra seja instrumento de organiza\u00e7\u00e3o do pensamento e n\u00e3o de sua dissimula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de quatro d\u00e9cadas, continuo revisando cada texto com a mesma preocupa\u00e7\u00e3o: o argumento est\u00e1 delimitado? Os agentes est\u00e3o identificados? As palavras escolhidas s\u00e3o necess\u00e1rias? E a pergunta que raramente nos fazemos: este par\u00e1grafo serve ao caso, ou s\u00f3 \u00e0 minha vaidade? Se a resposta for negativa, o problema n\u00e3o est\u00e1 no leitor. Est\u00e1 em quem escreve.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1946, George Orwell publicou o ensaio Politics and the English Language. Logo nas primeiras linhas, afirmou que o ingl\u00eas escrito de seu tempo havia se tornado \u201cugly and inaccurate\u201d. Textos feios e imprecisos. A cr\u00edtica n\u00e3o se dirigia ao gosto liter\u00e1rio, mas ao pensamento exposto por meio de palavras escritas. 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