{"id":20636,"date":"2026-02-25T05:58:55","date_gmt":"2026-02-25T08:58:55","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/02\/25\/interacao-humano-ia-generativa-e-eleicoes\/"},"modified":"2026-02-25T05:58:55","modified_gmt":"2026-02-25T08:58:55","slug":"interacao-humano-ia-generativa-e-eleicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/02\/25\/interacao-humano-ia-generativa-e-eleicoes\/","title":{"rendered":"Intera\u00e7\u00e3o humano-IA generativa e elei\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil largou na frente. Com a <a href=\"https:\/\/www.tse.jus.br\/legislacao\/compilada\/res\/2024\/resolucao-no-23-732-de-27-de-fevereiro-de-2024\">Resolu\u00e7\u00e3o 23.732\/2024<\/a>, o <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/TSE\">TSE<\/a> foi um dos primeiros tribunais eleitorais do mundo a regular expressamente o uso de IA em elei\u00e7\u00f5es \u2013 proibiu <em>deepfakes<\/em>, exigiu rotulagem de conte\u00fado sint\u00e9tico, vedou <em>chatbots<\/em> que simulem candidatos ou outras pessoas reais. Foi um passo importante e merecidamente reconhecido.<\/p>\n<p>Mas os ciclos eleitorais de 2026 e do futuro exigir\u00e3o mais.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>A tecnologia avan\u00e7ou, as evid\u00eancias cient\u00edficas acumularam e a experi\u00eancia regulat\u00f3ria de diferentes jurisdi\u00e7\u00f5es revela que ainda h\u00e1 desafios que n\u00e3o foram incorporados plenamente ao horizonte regulat\u00f3rio brasileiro. Essa constata\u00e7\u00e3o tornou-se vis\u00edvel, sobretudo, a partir das contribui\u00e7\u00f5es apresentadas por diversos interessados durante o ciclo de audi\u00eancias p\u00fablicas promovido pelo TSE no in\u00edcio de fevereiro, cuja finalidade foi subsidiar a elabora\u00e7\u00e3o das novas minutas de resolu\u00e7\u00f5es aplic\u00e1veis aos pleitos deste ano.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de rever o que j\u00e1 foi acertadamente estabelecido, mas de reconhecer que o tempo tecnol\u00f3gico \u00e9 mais acelerado que o cronol\u00f3gico e que os riscos eleitorais se sofisticam no mesmo ritmo. Entre os diversos desafios relevantes, destaco um que n\u00e3o est\u00e1 na superf\u00edcie do processo eleitoral: os potenciais efeitos da intera\u00e7\u00e3o entre eleitores e sistemas de IA generativa.<\/p>\n<p>Hoje, quando algu\u00e9m abre o ChatGPT, o Gemini ou o Claude para perguntar sobre reforma tribut\u00e1ria, seguran\u00e7a p\u00fablica ou pol\u00edtica ambiental, est\u00e1 interagindo com sistemas desenvolvidos por um n\u00famero restrito de grandes empresas transnacionais que se tornaram, na pr\u00e1tica, parte da infraestrutura informacional \u2013 <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/artigos\/posicionamento-politico-das-big-techs-o-que-a-amazonia-tem-a-ver\">n\u00e3o <em>exatamente<\/em> neutra<\/a> \u2013 sobre a qual a democracia brasileira opera.<\/p>\n<p>Essa intera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se assemelha \u00e0 propaganda eleitoral convencional: n\u00e3o h\u00e1 um candidato tentando convencer, n\u00e3o h\u00e1 um cabo eleitoral batendo \u00e0 porta. H\u00e1 uma conversa aparentemente imparcial com uma m\u00e1quina que parece saber de tudo \u2013 e \u00e9 precisamente nesse ponto que reside o desafio.<\/p>\n<p>A literatura cient\u00edfica recente tem lan\u00e7ado luz sobre dimens\u00f5es dessa intera\u00e7\u00e3o que s\u00e3o preocupantes. Um <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-025-09771-9\">estudo publicado na Nature<\/a> em dezembro de 2025, conduzido em tr\u00eas pa\u00edses \u2013 Estados Unidos, Canad\u00e1 e Pol\u00f4nia \u2013, investigou a capacidade de modelos de linguagem de influenciar prefer\u00eancias pol\u00edticas por meio de di\u00e1logos individuais.<\/p>\n<p>Os resultados indicam que conversas com IAs generativas podem, sim, produzir efeitos mensur\u00e1veis sobre a inten\u00e7\u00e3o de voto dos participantes, ainda que com baixa porcentagem de convers\u00e3o \u2013 efeito que, conforme <a href=\"https:\/\/aclanthology.org\/2024.emnlp-main.244.pdf\">outro experimento<\/a> realizado com 935 eleitores americanos, pode ocorrer mesmo sem instru\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas de persuas\u00e3o ao modelo.<\/p>\n<p>Mas talvez mais significativo do que essa descoberta seja a constata\u00e7\u00e3o de que a estrat\u00e9gia persuasiva mais eficaz n\u00e3o foi o apelo emocional, o <em>storytelling<\/em> ou a press\u00e3o social: foi a apresenta\u00e7\u00e3o de fatos e evid\u00eancias. A IA convence mais quando opera sob uma apar\u00eancia de racionalidade informativa.<\/p>\n<p>Quando os pesquisadores reduziram o componente factual das respostas, a efic\u00e1cia persuasiva caiu em mais de 50%. Isso sugere que o risco n\u00e3o est\u00e1 tanto na IA que manipula emo\u00e7\u00f5es, mas naquela que seleciona e enquadra informa\u00e7\u00f5es de maneira aparentemente objetiva ao usu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o ganha uma dimens\u00e3o adicional quando combinada com outra linha de pesquisa. Em <a href=\"https:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0306621\">estudo dedicado a mapear as prefer\u00eancias pol\u00edticas incorporadas em modelos de linguagem<\/a>, o autor aplicou 2.640 testes de orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a 24 sistemas de IA e observou que os principais modelos do mercado apresentaram inclina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na maioria dos instrumentos aplicados.<\/p>\n<p>O aspecto mais relevante para o debate eleitoral n\u00e3o \u00e9 necessariamente a dire\u00e7\u00e3o dessa inclina\u00e7\u00e3o, mas sim que, em primeiro lugar, os modelos (antes do ajuste fino) se mostraram substancialmente mais neutros, sugerindo que as prefer\u00eancias s\u00e3o introduzidas durante as fases de refinamento; e, em segundo lugar, que a homogeneidade dos resultados entre modelos de empresas concorrentes levanta quest\u00f5es sobre poss\u00edveis padr\u00f5es sist\u00eamicos na ind\u00fastria.<\/p>\n<p>H\u00e1 um elemento adicional que conecta esses achados: a tend\u00eancia dos modelos de linguagem \u00e0 bajula\u00e7\u00e3o, o que a literatura denomina <em>sycophancy<\/em>. Um <a href=\"https:\/\/www.dfki.de\/fileadmin\/user_upload\/import\/15305_2024.inlg-main.13.pdf\">estudo<\/a> alem\u00e3o indica que, quando um usu\u00e1rio expressa posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ao interagir com um <em>chatbot<\/em>, o sistema tende a refor\u00e7ar essas posi\u00e7\u00f5es em vez de apresentar contrapontos, gerando um \u201cefeito c\u00e2mara de eco\u201d.<\/p>\n<p>Esse experimento, que simulou intera\u00e7\u00f5es com <em>personas<\/em> de eleitores germ\u00e2nicos de diferentes espectros, revelou que os modelos produziam respostas bajulat\u00f3rias que refor\u00e7avam os vieses pol\u00edticos preexistentes do interlocutor, potencialmente amplificando vis\u00f5es extremas.<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 isolada. Um <a href=\"https:\/\/www.europarl.europa.eu\/RegData\/etudes\/BRIE\/2025\/779259\/EPRS_BRI(2025)779259_EN.pdf\">relat\u00f3rio do Servi\u00e7o de Pesquisa do Parlamento Europeu<\/a> documentou que 40% dos usu\u00e1rios de LLMs afirmam que o sistema age como se os compreendesse ao menos parte do tempo \u2013 uma percep\u00e7\u00e3o de empatia artificial que potencializa o efeito de refor\u00e7o \u2013, que 10% dos eleitores europeus consultariam a IA para fins de decis\u00e3o de voto e que 31% dos europeus acreditam que a IA j\u00e1 influenciou seus votos.<\/p>\n<p>No mesmo sentido, a <a href=\"https:\/\/www.autoriteitpersoonsgegevens.nl\/en\/system\/files?file=2025-10\/AI%20chatbots%20as%20voting%20aid.pdf\">Autoridade Holandesa de Prote\u00e7\u00e3o de Dados<\/a>, ap\u00f3s testar <em>chatbots<\/em> no contexto das elei\u00e7\u00f5es de novembro de 2025, emitiu alerta p\u00fablico aos eleitores ao constatar que as recomenda\u00e7\u00f5es de voto geradas por IA apresentavam uma vis\u00e3o altamente distorcida e polarizada do cen\u00e1rio pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em jogo aqui n\u00e3o \u00e9 o <em>deepfake<\/em> \u2014 j\u00e1 enfrentado pela resolu\u00e7\u00e3o do Tribunal Superior Eleitoral \u2014 nem o <em>chatbot<\/em> que se faz passar por candidato, este vedado. O ponto cr\u00edtico desloca-se para algo mais estrutural: a integridade do ambiente decis\u00f3rio eleitoral. A tecnologia n\u00e3o precisa mentir nem simular identidade para influenciar. Ela atua de forma difusa e quase impercept\u00edvel na forma\u00e7\u00e3o do posicionamento pol\u00edtico do cidad\u00e3o, precisamente porque n\u00e3o se apresenta como ator eleitoral, mas como agente aparentemente confi\u00e1vel de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas t\u00e9cnicas, sistemas de IA operam como filtros informacionais capazes de selecionar, organizar e enquadrar conte\u00fados segundo padr\u00f5es que podem carregar inclina\u00e7\u00f5es mensur\u00e1veis e efeitos persuasivos empiricamente documentados. N\u00e3o se trata de desinforma\u00e7\u00e3o no sentido cl\u00e1ssico: trata-se da curadoria algor\u00edtmica da pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o da vontade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Quando essa forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o ocorre por meio de sistemas cujas l\u00f3gicas internas permanecem opacas, a autonomia decisional pode ser afetada mesmo na aus\u00eancia de falsidade expl\u00edcita. Isso revela, por um lado, a limita\u00e7\u00e3o de respostas regulat\u00f3rias centradas exclusivamente em medidas informativas tradicionais, como rotulagem de conte\u00fado ou simples avisos de transpar\u00eancia, que, embora relevantes, podem ser insuficientes diante de mecanismos de influ\u00eancia que operam no n\u00edvel da arquitetura da intera\u00e7\u00e3o e da curadoria invis\u00edvel das op\u00e7\u00f5es cognitivas dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>Revela, ainda, por outro lado, que a <a href=\"https:\/\/revistas.unaerp.br\/revista-luso-brasileira\/article\/view\/3599\">liberdade cognitiva<\/a> e outros neurodireitos em ambientes digitais n\u00e3o devem ser compreendidos apenas no contexto de neurotecnologias ou de interven\u00e7\u00f5es diretas na esfera cerebral. Eles tamb\u00e9m incidem sobre qualquer arquitetura t\u00e9cnica capaz de modular ou condicionar o ambiente informacional no qual decis\u00f5es \u2013 em geral \u2013 e decis\u00f5es pol\u00edticas \u2013 em especial \u2013 s\u00e3o formadas.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio, contudo, cautela interpretativa. Os estudos foram conduzidos em contextos espec\u00edficos, e a transposi\u00e7\u00e3o direta para o cen\u00e1rio brasileiro exige pesquisa pr\u00f3pria. Ainda assim, as perguntas que emergem s\u00e3o universais: se sistemas de IA com os quais milh\u00f5es de brasileiros interagem diariamente apresentam inclina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas mensur\u00e1veis ou facilitam processos de radicaliza\u00e7\u00e3o \u2013 e se tais intera\u00e7\u00f5es podem influenciar percep\u00e7\u00f5es -, trata-se de quest\u00e3o de inequ\u00edvoco interesse p\u00fablico, especialmente em contexto eleitoral.<\/p>\n<p>Para 2026 e al\u00e9m, algumas frentes parecem oportunas: fomentar pesquisas nacionais sobre o impacto dessas intera\u00e7\u00f5es no eleitorado brasileiro; considerar auditorias peri\u00f3dicas e independentes de modelos com opera\u00e7\u00e3o significativa no pa\u00eds, n\u00e3o para censurar respostas, mas para assegurar transpar\u00eancia sobre o tratamento de temas eleitorais; e avaliar mecanismos proporcionais de coopera\u00e7\u00e3o das empresas de IA durante per\u00edodos eleitorais, \u00e0 semelhan\u00e7a do que j\u00e1 ocorre voluntariamente em outros contextos, como nos Estados Unidos.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>O TSE construiu base normativa s\u00f3lida. O desafio, daqui em diante, ser\u00e1 deslocar parte do olhar regulat\u00f3rio do conte\u00fado para a arquitetura e os efeitos de intera\u00e7\u00e3o cuja relev\u00e2ncia ainda \u00e9 subestimada. N\u00e3o porque o <em>deepfake<\/em> tenha deixado de ser problema, mas porque a conversa\u00e7\u00e3o entre eleitor e IA \u00e9 mais frequente, mais sutil e potencialmente mais consequente. E, at\u00e9 aqui, permanece desregulada.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, o avan\u00e7o e a aprova\u00e7\u00e3o do marco regulat\u00f3rio da IA, o PL 2.338\/23, passam a constituir condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a prote\u00e7\u00e3o da integridade decisional e do ambiente informacional eleitoral ao dispor sobre instrumentos essenciais \u00e0 dignidade humana, \u00e0 justi\u00e7a eleitoral e \u00e0 pr\u00f3pria democracia.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil largou na frente. 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