{"id":20620,"date":"2026-02-24T11:07:40","date_gmt":"2026-02-24T14:07:40","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/02\/24\/tarifa-horaria-sinalizacao-de-custos-e-transicao-concorrencial\/"},"modified":"2026-02-24T11:07:40","modified_gmt":"2026-02-24T14:07:40","slug":"tarifa-horaria-sinalizacao-de-custos-e-transicao-concorrencial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/02\/24\/tarifa-horaria-sinalizacao-de-custos-e-transicao-concorrencial\/","title":{"rendered":"Tarifa hor\u00e1ria, sinaliza\u00e7\u00e3o de custos e transi\u00e7\u00e3o concorrencial"},"content":{"rendered":"<p>A <a href=\"https:\/\/antigo.aneel.gov.br\/web\/guest\/consultas-publicas?p_auth=0BmWanCY&amp;p_p_id=participacaopublica_WAR_participacaopublicaportlet&amp;p_p_lifecycle=1&amp;p_p_state=normal&amp;p_p_mode=view&amp;p_p_col_id=column-2&amp;p_p_col_pos=1&amp;p_p_col_count=2&amp;_participacaopublica_WAR_participacaopublicaportlet_ideParticipacaoPublica=3984&amp;_participacaopublica_WAR_participacaopublicaportlet_javax.portlet.action=visualizarParticipacaoPublica\">Consulta P\u00fablica 46\/2025<\/a>, aberta pela Aneel em dezembro de 2025, vai muito al\u00e9m de uma revis\u00e3o de modalidade tarif\u00e1ria. Ela representa uma escolha de governan\u00e7a sobre como o Brasil pretende operar seu sistema el\u00e9trico em um ambiente de crescente penetra\u00e7\u00e3o de renov\u00e1veis e iminente abertura do mercado de baixa tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Seu objeto consiste em obter subs\u00eddios para discutir com a sociedade a aplica\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica da Tarifa Hor\u00e1ria para consumidores de baixa tens\u00e3o dos subgrupos B1 (residencial), B2 (rural) e B3 (comercial, industrial e outros), com consumo mensal igual ou superior a 1.000 kWh.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Trata-se de um aprimoramento regulat\u00f3rio com efeitos sist\u00eamicos, que envolve efici\u00eancia econ\u00f4mica, justi\u00e7a tarif\u00e1ria e seguran\u00e7a operativa, al\u00e9m de dialogar diretamente com a prepara\u00e7\u00e3o do mercado cativo para a abertura prevista para os pr\u00f3ximos 24 a 36 meses, nos termos da Lei 15.269\/2025.<\/p>\n<p>O encaminhamento proposto na CP 46\/2025 estabelece o enquadramento autom\u00e1tico na Tarifa Hor\u00e1ria para todas as unidades consumidoras com consumo mensal igual ou superior a 1.000 kWh, inclusive aquelas com micro e minigera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda (MMGD). A mudan\u00e7a configura aprimoramento regulat\u00f3rio focalizado e tecnicamente calibrado, em linha com o que j\u00e1 ocorre na alta e m\u00e9dia tens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a l\u00f3gica da mudan\u00e7a sugerida pela Aneel?<\/strong><\/p>\n<p>A Tarifa Branca, criada em 2018, j\u00e1 oferecia exatamente o que a Aneel busca promover: pre\u00e7os diferenciados por hor\u00e1rio para consumidores de baixa tens\u00e3o. O problema \u00e9 que, ap\u00f3s sete anos de vig\u00eancia, menos de 0,1% dos consumidores eleg\u00edveis aderiram. Esse resultado n\u00e3o \u00e9 uma anomalia brasileira: <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1364032118306257\">uma revis\u00e3o sistematizada e meta-an\u00e1lise<\/a> de 66 medidas de ades\u00e3o em 6 pa\u00edses checou a duas conclus\u00f5es centrais: quando a ades\u00e3o \u00e9 volunt\u00e1ria (opt-in), a taxa de migra\u00e7\u00e3o pode ser t\u00e3o baixa quanto 1%, alcan\u00e7ando no m\u00e1ximo 43% mesmo com esfor\u00e7os para reduzir o descompasso entre inten\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o; j\u00e1 quando a ades\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica, com possibilidade de sa\u00edda (opt-out), a participa\u00e7\u00e3o pode se aproximar de 100%.<\/p>\n<p>Assim, em vez de exigir que o consumidor fa\u00e7a uma a\u00e7\u00e3o para\u00a0<em>entrar<\/em>\u00a0na tarifa hor\u00e1ria, a proposta inverte o \u00f4nus: todos os consumidores acima de 1.000 kWh\/m\u00eas s\u00e3o enquadrados automaticamente, e quem n\u00e3o quiser permanecer \u00e9 que precisa solicitar a sa\u00edda. Essa invers\u00e3o, aparentemente simples, tem efeito potencial robusto segundo estudos da economia comportamental<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>A tarifa hor\u00e1ria impacta os consumidores vulner\u00e1veis?<\/strong><\/p>\n<p>Essa tem sido uma fonte de equ\u00edvoco no debate p\u00fablico sobre o tema. Dados da <a href=\"https:\/\/www.epe.gov.br\/sites-pt\/publicacoes-dados-abertos\/publicacoes\/PublicacoesArquivos\/publicacao-160\/topico-168\/anuario-factsheet.pdf\">EPE<\/a> indicam que o\u00a0 consumo m\u00e9dio residencial no Brasil situa-se abaixo de 220 kWh\/m\u00eas. Ou seja, o crit\u00e9rio adotado pela Aneel, de 1000 kWh\/m\u00eas, n\u00e3o alcan\u00e7a a m\u00e9dia, nem consumidores vulner\u00e1veis ou benefici\u00e1rios da tarifa social. N\u00e3o procede, portanto, o argumento de que consumidores vulner\u00e1veis ser\u00e3o penalizados no uso cotidiano de energia.<\/p>\n<p>Longe disso, a medida incide sobre aproximadamente 2,5% das unidades consumidoras da Baixa Tens\u00e3o, segmento que concentra cerca de 25% do consumo total dessa classe. A proposta representa, portanto, um recorte regulat\u00f3rio com elevada relev\u00e2ncia sist\u00eamica, capaz de induzir efici\u00eancia na resposta da demanda sem produzir efeitos regressivos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos benef\u00edcios distributivos, a op\u00e7\u00e3o pelo enquadramento autom\u00e1tico para grandes consumidores busca minimizar os custos de implanta\u00e7\u00e3o da medi\u00e7\u00e3o inteligente, favorece a modicidade tarif\u00e1ria e converge com a agenda de Infraestrutura de Medi\u00e7\u00e3o Avan\u00e7ada, delineada na <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mme\/pt-br\/acesso-a-informacao\/legislacao\/portarias\/2026\/portaria-normativa-mme-n-126-2026.pdf\">Portaria Normativa MME 126\/2026<\/a>. Trata-se de abordagem gradualista e sistemicamente consistente.<\/p>\n<p><strong>Por que \u00e9 importante aumentar a ades\u00e3o \u00e0 tarifa hor\u00e1ria? <\/strong><\/p>\n<p>O sistema el\u00e9trico brasileiro passou, recentemente, por transforma\u00e7\u00f5es profundas. A consolida\u00e7\u00e3o das fontes renov\u00e1veis, a expans\u00e3o acelerada da micro e minigera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda (MMGD), o avan\u00e7o dos recursos energ\u00e9ticos distribu\u00eddos e a manuten\u00e7\u00e3o de incentivos e subs\u00eddios cumulativos crescentes (R$ 52,7 bilh\u00f5es previstos para CDE em 2026) alteraram de forma significativa a opera\u00e7\u00e3o e o perfil de custos ao longo do dia.<\/p>\n<p>Atualmente, o sistema convive simultaneamente com horas de sobreoferta de energia e custos marginais muito baixos, especialmente durante o dia, e per\u00edodos de estresse operativo, sobretudo ao cair da noite, que exigem cada vez mais atributos como flexibilidade, pot\u00eancia, armazenamento e capacidade de resposta r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Apesar dessa nova realidade, a estrutura tarif\u00e1ria da baixa tens\u00e3o no pa\u00eds (ao contr\u00e1rio da alta e m\u00e9dia tens\u00e3o) permanece majoritariamente ancorada em tarifas fixas e volum\u00e9tricas (com base apenas na energia consumida em kWh), sem levar em considera\u00e7\u00e3o o hor\u00e1rio do consumo (manh\u00e3, tarde, noite), a capacidade utilizada da rede, o perfil de uso ou os custos reais associados ao pico de demanda.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que a CP 46\/2025 se consolida como elemento central da agenda de moderniza\u00e7\u00e3o do setor el\u00e9trico. Modernizar tarifas significa atualizar os mecanismos de aloca\u00e7\u00e3o e sinaliza\u00e7\u00e3o de custos, de modo que os pre\u00e7os reflitam a din\u00e2mica operacional real do sistema el\u00e9trico, preservando o princ\u00edpio da causalidade de custos e evitando subs\u00eddios cruzados regressivos.<\/p>\n<p>Subs\u00eddios cruzados regressivos ocorrem quando um grupo de consumidores, tipicamente de menor renda, paga tarifa superior ao custo que efetivamente causa ao sistema para financiar benef\u00edcios concedidos a outro grupo, geralmente de maior renda. Nesses casos, o pre\u00e7o deixa de refletir os custos efetivamente causados ao sistema e passa a incorporar redistribui\u00e7\u00f5es impl\u00edcitas, gerando distor\u00e7\u00f5es alocativas.<\/p>\n<p>Os consumidores da baixa tens\u00e3o (que incluem a classe residencial), respons\u00e1veis por cerca de 58% do consumo total de energia el\u00e9trica, continuam sujeitos \u00e0s tarifas fixas, ou seja, que n\u00e3o variam em fun\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio de uso da energia ou da rede. Esse desenho produz efeitos perversos, pois bloqueia a percep\u00e7\u00e3o dos custos reais do sistema, neutraliza a resposta da demanda, perpetua subs\u00eddios cruzados \u201cinvis\u00edveis\u201d, mas que <a href=\"https:\/\/portalrelatorios.aneel.gov.br\/luznatarifa\/subsidiometro\">j\u00e1 totalizam cerca de 18,5% na tarifa residencial<\/a> , e desloca riscos operativos para o sistema como um todo.<\/p>\n<p>Cabe lembrar que com a abertura total do mercado de baixa tens\u00e3o prevista para os pr\u00f3ximos 24 a 36 meses, a aloca\u00e7\u00e3o plena de prefer\u00eancias individuais tarif\u00e1rias de todo segmento de Baixa Tens\u00e3o poder\u00e1 ocorrer por meio da livre escolha contratual de energia no ambiente de comercializa\u00e7\u00e3o livre. No mercado livre, consumidores poder\u00e3o selecionar produtos tarif\u00e1rios compat\u00edveis com seu perfil de risco e estrat\u00e9gias de consumo.<\/p>\n<p>Assim, o enquadramento autom\u00e1tico \u00e0 Tarifa Hor\u00e1ria no ambiente regulado configura-se como mecanismo de minimiza\u00e7\u00e3o de custos globais, enquanto a aloca\u00e7\u00e3o descentralizada de prefer\u00eancias poder\u00e1 ser plenamente materializada no mercado livre competitivo.<\/p>\n<p>A CP 46\/2025, portanto, dialoga de forma consistente com as <a href=\"https:\/\/eur-lex.europa.eu\/legal-content\/EN\/TXT\/PDF\/?uri=CELEX:32019L0944\">melhores pr\u00e1ticas internacionais<\/a>, que estruturam o mercado el\u00e9trico focando em concorr\u00eancia, prote\u00e7\u00e3o de consumidores vulner\u00e1veis, forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os orientada pelo mercado, seguran\u00e7a e justi\u00e7a tarif\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Em sistemas cada vez mais marcados por elevada penetra\u00e7\u00e3o de fontes renov\u00e1veis intermitentes, a melhor sinaliza\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os torna-se condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel \u00e0 modicidade tarif\u00e1ria. Pre\u00e7os que refletem a escassez reduzem picos de demanda, atenuam volatilidades sist\u00eamicas e orientam corretamente decis\u00f5es de investimento em gera\u00e7\u00e3o, redes, armazenamento e flexibilidade. Ao alinhar tarifa ao custo do sistema, refor\u00e7a-se a efici\u00eancia alocativa e diminui-se a necessidade de encargos adicionais ou subs\u00eddios diversos<\/p>\n<p>Mais do que uma discuss\u00e3o sobre modalidades tarif\u00e1rias, a Consulta P\u00fablica n\u00ba 046\/2025 representa avan\u00e7o estruturante na governan\u00e7a do setor el\u00e9trico brasileiro. Ao aprimorar o sinal de pre\u00e7o, a proposta consolida fundamentos indispens\u00e1veis \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o estrutural do setor, prepara o mercado regulado para a transi\u00e7\u00e3o concorrencial, e refor\u00e7a a modicidade e a justi\u00e7a tarif\u00e1ria.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref1\">[1]<\/a> Ver <a href=\"https:\/\/www.nber.org\/system\/files\/working_papers\/w7682\/w7682.pdf\">Madrian e Shea (2000)<\/a> e <a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/Nudge.html?id=dSJQn8egXvUC&amp;redir_esc=y\">Thaler e Sunstein (2008).<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Consulta P\u00fablica 46\/2025, aberta pela Aneel em dezembro de 2025, vai muito al\u00e9m de uma revis\u00e3o de modalidade tarif\u00e1ria. 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