{"id":20514,"date":"2026-02-19T05:58:59","date_gmt":"2026-02-19T08:58:59","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/02\/19\/o-julgamento-que-pode-mudar-a-internet-por-que-o-brasil-precisa-prestar-atencao\/"},"modified":"2026-02-19T05:58:59","modified_gmt":"2026-02-19T08:58:59","slug":"o-julgamento-que-pode-mudar-a-internet-por-que-o-brasil-precisa-prestar-atencao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/02\/19\/o-julgamento-que-pode-mudar-a-internet-por-que-o-brasil-precisa-prestar-atencao\/","title":{"rendered":"O julgamento que pode mudar a internet: por que o Brasil precisa prestar aten\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto o Brasil debate a regula\u00e7\u00e3o de plataformas digitais e o impacto das redes sociais sobre crian\u00e7as e adolescentes, um tribunal em Los Angeles est\u00e1 julgando um caso que pode redefinir a rela\u00e7\u00e3o entre a sociedade e as big techs em escala global.<\/p>\n<p>Pela primeira vez, um j\u00fari popular nos Estados Unidos vai decidir se empresas como Meta e Google podem ser responsabilizadas pelos danos que seus produtos causam a jovens usu\u00e1rios. N\u00e3o pelo conte\u00fado que terceiros publicam nessas plataformas, mas pelas decis\u00f5es de design que as tornam deliberadamente viciantes.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 um caso qualquer. Ele re\u00fane centenas de demandantes, representados pelo caso-teste da jovem K.G.M., no \u00e2mbito de um <a href=\"https:\/\/courts.ca.gov\/courts\/superior-courts\/civil-case-coordination\">Procedimento de Coordena\u00e7\u00e3o do Conselho Judicial (JCCP) da Calif\u00f3rnia,<\/a> incluindo fam\u00edlias e distritos escolares. A solu\u00e7\u00e3o desta disputa influenciar\u00e1 diversos processos estaduais e federais em andamento em todos os EUA.<\/p>\n<p>O desfecho ter\u00e1 consequ\u00eancias que ultrapassar\u00e3o as fronteiras dos Estados Unidos \u2014 e o Brasil, com seu pr\u00f3prio debate sobre regula\u00e7\u00e3o digital e prote\u00e7\u00e3o infantil, tem muito a aprender com o que est\u00e1 acontecendo naquela corte.<\/p>\n<h2>Design como produto, n\u00e3o como express\u00e3o<\/h2>\n<p>O argumento central da defesa das big techs \u00e9 conhecido: a Se\u00e7\u00e3o 230 da Lei de Dec\u00eancia nas Comunica\u00e7\u00f5es, de 1996, as protege de responsabilidade pelo conte\u00fado publicado por usu\u00e1rios. Essa prote\u00e7\u00e3o foi fundamental para o crescimento da internet como a conhecemos. Mas o caso K.G.M. desloca a quest\u00e3o de territ\u00f3rio: n\u00e3o se trata do que as pessoas postam, mas de como as plataformas s\u00e3o constru\u00eddas. O enfoque est\u00e1 no design das arquiteturas informacionais. Desta forma, entramos no espa\u00e7o de responsabilidade por produtos defeituosos e, se o caso fosse no Brasil, de direitos do consumidor.<\/p>\n<p>Rolagem infinita. Reprodu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica. Notifica\u00e7\u00f5es calibradas para gerar ansiedade. Sistemas de recompensa vari\u00e1vel que funcionam segundo a mesma l\u00f3gica dos ca\u00e7a-n\u00edqueis. Essas n\u00e3o s\u00e3o publica\u00e7\u00f5es de usu\u00e1rios; s\u00e3o decis\u00f5es de engenharia, tomadas por equipes de produto e otimizadas por algoritmos de aprendizado de m\u00e1quina, cujo objetivo \u00e9 maximizar o tempo de perman\u00eancia, pois esse tempo se converte em receita publicit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A ju\u00edza Carolyn Kuhl, do Tribunal Superior da Calif\u00f3rnia, entendeu que essa distin\u00e7\u00e3o deve ser analisada por um j\u00fari. Ao permitir que o caso prosseguisse, ela sinalizou algo profundo: que decis\u00f5es algor\u00edtmicas podem ser tratadas como decis\u00f5es de produto, e, portanto, sujeitas \u00e0s mesmas obriga\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e dilig\u00eancia que qualquer outro setor industrial.<\/p>\n<h2>O que os algoritmos fazem e o que as empresas sabiam<\/h2>\n<p>Para compreender a gravidade do que est\u00e1 em julgamento, \u00e9 preciso entender o que esses sistemas fazem. Os algoritmos de recomenda\u00e7\u00e3o das grandes plataformas s\u00e3o treinados com volumes massivos de dados comportamentais. Eles n\u00e3o \u201centendem\u201d conte\u00fado como humanos; otimizam as probabilidades. Funcionam em tr\u00eas camadas: coleta e modelagem do perfil do usu\u00e1rio, classifica\u00e7\u00e3o preditiva do conte\u00fado dispon\u00edvel e ranqueamento personalizado em tempo real.<\/p>\n<p>A literatura acad\u00eamica e documentos internos j\u00e1 revelados em processos judiciais mostram que esses sistemas tendem a amplificar conte\u00fado que gera rea\u00e7\u00f5es emocionais intensas (indigna\u00e7\u00e3o, medo e excita\u00e7\u00e3o) porque esse tipo de conte\u00fado provoca maior intera\u00e7\u00e3o. O sistema aprende continuamente com o comportamento do usu\u00e1rio, criando ciclos de retroalimenta\u00e7\u00e3o que podem levar \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o progressiva, \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o e \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o repetitiva a conte\u00fados prejudiciais.<\/p>\n<p>E aqui est\u00e1 o ponto que transforma este caso em algo compar\u00e1vel \u00e0 litig\u00e2ncia contra a ind\u00fastria do tabaco: as empresas sabiam. Os chamados Facebook Papers, vazados em 2021, revelaram que a pr\u00f3pria Meta possu\u00eda pesquisas internas que demonstravam que o Instagram agravava problemas de imagem corporal entre adolescentes. A empresa optou por priorizar o engajamento. A analogia com o tabaco n\u00e3o \u00e9 ret\u00f3rica, \u00e9 estrutural.<\/p>\n<p>O instituto Project Liberty, dos EUA, utilizou a express\u00e3o \u201cmomento tabaco\u201d para designar a conjuntura atual das big techs. H\u00e1 dezenas de documentos internos que foram intencionalmente afastados do grande p\u00fablico e produzem ind\u00edcios de cogni\u00e7\u00e3o por parte de lideran\u00e7as dessas empresas sobre o car\u00e1ter aditivo de certas escolhas de design.<\/p>\n<h2 class=\"jota-cta\"><strong>Crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o adultos em miniatura<\/strong><\/h2>\n<p>Do ponto de vista cient\u00edfico, o debate sobre se as redes sociais causam \u201cv\u00edcio\u201d no sentido cl\u00ednico ainda est\u00e1 em aberto. O DSM-5 n\u00e3o classifica o uso de redes sociais como transtorno aditivo. Pesquisadores preferem falar em \u201cpadr\u00f5es de uso problem\u00e1tico com caracter\u00edsticas aditivas\u201d.Mas essa cautela terminol\u00f3gica n\u00e3o deve obscurecer o que j\u00e1 sabemos com clareza: crian\u00e7as e adolescentes s\u00e3o neurologicamente mais vulner\u00e1veis aos mecanismos que essas plataformas empregam.<\/p>\n<p>O c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal, respons\u00e1vel pelo controle de impulsos e pela tomada de decis\u00f5es, s\u00f3 se desenvolve plenamente por volta dos 25 anos. Isso significa que um adolescente exposto a sistemas de recompensa vari\u00e1vel, otimizados por intelig\u00eancia artificial para maximizar o engajamento, est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o radicalmente diferente da de um adulto que usa a mesma plataforma. Desenhar produtos que exploram essa vulnerabilidade n\u00e3o \u00e9 inova\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel, \u00e9 neglig\u00eancia que busca lucro a qualquer custo.<\/p>\n<h2><strong>O que isso tem a ver com o Brasil<\/strong><\/h2>\n<p>O Brasil n\u00e3o \u00e9 observador passivo nesse debate. Com mais de 180 milh\u00f5es de usu\u00e1rios de internet e uma das maiores popula\u00e7\u00f5es de redes sociais do mundo, o pa\u00eds \u00e9, ao mesmo tempo, um dos maiores mercados dessas plataformas e uma das sociedades mais expostas a seus efeitos.<\/p>\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/Marco%20Civil%20da%20Internet\">Marco Civil da Internet<\/a>, aprovado em 2014, foi inovador ao estabelecer princ\u00edpios de neutralidade da rede e de prote\u00e7\u00e3o de dados. Mas foi desenhado para uma internet que j\u00e1 n\u00e3o existe. A quest\u00e3o central que o caso K.G.M. coloca \u2014 se o design algor\u00edtmico constitui conduta pr\u00f3pria da empresa, distinta da mera publica\u00e7\u00e3o de conte\u00fado de terceiros \u2014 ainda n\u00e3o foi adequadamente enfrentada pelo marco regulat\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p>A Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/LGPD\">LGPD<\/a>) avan\u00e7ou em mat\u00e9ria de consentimento e tratamento de dados pessoais, mas n\u00e3o aborda diretamente o tema do design persuasivo e seus efeitos sobre popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>A principal inova\u00e7\u00e3o jur\u00eddica no Brasil foi o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente Digital (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/ECA%20Digital\">ECA Digital<\/a>), que entra em vigor em mar\u00e7o de 2026. Os servi\u00e7os digitais com acesso prov\u00e1vel de crian\u00e7as e adolescentes devem garantir, por lei, a prote\u00e7\u00e3o integral e a preval\u00eancia de seus interesses. A lei institui o fundamento de prote\u00e7\u00e3o contra a explora\u00e7\u00e3o comercial em plataformas e \u201cmedidas razo\u00e1veis desde a concep\u00e7\u00e3o\u201d, com o objetivo de prevenir e mitigar riscos de exposi\u00e7\u00e3o a uma s\u00e9rie de conte\u00fados il\u00edcitos, como incita\u00e7\u00e3o a comportamentos que levem a danos \u00e0 sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 simples demonstrar o nexo causal entre o design de plataformas e danos psicol\u00f3gicos em crian\u00e7as e adolescentes. No entanto, o julgamento do caso K.M.G. pode influenciar o sistema de justi\u00e7a no Brasil quanto \u00e0 an\u00e1lise de falhas no dever de seguran\u00e7a de produtos e de preven\u00e7\u00e3o de danos, combinando a tradi\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo de Defesa do Consumidor com o novo ECA Digital.<\/p>\n<h2><strong>Tecnologia de interesse p\u00fablico: uma agenda para o Brasil<\/strong><\/h2>\n<p>A quest\u00e3o fundamental n\u00e3o \u00e9 se devemos regular a tecnologia, mas sim a partir de quais valores. O modelo atual opera segundo uma l\u00f3gica extrativista: dados comportamentais s\u00e3o extra\u00eddos em massa, processados por sistemas algor\u00edtmicos opacos e convertidos em insumos para modelos de neg\u00f3cio focados em publicidade.<\/p>\n<p>As externalidades \u2014 danos \u00e0 sa\u00fade mental, eros\u00e3o da privacidade, polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2014 s\u00e3o socializadas, enquanto os lucros s\u00e3o privatizados. Nos EUA, uma a\u00e7\u00e3o movida por 200 escolas exige repara\u00e7\u00e3o pelos gastos com psic\u00f3logos de sa\u00fade mental e profissionais recrutados apenas para lidar com problemas de ansiedade, depress\u00e3o e transtornos relacionados ao uso excessivo de plataformas e redes sociais.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel. \u00c9 uma escolha de design. E as escolhas de design podem ser redesenhadas.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia j\u00e1 se move nessa dire\u00e7\u00e3o com o Digital Services Act, que imp\u00f5e obriga\u00e7\u00f5es de transpar\u00eancia algor\u00edtmica e de avalia\u00e7\u00e3o de riscos sist\u00eamicos. A acusa\u00e7\u00e3o recente contra o TikTok por uso de reprodu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica e de rolagem infinita mostra que a converg\u00eancia regulat\u00f3ria global j\u00e1 est\u00e1 em curso.<\/p>\n<p>O ECA Digital coloca uma miss\u00e3o renovada para a Ag\u00eancia Nacional de Prote\u00e7\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o de Dados e a ampla comunidade de defesa dos direitos de crian\u00e7as e adolescentes, com seus cinco mil conselheiros tutelares e centenas de promotores de justi\u00e7a de inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Um pa\u00eds com as desigualdades digitais do Brasil precisa pensar na regula\u00e7\u00e3o de plataformas n\u00e3o apenas como quest\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o ao consumidor, mas tamb\u00e9m como quest\u00e3o de design \u00e9tico e de justi\u00e7a social preventiva. Comunidades perif\u00e9ricas, popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e jovens em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade s\u00e3o desproporcionalmente afetados pelos efeitos colaterais de um modelo de neg\u00f3cios que n\u00e3o foi concebido com seus interesses em mente.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Em determinados contextos sociais, v\u00edcios em redes sociais e plataformas se acoplam com utiliza\u00e7\u00e3o de jogos de aposta ou ingresso em mercados il\u00edcitos de explora\u00e7\u00e3o de imagem de crian\u00e7as e adolescentes, como denunciado pelo comunicador Felca em 2025. Por isso, exige-se uma postura preventiva das big techs que dever\u00e1 ser mais sens\u00edvel aos m\u00faltiplos contextos de utiliza\u00e7\u00e3o de seus servi\u00e7os.<\/p>\n<h2>O julgamento \u00e9 l\u00e1, mas a li\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa<\/h2>\n<p>O julgamento em Los Angeles n\u00e3o vai resolver sozinho a crise de governan\u00e7a da internet. Mas pode marcar um poss\u00edvel ponto de inflex\u00e3o: o momento em que sociedades democr\u00e1ticas passaram a tratar decis\u00f5es algor\u00edtmicas como o que elas s\u00e3o em mercados digitais \u2014 decis\u00f5es de produto, com consequ\u00eancias reais sobre pessoas reais, sujeitas a obriga\u00e7\u00f5es reais de seguran\u00e7a e responsabilidade.<\/p>\n<p>Tecnologia de interesse p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 tecnologia contra a tecnologia \u2014 \u00e9 tecnologia a servi\u00e7o das pessoas. Com os avan\u00e7os do ECA Digital, abre-se uma nova arena de debates sobre v\u00edcios, o design de arquiteturas e a responsabilidade das big techs na conten\u00e7\u00e3o de danos sociais.<\/p>\n<p>Para designers e cientistas da computa\u00e7\u00e3o no Brasil, \u00e9 um momento de mudan\u00e7as profundas no que diz respeito ao design \u00e9tico e \u00e0 responsabilidade na constru\u00e7\u00e3o de arquiteturas informacionais e ambientes digitais. N\u00e3o precisamos repetir a hist\u00f3ria das big techs em nossas empresas e em nossos mercados digitais. H\u00e1 espa\u00e7o para inova\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel e para a forma\u00e7\u00e3o de tecnologistas de interesse p\u00fablico que levem a s\u00e9rio a primazia do melhor interesse das crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto o Brasil debate a regula\u00e7\u00e3o de plataformas digitais e o impacto das redes sociais sobre crian\u00e7as e adolescentes, um tribunal em Los Angeles est\u00e1 julgando um caso que pode redefinir a rela\u00e7\u00e3o entre a sociedade e as big techs em escala global. 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