{"id":20438,"date":"2026-02-13T06:03:55","date_gmt":"2026-02-13T09:03:55","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/02\/13\/por-que-o-sobrinho-governador\/"},"modified":"2026-02-13T06:03:55","modified_gmt":"2026-02-13T09:03:55","slug":"por-que-o-sobrinho-governador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/02\/13\/por-que-o-sobrinho-governador\/","title":{"rendered":"Por que o sobrinho, governador?"},"content":{"rendered":"<p>Um suspense hitchcockiano paira sobre o cen\u00e1rio pol\u00edtico maranhense h\u00e1 mais de um ano; daqueles em que a tens\u00e3o cresce sem que o golpe final se revele, como em\u00a0<em>Psicose<\/em>, quando a expectativa devora o espectador antes mesmo da facada.<\/p>\n<p>Esse suspense gira em torno de uma decis\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 segredo: o governador Carlos Brand\u00e3o, eleito pelo PSB mas hoje sem partido, anunciou que n\u00e3o sair\u00e1 do cargo, n\u00e3o disputar\u00e1 o Senado e indicar\u00e1 seu sobrinho, Orleans Brand\u00e3o \u2013 filiado ao MDB em dezembro \u2013, para a sucess\u00e3o no Pal\u00e1cio dos Le\u00f5es. A manobra, que tensiona a coaliz\u00e3o ampla que o elegeu, me obriga a voltar \u00e0 literatura sobre coaliz\u00f5es com uma pergunta inc\u00f4moda: por que o sobrinho, governador?<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>A teoria cl\u00e1ssica de coaliz\u00f5es, inaugurada por Riker (1962), postula que pol\u00edticos formam alian\u00e7as para maximizar cargos e poder, preferindo coaliz\u00f5es m\u00ednimas vencedoras, est\u00e1veis e racionais. Aplicada ao caso maranhense, essa l\u00f3gica se inverte de forma espetacular: em vez de preservar uma base multipartid\u00e1ria minimizando riscos e custos, Brand\u00e3o opta por uma estrat\u00e9gia que inflama conflitos internos, rompe expectativas e amea\u00e7a a coes\u00e3o do arranjo que sustenta seu governo. \u00c9 como se a racionalidade instrumental dos atores, t\u00e3o cara a Leiserson (1970) e Luebbert (1983), tivesse sido eclipsada por uma racionalidade familiar, em que a estabilidade partid\u00e1ria importa menos do que garantir que a chave do Pal\u00e1cio dos Le\u00f5es permane\u00e7a dentro da fam\u00edlia Brand\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma segunda gera\u00e7\u00e3o de estudos, marcada pelo incremento de complexidade dos modelos te\u00f3ricos e pelo uso da Teoria dos Jogos, manteve a premissa rikeriana de que o acesso a cargos executivos \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o central das coaliz\u00f5es. No <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/Maranh%C3%A3o\">Maranh\u00e3o<\/a>, por\u00e9m, vemos uma distor\u00e7\u00e3o dessa l\u00f3gica: vari\u00e1veis como n\u00famero de assentos legislativos e posicionamento ideol\u00f3gico, que deveriam guiar a composi\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as, parecem subordinadas \u00e0 vontade pessoal do governador.<\/p>\n<p>Brand\u00e3o, que construiu sua vit\u00f3ria eleitoral sob uma coaliz\u00e3o ampla envolvendo PT, PSB e outros, agora prioriza um nome sem densidade partid\u00e1ria pr\u00f3pria, filiado tardiamente ao MDB \u2013 um partido que, nacionalmente, nem sempre se alinha ao eixo progressista.<\/p>\n<p>\u00c9 na terceira onda de pesquisas sobre coaliz\u00f5es, no entanto, que o caso ganha contornos mais precisos. Albala e Reniu (2018) descrevem uma perspectiva vertical e multidimensional, em que os partidos deixam de ser vistos como atores unit\u00e1rios para serem analisados em seus comportamentos multin\u00edveis ao longo do territ\u00f3rio. Eles prop\u00f5em tr\u00eas pressupostos orientadores: quanto maior o n\u00famero de camadas pol\u00edticas, maior o leque de possibilidades de negocia\u00e7\u00e3o; o n\u00edvel subnacional constitui um campo experimental e de aprendizado; e acordos mais profundos s\u00e3o mais constrangedores.<\/p>\n<p>Brand\u00e3o parece ter internalizado essa li\u00e7\u00e3o de forma seletiva: o Maranh\u00e3o vira o laborat\u00f3rio perfeito para testar a elasticidade da coaliz\u00e3o PT-PSB, esticando-a at\u00e9 o limite em favor de um projeto familiar. O governador usa a flexibilidade multin\u00edvel n\u00e3o para calibrar alian\u00e7as que reforcem o pacto nacional, mas para desafi\u00e1-lo, como se o \u00e2mbito estadual fosse um territ\u00f3rio aut\u00f4nomo, liberado das amarras que a teoria aponta como essenciais \u00e0 durabilidade das coaliz\u00f5es.<\/p>\n<p>Albala (2016) oferece uma defini\u00e7\u00e3o precisa que ilumina o enigma maranhense: um governo de coaliz\u00e3o presidencialista \u00e9 \u201cuma alian\u00e7a de partidos com finalidade de a\u00e7\u00e3o governamental comum, em torno de um formador presidencial, contando com uma converg\u00eancia dos recursos organizacionais e financeiros de cada um dos participantes e que desemboca na reparti\u00e7\u00e3o de portf\u00f3lios ministeriais\u201d.<\/p>\n<p>Brand\u00e3o, nessa \u00f3tica, seria o formador do arranjo: elegeu-se sobre uma base ampla, ancorada em legendas que, no plano nacional, marcham unidas sob Lula e o PT. Ao emplacar Orleans Brand\u00e3o como sucessor natural, por\u00e9m, ele altera o cerne do pacto.<\/p>\n<p>A coaliz\u00e3o deixa de ser um instrumento partid\u00e1rio compartilhado e vira mero aval para um projeto din\u00e1stico. Albala e Reniu (2018) insistem que essa verticaliza\u00e7\u00e3o evita tratar partidos como blocos monol\u00edticos; no Maranh\u00e3o, o governador for\u00e7a exatamente o oposto, exigindo que PT e PSB subordinem suas estruturas subnacionais a uma escolha que ignora crit\u00e9rios de experi\u00eancia, milit\u00e2ncia e alinhamento ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>O arranjo bicameral e federativo do Brasil adiciona camadas de complexidade ao quadro. Albala (2017) observa que presidencialismos tendem a bicameralismos sim\u00e9tricos, complicando processos de forma\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es em compara\u00e7\u00e3o aos parlamentarismos assim\u00e9tricos ou unicamerais. C\u00e2maras altas, como destaca Lijphart (2019), representam interesses subnacionais e multiplicam vetos, conforme Tsebelis e Money (1997).<\/p>\n<p>No tabuleiro maranhense, o Senado \u2013 com senadores locais sens\u00edveis \u00e0s din\u00e2micas estaduais \u2013 e a C\u00e2mara podem amplificar o conflito: como o governo central ler\u00e1 a ruptura de Brand\u00e3o com o esp\u00edrito PT-PSB?<\/p>\n<p>A eventual amea\u00e7a ao equil\u00edbrio subnacional enseja in\u00fameros remendos: nomes que surgem para aplacar a desist\u00eancia do governador em disputar uma vaga na c\u00e2mara alta. Neiva e Soares (2013) relativizam a liga\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica entre federalismo e bicameralismo, mas no caso brasileiro, essas institui\u00e7\u00f5es interagem de forma a condicionar coaliz\u00f5es subnacionais. Brand\u00e3o age como se tivesse margem ilimitada de manobra, mas o pre\u00e7o se paga nas negocia\u00e7\u00f5es com bancadas federais e na pr\u00f3pria articula\u00e7\u00e3o com Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Albala (2017) e Ara\u00fajo (2017) lembram que fatores como tamanho territorial e popula\u00e7\u00e3o influenciam estruturas legislativas, com pa\u00edses extensos como o Brasil inclinados ao bicameralismo. No Maranh\u00e3o, estado de dimens\u00f5es continentais no Nordeste, essa configura\u00e7\u00e3o deveria incentivar coaliz\u00f5es est\u00e1veis que integrem interesses regionais.<\/p>\n<p>Em vez disso, a indica\u00e7\u00e3o do sobrinho exp\u00f5e uma desconex\u00e3o: enquanto a teoria prev\u00ea negocia\u00e7\u00f5es verticais para acomodar esses interesses, Brand\u00e3o imp\u00f5e uma solu\u00e7\u00e3o top-down que ignora a representatividade subnacional das c\u00e2maras altas. De Paula (2018) organiza a literatura sobre senados em vieses institucionais e comportamentais; aqui, senadores maranhenses enfrentar\u00e3o o dilema de endossar uma sucess\u00e3o familiar ou arriscar desgaste com o governador.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter experimental do subnacional, enfatizado por Albala e Reniu, provoca uma reflex\u00e3o ainda mais profunda. Estudos como os de Schakel (2011) e Su\u00e1rez Cao e Freidenberg (2014) mostram como an\u00e1lises multin\u00edveis revelam incongru\u00eancias entre n\u00edveis de competi\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria.<\/p>\n<p>No Maranh\u00e3o, o dinamismo subnacional \u2013 com elei\u00e7\u00f5es locais ganhando peso \u2013 deveria fomentar inova\u00e7\u00f5es em coaliz\u00f5es, com reflexos positivos para a governabilidade nacional. Brand\u00e3o, ao contr\u00e1rio, testa a ductilidade da base PT-PSB esticada por la\u00e7os sangu\u00edneos, substituindo crit\u00e9rios p\u00fablicos por privados. Dosek e Freidenberg (2013) medem congru\u00eancia partid\u00e1ria entre distritos; aqui, a incongru\u00eancia \u00e9 patente: um acordo nacional progressista colide com uma escolha local que evoca tradi\u00e7\u00f5es clientelistas.<\/p>\n<p>Como em um\u00a0<em>Vertigo<\/em> hitchcockiano, onde o protagonista projeta obsess\u00f5es em um vazio que ele mesmo constr\u00f3i, Brand\u00e3o parece calcular um sacrif\u00edcio pr\u00f3prio em nome de um projeto que recusa a mera l\u00f3gica partid\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A insist\u00eancia em Orleans \u2013 o ne\u00f3fito sem densidade pol\u00edtica pr\u00f3pria \u2013 sugere um c\u00e1lculo em que o governador se coloca como m\u00e1rtir da coaliz\u00e3o prioritariamente familiar: ele renuncia ao Senado, abre m\u00e3o de uma candidatura pr\u00f3pria, tensiona o pacto PT\u2013PSB nacional, tudo para emplacar o sobrenome no Pal\u00e1cio dos Le\u00f5es. Em nome de qu\u00ea?<\/p>\n<p>A teoria de coaliz\u00f5es, de Riker a Albala, nos ensina que alian\u00e7as se constroem para durar e governar; aqui, o que vemos \u00e9 uma trag\u00e9dia anunciada, onde o suspense inicial \u2013\u00a0<em>por que o sobrinho, governador?<\/em>\u00a0\u2013 culmina n\u00e3o no grito de\u00a0<em>Psicose<\/em>, mas no sil\u00eancio constrangedor de uma base partid\u00e1ria rachada e de um legado que, em vez de ampliar a governabilidade multin\u00edvel, a reduz a um la\u00e7o de sangue. O que resta \u00e9 a d\u00favida tr\u00e1gica: valeu o sacrif\u00edcio pela continuidade familiar, ou o governador apenas protagonizou o ep\u00edlogo de uma coaliz\u00e3o que ele mesmo desfez?<\/p>\n<p>Albala, A. (2016).\u00a0<em>Coaliz\u00f5es de governo em regimes presidencialistas<\/em>.<br \/>\nAlbala, A. (2017).\u00a0<em>Presidencialismo, bicameralismo e coaliz\u00f5es<\/em>.<br \/>\nAlbala, A. (2018).\u00a0<em>Sistemas de partidos e pol\u00edtica subnacional<\/em>.<br \/>\nAlbala, A., &amp; Reniu, J. (2018).\u00a0<em>Teor\u00edas de coalici\u00f3n y an\u00e1lisis multinivel<\/em>.<br \/>\nAra\u00fajo, M. (2017).\u00a0<em>Unicameralismo e bicameralismo<\/em>.<br \/>\nBrowne, E., &amp; Franklin, M. (1986).\u00a0<em>As gera\u00e7\u00f5es de estudos de coaliz\u00e3o<\/em>.<br \/>\nDe Paula, L. (2018).\u00a0<em>O Senado na Ci\u00eancia Pol\u00edtica<\/em>.<br \/>\nDosek, T., &amp; Freidenberg, F. (2013).\u00a0<em>Congru\u00eancia partid\u00e1ria multin\u00edvel<\/em>.<br \/>\nLeiserson, M. (1970).\u00a0<em>Coalition behavior<\/em>.<br \/>\nLijphart, A. (2019).\u00a0<em>Patterns of democracy<\/em>.<br \/>\nLuebbert, G. (1983).\u00a0<em>Coalition theory<\/em>.<br \/>\nNeiva, P., &amp; Soares, M. (2013).\u00a0<em>Federalismo e c\u00e2maras altas<\/em>.<br \/>\nRiker, W. (1962).\u00a0<em>Theory of political coalitions<\/em>.<br \/>\nSchakel, A. (2011).\u00a0<em>Nationalisation of party systems<\/em>.<br \/>\nSu\u00e1rez Cao, J., &amp; Freidenberg, F. (2014).\u00a0<em>Partidos multin\u00edvel na Am\u00e9rica Latina<\/em>.<br \/>\nTsebelis, G., &amp; Money, J. (1997).\u00a0<em>Bicameralism<\/em>.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um suspense hitchcockiano paira sobre o cen\u00e1rio pol\u00edtico maranhense h\u00e1 mais de um ano; daqueles em que a tens\u00e3o cresce sem que o golpe final se revele, como em\u00a0Psicose, quando a expectativa devora o espectador antes mesmo da facada. 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