{"id":20345,"date":"2026-02-10T06:10:09","date_gmt":"2026-02-10T09:10:09","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/02\/10\/a-nova-norma-abnt-e-a-formalizacao-da-governanca-tributaria\/"},"modified":"2026-02-10T06:10:09","modified_gmt":"2026-02-10T09:10:09","slug":"a-nova-norma-abnt-e-a-formalizacao-da-governanca-tributaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/02\/10\/a-nova-norma-abnt-e-a-formalizacao-da-governanca-tributaria\/","title":{"rendered":"A nova norma ABNT e a formaliza\u00e7\u00e3o da governan\u00e7a tribut\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>Durante muito tempo, o compliance tribut\u00e1rio foi tratado no Brasil apenas como um exerc\u00edcio de antecipa\u00e7\u00e3o: identificar riscos, mitigar exposi\u00e7\u00f5es, reduzir probabilidades de san\u00e7\u00e3o. A l\u00f3gica predominante era defensiva, quase reativa, e refletia uma compreens\u00e3o limitada do papel da conformidade no desenho institucional das organiza\u00e7\u00f5es. Programas de integridade surgiam como respostas a crises, investiga\u00e7\u00f5es ou press\u00f5es reputacionais, mas raramente como elemento estruturante da <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/governan%C3%A7a%20corporativa\">governan\u00e7a corporativa<\/a>.<\/p>\n<p>A recente publica\u00e7\u00e3o da norma t\u00e9cnica brasileira <a href=\"https:\/\/www.abntcatalogo.com.br\/pnm.aspx?Q=cnhnQmdVZEVwaXpoa0NUUlkxZ0QyRnJXdWNQRmRVLzNMUzl1aTFONHRhQT0=\"><strong>ABNT NBR 17301:2026 Sistemas de gest\u00e3o de compliance tribut\u00e1rio \u2013 Requisitos com orienta\u00e7\u00f5es para uso<\/strong><\/a> marca o incentivo a uma inflex\u00e3o nesse paradigma e inaugura uma mudan\u00e7a de gram\u00e1tica: O compliance deixa de ser pensado apenas como gest\u00e3o de riscos e passa a ser compreendido como organiza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do cumprimento de obriga\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/tributos?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_tributos_q2&amp;utm_id=cta_texto_tributos_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_tributos&amp;utm_term=cta_texto_tributos_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Tributos, plataforma de monitoramento tribut\u00e1rio para empresas e escrit\u00f3rios com decis\u00f5es e movimenta\u00e7\u00f5es do Carf, STJ e STF<\/span><\/a><\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a rec\u00e9m-publicada norma t\u00e9cnica descreve como uma organiza\u00e7\u00e3o pode estruturar seus <strong>processos e sistemas internos de controle<\/strong> para assegurar que suas obriga\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias sejam cumpridas com exatid\u00e3o, completude e responsabilidade.<\/p>\n<p>Ela orienta desde a defini\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas internas, identifica\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o de riscos, controles operacionais, registros, canais de comunica\u00e7\u00e3o e mecanismos de monitoramento cont\u00ednuo, at\u00e9 a melhoria sistem\u00e1tica do sistema. Tudo de acordo com o conhecido <strong>modelo de<\/strong> <strong>gest\u00e3o PDCA<\/strong> (<em>Plan\u2013Do\u2013Check\u2013Act<\/em>), ou seja, planejar, fazer, verificar e agir, facilitando sua integra\u00e7\u00e3o com outras normas j\u00e1 adotadas pelas empresas.<\/p>\n<p>Essa estrutura, \u00e9 importante reconhecer, n\u00e3o \u00e9 uma novidade. Empresas s\u00e9rias, em maior ou menor grau, j\u00e1 organizam seus processos para cumprir obriga\u00e7\u00f5es legais, regulat\u00f3rias e tribut\u00e1rias. O que varia \u00e9 a forma, a sofistica\u00e7\u00e3o e a integra\u00e7\u00e3o desses mecanismos, de acordo com o modelo de neg\u00f3cio, o porte e o grau de maturidade institucional.<\/p>\n<p>A norma em quest\u00e3o \u2013 como toda norma t\u00e9cnica, ali\u00e1s \u2013 \u00e9 de utiliza\u00e7\u00e3o facultativa e n\u00e3o cria obriga\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias e nem deveres de conformidade. Pelo contr\u00e1rio, ela busca facilitar o cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es e deveres impostos pela legisla\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria trazendo <strong>orienta\u00e7\u00f5es<\/strong> expl\u00edcitas para que as empresas funcionem de maneira sistematizada, segura e competitiva nesse sentido, melhorando sua gest\u00e3o interna. Al\u00e9m disso, como norma de requisitos, a ABNT NBR 17301:2026 traz <strong>par\u00e2metros verific\u00e1veis<\/strong> e, no futuro, permitir\u00e1 que uma empresa obtenha uma <strong>certifica\u00e7\u00e3o<\/strong> no assunto, melhorando sua reputa\u00e7\u00e3o externa.<\/p>\n<p>A iniciativa deu-se em decorr\u00eancia de uma solicita\u00e7\u00e3o da Secretaria Especial da Receita Federal\u00a0\u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Normas T\u00e9cnicas (ABNT), no contexto do Programa Confia. O projeto teve in\u00edcio em novembro de 2024 e foi conduzido pela ABNT, segundo seu rigoroso processo de normaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O texto foi constru\u00eddo ao longo de 2025 por especialistas em sistemas de gest\u00e3o de compliance, em di\u00e1logo com a Receita e com a participa\u00e7\u00e3o ativa de entidades representativas do setor empresarial, em especial a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), a Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Bancos (Febraban) e o Grupo de Estudos Tribut\u00e1rios Aplicados (Getap).<\/p>\n<p>O significado pol\u00edtico da norma se revela, sobretudo, no modo como ela foi constru\u00edda: a converg\u00eancia entre ABNT, Receita Federal e empresariado rompe com a tradi\u00e7\u00e3o brasileira de produ\u00e7\u00e3o normativa centrada exclusivamente no Estado. O que se observa \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o h\u00edbrido de regula\u00e7\u00e3o, no qual o fisco, a t\u00e9cnica normativa e o mercado compartilham a tarefa de definir os par\u00e2metros da integridade organizacional. A participa\u00e7\u00e3o das entidades, a exemplo da Abrasca, n\u00e3o \u00e9 acess\u00f3ria: ela indica que <strong>o empresariado deixa de ser apenas destinat\u00e1rio das normas e passa a atuar como coautor de padr\u00f5es de conformidade<\/strong>.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o pr\u00f3prio mercado passa a exercer um papel indutor. Empresas que investem em governan\u00e7a, especialmente a tribut\u00e1ria, tornam-se mais atrativas aos investidores, mais previs\u00edveis aos parceiros e mais seguras aos olhos do Estado. N\u00e3o se trata de fugir do cumprimento de obriga\u00e7\u00f5es, mas de organiz\u00e1-lo como atributo de valor. Empresas s\u00e9rias n\u00e3o fogem de pagar tributos; elas buscam faz\u00ea-lo de modo consistente, transparente e sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nesse ponto, a norma dialoga diretamente com a agenda da conformidade cooperativa e com o <strong>Programa Confia<\/strong>. Ao dispor de par\u00e2metros objetivos para a avalia\u00e7\u00e3o da maturidade organizacional na governan\u00e7a e gest\u00e3o de obriga\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias, a Administra\u00e7\u00e3o Tribut\u00e1ria passa a ter um caminho para construir <strong>confian\u00e7a justificada<\/strong> em determinados contribuintes, ou seja, confian\u00e7a baseada em evid\u00eancias transparentes e objetivas de governan\u00e7a.<\/p>\n<p>Viabiliza-se, assim, a passagem do modelo tradicional de relacionamento entre fisco e contribuinte, baseado em fiscaliza\u00e7\u00f5es e na aplica\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es, para um novo modelo, baseado em coopera\u00e7\u00e3o e transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 importante esclarecer, entretanto, que <strong>neste primeiro momento n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ser certificado ou cumprir os requisitos da nova norma para se candidatar ao Programa Confia<\/strong>. Esse caminho ser\u00e1 constru\u00eddo ao longo dos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Nesse movimento, a norma tamb\u00e9m reposiciona o debate sobre governan\u00e7a e ESG. Se o discurso da sustentabilidade corporativa frequentemente se limita a compromissos ret\u00f3ricos, a normatiza\u00e7\u00e3o do compliance tribut\u00e1rio oferece um caminho concreto para transform\u00e1-los em pr\u00e1ticas institucionais concretas e mensur\u00e1veis.<\/p>\n<p>O \u201cG\u201d do ESG deixa de ser atributo abstrato e passa a ser aferido pela capacidade da organiza\u00e7\u00e3o de internalizar, de forma sist\u00eamica, os deveres que lhe s\u00e3o impostos pelo ordenamento jur\u00eddico. O compliance tribut\u00e1rio torna-se, assim, a infraestrutura invis\u00edvel integrante da governan\u00e7a contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>H\u00e1, nesse cen\u00e1rio, um elemento adicional que merece aten\u00e7\u00e3o: o risco de obsolesc\u00eancia institucional. Empresas que permanecerem ancoradas em modelos de compliance centrados em diagn\u00f3sticos pontuais de risco e em respostas fragmentadas a exig\u00eancias regulat\u00f3rias tendem a enfrentar uma crescente desconex\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s expectativas do Estado e do mercado. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas evitar san\u00e7\u00f5es, mas preservar a pr\u00f3pria capacidade de operar em um ambiente regulat\u00f3rio cada vez mais orientado por padr\u00f5es t\u00e9cnicos de integridade.<\/p>\n<p><strong>Estar aderente a um sistema de gest\u00e3o de compliance tribut\u00e1rio, nos termos da norma da ABNT NBR 17301:2026, n\u00e3o significa a elimina\u00e7\u00e3o absoluta de falhas<\/strong>. O erro, em ambientes regulat\u00f3rios complexos, \u00e9 esperado e, em certa medida, inerente \u00e0 din\u00e2mica organizacional. A norma n\u00e3o promete infalibilidade, nem constr\u00f3i a fic\u00e7\u00e3o de uma conformidade perfeita; ela estrutura uma trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Assim, espera-se n\u00e3o uma aus\u00eancia de desvios pontuais, mas sim que a organiza\u00e7\u00e3o disponha de ferramentas capazes de identificar, analisar, avaliar e tratar potenciais erros de forma sistem\u00e1tica. Estruturar e melhorar continuamente essas ferramentas passa a ser, mais do que resultados imediatos, o verdadeiro indicador de maturidade e legitimidade organizacional.<\/p>\n<p>A norma da ABNT, constru\u00edda na interse\u00e7\u00e3o entre fisco, t\u00e9cnica normativa e empresariado, n\u00e3o deve ser lida como um documento t\u00e9cnico isolado, mas como express\u00e3o de um movimento mais amplo de reorganiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre Estado e mercado.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/cadastro-em-newsletter-curadoria-jota-pro-tributos\">Receba de gra\u00e7a todas as sextas-feiras um resumo da semana tribut\u00e1ria no seu email<\/a><\/p>\n<p>O compliance deixa de ser rea\u00e7\u00e3o ao risco e passa a ser express\u00e3o de um dever institucional de conformidade tribut\u00e1ria. Nesse sentido, a norma n\u00e3o apenas orienta pr\u00e1ticas organizacionais, mas redefine o pr\u00f3prio significado de governan\u00e7a tribut\u00e1ria no Brasil contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Se, no passado, a integridade era invocada como valor, hoje ela se traduz tamb\u00e9m como m\u00e9todo. E, talvez pela primeira vez, o pa\u00eds disponha de uma gram\u00e1tica comum para traduzi-la em pr\u00e1tica rumo a esse novo marco.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante muito tempo, o compliance tribut\u00e1rio foi tratado no Brasil apenas como um exerc\u00edcio de antecipa\u00e7\u00e3o: identificar riscos, mitigar exposi\u00e7\u00f5es, reduzir probabilidades de san\u00e7\u00e3o. A l\u00f3gica predominante era defensiva, quase reativa, e refletia uma compreens\u00e3o limitada do papel da conformidade no desenho institucional das organiza\u00e7\u00f5es. 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