{"id":20023,"date":"2026-01-27T10:04:21","date_gmt":"2026-01-27T13:04:21","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/01\/27\/corte-idh-determina-libertacao-e-aponta-tortura-estatal-contra-tres-venezuelanos-presos-ha-2-decadas\/"},"modified":"2026-01-27T10:04:21","modified_gmt":"2026-01-27T13:04:21","slug":"corte-idh-determina-libertacao-e-aponta-tortura-estatal-contra-tres-venezuelanos-presos-ha-2-decadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/01\/27\/corte-idh-determina-libertacao-e-aponta-tortura-estatal-contra-tres-venezuelanos-presos-ha-2-decadas\/","title":{"rendered":"Corte IDH determina liberta\u00e7\u00e3o e aponta tortura estatal contra tr\u00eas venezuelanos presos h\u00e1 2 d\u00e9cadas"},"content":{"rendered":"<p>A Corte Interamericana de Direitos Humanos determinou a liberta\u00e7\u00e3o imediata de tr\u00eas cidad\u00e3os venezuelanos presos h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas, ao concluir que o Estado da Venezuela foi respons\u00e1vel por desaparecimentos for\u00e7ados, tortura, pris\u00f5es arbitr\u00e1rias e pela condu\u00e7\u00e3o de um processo penal fraudulento que resultou em condena\u00e7\u00f5es consideradas juridicamente nulas. O entendimento foi firmado no julgamento do caso Guevara Rodr\u00edguez y otros vs. Venezuela.<\/p>\n<p>Por maioria, o tribunal regional concluiu que Juan Bautista Guevara Rodr\u00edguez, Rolando Jes\u00fas Guevara P\u00e9rez e Otoniel Jos\u00e9 Guevara P\u00e9rez foram v\u00edtimas de graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos ap\u00f3s serem presos em novembro de 2004, no contexto da investiga\u00e7\u00e3o do assassinato do promotor Danilo Anderson, em Caracas.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Segundo a Corte, os tr\u00eas foram detidos sem ordem judicial, tiveram o paradeiro ocultado por dias, foram submetidos a tortura f\u00edsica e psicol\u00f3gica e, posteriormente, condenados em um processo marcado por manipula\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria, falta de imparcialidade judicial e uso de testemunhas falsas. Na senten\u00e7a, o tribunal foi categ\u00f3rico ao afirmar que os fatos configuraram desapari\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, ainda que de curta dura\u00e7\u00e3o, ressaltando que a caracteriza\u00e7\u00e3o independe do tempo da oculta\u00e7\u00e3o ou do desfecho final da pris\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDurante o per\u00edodo em que seu paradeiro foi desconhecido, o Estado n\u00e3o reconheceu a deten\u00e7\u00e3o nem forneceu informa\u00e7\u00f5es \u00e0s fam\u00edlias, configurando-se os elementos constitutivos da desapari\u00e7\u00e3o for\u00e7ada\u201d, afirmou a Corte.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o tribunal reconheceu que, durante essas deten\u00e7\u00f5es, as v\u00edtimas foram submetidas a atos de tortura, incluindo espancamentos, asfixia com sacos pl\u00e1sticos, choques el\u00e9tricos, amea\u00e7as contra familiares e humilha\u00e7\u00f5es prolongadas. Para os ju\u00edzes, essas pr\u00e1ticas violaram diretamente os direitos \u00e0 integridade pessoal, \u00e0 liberdade e \u00e0 dignidade humana previstos na Conven\u00e7\u00e3o Americana de Direitos Humanos.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaFvFd73rZZflK7yGD0I\">Inscreva-se no canal de not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> no WhatsApp e fique por dentro das principais discuss\u00f5es do pa\u00eds!<\/a><\/p>\n<p>Um dos pontos centrais da decis\u00e3o foi a an\u00e1lise do processo penal que levou \u00e0 condena\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas acusados, em 2006, a penas de at\u00e9 30 anos de pris\u00e3o. A Corte concluiu que o julgamento ocorreu diante de um juiz n\u00e3o natural, cuja compet\u00eancia foi criada por resolu\u00e7\u00e3o administrativa do Tribunal Supremo de Justi\u00e7a venezuelano ap\u00f3s os fatos, e n\u00e3o por lei formal aprovada pelo Legislativo.<\/p>\n<p>Segundo a senten\u00e7a, isso violou frontalmente o direito a um juiz competente, independente e imparcial. O tribunal tamb\u00e9m identificou viola\u00e7\u00f5es ao direito de defesa, \u00e0 presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia e \u00e0 motiva\u00e7\u00e3o adequada das decis\u00f5es judiciais.<\/p>\n<p>A Corte foi al\u00e9m e reconheceu a exist\u00eancia de coisa julgada fraudulenta, ao constatar que a condena\u00e7\u00e3o se baseou em testemunhos falsos, corrompidos por agentes estatais, al\u00e9m de manipula\u00e7\u00e3o do processo por \u00f3rg\u00e3os de persecu\u00e7\u00e3o penal e pelo Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cAs graves irregularidades esvaziam completamente de conte\u00fado o processo penal e tornam a senten\u00e7a condenat\u00f3ria juridicamente nula e ineficaz\u201d, registrou o tribunal.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, a Corte determinou que a Venezuela deve libertar imediatamente os tr\u00eas presos e adotar todas as medidas necess\u00e1rias para eliminar os efeitos jur\u00eddicos e pr\u00e1ticos das condena\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m ordenou repara\u00e7\u00f5es, como indeniza\u00e7\u00f5es, reconhecimento p\u00fablico de responsabilidade, garantias de n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o e acompanhamento internacional do cumprimento da decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o advogado Fauzi Hassan Chouke, ouvido pelo <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong>, a senten\u00e7a representa uma resposta contundente do sistema interamericano a situa\u00e7\u00f5es em que o processo penal \u00e9 utilizado como instrumento de repress\u00e3o pol\u00edtica sob apar\u00eancia de legalidade.<\/p>\n<p>Segundo Chouke, que \u00e9 parecerista e ex-promotor de Justi\u00e7a, a Corte n\u00e3o se limitou a apontar ilegalidades pontuais, mas reconheceu a ruptura completa das garantias do devido processo legal, desde a pris\u00e3o arbitr\u00e1ria at\u00e9 a produ\u00e7\u00e3o da prova e as condi\u00e7\u00f5es de encarceramento.<\/p>\n<p>\u201cTrata-se de uma resposta forte do sistema interamericano \u00e0quelas situa\u00e7\u00f5es em que o processo penal cumpre uma atua\u00e7\u00e3o meramente simb\u00f3lica, de apar\u00eancia de devido processo legal, mas cujo pano de fundo \u00e9 a preserva\u00e7\u00e3o de um poder pol\u00edtico que rompe com os fundamentos do Estado de Direito\u201d, afirmou Chouke.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do jurista, ao declarar a coisa julgada fraudulenta e determinar a liberta\u00e7\u00e3o imediata dos presos, a Corte adotou uma postura mais incisiva do que em julgamentos anteriores, inclusive como forma de reafirmar sua autoridade institucional em um cen\u00e1rio internacional marcado pelo enfraquecimento das estruturas democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A senten\u00e7a foi proferida por um colegiado composto por sete ju\u00edzes. Houve consenso quanto \u00e0 responsabilidade internacional da Venezuela e \u00e0 necessidade de liberta\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas, mas diverg\u00eancias relevantes quanto \u00e0 fundamenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e ao alcance de alguns direitos reconhecidos.<\/p>\n<p>A presidente da Corte, Nancy Hern\u00e1ndez L\u00f3pez (Costa Rica), apresentou voto parcialmente dissidente, assim como o juiz Alberto Borea Odr\u00eda (Peru). A ju\u00edza Patricia P\u00e9rez Goldberg (Chile) apresentou voto parcialmente dissidente e parcialmente concorrente. J\u00e1 a ju\u00edza Ver\u00f3nica G\u00f3mez (Argentina) apresentou voto concorrente, acompanhando o resultado, mas com fundamentos pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>O juiz brasileiro Rodrigo Mudrovitsch, vice-presidente da Corte, apresentou, em conjunto com o juiz Ricardo P\u00e9rez Manrique (Uruguai), um voto parcialmente dissidente.<\/p>\n<h2>O voto do juiz brasileiro Rodrigo Mudrovitsch<\/h2>\n<p>Mudrovitsch concordou com a condena\u00e7\u00e3o da Venezuela, com a caracteriza\u00e7\u00e3o das viola\u00e7\u00f5es e com a liberta\u00e7\u00e3o imediata das v\u00edtimas. A diverg\u00eancia concentrou-se em um ponto espec\u00edfico: a forma como a Corte tratou os impactos das viola\u00e7\u00f5es sobre o projeto de vida das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Na decis\u00e3o majorit\u00e1ria, o tribunal reconheceu apenas a \u201cafeta\u00e7\u00e3o ao projeto de vida\u201d como elemento da fase de repara\u00e7\u00f5es. Para o juiz brasileiro, essa abordagem \u00e9 insuficiente. Em seu voto, ele defendeu o reconhecimento do projeto de vida como um direito humano aut\u00f4nomo, com conte\u00fado normativo pr\u00f3prio, e n\u00e3o apenas como categoria indenizat\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Segundo Mudrovitsch, o projeto de vida diz respeito \u00e0 liberdade da pessoa de decidir, ao longo do tempo, o sentido que deseja dar \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia, a partir de suas expectativas, valores, aspira\u00e7\u00f5es e convic\u00e7\u00f5es. Para ele, trata-se de um bem jur\u00eddico distinto, que n\u00e3o se confunde com os direitos \u00e0 vida, \u00e0 liberdade ou \u00e0 integridade f\u00edsica considerados isoladamente.<\/p>\n<p>O magistrado tamb\u00e9m argumentou que as viola\u00e7\u00f5es sofridas pelas v\u00edtimas n\u00e3o apenas causaram sofrimento f\u00edsico ou moral, mas interromperam trajet\u00f3rias pessoais, profissionais e familiares de forma profunda e irrevers\u00edvel, o que exige uma resposta jur\u00eddica mais robusta do que a simples indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Projeto de vida e reconstru\u00e7\u00e3o das trajet\u00f3rias<\/h2>\n<p>Ao comentar o voto do juiz brasileiro, Alaor Carlos Lopes Leite, mestre e doutorando em Direito pela Ludwig-Maximilians-Universit\u00e4t M\u00fcnchen, destacou que o reconhecimento do projeto de vida como direito humano aut\u00f4nomo permite capturar uma dimens\u00e3o das viola\u00e7\u00f5es que n\u00e3o \u00e9 plenamente alcan\u00e7ada pelos direitos individuais cl\u00e1ssicos previstos na Conven\u00e7\u00e3o Americana.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dele, em casos de condena\u00e7\u00f5es injustas, a destrui\u00e7\u00e3o do projeto de vida \u00e9 inerente \u00e0 pr\u00f3pria pena e se torna ainda mais evidente quando o Estado priva um inocente de d\u00e9cadas de liberdade.<\/p>\n<p>Para o especialista, n\u00e3o basta reconhecer a necessidade de compensa\u00e7\u00e3o financeira: \u00e9 preciso restabelecer condi\u00e7\u00f5es reais para que a pessoa possa construir um novo projeto de vida ap\u00f3s a ilegalidade cometida pelo Estado. O voto de Mudrovitsch, diz Leite, representa um passo relevante na consolida\u00e7\u00e3o desse direito no \u00e2mbito interamericano, ao conferir maior densidade jur\u00eddica \u00e0s consequ\u00eancias pr\u00e1ticas da viola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEssas pessoas tinham projetos de vida. Uma queria ser juiz, outra queria cursar medicina. A pris\u00e3o indevida destr\u00f3i completamente essas trajet\u00f3rias\u201d, afirmou Guilherme Ziliani Carnel\u00f3s, presidente do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD).<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dele, o voto de Mudrovitsch \u00e9 relevante justamente por deslocar o foco da repara\u00e7\u00e3o exclusivamente financeira para a responsabilidade ativa do Estado na reconstru\u00e7\u00e3o dessas vidas. O reconhecimento do projeto de vida como direito aut\u00f4nomo, segundo Carnel\u00f3s, pode obrigar os Estados a adotar pol\u00edticas p\u00fablicas de acolhimento e reintegra\u00e7\u00e3o social, e n\u00e3o apenas a pagar indeniza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o se insere na linha jurisprudencial da Corte Interamericana que reconhece desaparecimentos for\u00e7ados, tortura e a instrumentaliza\u00e7\u00e3o do sistema de Justi\u00e7a como formas de repress\u00e3o estatal, mesmo quando revestidas de procedimentos formais.<\/p>\n<p>O julgamento tamb\u00e9m explicita diverg\u00eancias internas no tribunal sobre a interpreta\u00e7\u00e3o e o alcance dos direitos protegidos pela Conven\u00e7\u00e3o Americana, especialmente no debate sobre o reconhecimento do projeto de vida como direito humano aut\u00f4nomo \u2014 tema que vem ganhando espa\u00e7o em votos individuais e concorrentes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ordenar a liberta\u00e7\u00e3o imediata dos tr\u00eas presos, a Corte determinou medidas de repara\u00e7\u00e3o e indicou que seguir\u00e1 acompanhando o cumprimento integral da senten\u00e7a pela Venezuela, em mais um caso que reafirma o car\u00e1ter vinculante de suas decis\u00f5es para os Estados que reconhecem sua jurisdi\u00e7\u00e3o.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Corte Interamericana de Direitos Humanos determinou a liberta\u00e7\u00e3o imediata de tr\u00eas cidad\u00e3os venezuelanos presos h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas, ao concluir que o Estado da Venezuela foi respons\u00e1vel por desaparecimentos for\u00e7ados, tortura, pris\u00f5es arbitr\u00e1rias e pela condu\u00e7\u00e3o de um processo penal fraudulento que resultou em condena\u00e7\u00f5es consideradas juridicamente nulas. 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