{"id":19961,"date":"2026-01-23T09:20:16","date_gmt":"2026-01-23T12:20:16","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/01\/23\/corte-idh-condena-honduras-e-declara-inconvencionais-leis-de-vadiagem-usadas-contra-mulher-trans\/"},"modified":"2026-01-23T09:20:16","modified_gmt":"2026-01-23T12:20:16","slug":"corte-idh-condena-honduras-e-declara-inconvencionais-leis-de-vadiagem-usadas-contra-mulher-trans","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/01\/23\/corte-idh-condena-honduras-e-declara-inconvencionais-leis-de-vadiagem-usadas-contra-mulher-trans\/","title":{"rendered":"Corte IDH condena Honduras e declara inconvencionais leis de \u2018vadiagem\u2019 usadas contra mulher trans"},"content":{"rendered":"<p>A Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou Honduras por m\u00faltiplas viola\u00e7\u00f5es a direitos humanos no caso Leonela Zelaya vs. Honduras, envolvendo deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, discrimina\u00e7\u00e3o estrutural e falhas graves na investiga\u00e7\u00e3o da morte de uma mulher trans. Na decis\u00e3o, o tribunal tamb\u00e9m declarou incompat\u00edveis com a Conven\u00e7\u00e3o Americana de Direitos Humanos dispositivos da Lei de Pol\u00edcia e de Conviv\u00eancia Social do pa\u00eds, por permitirem puni\u00e7\u00f5es baseadas em crit\u00e9rios vagos e discriminat\u00f3rios. Por outro lado, a Corte IDH n\u00e3o viu elementos para considerar Honduras respons\u00e1vel pela morte de Leonela Zelaya.<\/p>\n<p>A senten\u00e7a reconhece a responsabilidade internacional de Honduras pelas deten\u00e7\u00f5es ilegais e arbitr\u00e1rias sofridas por Leonela Zelaya, bem como pela viola\u00e7\u00e3o do dever de investigar com dilig\u00eancia refor\u00e7ada a sua morte, ocorrida em setembro de 2004. A Corte tamb\u00e9m concluiu que o Estado violou direitos de Thal\u00eda Rodr\u00edguez, companheira de Leonela por nove anos, diante da demora injustificada e das falhas estruturais na condu\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Leonela sofreu diversas deten\u00e7\u00f5es entre 1998 e 2004, com base em normas que autorizavam a condu\u00e7\u00e3o coercitiva e a priva\u00e7\u00e3o de liberdade de pessoas \u201cvagando de forma suspeita, \u201c\u00e9brias\u201d ou envolvidas em \u201cesc\u00e2ndalo em via p\u00fablica\u201d. Tr\u00eas dessas deten\u00e7\u00f5es foram consideradas ilegais e arbitr\u00e1rias pela Corte, que apontou aus\u00eancia de fundamenta\u00e7\u00e3o adequada e o uso de uma normativa amb\u00edgua, capaz de conferir margem excessiva de discricionariedade \u00e0s autoridades policiais.<\/p>\n<p>Segundo os autos, Leonela foi submetida a agress\u00f5es f\u00edsicas e verbais por agentes do Estado, mantida incomunic\u00e1vel e privada de atendimento m\u00e9dico. Ela vivia em condi\u00e7\u00e3o de pobreza, era trabalhadora sexual e portadora de HIV. Ap\u00f3s sua morte, Thal\u00eda Rodr\u00edguez assumiu sozinha os procedimentos funer\u00e1rios e a busca por Justi\u00e7a, em um contexto reconhecido de discrimina\u00e7\u00e3o institucional contra mulheres trans em Honduras.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaFvFd73rZZflK7yGD0I\">Inscreva-se no canal de not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> no WhatsApp e fique por dentro das principais discuss\u00f5es do pa\u00eds!<\/a><\/p>\n<p>Embora tenha reconhecido a ilegalidade das deten\u00e7\u00f5es e falhas graves na investiga\u00e7\u00e3o, a Corte afirmou n\u00e3o ter encontrado elementos suficientes para atribuir responsabilidade internacional direta ao Estado pela morte de Leonela Zelaya nem para comprovar os alegados atos de tortura durante as deten\u00e7\u00f5es. Ainda assim, apontou omiss\u00f5es relevantes, como a n\u00e3o preserva\u00e7\u00e3o da cena do crime, a aus\u00eancia de coleta de testemunhos essenciais, falhas documentais e a n\u00e3o explora\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses relacionadas \u00e0 identidade de g\u00eanero da v\u00edtima como poss\u00edvel motiva\u00e7\u00e3o do crime.<\/p>\n<h2>Normas vagas, discricionariedade policial e criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza<\/h2>\n<p>Ao analisar o m\u00e9rito do caso, a Corte concluiu que Honduras violou, entre outros, os direitos \u00e0 liberdade pessoal, \u00e0 integridade f\u00edsica e ps\u00edquica, \u00e0 igualdade perante a lei, \u00e0s garantias judiciais e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o judicial. Um dos eixos centrais da decis\u00e3o foi o exame das normas internas que embasaram as deten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Segundo a senten\u00e7a, dispositivos formulados a partir de conceitos indeterminados como \u201cvadiagem\u201d e \u201cesc\u00e2ndalo p\u00fablico\u201d violam o princ\u00edpio da legalidade por n\u00e3o estabelecerem crit\u00e9rios claros e objetivos, resultando em ampla margem de discricionariedade na atua\u00e7\u00e3o estatal. Para o tribunal, esse tipo de desenho normativo favorece pr\u00e1ticas arbitr\u00e1rias e discriminat\u00f3rias, especialmente contra grupos em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade.<\/p>\n<p>Ao <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong>, a professora Melina Girardi Fachin, doutora em Direito Constitucional e pesquisadora em direitos humanos, afirma que a decis\u00e3o tem impacto relevante para a regi\u00e3o. \u201cA regi\u00e3o ainda enfrenta normas sancionadoras excessivamente vagas, usadas como esp\u00e9cie de controle social\u201d, diz. Segundo ela, a senten\u00e7a deixa claro que conceitos indeterminados como \u201cvadiagem\u201d, \u201cesc\u00e2ndalo p\u00fablico\u201d e \u201cconduta suspeita\u201d s\u00e3o incompat\u00edveis com a Conven\u00e7\u00e3o Americana \u201cporque permitem uma discricionariedade \u2014 sobretudo policial \u2014 que abre espa\u00e7o para deten\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>A Corte tamb\u00e9m destacou que esse tipo de legisla\u00e7\u00e3o produz efeitos discriminat\u00f3rios indiretos, atingindo de forma desproporcional pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, marginaliza\u00e7\u00e3o social e pertencentes a grupos historicamente vulner\u00e1veis, como pessoas trans.<\/p>\n<h2>Discrimina\u00e7\u00e3o, estere\u00f3tipos e interseccionalidade<\/h2>\n<p>Ao <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong>, o advogado Paulo Iotti, doutor em Direito Constitucional e especialista em diversidade sexual e de g\u00eanero, avalia que o caso \u00e9 incomum pela amplitude com que a Corte enfrentou as viola\u00e7\u00f5es. \u201c\u00c9 um caso raro, n\u00e3o s\u00f3 pela tem\u00e1tica, mas pela extens\u00e3o com que a Corte analisou os fatos e os padr\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o envolvidos\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Segundo Iotti, a decis\u00e3o reafirma uma linha consolidada da jurisprud\u00eancia interamericana sobre o uso de estere\u00f3tipos. \u201cA Corte j\u00e1 tem precedentes firmes no sentido de que julgar algu\u00e9m com base em estere\u00f3tipos \u00e9 inconvencional e inv\u00e1lido. Estere\u00f3tipo \u00e9 preconceito: presume-se uma conduta por generaliza\u00e7\u00e3o, de forma pejorativa, apenas porque a pessoa integra determinado grupo social.\u201d<\/p>\n<p>No caso, a Corte reconheceu que Leonela Zelaya foi discriminada em raz\u00e3o de sua identidade e express\u00e3o de g\u00eanero, o que contaminou tanto a atua\u00e7\u00e3o policial quanto a investiga\u00e7\u00e3o posterior. Um ponto central da decis\u00e3o foi a ado\u00e7\u00e3o da interseccionalidade como chave anal\u00edtica.<\/p>\n<p>\u201cA discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser analisada de forma fragmentada\u201d, explica Iotti. \u201cN\u00e3o se trata de olhar apenas para a identidade de g\u00eanero, ou apenas para a condi\u00e7\u00e3o de pobreza ou de trabalhadora do sexo. \u00c9 a combina\u00e7\u00e3o desses marcadores que produz uma forma espec\u00edfica de opress\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Para Melina Fachin, a distin\u00e7\u00e3o feita pela Corte entre a aus\u00eancia de responsabilidade direta pela morte e o reconhecimento de falhas graves na investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 juridicamente relevante. Ela afirma que o tribunal deixa claro que as obriga\u00e7\u00f5es do Estado \u201cv\u00e3o muito al\u00e9m do dever de n\u00e3o matar\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA obriga\u00e7\u00e3o estatal \u00e9 positiva e complexa: envolve deveres de prote\u00e7\u00e3o, preven\u00e7\u00e3o, investiga\u00e7\u00e3o diligente e garantia de acesso \u00e0 Justi\u00e7a\u201d, afirma. \u201cEm contextos de vulnerabilidade, esses deveres se tornam ainda mais refor\u00e7ados.\u201d<\/p>\n<p>Segundo a professora, a Corte reconheceu que investiga\u00e7\u00f5es tardias, superficiais e marcadas por estigmas e estere\u00f3tipos geram responsabilidade internacional. \u201cMesmo sem atribuir responsabilidade direta pela morte, a omiss\u00e3o estatal na investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 suficiente para caracterizar a viola\u00e7\u00e3o de direitos.\u201d<\/p>\n<h2>O voto do juiz Rodrigo Mudrovitsch<\/h2>\n<p>Embora tenha acompanhado integralmente a decis\u00e3o da maioria, o vice-presidente da Corte Interamericana, juiz Rodrigo Mudrovitsch, apresentou voto concorrente no qual aprofunda a an\u00e1lise sobre os limites do poder punitivo do Estado e o uso de normas sancionat\u00f3rias vagas como instrumentos de controle social.<\/p>\n<p>No voto, o magistrado afirma que a manuten\u00e7\u00e3o e a aplica\u00e7\u00e3o de normas caracterizadas pela indetermina\u00e7\u00e3o e pelo vi\u00e9s discriminat\u00f3rio \u201cafetam de maneira diferenciada as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza e pertencentes a grupos vulner\u00e1veis\u201d. Para Mudrovitsch, esse tipo de normativa n\u00e3o pune condutas concretas, mas condi\u00e7\u00f5es pessoais ou estados transit\u00f3rios, deslocando o foco do comportamento para a identidade do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>\u201cA indetermina\u00e7\u00e3o amplia indevidamente o espa\u00e7o de arbitrariedade na aplica\u00e7\u00e3o da lei, favorecendo decis\u00f5es baseadas em estere\u00f3tipos sociais, preconceitos morais e ju\u00edzos subjetivos\u201d, escreveu o juiz. Segundo ele, legisla\u00e7\u00f5es desse tipo se aproximam do chamado direito penal do autor, ao dissolver a fronteira entre fato e personalidade.<\/p>\n<p>Mudrovitsch sustenta ainda que o caso \u201creafirma a inconvencionalidade das normas sancionat\u00f3rias que incorporam conceitos moralizantes ou psicol\u00f3gicos vagos, pautados na personalidade do agente\u201d, por afastarem o direito punitivo de seus limites estritos de racionalidade e necessidade. Para o magistrado, o aparato sancionador deve atuar como ultima ratio, voltado exclusivamente \u00e0 reprova\u00e7\u00e3o de condutas concretas que atentem contra bens jur\u00eddicos essenciais e claramente definidos.<\/p>\n<p>Ao <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong>, o advogado criminal Roberto Soares Garcia, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), avalia que o voto do juiz brasileiro dialoga com uma crise mais ampla do garantismo penal nas democracias contempor\u00e2neas. Segundo ele, o avan\u00e7o de discursos e pr\u00e1ticas baseados no \u201cDireito Penal do inimigo\u201d tem sido impulsionado por legisla\u00e7\u00f5es cada vez mais influenciadas pelo populismo penal.<\/p>\n<p>\u201cNo contexto do embrutecimento das rela\u00e7\u00f5es humanas, em que a \u2018lei do mais forte\u2019 assume papel central na solu\u00e7\u00e3o de conflitos, o garantismo penal vive sua pior crise\u201d, afirma. Para Garcia, o voto de Mudrovitsch aponta um caminho inverso ao predominante, ao resgatar padr\u00f5es civilizat\u00f3rios consolidados no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, como a legalidade estrita, a m\u00ednima interven\u00e7\u00e3o e a proporcionalidade entre les\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda segundo o advogado, o controle de convencionalidade exercido pela Corte Interamericana funciona como um freio ao avan\u00e7o de pr\u00e1ticas punitivas arbitr\u00e1rias nos Estados nacionais. \u201cTalvez esse movimento, que parte da esfera internacional para o direito interno, seja a salva\u00e7\u00e3o das conquistas penais e processuais civilizat\u00f3rias que parecem ter sido esquecidas\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para Garcia, a leitura proposta no voto concorrente tamb\u00e9m dialoga diretamente com o contexto brasileiro. \u201cO que o voto do juiz Mudrovitsch parece propor, para al\u00e9m do caso concreto, \u00e9 o resgate dos padr\u00f5es de civilidade, em que o direito punitivo \u2014 penal ou administrativo \u2014 seja sempre inspirado na legalidade estrita, na proporcionalidade e na proibi\u00e7\u00e3o de excessos por parte dos agentes estatais.\u201d<\/p>\n<p>O julgamento contou com a participa\u00e7\u00e3o da ju\u00edza Nancy Hern\u00e1ndez L\u00f3pez (Costa Rica), presidente do tribunal, e dos ju\u00edzes Rodrigo Mudrovitsch (Brasil), Ricardo C. P\u00e9rez Manrique (Uruguai), Ver\u00f3nica G\u00f3mez (Argentina), Patricia P\u00e9rez Goldberg (Chile), Alberto Borea Odr\u00eda (Peru) e Diego Moreno Rodr\u00edguez (Paraguai). Hern\u00e1ndez L\u00f3pez e P\u00e9rez Goldberg apresentaram votos parcialmente dissidentes. Mudrovitsch, P\u00e9rez Manrique e Moreno Rodr\u00edguez apresentaram votos concorrentes. Borea Odr\u00eda apresentou voto dissidente.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou Honduras por m\u00faltiplas viola\u00e7\u00f5es a direitos humanos no caso Leonela Zelaya vs. Honduras, envolvendo deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, discrimina\u00e7\u00e3o estrutural e falhas graves na investiga\u00e7\u00e3o da morte de uma mulher trans. 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