{"id":19920,"date":"2026-01-21T14:18:26","date_gmt":"2026-01-21T17:18:26","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/01\/21\/trump-e-a-iliada-observacoes-de-um-jurista-atento-ao-noticiario\/"},"modified":"2026-01-21T14:18:26","modified_gmt":"2026-01-21T17:18:26","slug":"trump-e-a-iliada-observacoes-de-um-jurista-atento-ao-noticiario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/01\/21\/trump-e-a-iliada-observacoes-de-um-jurista-atento-ao-noticiario\/","title":{"rendered":"Trump e a Il\u00edada? Observa\u00e7\u00f5es de um jurista atento ao notici\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias, o presidente dos Estados Unidos intensificou sua ret\u00f3rica e suas a\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas contra aliados europeus, gerando tens\u00e3o no relacionamento transatl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Em uma mensagem enviada recentemente ao primeiro-ministro da Noruega, <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/donald-trump\">Donald Trump<\/a> reclamou amargamente por n\u00e3o ter recebido o Pr\u00eamio Nobel da Paz, vinculando essa frustra\u00e7\u00e3o \u00e0 sua postura agressiva sobre a quest\u00e3o da Groenl\u00e2ndia \u2014 territ\u00f3rio do Reino da Dinamarca cuja soberania europeia ele tem tentado contestar de diversas formas.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Essa carta, descrita por observadores como um acesso de raiva pessoal mais do que uma comunica\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica formal, foi recebida com espanto em Oslo e em outras capitais europeias, porque Trump associou de modo inusitado uma prerrogativa pessoal \u00e0 pol\u00edtica externa, sugerindo que a aus\u00eancia do reconhecimento internacional justificaria uma postura mais beligerante sobre temas como soberania territorial.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, em plataformas p\u00fablicas e nas redes sociais, Trump passou a ridicularizar diretamente l\u00edderes da Uni\u00e3o Europeia, compartilhando mensagens privadas e at\u00e9 imagens geradas por intelig\u00eancia artificial que satirizam a rea\u00e7\u00e3o europeia \u00e0 sua campanha para controlar a Groenl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m provocou figuras como o presidente franc\u00eas Emmanuel Macron, incluindo amea\u00e7as de tarifas extremamente altas sobre produtos europeus como forma de pressionar Bruxelas e Copenhague a aceitar suas demandas, e divulgou conversas em que l\u00edderes europeus dizem \u2014 segundo ele \u2014 coisas favor\u00e1veis ou hesitantes, buscando expor contradi\u00e7\u00f5es e enfraquecer suas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Essas a\u00e7\u00f5es geraram uma resposta firme de l\u00edderes europeus, que veem as amea\u00e7as tarif\u00e1rias e as provoca\u00e7\u00f5es p\u00fablicas como formas de \u201cchantagem\u201d e de afronta \u00e0 soberania dos Estados-membros da UE e \u00e0 pr\u00f3pria coes\u00e3o do bloco.<\/p>\n<p>Autoridades como a presidente da Comiss\u00e3o Europeia, Ursula von der Leyen, e Macron declararam que a UE permanecer\u00e1 unida e responder\u00e1 em conjunto a press\u00f5es externas, fortalecendo la\u00e7os internos e considerando medidas de retalia\u00e7\u00e3o econ\u00f4micas ou pol\u00edticas caso Trump persevere nas suas exig\u00eancias.<\/p>\n<h2>Trump e a <em>Il\u00edada<\/em><\/h2>\n<p>O comportamento recente de Trump pode ser interpretado como uma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9tica do her\u00f3i tal como formulada na <em>Il\u00edada<\/em> de Homero.<\/p>\n<p>Na obra, o her\u00f3i n\u00e3o age segundo normas impessoais, tratados ou institui\u00e7\u00f5es, mas a partir de honra ferida, prest\u00edgio pessoal e afirma\u00e7\u00e3o p\u00fablica de superioridade. A pol\u00edtica, nesse universo, \u00e9 insepar\u00e1vel do gesto, da humilha\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio e da exibi\u00e7\u00e3o da for\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando Aquiles se sente desrespeitado, ele n\u00e3o negocia: reage com c\u00f3lera, suspende a ordem comum e transforma o conflito coletivo em quest\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p>Algo an\u00e1logo aparece no estilo de Trump. Suas comunica\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas n\u00e3o seguem o registro institucional cl\u00e1ssico; elas operam como desafios p\u00fablicos, nos quais a autoridade deriva menos da posi\u00e7\u00e3o formal e mais da capacidade de impor constrangimento simb\u00f3lico aos outros.<\/p>\n<p>A ridiculariza\u00e7\u00e3o de l\u00edderes europeus, a exposi\u00e7\u00e3o de mensagens privadas e o tom de afronta lembram a l\u00f3gica hom\u00e9rica segundo a qual a honra s\u00f3 existe quando reconhecida \u2014 ou negada \u2014 diante de todos.<\/p>\n<p>Assim como no mundo da <em>Il\u00edada<\/em>, a legitimidade n\u00e3o nasce da lei, mas do \u00eaxito e da visibilidade. A verdade confunde-se com a vit\u00f3ria moment\u00e2nea; a pol\u00edtica torna-se um palco de gestos heroicos, n\u00e3o um espa\u00e7o de delibera\u00e7\u00e3o racional.<\/p>\n<p>O l\u00edder aparece como figura excepcional, acima das regras comuns, autorizado a agir por for\u00e7a de seu carisma e de sua disposi\u00e7\u00e3o para o confronto.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 hist\u00f3rica: o hero\u00edsmo hom\u00e9rico pertence a um mundo pr\u00e9-jur\u00eddico, enquanto Trump atua em sociedades estruturadas pelo direito, pela diplomacia e por institui\u00e7\u00f5es multilaterais.<\/p>\n<p>Quando essa \u00e9tica do her\u00f3i reaparece hoje, ela n\u00e3o funda a ordem \u2014 ela a corr\u00f3i.<\/p>\n<p>O que em Homero \u00e9 trag\u00e9dia consciente de seus custos, na pol\u00edtica contempor\u00e2nea tende a se apresentar como virtude, como projeto pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o comportamento de Trump sugere uma re-heroiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, na qual o governante age como Aquiles: movido pela honra, indiferente \u00e0s media\u00e7\u00f5es institucionais e disposto a submeter aliados e advers\u00e1rios \u00e0 l\u00f3gica do desafio p\u00fablico.<\/p>\n<p>\u00c9 uma \u00e9tica da for\u00e7a e da gl\u00f3ria que, transplantada para o mundo moderno, entra em choque direto com os fundamentos da pol\u00edtica democr\u00e1tica.<\/p>\n<h2>Monarquia ou Executivo forte<\/h2>\n<p>Ademais, h\u00e1, no entorno intelectual e pol\u00edtico de Trump, um conjunto heterog\u00eaneo, mas ideologicamente convergente, de autores, correntes e financiadores que defendem a concentra\u00e7\u00e3o de poderes no Executivo e, em alguns casos, a supera\u00e7\u00e3o da democracia liberal em dire\u00e7\u00e3o a formas neomon\u00e1rquicas ou p\u00f3s-democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Essas ideias n\u00e3o s\u00e3o majorit\u00e1rias entre os eleitores trumpistas, mas circulam como uma ideologia de vanguarda nos bastidores intelectuais, tecnol\u00f3gicos e jur\u00eddicos do trumpismo.<\/p>\n<p>Entre os autores centrais est\u00e1 Curtis Yarvin, conhecido pelo pseud\u00f4nimo Mencius Moldbug. Yarvin \u00e9 o principal te\u00f3rico do chamado neorreacionarismo (NRx).<\/p>\n<p>Ele defende abertamente o fim da democracia e sua substitui\u00e7\u00e3o por uma monarquia corporativa, ou por um \u201cCEO soberano\u201d dotado de poderes concentrados. Para Yarvin, o Estado deveria funcionar como uma empresa: efici\u00eancia importa mais do que legitimidade democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Em sua formula\u00e7\u00e3o, a democracia produz desordem e \u00e9 inevitavelmente capturada por elites burocr\u00e1ticas; a solu\u00e7\u00e3o seria uma soberania centralizada, clara e incontest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Outro nome importante \u00e9 Nick Land, fil\u00f3sofo ligado ao aceleracionismo de direita e influ\u00eancia direta sobre Yarvin. Land sustenta que a democracia liberal bloqueia as din\u00e2micas reais do poder, da tecnologia e do capital.<\/p>\n<p>Para ele, o colapso deliberado da democracia n\u00e3o \u00e9 um risco, mas uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para liberar o que chama de \u201cintelig\u00eancia do capital\u201d. A pol\u00edtica democr\u00e1tica aparece, assim, como um entrave \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Essas ideias encontram apoio material em figuras como Peter Thiel, bilion\u00e1rio do Vale do Sil\u00edcio, financiador de Trump em 2016 e de diversos pol\u00edticos trumpistas. Thiel n\u00e3o defende explicitamente a monarquia, mas afirma que liberdade e democracia s\u00e3o incompat\u00edveis.<\/p>\n<p>Ele apoia l\u00edderes fortes, alta concentra\u00e7\u00e3o decis\u00f3ria e a redu\u00e7\u00e3o do Estado democr\u00e1tico tradicional. Seu papel \u00e9 decisivo: funcionar como ponte entre teoria autorit\u00e1ria e poder pol\u00edtico real.<\/p>\n<p>No plano das correntes, o neorreacionarismo rejeita frontalmente valores iluministas como igualdade, sufr\u00e1gio universal e constitucionalismo liberal, reabilitando ideias pr\u00e9-modernas de hierarquia, soberania pessoal e autoridade absoluta.<\/p>\n<p>A monarquia, nesse contexto, n\u00e3o aparece como nostalgia, mas como modelo racional de governo.<\/p>\n<p>Outro eixo \u00e9 a radicaliza\u00e7\u00e3o da chamada \u201cUnitary Executive Theory\u201d, segundo a qual todo o Poder Executivo deve estar concentrado nas m\u00e3os do presidente.<\/p>\n<p>Embora antiga no conservadorismo jur\u00eddico, sob Trump essa teoria foi levada ao limite, servindo para justificar o desprezo por controles institucionais e aproximar o presidente da figura de um soberano de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo isso se articula, na pr\u00e1tica, com um nacionalismo autorit\u00e1rio marcado pelo culto ao l\u00edder, hostilidade a tribunais, imprensa e burocracias, e desprezo por freios e contrapesos. Esse movimento fornece a base de massa para ideias elitistas e neomon\u00e1rquicas.<\/p>\n<p>Apesar das diferen\u00e7as, essas correntes compartilham quatro argumentos centrais:<\/p>\n<p>1) a ideia de que a democracia \u00e9 ineficiente;<br \/>\n2) que ela n\u00e3o \u00e9 realmente popular, mas uma oligarquia disfar\u00e7ada;<br \/>\n3) que o constitucionalismo bloqueia a soberania; e<br \/>\n4) que a ordem deve prevalecer sobre a igualdade.<\/p>\n<p>A monarquia, aqui, n\u00e3o \u00e9 moralmente exaltada, mas funcionalmente defendida. O ponto decisivo \u00e9 que n\u00e3o se trata de restaurar reis hist\u00f3ricos, mas de instaurar um Executivo absoluto, legitimado por efici\u00eancia, tecnologia ou carisma, com elei\u00e7\u00f5es esvaziadas ou meramente formais \u2014 uma monarquia sem rei, adaptada ao capitalismo de plataforma.<\/p>\n<h2>Neopaganismo<\/h2>\n<p>O historiador Timothy Snyder interpreta o trumpismo como portador de tra\u00e7os neopag\u00e3os, n\u00e3o no sentido religioso estrito, mas como forma de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica antirracional, antijur\u00eddica e antiesclarecida.<\/p>\n<p>Em textos e palestras recentes, Snyder argumenta que Trump rompe com a tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica moderna baseada em fatos, leis e institui\u00e7\u00f5es, substituindo-a por uma vis\u00e3o m\u00edtica do poder.<\/p>\n<p>Segundo Snyder, o neopaganismo pol\u00edtico se manifesta quando a verdade deixa de ser objetiva e passa a ser definida pela vontade do l\u00edder, pela for\u00e7a ou pelo sucesso moment\u00e2neo.<\/p>\n<p>Em vez de causalidade hist\u00f3rica e responsabilidade jur\u00eddica, emerge uma l\u00f3gica de destino, ciclo e viol\u00eancia naturalizada.<\/p>\n<p>O l\u00edder n\u00e3o governa segundo normas universais, mas encarna uma for\u00e7a vital supostamente anterior \u00e0 lei \u2014 uma figura quase xam\u00e2nica, capaz de \u201crestaurar\u201d a na\u00e7\u00e3o por meio da ruptura.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Trump n\u00e3o seria apenas um populista ou autorit\u00e1rio cl\u00e1ssico, mas o sintoma de uma regress\u00e3o mais profunda: a substitui\u00e7\u00e3o do Estado de Direito por uma pol\u00edtica de mitos, ressentimentos e rituais de lealdade pessoal.<\/p>\n<p>Para Snyder, essa l\u00f3gica neopag\u00e3 abre caminho para o autoritarismo porque dissolve a distin\u00e7\u00e3o entre verdade e mentira, direito e viol\u00eancia, tornando a democracia inintelig\u00edvel para seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os.<\/p>\n<h2>Sinais de regress\u00e3o<\/h2>\n<p>A leitura de Snyder sobre o trumpismo como forma de neopaganismo pol\u00edtico pode ser produtivamente comparada \u00e0 \u00e9tica do hero\u00edsmo presente na <em>Il\u00edada<\/em> de Homero. Essas ideias parecem ser compat\u00edveis com algumas das correntes mais radicais presentes na base pol\u00edtica de Trump, evidenciando um retorno moderno de l\u00f3gicas pr\u00e9-jur\u00eddicas do poder.<\/p>\n<p>Assim como no mundo hom\u00e9rico, a verdade deixa de ser objetiva e passa a coincidir com o sucesso do l\u00edder; a legitimidade nasce do carisma e da vit\u00f3ria, n\u00e3o da legalidade.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a decisiva est\u00e1 no contexto hist\u00f3rico e normativo. Na <em>Il\u00edada<\/em>, essa \u00e9tica heroica pertence a um mundo pr\u00e9-jur\u00eddico, no qual o Estado moderno ainda n\u00e3o existe.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>J\u00e1 no trumpismo, segundo Snyder, trata-se de uma regress\u00e3o: a reativa\u00e7\u00e3o de uma \u00e9tica da for\u00e7a em sociedades que j\u00e1 conhecem o constitucionalismo, a igualdade jur\u00eddica e a distin\u00e7\u00e3o entre poder e direito.<\/p>\n<p>O que em Homero \u00e9 tr\u00e1gico e consciente de seus custos humanos, no neopaganismo pol\u00edtico contempor\u00e2neo tende a ser naturalizado e celebrado.<\/p>\n<p>Assim, a compara\u00e7\u00e3o revela o ponto central da cr\u00edtica de Snyder: o perigo n\u00e3o \u00e9 apenas o autoritarismo, mas a re-heroiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, na qual o l\u00edder passa a operar como um her\u00f3i hom\u00e9rico \u2014 acima da lei, legitimado pela vit\u00f3ria e pela lealdade pessoal \u2014 em um mundo que deveria ser governado por normas, institui\u00e7\u00f5es e responsabilidade democr\u00e1tica.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias, o presidente dos Estados Unidos intensificou sua ret\u00f3rica e suas a\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas contra aliados europeus, gerando tens\u00e3o no relacionamento transatl\u00e2ntico. 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