{"id":19749,"date":"2026-01-12T16:05:55","date_gmt":"2026-01-12T19:05:55","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/01\/12\/memoria-e-esquecimento-na-invencao-do-brasil-contemporaneo\/"},"modified":"2026-01-12T16:05:55","modified_gmt":"2026-01-12T19:05:55","slug":"memoria-e-esquecimento-na-invencao-do-brasil-contemporaneo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/01\/12\/memoria-e-esquecimento-na-invencao-do-brasil-contemporaneo\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria e esquecimento na inven\u00e7\u00e3o do Brasil contempor\u00e2neo"},"content":{"rendered":"<p>Os dois Globos de Ouro para <em>O Agente Secreto<\/em> consagram o cinema brasileiro. Para al\u00e9m de uma excelente hist\u00f3ria que fala diretamente \u00e0 alma do nosso pa\u00eds, <em>O Agente Secreto<\/em> \u00e9 uma obra excepcional do ponto de vista t\u00e9cnico e art\u00edstico. Tudo parece perfeito, a dire\u00e7\u00e3o de arte, cen\u00e1rio, figurino, elenco. Wagner Moura est\u00e1 espl\u00eandido fazendo dois personagens distintos.<\/p>\n<p>Para quem tem mais de 50 anos de idade, \u00e9 como caminhar pelas ruas do passado na vividez das suas cores. A mem\u00f3ria \u00e9 despertada pelas camisas abertas, com o bolso do lado esquerdo onde ma\u00e7os de cigarro \u2013 Continental, Hollywood, Kent \u2013 repousavam ao lado de canetas; a trilha sonora evocava as r\u00e1dios AM e os sucessos apreciados por um Brasil real, distante da classe m\u00e9dia intelectualizada de ent\u00e3o; por um mundo anal\u00f3gico, sem a pressa, sem a ansiedade, sem a dispers\u00e3o destes dias. Um mundo intenso onde se amava chorava, se ria apesar do sufoco pol\u00edtico que adensava o ar.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>N\u00f3s tr\u00eas somos de uma gera\u00e7\u00e3o que cultiva a mem\u00f3ria de quem, ainda crian\u00e7a, viveu aqueles dias. E que encontram e se encontraram na est\u00e9tica e na arte daqueles anos. Que se fizeram intelectual e humanamente por aquela atmosfera t\u00e3o densa quanto engrandecedora; observando artistas e amigos, mais velhos, que buscavam renova\u00e7\u00e3o, f\u00f4lego, esperan\u00e7a e um m\u00ednimo de sanidade na arte dos anos 1970. Talvez por isso mesmo, sentimos necessidade de destacar quatro pontos, j\u00e1 pedindo perd\u00e3o por eventuais spoilers.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, h\u00e1 um horizonte moral onde a hist\u00f3ria se desenrola. Logo nas primeiras cenas, vemos \u201cum corpo estendido no ch\u00e3o\u201d cru \u2013 \u201cem vez de rosto e foto de um gol\u201d: mais um pouco da viol\u00eancia de cada dia que, j\u00e1 ent\u00e3o, n\u00e3o superava a indiferen\u00e7a. Esse corpo assombrar\u00e1 o protagonista. Ele \u00e9 a pr\u00f3pria express\u00e3o de um \u201cmal\u201d que contamina a todos.<\/p>\n<p>Era o regime militar, mas, ao contr\u00e1rio de <em>Ainda Estou Aqui<\/em>, esse mal n\u00e3o est\u00e1 encarnado nos militares, no regime. \u00c9 algo ainda mais grave, como se se tivesse abatido sobre o pa\u00eds um esp\u00edrito que fomenta, tolera e naturaliza a viol\u00eancia e crueldade.<\/p>\n<p>Em <em>O Agente Secreto<\/em>, n\u00e3o s\u00e3o militares contra \u201csubversivos\u201d, o ex\u00e9rcito contra guerrilheiros. O fosso \u00e9 mais fundo: o mal comezinho dos pequenos e dos grandes poderes simbolizados por um burocrata\/empres\u00e1rio; por policiais comuns que vivem o cotidiano da cidade de pessoas simples que dividem o tempo entre trabalhos bra\u00e7ais e crimes por encomenda.<\/p>\n<p>O mal espreita a vida pacata de um professor universit\u00e1rio e fugitivos de uma persegui\u00e7\u00e3o sem nome. O filme mostra como, sob a ditadura, a viol\u00eancia torna-se comum, quase banal, incorporada \u00e0 rotina, tal qual o apressado pingado e p\u00e3o com manteiga na chapa de p\u00e9 no balc\u00e3o do botequim mais pr\u00f3ximo<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 que a narrativa tem duas temporalidades: os eventos de 1977, no ocaso do regime, e os dias atuais. N\u00f3s acompanhamos os eventos nessas duas datas. Por\u00e9m, numa guinada simplesmente genial, o ponto central da narrativa, aquele que nos revela o nervo dos eventos, as motiva\u00e7\u00f5es para os personagens, aparece na forma de uma mem\u00f3ria remota que, por acaso, cai nas m\u00e3os de uma jovem que, por raz\u00f5es que permanecem vagas, transcreve \u00e1udios captados em fitas K7 (e agora digitalizados) com registros do que aconteceu em 1977.<\/p>\n<p>A partir desse ponto, os eventos de 1977 deixam de ser fatos que estamos testemunhando com nossos olhos (como se a c\u00e2mera tivesse o poder de nos levar ao tempo dos eventos), mas algo que sabemos de segunda m\u00e3o, pelo relato obl\u00edquo das vozes que surgem do passado. H\u00e1 aqui um truque narrativo maravilhoso. Aqui o cinema abdica da onisci\u00eancia do narrador e assume a fragilidade da mem\u00f3ria com todos os seus vieses.<\/p>\n<p>O terceiro ponto que queremos destacar \u00e9 o ep\u00edlogo do filme. Essa \u00e9 a parte mais eloquente: j\u00e1 estamos com os dois p\u00e9s cravados em um presente incerto, 1977 \u00e9 um artefato da mem\u00f3ria; o menino, filho do protagonista, se faz adulto, um m\u00e9dico, mas ele simplesmente ignora tudo o que aconteceu.<\/p>\n<p>Ele estava presente e ausente ao mesmo tempo dos eventos de 1977 e agora escolhe, deliberadamente, esquecer, deixar o passado no passado. Ele escolhe a amn\u00e9sia para poder seguir adiante. Isso \u00e9 o retrato de um Brasil que nunca soube fazer um ajuste de contas com a ditadura militar que, com o perd\u00e3o da redund\u00e2ncia, s\u00e3o mais regra do que exce\u00e7\u00e3o em nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 o gesto de fingir que aquilo n\u00e3o aconteceu, como estrat\u00e9gia para evitar conversas inc\u00f4modas que possam comprometer encontros com amigos e familiares de interesses e vis\u00f5es de mundo distintas, ou gerar desconforto diante de grupos de refer\u00eancia pouco tolerantes \u00e0 diverg\u00eancia.<\/p>\n<p>No caso do personagem, fingir que aquilo n\u00e3o existiu pode ser uma forma de preservar a conviv\u00eancia sem maiores atritos com pares profissionais conservadores, insens\u00edveis e individualistas. Ou ele mesmo se tornou assim? Distante daquilo que foram seus pais? O pen drive do final \u00e9 o s\u00edmbolo moderno que condensa fragmentos de hist\u00f3rias que ajudar\u00e3o \u2013 ao personagem e a todos \u2013 compreender o que ele e a maioria da na\u00e7\u00e3o parece n\u00e3o querer enfrentar.<\/p>\n<p>Se ir\u00e1 ouvi-lo \u2013 se iremos ouvi-lo \u2013 e refletir sobre tudo o que passou, o filme, obra aberta, deixa \u00e0 consci\u00eancia de cada um de n\u00f3s. O passado mora no indeterminado, no porvir do passado que volta, no espa\u00e7o do que nunca saberemos, da ignor\u00e2ncia e do remorso coletivo.<\/p>\n<p>Por fim, \u00e9 importante destacar que tanto <em>O Agente Secreto<\/em> quanto <em>Ainda Estou Aqui<\/em> \u2013 da tamb\u00e9m espl\u00eandida Fernanda Torres \u2013 recebem os mais merecidos aplausos dos mundos do cinema. O planeta passa a conhecer as feridas profundas do Brasil sob a ditadura militar, mem\u00f3rias que o cinema come\u00e7a agora a contar.<\/p>\n<p>Que americanos, africanos, europeus, asi\u00e1ticos saibam que a viol\u00eancia e a brutalidade deixaram marcas que comp\u00f5em a nossa forma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somos historiadores e, claro, podemos ser profundamente imprecisos aqui, mas tudo nos leva a crer que a ditadura militar inaugura o Brasil contempor\u00e2neo: das desaven\u00e7as est\u00fapidas, dos di\u00e1logos surdos, da ignor\u00e2ncia orgulhosa.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaFvFd73rZZflK7yGD0I\">Inscreva-se no canal de not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> no WhatsApp e fique por dentro das principais discuss\u00f5es do pa\u00eds!<\/a><\/p>\n<p>\u00c9 claro, a ditadura n\u00e3o inventou a viol\u00eancia, a corrup\u00e7\u00e3o e o degredo moral: a hist\u00f3ria de escravid\u00e3o e escravizados vem de longe \u2013 tamb\u00e9m ela precisa ser contada pelo cinema \u2013, mas foi a ditadura que, em certa medida, inventou o tipo de viol\u00eancia, de corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e degredo social desinibidos que se pratica hoje.<\/p>\n<p>A ditadura que aparece em <em>Ainda Estou Aqui <\/em>e em <em>O Agente Secreto <\/em>foi tamb\u00e9m o confronto brutal com o Brasil \u201cinventado\u201d nos anos 1950: da Bossa Nova, do Cinema Novo, do <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, da primeira Copa do Mundo, de Maria Esther Bueno, de \u00c9der Jofre, da constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia: tudo aquilo que se acreditava que viria a ser o Brasil, um projeto de emancipa\u00e7\u00e3o coletiva interrompido. O fato \u00e9 que a arte nos impede de \u201cmorrer de verdade\u201d, <em>O Agente Secreto<\/em> e <em>Ainda Estou Aqui<\/em> nos ajudam a ajustar essas contas. Que venham outras obras, filmes, romances e m\u00fasicas.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dois Globos de Ouro para O Agente Secreto consagram o cinema brasileiro. Para al\u00e9m de uma excelente hist\u00f3ria que fala diretamente \u00e0 alma do nosso pa\u00eds, O Agente Secreto \u00e9 uma obra excepcional do ponto de vista t\u00e9cnico e art\u00edstico. Tudo parece perfeito, a dire\u00e7\u00e3o de arte, cen\u00e1rio, figurino, elenco. 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