{"id":19579,"date":"2026-01-01T07:58:35","date_gmt":"2026-01-01T10:58:35","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/01\/01\/quando-a-politica-publica-encontra-o-contrato-de-concessao\/"},"modified":"2026-01-01T07:58:35","modified_gmt":"2026-01-01T10:58:35","slug":"quando-a-politica-publica-encontra-o-contrato-de-concessao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/01\/01\/quando-a-politica-publica-encontra-o-contrato-de-concessao\/","title":{"rendered":"Quando a pol\u00edtica p\u00fablica encontra o contrato de concess\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Todo mundo sabe: dezembro \u00e9 o m\u00eas em que o rel\u00f3gio institucional acelera. \u00c9 quando se fecham balan\u00e7os, se despacham processos antigos e se resolvem pend\u00eancias. \u00c9 preciso come\u00e7ar o ano de mesa limpa.<\/p>\n<p>No setor aeroportu\u00e1rio, o fim de 2025 seguiu esse roteiro \u00e0 risca. Em poucos dias, a Ag\u00eancia Nacional de Avia\u00e7\u00e3o Civil aprovou duas revis\u00f5es extraordin\u00e1rias de contratos de concess\u00e3o relevantes (Guarulhos e Confins), ambas tratando de um tema que, curiosamente, tamb\u00e9m havia sido objeto de aten\u00e7\u00e3o recente do Minist\u00e9rio de Portos e Aeroportos: o impacto de exig\u00eancias supervenientes do pr\u00f3prio Poder P\u00fablico sobre o equil\u00edbrio econ\u00f4mico-financeiro dos contratos.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>As Decis\u00f5es 729 e 731, ambas de 11 de dezembro de 2025, aprovadas pela Diretoria Colegiada da Anac, enfrentam situa\u00e7\u00f5es muito semelhantes. Nos dois casos, a Ag\u00eancia reconheceu que obriga\u00e7\u00f5es decorrentes da Portaria 15.205-DG\/PF\/2021, editada pela Pol\u00edcia Federal, alteraram de forma relevante o custo operacional das concession\u00e1rias aeroportu\u00e1rias.<\/p>\n<p>Trata-se de exig\u00eancias relacionadas ao controle migrat\u00f3rio internacional, como o fornecimento de pessoal habilitado para opera\u00e7\u00e3o de cabines individualizadas e, no caso de Confins, tamb\u00e9m a aquisi\u00e7\u00e3o e opera\u00e7\u00e3o de equipamentos automatizados de controle migrat\u00f3rio (<em>e-gates<\/em>). O ponto central, contudo, n\u00e3o est\u00e1 apenas na natureza das obriga\u00e7\u00f5es, mas no reconhecimento expl\u00edcito de que elas n\u00e3o estavam originalmente alocadas aos concession\u00e1rios nos contratos de concess\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso do Aeroporto Internacional de Guarulhos, a Anac aprovou a revis\u00e3o extraordin\u00e1ria para recompor os custos associados \u00e0 exig\u00eancia de fornecimento de pessoal para as cabines de migra\u00e7\u00e3o a partir de junho de 2024. A solu\u00e7\u00e3o adotada combinou instrumentos cl\u00e1ssicos de reequil\u00edbrio: a majora\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria de 8,43% da Tarifa de Embarque Internacional e a revis\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es fixas e vari\u00e1veis devidas pela concession\u00e1ria, no montante aproximado de R$ 50,7 milh\u00f5es, condicionada \u00e0 anu\u00eancia do Minist\u00e9rio de Portos e Aeroportos.<\/p>\n<p>Em Confins, a l\u00f3gica foi a mesma, ainda que com impactos mais amplos. A Decis\u00e3o 731 reconheceu n\u00e3o apenas o custo com pessoal, mas tamb\u00e9m com os <em>e-gates<\/em>, retroagindo os efeitos \u00e0 data de assun\u00e7\u00e3o das obriga\u00e7\u00f5es pela concession\u00e1ria, em mar\u00e7o de 2022. O resultado foi uma majora\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria de 13,31% da Tarifa de Embarque Internacional e a revis\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es contratuais em cerca de R$ 15 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Ambas as decis\u00f5es adotam metodologia transparente, baseada em fluxo de caixa marginal, com previs\u00e3o de revis\u00e3o anual dos valores pela Superintend\u00eancia de Regula\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica de Aeroportos, justamente para assegurar que o reequil\u00edbrio reflita os custos efetivamente incorridos e as receitas efetivamente geradas.<\/p>\n<p>Mais do que isso, deixam claro que o equil\u00edbrio econ\u00f4mico-financeiro n\u00e3o \u00e9 um estado est\u00e1tico, mas uma condi\u00e7\u00e3o din\u00e2mica, que precisa ser preservada ao longo da execu\u00e7\u00e3o contratual sempre que fatos supervenientes relevantes alterarem a equa\u00e7\u00e3o originalmente pactuada.<\/p>\n<p>O dado institucional mais interessante, por\u00e9m, talvez esteja fora das pr\u00f3prias decis\u00f5es da Anac. Poucas semanas antes, o Minist\u00e9rio de Portos e Aeroportos havia editado a Portaria 681\/2025, estabelecendo procedimentos para avalia\u00e7\u00e3o de obriga\u00e7\u00f5es n\u00e3o previstas originalmente nos contratos de concess\u00e3o aeroportu\u00e1ria impostas por \u00f3rg\u00e3os da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica federal.<\/p>\n<p>A Portaria parte de uma premissa simples, mas poderosa: a de que a fragmenta\u00e7\u00e3o do Estado n\u00e3o pode se traduzir, automaticamente, em transfer\u00eancia de custos para o concession\u00e1rio. Ao reafirmar a necessidade de previsibilidade regulat\u00f3ria, adequada aloca\u00e7\u00e3o de riscos e preserva\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio econ\u00f4mico-financeiro, o MPOR sinaliza que exig\u00eancias supervenientes do pr\u00f3prio Poder P\u00fablico devem ser tratadas como eventos institucionais, e n\u00e3o como riscos invis\u00edveis embutidos no contrato.<\/p>\n<p>Vistas em conjunto, a Portaria do MPOR e as decis\u00f5es da Anac revelam um raro, mas bem-vindo, alinhamento entre pol\u00edtica p\u00fablica e regula\u00e7\u00e3o. O Minist\u00e9rio estabelece a diretriz: novas exig\u00eancias estatais precisam ser avaliadas \u00e0 luz da pol\u00edtica p\u00fablica setorial e de seus impactos contratuais.<\/p>\n<p>A ag\u00eancia, por sua vez, operacionaliza essa diretriz no plano concreto, reconhecendo o direito ao reequil\u00edbrio e definindo, com t\u00e9cnica regulat\u00f3ria, os instrumentos adequados para sua recomposi\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 uma mensagem clara ao mercado e aos pr\u00f3prios \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos: mudar as regras do jogo tem custo, e esse custo n\u00e3o pode ser absorvido silenciosamente por contratos de longo prazo.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o seja exagero dizer que essas decis\u00f5es, publicadas na \u00faltima quinzena de dezembro, fecham 2025 com um sinal relevante para 2026. Menos improviso, mais coordena\u00e7\u00e3o institucional; menos ret\u00f3rica sobre seguran\u00e7a jur\u00eddica, mais pr\u00e1tica administrativa. Se esse di\u00e1logo entre pol\u00edtica p\u00fablica e regula\u00e7\u00e3o se consolidar, o setor de infraestrutura aeroportu\u00e1ria tende a come\u00e7ar o pr\u00f3ximo ano com algo cada vez mais raro e cada vez mais necess\u00e1rio: previsibilidade.<\/p>\n<p>Esse conjunto de atos tamb\u00e9m ajuda a reposicionar um debate recorrente nas concess\u00f5es de infraestrutura: a ideia, ainda muito presente, de que todo risco regulat\u00f3rio ou normativo deve ser automaticamente internalizado pelo concession\u00e1rio como parte do \u201ccusto do neg\u00f3cio\u201d.<\/p>\n<p>As decis\u00f5es da Anac mostram exatamente o oposto. Quando a altera\u00e7\u00e3o decorre de uma decis\u00e3o estatal espec\u00edfica, externa ao contrato e n\u00e3o precificada originalmente, o risco deixa de ser empresarial para se tornar institucional. E, como tal, deve ser tratado pelos instrumentos pr\u00f3prios do direito administrativo e da regula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, um aspecto pedag\u00f3gico relevante. Ao condicionar a revis\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es contratuais \u00e0 anu\u00eancia do Minist\u00e9rio de Portos e Aeroportos, a Anac refor\u00e7a o papel do Poder Concedente como coordenador da pol\u00edtica p\u00fablica setorial, evitando solu\u00e7\u00f5es fragmentadas e fortalecendo a governan\u00e7a dos contratos. Ao mesmo tempo, ao prever revis\u00f5es peri\u00f3dicas do fluxo de caixa marginal, a Ag\u00eancia sinaliza que reequil\u00edbrio n\u00e3o \u00e9 cheque em branco, mas mecanismo t\u00e9cnico sujeito a acompanhamento, ajuste e transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>Em um ambiente em que o debate sobre seguran\u00e7a jur\u00eddica frequentemente se perde em abstra\u00e7\u00f5es, essas decis\u00f5es t\u00eam o m\u00e9rito de traduzir princ\u00edpios em pr\u00e1tica administrativa concreta. Previsibilidade, aqui, n\u00e3o significa aus\u00eancia de mudan\u00e7a, mas clareza sobre como mudan\u00e7as ser\u00e3o tratadas.<\/p>\n<p>Equil\u00edbrio econ\u00f4mico-financeiro n\u00e3o aparece como obst\u00e1culo \u00e0 regula\u00e7\u00e3o, mas como condi\u00e7\u00e3o para que ela seja sustent\u00e1vel ao longo do tempo. E aloca\u00e7\u00e3o adequada de riscos deixa de ser um slogan contratual para se afirmar como crit\u00e9rio efetivo de decis\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>No fim das contas, talvez a melhor s\u00edntese esteja no pr\u00f3prio calend\u00e1rio. Resolver essas quest\u00f5es antes do virar do ano talvez n\u00e3o tenha sido apenas uma coincid\u00eancia burocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m um gesto institucional de fechamento de ciclo, indicando que o setor entra em 2026 com par\u00e2metros mais claros sobre como lidar com exig\u00eancias supervenientes, como dialogam pol\u00edtica p\u00fablica e regula\u00e7\u00e3o e quais s\u00e3o os limites (e responsabilidades) do pr\u00f3prio Estado na execu\u00e7\u00e3o de contratos de longo prazo.<\/p>\n<p>Que venha 2026. E que ele venha com menos surpresas n\u00e3o precificadas, mais coordena\u00e7\u00e3o entre \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e, sobretudo, com contratos que continuem sendo instrumentos de pol\u00edtica p\u00fablica \u2013 e n\u00e3o v\u00edtimas dela. Feliz 2026!<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo mundo sabe: dezembro \u00e9 o m\u00eas em que o rel\u00f3gio institucional acelera. \u00c9 quando se fecham balan\u00e7os, se despacham processos antigos e se resolvem pend\u00eancias. \u00c9 preciso come\u00e7ar o ano de mesa limpa. No setor aeroportu\u00e1rio, o fim de 2025 seguiu esse roteiro \u00e0 risca. 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