{"id":19424,"date":"2025-12-21T06:00:38","date_gmt":"2025-12-21T09:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/21\/congresso-democracia-e-o-golpe-reprecificado\/"},"modified":"2025-12-21T06:00:38","modified_gmt":"2025-12-21T09:00:38","slug":"congresso-democracia-e-o-golpe-reprecificado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/21\/congresso-democracia-e-o-golpe-reprecificado\/","title":{"rendered":"Congresso, democracia e o golpe reprecificado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cPior do que o atual Congresso, s\u00f3 o pr\u00f3ximo.\u201d A frase, dita como profecia amarga por Ulysses Guimar\u00e3es, que conhecia por dentro o motor da pol\u00edtica brasileira, n\u00e3o serve mais como lamento geracional. O Parlamento tende a piorar n\u00e3o porque \u201cdecai\u201d abstratamente, mas porque surrupia, com rapidez, a linguagem do seu tempo \u2014 a arte de converter crises em atalhos, princ\u00edpios em negocia\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria p\u00fablica em administra\u00e7\u00e3o do esquecimento.<\/p>\n<p>O plen\u00e1rio do Senado aprovou na \u00faltima quarta-feira (17\/12) o chamado PL da Dosimetria (<a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/proposicoesWeb\/fichadetramitacao?idProposicao=2358548\">PL 2162\/2023<\/a>), por 48 votos a 25 (e uma absten\u00e7\u00e3o), e o texto segue para san\u00e7\u00e3o presidencial. A proposta foi vendida como corre\u00e7\u00e3o de \u201cexcessos\u201d e caminho de \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d, mas na pr\u00e1tica opera como um dispositivo pol\u00edtico mais ambicioso: desloca o debate do que foi (uma tentativa de golpe) para quanto custa (a pena), isto \u00e9, transforma o conflito sobre a democracia numa disputa de planilha sobre a puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>O conte\u00fado ajuda a entender o alcance simb\u00f3lico desse gesto. O projeto altera crit\u00e9rios de dosimetria e execu\u00e7\u00e3o penal para crimes contra o Estado democr\u00e1tico de Direito, incluindo a regra de evitar soma de penas quando delitos ocorrerem no mesmo contexto (com tratamento de concurso formal), e prev\u00ea redu\u00e7\u00e3o de pena (de 1\/3 a 2\/3) para condutas praticadas em contexto de multid\u00e3o, desde que sem lideran\u00e7a ou financiamento.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m mexe na progress\u00e3o de regime, estabelecendo um piso de 16,6% para esses crimes, associado a bom comportamento, em desenho que foi justamente o nervo exposto do debate.<\/p>\n<p>O Senado reconheceu, inclusive, a controv\u00e9rsia sobre \u201cbrechas\u201d e efeitos colaterais \u2013 uma admiss\u00e3o de que, quando se legisla sob temperatura moral elevada, o texto costuma carregar mais pol\u00edtica do que t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>A conjuntura em que isso ocorre n\u00e3o \u00e9 um detalhe: o Parlamento tenta se reposicionar entre duas for\u00e7as que se alimentam mutuamente. De um lado, a <em>jurisdi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o <\/em>narrada como normalidade (a ideia de que o Supremo precisou \u201cir al\u00e9m\u201d para conter o colapso); de outro, a <em>pol\u00edtica de exce\u00e7\u00e3o <\/em>narrada como vitimiza\u00e7\u00e3o (a ideia de que a democracia exagerou ao se defender).<\/p>\n<p>O PL da Dosimetria \u00e9 uma forma de ponte, sendo outra forma de dizer \u201cn\u00e3o \u00e9 anistia\u201d, enquanto produz efeitos que, na arena p\u00fablica, s\u00e3o lidos como perd\u00e3o \u2013 especialmente porque alcan\u00e7a o repert\u00f3rio penal mobilizado para o 8 de Janeiro e para a \u201ctrama golpista\u201d.<\/p>\n<p>Certa vez, Machado de Assis sublinhava: \u201cA generosidade humana n\u00e3o para no perd\u00e3o das culpas, vai at\u00e9 o conforto do culpado\u201d. Machado escreve isso como quem acende uma luz inc\u00f4moda sobre a nossa teatralidade c\u00edvica: n\u00e3o basta absolver \u2013 \u00e9 preciso acomodar. E \u00e9 justamente a\u00ed que a pol\u00edtica brasileira costuma escorregar do perd\u00e3o para a almofada, da responsabilidade para o arranjo, da verdade para a narrativa tranquilizadora.<\/p>\n<p>Quando o Parlamento legisla sob o signo da \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d, o risco n\u00e3o \u00e9 apenas reduzir penas, \u00e9 oferecer ao culpado um tipo de conforto institucional \u2013 o conforto de ser reclassificado como \u201cmultid\u00e3o\u201d, \u201ccontexto\u201d, \u201cexcesso\u201d, \u201ccaso humano\u201d \u2013, enquanto a democracia, cansada, tenta chamar de recome\u00e7o aquilo que pode ser s\u00f3 a forma mais elegante de esquecer.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que Paul Ricoeur ajuda a p\u00f4r o produto normativo em movimento, para al\u00e9m do tecnicismo. Em <em>A mem\u00f3ria, a hist\u00f3ria, o esquecimento<\/em>, Ricoeur insiste que o perd\u00e3o (quando existe) n\u00e3o pode ser confundido com apagamento: ele exige reconhecimento do dano, trabalho de mem\u00f3ria e, sobretudo, responsabilidade.<\/p>\n<p>Um perd\u00e3o decretado como desconto \u2013 sem a espessura do reconhecimento p\u00fablico \u2013 tende a virar apenas pol\u00edtica do esquecimento: n\u00e3o reconcilia; recalca. E, quando o recalque \u00e9 institucional, ele retorna como sintoma: cinismo, ressentimento e a pedagogia silenciosa de que \u201ctentar\u201d compensa, porque depois algu\u00e9m negocia a fatura.<\/p>\n<p>Hannah Arendt lembra que o perd\u00e3o \u00e9 uma faculdade rara e politicamente exigente \u2013 por isso mesmo, os homens dificilmente perdoam de modo est\u00e1vel. Perdoar n\u00e3o \u00e9 um \u201csentimento nobre\u201d que cai do c\u00e9u, mas um ato que interrompe a cadeia autom\u00e1tica da retribui\u00e7\u00e3o e da vingan\u00e7a. Em <em>A condi\u00e7\u00e3o humana<\/em>, Arendt conecta o perd\u00e3o ao problema da irreversibilidade: como n\u00e3o podemos desfazer o que fazemos, a vida comum s\u00f3 n\u00e3o fica condenada a repetir o dano quando existe a coragem de reabrir o futuro, mesmo sem garantias.<\/p>\n<p>O ponto inc\u00f4modo \u00e9 que, quando o perd\u00e3o se transforma em expediente \u2013 em c\u00e1lculo para \u201cresolver\u201d o conflito \u2013, ele perde sua densidade moral e vira uma t\u00e9cnica de esquecimento, um jeito elegante de administrar ressentimentos sem enfrent\u00e1-los.<\/p>\n<p>Pierre Rosanvallon, por sua vez, oferece a chave do \u201cparlamento dos invis\u00edveis\u201d: a democracia representativa fracassa quando n\u00e3o consegue fazer aparecer \u2013 na linguagem comum e nos dispositivos p\u00fablicos \u2013 as vidas e experi\u00eancias que ficam fora do campo de vis\u00e3o do debate pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O paradoxo brasileiro \u00e9 que a invisibilidade virou moeda disputada. Os defensores do PL reivindicam representar os \u201cinvis\u00edveis\u201d do 8 de Janeiro \u2013 a \u201cinfantaria\u201d, a multid\u00e3o, os sem lideran\u00e7a. Mas a pergunta rosanvalloniana \u00e9 mais inc\u00f4moda: <em>quem decide quais invis\u00edveis merecem narrativa, empatia e legisla\u00e7\u00e3o sob medida? <\/em>Porque toda opera\u00e7\u00e3o de visibiliza\u00e7\u00e3o seletiva tem uma sombra: o que ela deixa fora do enquadramento. A democracia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 contar votos; \u00e9 tamb\u00e9m organizar o que pode ser dito sobre a viol\u00eancia pol\u00edtica e quem tem direito a aparecer como v\u00edtima.<\/p>\n<p>Esse jogo de espelhos se intensifica quando o pr\u00f3prio sistema de justi\u00e7a atravessa crise de confian\u00e7a. Nas \u00faltimas semanas, ganhou for\u00e7a o debate sobre c\u00f3digo de conduta no <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/stf\">STF<\/a>, impulsionado por relatos envolvendo ministros e a rea\u00e7\u00e3o p\u00fablica do presidente da corte.<\/p>\n<p>Num ambiente assim, o Parlamento percebe uma janela: se a legitimidade do \u00e1rbitro est\u00e1 contestada, torna-se politicamente rent\u00e1vel reabrir o placar \u2014 e vender a revis\u00e3o como prud\u00eancia institucional. S\u00f3 que h\u00e1 um risco de curto-circuito: quando a pol\u00edtica usa a desconfian\u00e7a no Judici\u00e1rio para relativizar crimes contra a pr\u00f3pria democracia, a \u201ccrise de confian\u00e7a\u201d deixa de ser um problema a resolver e vira ferramenta de engenharia do esquecimento.<\/p>\n<p>O que pode acontecer daqui para frente? Tr\u00eas cen\u00e1rios s\u00e3o plaus\u00edveis \u2013 e todos carregam custos.<\/p>\n<p>No primeiro, Lula sanciona (integral ou parcialmente). A consequ\u00eancia imediata tende a ser uma onda de pedidos de readequa\u00e7\u00e3o de penas, porque o direito penal brasileiro admite retroatividade da lei mais ben\u00e9fica. Politicamente, o governo tenta trocar conflito por normaliza\u00e7\u00e3o, mas paga o pre\u00e7o simb\u00f3lico: a impress\u00e3o de que o Estado recuou diante do golpismo, ainda que por via \u201ct\u00e9cnica\u201d.<\/p>\n<p>No segundo, Lula veta (total ou em pontos-chave). O veto pode ser apresentado como defesa de uma linha vermelha democr\u00e1tica \u2013 mas alimenta a narrativa de persegui\u00e7\u00e3o e reativa a coaliz\u00e3o do \u201cperd\u00e3o\u201d, com chance real de o Congresso derrubar o veto na volta do recesso, dependendo da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as.<\/p>\n<p>No terceiro, mesmo com san\u00e7\u00e3o (ou com veto derrubado), o tema migra para o STF,\u00a0 por judicializa\u00e7\u00e3o de constitucionalidade e por disputas sobre alcance e interpreta\u00e7\u00e3o. E aqui mora a armadilha institucional: se o Supremo barra o desenho aprovado pelo Legislativo, refor\u00e7a a cr\u00edtica de \u201csupremocracia\u201d; se n\u00e3o barra, arrisca naturalizar um precedente segundo o qual ataques \u00e0 ordem constitucional acabam reprecificados politicamente.<\/p>\n<p>Quando isso chega ao STF, a armadilha institucional ganha uma camada hist\u00f3rica que o pr\u00f3prio tribunal vem ajudando a reativar: nos \u00faltimos anos, a corte produziu gestos relevantes de mem\u00f3ria p\u00fablica ao afirmar que a Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o comporta o enaltecimento do golpe de 1964 \u2013 inclusive vedando o uso de recursos p\u00fablicos para promover comemora\u00e7\u00f5es alusivas ao golpe, por atentar contra o patrim\u00f4nio imaterial e a ordem constitucional \u2013 e, em paralelo, sinalizou disposi\u00e7\u00e3o de revisitar o alcance da Lei da Anistia em casos ligados a desaparecimentos\/oculta\u00e7\u00e3o de cad\u00e1ver na ditadura.<\/p>\n<p>Essa moldura recente oferece um horizonte hermen\u00eautico para interpretar constitucionalmente o PL da Dosimetria sem cair na tenta\u00e7\u00e3o de reprecificar politicamente ataques \u00e0 ordem democr\u00e1tica \u2013 por exemplo, por leitura estrita de proporcionalidade, individualiza\u00e7\u00e3o e veda\u00e7\u00e3o de incentivos \u00e0 viol\u00eancia pol\u00edtica, e por uma vigil\u00e2ncia especial contra \u201cbenef\u00edcios\u201d que, sob o l\u00e9xico da t\u00e9cnica penal, produzam uma esp\u00e9cie de anistia por aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas seria ingenuidade ignorar o outro caminho: o STF tamb\u00e9m pode optar por uma postura conservadora e autocontida, validando o essencial do desenho legislativo (talvez com \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o conforme\u201d pontual) como forma de reduzir atrito com o Congresso e recompor governabilidade \u2013 um tipo de acordo t\u00e1cito em que o tribunal preserva capital institucional no curto prazo, ao custo de deixar mais amb\u00edgua, no longo, a mensagem de que a democracia n\u00e3o negocia com o seu pr\u00f3prio desmonte.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A decis\u00e3o do Senado, portanto, \u00e9 menos sobre \u201cdosimetria\u201d jur\u00eddica e mais sobre mem\u00f3ria p\u00fablica. Democracias n\u00e3o sobrevivem apenas punindo; mas elas tamb\u00e9m n\u00e3o sobrevivem quando a puni\u00e7\u00e3o vira vari\u00e1vel de barganha para reabilitar o que n\u00e3o foi apenas crime \u2013 foi projeto.<\/p>\n<p>Ricoeur lembraria: perd\u00e3o sem reconhecimento \u00e9 esquecimento travestido. Rosanvallon acrescentaria: democracia que escolhe seus invis\u00edveis com base no poder de chantagem dos vis\u00edveis vira, cedo ou tarde, um regime de representa\u00e7\u00e3o sem povo \u2013 e de povo sem representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se Ulysses estava certo, o \u201cpr\u00f3ximo Congresso\u201d piora porque aprende r\u00e1pido a linguagem do seu tempo: menos compromisso com princ\u00edpios, mais dom\u00ednio do roteiro. O PL da Dosimetria \u00e9 um desses roteiros. Resta saber se a democracia brasileira o ler\u00e1 como gesto de maturidade \u2013 ou como ensaio geral de uma pedagogia perversa: a de que o golpe \u00e9 conden\u00e1vel, desde que depois seja perdo\u00e1vel.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPior do que o atual Congresso, s\u00f3 o pr\u00f3ximo.\u201d A frase, dita como profecia amarga por Ulysses Guimar\u00e3es, que conhecia por dentro o motor da pol\u00edtica brasileira, n\u00e3o serve mais como lamento geracional. 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