{"id":19343,"date":"2025-12-18T11:08:29","date_gmt":"2025-12-18T14:08:29","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/18\/de-wall-street-a-faria-lima-o-que-as-quebras-de-svb-ftx-e-master-nos-ensinam\/"},"modified":"2025-12-18T11:08:29","modified_gmt":"2025-12-18T14:08:29","slug":"de-wall-street-a-faria-lima-o-que-as-quebras-de-svb-ftx-e-master-nos-ensinam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/18\/de-wall-street-a-faria-lima-o-que-as-quebras-de-svb-ftx-e-master-nos-ensinam\/","title":{"rendered":"De Wall Street \u00e0 Faria Lima: o que as quebras de SVB, FTX e Master nos ensinam"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em>Stability is destabilizing.<\/em>\u201d<br \/>\nHyman P. Minsky<\/p>\n<p>O medo de perder dinheiro em um colapso financeiro \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o universal. Seja em um banco tradicional ou em uma plataforma de ativos digitais, a possibilidade de ver economias desaparecerem da noite para o dia assombra investidores em todo o mundo.<\/p>\n<p>Por sua vez, a regula\u00e7\u00e3o preventiva, que visa propiciar estabilidade e, dessa forma, estimular a funcionamento do mercado, pode tamb\u00e9m ser desestabilizando. Como bem apontou Hyman Minsky, quanto mais seguro o sistema parece ser, mais riscos os agentes financeiros est\u00e3o dispostos a assumir, tornando o sistema, inevitavelmente, mais fr\u00e1gil.<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>As recentes e distintas quebras do Silicon Valley Bank (SVB) e da <em>exchange<\/em> de <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/criptomoedas\">criptomoedas<\/a> FTX nos Estados Unidos, e do <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/Banco%20Master\">Banco Master<\/a> no Brasil, revelam verdades surpreendentes e contraintuitivas sobre risco, san\u00e7\u00e3o e os sistemas de prote\u00e7\u00e3o ao investidor.<\/p>\n<p>Com base em uma an\u00e1lise de Ian Ayres e John Donohue,<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn2\">[2]<\/a> para os casos americanos, e em uma reportagem de Janize Cola\u00e7o e Micaela Santos, pelo G1,<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn3\">[3]<\/a> para o caso brasileiro, explora-se as li\u00e7\u00f5es que emergem desses eventos e o que elas significam para qualquer pessoa que busca seguran\u00e7a no sistema financeiro.<\/p>\n<h2>O paradoxo dos casos americanos: maior dano, nenhuma puni\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>No artigo \u201cA Tale of Two Financial Collapses\u201d, os autores Ian Ayres e John Donohue tra\u00e7am um paralelo entre as quebras do Silicon Valley Bank e da FTX. Eles n\u00e3o apenas comparam as falhas estruturais de ambos, mas tamb\u00e9m questionam a \u201cresposta extraordinariamente punitiva\u201d \u00e0 FTX em contraste com a leni\u00eancia demonstrada no caso do SVB, expondo uma chocante disparidade nas consequ\u00eancias legais e financeiras.<\/p>\n<p>Conforme descrito no artigo, os colapsos do SVB e da FTX compartilham uma mec\u00e2nica fundamental:<\/p>\n<p>Crescimento r\u00e1pido e bases de clientes concentradas: Ambos experimentaram uma expans\u00e3o acelerada, atendendo a nichos espec\u00edficos (startups de tecnologia no caso do SVB e investidores de cripto na FTX).<\/p>\n<p>Descasamento entre ativos e passivos: O SVB possu\u00eda passivos de curto prazo (dep\u00f3sitos) lastreados em ativos de longo prazo (t\u00edtulos do governo), enquanto a FTX tinha uma exposi\u00e7\u00e3o concentrada em ativos vol\u00e1teis por meio de sua rela\u00e7\u00e3o com a <em>Alameda Research<\/em>.<br \/>\nFalhas na gest\u00e3o de risco: A lideran\u00e7a do SVB falhou em se proteger contra o risco da alta das taxas de juros, enquanto a FTX n\u00e3o se protegeu contra a queda abrupta nos pre\u00e7os dos criptoativos.<br \/>\nCorrida banc\u00e1ria: Ambos sofreram uma cl\u00e1ssica \u201ccorrida banc\u00e1ria\u201d, desencadeada pela perda de confian\u00e7a do p\u00fablico, que levou a pedidos de saques massivos e insustent\u00e1veis em um curto per\u00edodo.<\/p>\n<h2>A chocante disparidade nos resultados<\/h2>\n<p>Apesar das semelhan\u00e7as em suas falhas, os resultados financeiros e legais n\u00e3o poderiam ser mais diferentes, revelando o ponto central da an\u00e1lise dos autores.<\/p>\n<p>No caso do SVB, o colapso exigiu um resgate governamental que socializou perdas de aproximadamente US$ 20 bilh\u00f5es para o FDIC (o fundo garantidor de dep\u00f3sitos americano). Mesmo com o enorme preju\u00edzo para o sistema, nenhum executivo enfrentou acusa\u00e7\u00f5es criminais. O governo interpretou o caso como resultado de \u201cm\u00e1 sorte e mau julgamento\u201d, concedendo aos respons\u00e1veis o benef\u00edcio da d\u00favida.<\/p>\n<p>J\u00e1 no caso da FTX, o seu fundador, Sam Bankman-Fried, foi condenado a 25 anos de pris\u00e3o. No entanto, a empresa est\u00e1 reembolsando 100% dos cr\u00e9ditos dos clientes com juros de 18%, utilizando seus pr\u00f3prios ativos. A an\u00e1lise mostrou que, mesmo no auge da crise, a FTX era il\u00edquida (n\u00e3o tinha dinheiro em caixa para atender aos saques imediatos), mas n\u00e3o insolvente (seus ativos superavam suas d\u00edvidas).<\/p>\n<p>An\u00e1lises posteriores mostraram que, mesmo no ponto mais baixo da crise, os ativos da FTX superavam suas d\u00edvidas, um fato que, segundo os autores, foi impedido de ser apresentado ao j\u00fari no julgamento de seu fundador. Em contraste com o SVB, o governo agiu com o em tempo recorde, sugerindo uma corrida ao julgamento para se evitar a possibilidade de se conceder a Bankman-Fried o benef\u00edcio da d\u00favida.<\/p>\n<h2>O caso brasileiro: como a garantia do FGC financiou o \u2018pedido de socorro\u2019<\/h2>\n<p>Do outro lado do Equador, a liquida\u00e7\u00e3o do Banco Master no Brasil revela uma din\u00e2mica diferente, mas igualmente preocupante. Com base na reportagem de Janize Cola\u00e7o e Micaela Santos, o caso brasileiro ilustra como a percep\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a pode, paradoxalmente, alimentar um sistema insustent\u00e1vel e atrair investidores para um risco que eles acreditam n\u00e3o existir.<\/p>\n<p>O principal chamariz do Banco Master eram seus Certificados de Dep\u00f3sito Banc\u00e1rio (CDBs) com remunera\u00e7\u00f5es muito acima do padr\u00e3o de mercado. Enquanto bancos saud\u00e1veis ofereciam entre 100% e 105% do CDI, o Master atra\u00eda investidores com ofertas de 130%, 150% ou at\u00e9 180% do CDI. Essa oferta, aparentemente generosa, era na verdade um sinal de alerta.<\/p>\n<p>O planejador financeiro Jeff Patzlaff, em sua an\u00e1lise para uma reportagem publicada pelo portal g1, resume a situa\u00e7\u00e3o de forma direta. O banco recorreu ao investidor pessoa f\u00edsica com taxas \u201cirresist\u00edveis\u201d porque j\u00e1 havia perdido acesso ao cr\u00e9dito mais barato de grandes institui\u00e7\u00f5es, que perceberam que os n\u00fameros do Master \u201cn\u00e3o fechavam havia algum tempo\u201d. \u201cQuando voc\u00ea via o Banco Master oferecendo 130%, 150% ou at\u00e9 180% do CDI, isso n\u00e3o era generosidade \u2014 era um pedido de socorro\u201d, afirma.<\/p>\n<h2><strong>A mec\u00e2nica da fraude<\/strong><\/h2>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es citadas por Janize Cola\u00e7o e Micaela Santos apontam para um esquema insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>H\u00e1 a suspeita de que o banco utilizava o dinheiro captado de novos investidores para pagar os juros e resgates de clientes antigos. Al\u00e9m disso, para simular liquidez e solidez, mantinha em seu balan\u00e7o ativos \u201cfabricados\u201d, como carteiras de cr\u00e9dito falsas que foram usadas em transa\u00e7\u00f5es suspeitas com outras institui\u00e7\u00f5es, como o BRB e a empresa Tirreno, para simular liquidez.<\/p>\n<p>\u00d3rg\u00e3os como o FDIC nos EUA e o Fundo Garantidor de Cr\u00e9ditos (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/FGC\">FGC<\/a>) no Brasil t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o fundamental: proteger depositantes e investidores de varejo para manter a estabilidade do sistema financeiro. Ao garantir dep\u00f3sitos at\u00e9 um certo limite (US$ 250 mil nos EUA, R$ 250 mil no Brasil), eles evitam o p\u00e2nico generalizado em caso de quebra de uma institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, esses casos exp\u00f5em o dilema do risco moral \u2014 a tend\u00eancia de se assumir mais riscos quando as consequ\u00eancias negativas s\u00e3o cobertas por terceiros.<\/p>\n<p>No caso SVB, a interven\u00e7\u00e3o do FDIC foi al\u00e9m do seu mandato padr\u00e3o. Ao garantir <em>todos<\/em> os dep\u00f3sitos, inclusive os que estavam acima do limite de US$ 250 mil, o governo socializou um preju\u00edzo de US$ 20 bilh\u00f5es. Com essa a\u00e7\u00e3o, os reguladores sinalizaram que algumas institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o interconectadas demais para falir, o que inerentemente incentiva uma maior tomada de risco no futuro.<\/p>\n<p>Em sentido oposto, no caso Banco Master a exist\u00eancia da garantia do FGC foi explorada para alimentar a capta\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel. Muitos investidores, embora cientes de que o retorno oferecido desafiava a l\u00f3gica econ\u00f4mica, sentiram-se confort\u00e1veis em assumir o risco. Na pr\u00e1tica, o FGC tornou-se um c\u00famplice involunt\u00e1rio da fraude, pois sua rede de seguran\u00e7a era o que permitia ao banco continuar atraindo capital para seu esquema insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 paradoxal. Embora essencial, a prote\u00e7\u00e3o ao investidor pode permitir que pr\u00e1ticas abusivas e insustent\u00e1veis, como as do Banco Master, persistam por mais tempo.<\/p>\n<p>Elas s\u00e3o financiadas justamente por indiv\u00edduos que se sentem seguros devido \u00e0 exist\u00eancia de uma garantia, transformando a rede de seguran\u00e7a em um facilitador involunt\u00e1rio do risco.<\/p>\n<h2 class=\"jota-cta\">\u00c9 melhor prevenir que remediar \u2013 mesmo com o rem\u00e9dio garantido<\/h2>\n<p>Os colapsos do SVB, FTX e Banco Master n\u00e3o s\u00e3o apenas hist\u00f3rias de m\u00e1 gest\u00e3o; s\u00e3o diagn\u00f3sticos precisos das falhas em nossos sistemas de san\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A disparidade de tratamento nos EUA e a explora\u00e7\u00e3o do risco moral no Brasil demonstram que esperar o colapso para depois decidir quem paga a conta e quem pode responder criminalmente \u00e9 uma abordagem reativa e, muitas vezes, socialmente injusta.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o final \u00e9 que a verdadeira rede de seguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 o fundo garantidor que paga os preju\u00edzos, mas o regulador que impede a fraude de se financiar com o dinheiro destinado \u00e0 prote\u00e7\u00e3o dos investidores.<\/p>\n<p>Fica a quest\u00e3o: como podemos equilibrar a prote\u00e7\u00e3o essencial ao investidor com mecanismos que impe\u00e7am que essa mesma prote\u00e7\u00e3o se torne uma escada para a fraude e a tomada de riscos irrespons\u00e1veis?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref1\">[1]<\/a> Wray, Larry Randall. Why Minsky Matters:\u00a0<em>An Introduction to the Work of a Maverick Economist. <\/em>Princeton University Press, 2017.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref2\">[2]<\/a> Donohue, John J.;Ayres, Ian, A Tale of Two Financial Collapses (October 11, 2025). Dispon\u00edvel em:\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/dx.doi.org\/10.2139\/ssrn.5676142\">http:\/\/dx.doi.org\/10.2139\/ssrn.5676142<\/a>. Acesso em 22 Nov. 2025.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref3\">[3]<\/a> <strong>\u00a0<\/strong>Cola\u00e7o, Janize;\u00a0 Santos, Micaela. CDBs irreais e carteiras de cr\u00e9dito falsas: entenda o que est\u00e1 por tr\u00e1s da liquida\u00e7\u00e3o do Banco Master. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2025\/11\/18\/entenda-o-que-esta-por-tras-da-liquidacao-do-banco-master.ghtml\">https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2025\/11\/18\/entenda-o-que-esta-por-tras-da-liquidacao-do-banco-master.ghtml<\/a>. Acesso em: 22 Nov. 2025.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cStability is destabilizing.\u201d Hyman P. Minsky O medo de perder dinheiro em um colapso financeiro \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o universal. Seja em um banco tradicional ou em uma plataforma de ativos digitais, a possibilidade de ver economias desaparecerem da noite para o dia assombra investidores em todo o mundo. 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