{"id":19295,"date":"2025-12-17T06:04:29","date_gmt":"2025-12-17T09:04:29","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/17\/nem-monstro-nem-doente-nem-vil-a-hidra-da-violencia-de-genero\/"},"modified":"2025-12-17T06:04:29","modified_gmt":"2025-12-17T09:04:29","slug":"nem-monstro-nem-doente-nem-vil-a-hidra-da-violencia-de-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/17\/nem-monstro-nem-doente-nem-vil-a-hidra-da-violencia-de-genero\/","title":{"rendered":"Nem monstro, nem doente, nem vil: a hidra da viol\u00eancia de g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<p><strong>A como\u00e7\u00e3o, o inimigo conveniente e o debate que ainda n\u00e3o fizemos<\/strong><\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, mobiliza\u00e7\u00f5es em diversas capitais brasileiras reacenderam o debate sobre feminic\u00eddios e viol\u00eancias de g\u00eanero. Velas, cartazes e marchas expressaram indigna\u00e7\u00e3o diante de mortes que \u2014 longe de serem exce\u00e7\u00f5es \u2014 seguem em curva ascendente h\u00e1 anos.<\/p>\n<p>Ao mesmo passo, rea\u00e7\u00f5es em redes sociais e\u00a0 parte da cobertura midi\u00e1tica voltaram a apostar em um antagonista familiar: o <em>monstro<\/em>. O <em>doente<\/em>. O <em>vil isolado<\/em> cuja exist\u00eancia seria a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para o inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o desse imagin\u00e1rio \u2014 que aparece imediatamente ap\u00f3s cada caso de grande repercuss\u00e3o \u2014 cumpre uma fun\u00e7\u00e3o: produz um inimigo manej\u00e1vel, moral e individual. Mas desvia do que as estat\u00edsticas e a pesquisa acad\u00eamica mostram com contund\u00eancia: <strong>a viol\u00eancia <\/strong>\u00e9 m\u00faltipla, cotidiana, previs\u00edvel, difusa e amplamente distribu\u00edda entre \u201chomens comuns\u201d. A figura do \u201coutro monstruoso\u201d, ao contr\u00e1rio de proteger, <em>estreita o campo de vis\u00e3o<\/em> e impede v\u00edtimas e agressores de reconhecerem a si mesmos nos fen\u00f4menos que protagonizam.<\/p>\n<p>A insist\u00eancia em narrar a viol\u00eancia de g\u00eanero como obra de monstros impede o enfrentamento das viol\u00eancias que se escondem atr\u00e1s da normalidade. Os arqu\u00e9tipos n\u00e3o existem.<\/p>\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas, pesquisas identificam estere\u00f3tipos pr\u00e9 constitu\u00eddos e persistentes sobre quem seria o \u201cagressor t\u00edpico\u201d. Para crimes sexuais, a imagem difundida \u00e9 a de homens socialmente isolados, solit\u00e1rios, sem v\u00ednculos afetivos e estranhos \u00e0s v\u00edtimas[1]. No caso da viol\u00eancia dom\u00e9stica, projeta-se o arqu\u00e9tipo do homem forte, agressivo, explosivo e usu\u00e1rio constante de \u00e1lcool ou drogas[2].<\/p>\n<p>Nenhuma dessas imagens encontra respaldo emp\u00edrico. Pior: s\u00e3o fantasias socialmente reconfortantes, n\u00e3o descri\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>O \u201cpredador sexual\u201d que ataca desconhecidas na rua \u00e9 exce\u00e7\u00e3o estat\u00edstica: quase 70% dos estupros e estupros de vulner\u00e1vel ocorrem dentro de casa e s\u00e3o cometidos por familiares ou parceiros[3]. O agressor \u00e9, majoritariamente, um homem conhecido \u2014 frequentemente um homem com profundos la\u00e7os de afeto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 v\u00edtima.<\/p>\n<p><strong>Gis\u00e8le Pelicot e a fal\u00e1cia do \u201coutro\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Um homem foi detido por um seguran\u00e7a de supermercado por tentar tirar fotos por baixo das saias de mulheres que estavam no local. Diante da ocorr\u00eancia, a pol\u00edcia decidiu apreender o telefone e o computador do detido. Ao analisar os bens apreendidos, descobriram uma biblioteca organizada com mais de 20 mil imagens e v\u00eddeos de 71 homens tendo atividades sexuais com uma mulher inconsciente.<\/p>\n<p>Essa mulher era sua esposa, quem ele conheceu quando tinha 19 anos, e que era m\u00e3e de seus filhos e av\u00f3 de seus netos. Nesse mesmo computador, foi encontrada uma pasta intitulada <em>My naked daughter<\/em>, com fotos de sua filha seminua, em claro estado entorpecente. Para al\u00e9m do \u00f3bvio, o caso alarmou pelo perfil heterog\u00eaneo dos demais homens envolvidos no caso.<\/p>\n<p>Ao fim e ao cabo, 50 homens foram levados a julgamento. Esses homens t\u00eam idades completamente distintas, alguns s\u00e3o pais, alguns s\u00e3o av\u00f3s e as profiss\u00f5es variam de caminhoneiros e seguran\u00e7as a bombeiros e soldados. N\u00e3o existia hist\u00f3rico de viol\u00eancia, abuso de subst\u00e2ncias, brigas constantes entre o casal e o agressor se recusa a ser entendido como algu\u00e9m que sentia \u00f3dio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 v\u00edtima.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, durante todo o julgamento, Dominique repetidamente sustentou que ama profundamente a ex-esposa e sua fam\u00edlia. O caso escancara o que pol\u00edticas p\u00fablicas, mobiliza\u00e7\u00f5es sociais e a grande imprensa parecem hesitar em dizer: o agressor n\u00e3o \u00e9 o outro. Ele \u00e9 um de n\u00f3s. Ele \u00e9 parte do tecido social \u2014 e n\u00e3o sua anomalia.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancias que n\u00e3o cabem na narrativa do monstro<\/strong><\/p>\n<p>Quando a m\u00eddia e, por extens\u00e3o, a opini\u00e3o p\u00fablica abra\u00e7am a narrativa do monstro, criam um problema pol\u00edtico grave: instala-se uma incapacidade coletiva de reconhecer as viol\u00eancias corriqueiras.<\/p>\n<p>Trag\u00e9dias, claro, devem ganhar espa\u00e7o no notici\u00e1rio: informam, educam e humanizam as v\u00edtimas. O problema \u00e9 quando apenas a barb\u00e1rie \u2014 e o b\u00e1rbaro \u2014 recebem aten\u00e7\u00e3o, empurrando o p\u00eandulo do aceit\u00e1vel socialmente para um extremo que distorce o fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>As v\u00edtimas n\u00e3o se reconhecem como tal porque ilusionam que a viol\u00eancia leg\u00edtima, a agress\u00e3o de verdade, se manifesta somente de maneira escrachada, gr\u00e1fica, e n\u00e3o percebem que est\u00e3o sendo violentadas nas ocorr\u00eancias perpetradas na rotina, no cotidiano.<\/p>\n<p>Fen\u00f4meno da mesma origem acontece com os agressores que n\u00e3o se reconhecem como causadores da viol\u00eancia ou sequer acham que a forma como agem est\u00e1 errada. Ao n\u00e3o se identificarem com o arqu\u00e9tipo do monstro constru\u00eddo no discurso manique\u00edsta, n\u00e3o tecem reflex\u00f5es cr\u00edticas sobre seus pr\u00f3prios comportamentos de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia de g\u00eanero n\u00e3o se manifesta apenas quando a bestialidade \u00e9 expl\u00edcita. Ela est\u00e1 presente no estupro marital, na viol\u00eancia psicol\u00f3gica, na dilapida\u00e7\u00e3o patrimonial e em todas as situa\u00e7\u00f5es em que o consentimento \u00e9 for\u00e7ado, presumido ou simplesmente ignorado.<\/p>\n<p>Aparece na divis\u00e3o desigual das tarefas dom\u00e9sticas, nas responsabilidades de cuidado atribu\u00eddas como destino, na infidelidade compulsiva e no abuso de \u00e1lcool e outras subst\u00e2ncias que recaem, quase sempre, sobre as mulheres ao redor. E n\u00e3o se restringe \u00e0s parceiras rom\u00e2nticas: atinge m\u00e3es, av\u00f3s, irm\u00e3s, amigas, funcion\u00e1rias, colegas de trabalho \u2014 um arco amplo de rela\u00e7\u00f5es onde a viol\u00eancia, tantas vezes, se disfar\u00e7a de rotina ou de \u201ctra\u00e7os de personalidade masculinos\u201d.<\/p>\n<p>Todas essas viol\u00eancias comp\u00f5em a mesma estrutura que alimenta feminic\u00eddios, e a dissocia\u00e7\u00e3o ps\u00edquica coletiva que nos impede de reconhec\u00ea-las preserva a arquitetura social que subordina mulheres.<\/p>\n<p><strong>A viol\u00eancia como estrutura \u2014 e n\u00e3o desvio<\/strong><\/p>\n<p>Como aponta a literatura feminista cr\u00edtica:<\/p>\n<p><em>\u201cViolence against women is not about the sporadic actions of isolated men, fulfilling the myth of the \u201csexual predator\u201d. On the contrary. It is a structural violence with a strong impact, which is specified in men as a way of exercising power, without pathologizing their behaviour, making it monstrous or isolating it.\u201d\u201d[4]<\/em><\/p>\n<p>Ao reduzir a viol\u00eancia a patologias individuais, repete-se a l\u00f3gica neoliberal de individualiza\u00e7\u00e3o dos problemas sociais. N\u00e3o por acaso: 34% das pessoas ainda acreditam que viol\u00eancia dom\u00e9stica resulta de \u201cpessoas m\u00e1s\u201d, e n\u00e3o do sexismo estrutural[5]. Esse enquadramento tem consequ\u00eancias devastadoras: quem acredita que o problema reside no indiv\u00edduo tem menor probabilidade de reconhecer comportamentos abusivos como parte de um padr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pedagogia social que naturaliza a desigualdade enquanto promete puni\u00e7\u00e3o moral ao monstro de ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O pre\u00e7o pol\u00edtico de acreditar no \u201cmonstro\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A narrativa midi\u00e1tica \u2014 reconfortante, mas imprecisa \u2014 gera pelo menos quatro efeitos:<\/p>\n<p>V\u00edtimas e agressores n\u00e3o se reconhecem nos pap\u00e9is que ocupam<\/p>\n<p>E, portanto, n\u00e3o buscam ajuda, n\u00e3o pedem interven\u00e7\u00e3o, n\u00e3o discutem limites, n\u00e3o se responsabilizam.<\/p>\n<p>Pol\u00edticas p\u00fablicas deixam de enfrentar o problema na escala e na forma adequadas<\/p>\n<p>Se a viol\u00eancia \u00e9 obra de indiv\u00edduos excepcionais, n\u00e3o cabe pensar na preven\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, educa\u00e7\u00e3o afetiva, atendimento qualificado ou redes intersetoriais.<\/p>\n<p>O crime passa a ser interpretado de forma determinista<\/p>\n<p>Resta apenas punir. E punir mais. E punir mais r\u00e1pido.<br \/>\nSem impacto preventivo real.<\/p>\n<p>A v\u00edtima perde protagonismo<\/p>\n<p>Sua experi\u00eancia torna-se irrelevante diante do ritual penal, e o Estado responde apenas com o aparato punitivo \u2014 n\u00e3o com prote\u00e7\u00e3o, repara\u00e7\u00e3o, acolhimento e reconstru\u00e7\u00e3o de trajet\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong>Para enfrentar a viol\u00eancia, precisamos abandonar o conforto moral da fantasia<\/strong><\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es das \u00faltimas semanas mostraram que o pa\u00eds exige respostas. Mas enquanto continuarmos acreditando que o agressor \u00e9 necessariamente um monstro \u2014 e n\u00e3o um sujeito social moldado por pr\u00e1ticas, institui\u00e7\u00f5es, masculinidades e desigualdades \u2014, permaneceremos discutindo exce\u00e7\u00f5es enquanto ignoramos a regra.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 extraordin\u00e1ria nem obra de seres desviantes: \u00e9 estrutural, cotidiana e distribu\u00edda entre homens comuns.<\/p>\n<p>Se queremos honrar o grito das ruas e a mem\u00f3ria das mulheres que morreram, a resposta n\u00e3o pode ser uma catarse moral nem a reafirma\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio midi\u00e1tico do predador isolado. Ela exige nomear a hidra por aquilo que \u00e9: um sistema inteiro de viol\u00eancias \u2014 de muitas naturezas, em muitos n\u00edveis \u2014 que se retroalimentam e se reproduzem pela normalidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o se enfrenta estruturas ca\u00e7ando monstros. Enfrenta-se encarando o espelho.<\/p>\n<p>[1] BORHART, Hannah M.; PLUMM, Karyn M. <strong>The effects of sex offender stereotypes on potential juror beliefs about conviction, victim blame and perceptions of offender mental stability<\/strong>. Applied Psychology in Criminal Justice, v. 11, n. 3, p. 1-20, 2015. Dispon\u00edvel em: https:\/\/dev.cjcenter.org\/_files\/apcj\/APCJ%20FALL%202015-Borhart%20with%20pgs-good.pdf_1448922634.pdf.<\/p>\n<p>[2] HINE, Benjamin; NOKU, L.; BATES, Elizabeth A.; JAYES, K. <strong>But, Who Is the Victim Here? Exploring Judgments Toward Hypothetical Bidirectional Domestic Violence Scenarios<\/strong>. Journal of Interpersonal Violence, v. 37, n. 7-8, p. NP5495-NP5516, abr. 2022. DOI: 10.1177\/0886260520917508. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/32394785\/\">https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/32394785\/<\/a>&gt;.<\/p>\n<p>[3] F\u00d3RUM BRASILEIRO DE SEGURAN\u00c7A P\u00daBLICA. <strong>Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica 2024<\/strong>. F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, 2024. Infogr\u00e1fico. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/anuario-2024-infografico.pdf\">https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/anuario-2024-infografico.pdf<\/a>.<\/p>\n<p>[4] LECUMBERRI, Paz Franc\u00e9s. <strong>Feminisms in the challenge of alternatives to punitivism: The necessary synergies in a path to be explored<\/strong>. O\u00f1ati Socio-Legal Series, v. 12, n. 6, p. 1759-1795, 2022. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/dialnet.unirioja.es\/servlet\/articulo?codigo=8684340\">https:\/\/dialnet.unirioja.es\/servlet\/articulo?codigo=8684340<\/a>&gt;. Acesso em: 18 jan. 2025.<\/p>\n<p>[5] WOMEN\u2019S AID. <strong>Myths about domestic abuse<\/strong>. 2023. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.womensaid.org.uk\/information-support\/what-is-domestic-abuse\/myths\/\">https:\/\/www.womensaid.org.uk\/information-support\/what-is-domestic-abuse\/myths\/<\/a>&gt;.<\/p>\n<p>[6] Ver mais em: BBC NEWS. <strong>Here\u2019s what you need to know about the Pelicot trial<\/strong>. 19 dec. 2022. Dispon\u00edvel em:&lt;<a href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/news\/articles\/c390d8nd4n4o\">https:\/\/www.bbc.co.uk\/news\/articles\/c390d8nd4n4o<\/a>; e BBC NEWS. <strong>Who are the men convicted in the Gis\u00e8le Pelicot rape trial? <\/strong>19 dec. 2022. Dispon\u00edvel em:&lt;<a href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/news\/articles\/c785nm5g5y1o\">https:\/\/www.bbc.co.uk\/news\/articles\/c785nm5g5y1o<\/a>.&gt;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A como\u00e7\u00e3o, o inimigo conveniente e o debate que ainda n\u00e3o fizemos Nas \u00faltimas semanas, mobiliza\u00e7\u00f5es em diversas capitais brasileiras reacenderam o debate sobre feminic\u00eddios e viol\u00eancias de g\u00eanero. Velas, cartazes e marchas expressaram indigna\u00e7\u00e3o diante de mortes que \u2014 longe de serem exce\u00e7\u00f5es \u2014 seguem em curva ascendente h\u00e1 anos. 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