{"id":19148,"date":"2025-12-11T13:58:31","date_gmt":"2025-12-11T16:58:31","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/11\/os-brasileiros-estao-mais-interessados-em-politica-externa\/"},"modified":"2025-12-11T13:58:31","modified_gmt":"2025-12-11T16:58:31","slug":"os-brasileiros-estao-mais-interessados-em-politica-externa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/11\/os-brasileiros-estao-mais-interessados-em-politica-externa\/","title":{"rendered":"Os brasileiros est\u00e3o mais interessados em pol\u00edtica externa?"},"content":{"rendered":"<p>O <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/tarifa%C3%A7o\">tarifa\u00e7o <\/a>anunciado por <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/Donald%20Trump\">Donald Trump<\/a> mobilizou o Brasil. O temor de san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas levou muitos brasileiros a acompanhar de perto as negocia\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos. Mas o que explica tamanha aten\u00e7\u00e3o a um tema t\u00e3o t\u00e9cnico, pol\u00edtico e, em grande medida, distante do cotidiano do cidad\u00e3o comum?<\/p>\n<p>Em pesquisa recente que desenvolvi com a professora Nara Pav\u00e3o (UFPE), a resposta \u00e9 clara: a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tem feito o eleitor expressar mais (e com mais intensidade) suas opini\u00f5es sobre pol\u00edtica externa.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica externa, tradicionalmente tratada como um tema distante do p\u00fablico, sempre esteve sujeita \u00e0s disputas partid\u00e1rias. At\u00e9 2014, PT (Partido dos Trabalhadores) e PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) defendiam projetos internacionais opostos (Mesquita, 2012) e sinalizavam essas diferen\u00e7as a seus eleitores mais atentos e informados.<\/p>\n<p>A partir de 2018, por\u00e9m, com a mudan\u00e7a na natureza da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds, que passou a ser afetiva (Nunes e Traumann, 2023 \u2013 os autores <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/para-alem-do-estado-e-do-direito\/como-conviver-num-mundo-onde-tudo-e-politica\">discutiram<\/a> o livro nesta coluna), essas mensagens passaram a ser percebidas por um p\u00fablico mais amplo.<\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o afetiva significa que os indiv\u00edduos tendem a gostar cada vez mais do grupo pol\u00edtico do qual pertencem e a desgostar mais do grupo oposto (Iyengar; Lelkes <em>et al.<\/em>, 2019). Petistas\/lulistas tendem a gostar mais do seu grupo e a rejeitar mais os bolsonaristas, e vice-versa. A identifica\u00e7\u00e3o crescente com grupos partid\u00e1rios fez com que mais cidad\u00e3os utilizassem os sinais desses grupos para formar suas prefer\u00eancias internas quanto\u00a0 \u00e0s posi\u00e7\u00f5es do Brasil no cen\u00e1rio internacional. Assim, a pol\u00edtica externa deixou de ser exclusividade de especialistas e ganhou espa\u00e7o no debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>A ideia central \u00e9 que, ao ativar identidades de pertencimento e rejei\u00e7\u00e3o aos grupos,\u00a0 a polariza\u00e7\u00e3o afetiva estimula o engajamento pol\u00edtico e orienta a forma como as pessoas interpretam a atua\u00e7\u00e3o do Brasil internacionalmente. Principalmente quando j\u00e1 est\u00e3o emocionalmente alinhados a elas, os mais polarizados tendem a internalizar essas mensagens com maior intensidade. Assim, a polariza\u00e7\u00e3o entre grupos pol\u00edticos leva os indiv\u00edduos a expressarem mais opini\u00f5es sobre pol\u00edtica externa e a adotarem posi\u00e7\u00f5es mais firmes e menos amb\u00edguas nesse campo.<\/p>\n<p><strong>Eleitores mais polarizados opinam mais \u2014 e com mais intensidade<\/strong><\/p>\n<p>Para testar nossas hip\u00f3teses, utilizamos duas estrat\u00e9gias emp\u00edricas quantitativas, que combinam an\u00e1lises observacionais de bancos de dados secund\u00e1rios de pesquisas de opini\u00e3o e um experimento original pr\u00e9-registrado implementado com 2 mil respondentes brasileiros.<\/p>\n<p>Criamos dois \u00edndices utilizando dados de question\u00e1rio da Pew Research Center. O \u00edndice de Express\u00e3o de Opini\u00e3o que equivale \u00e0 soma das respostas v\u00e1lidas do indiv\u00edduo no question\u00e1rio, dividida pelo n\u00famero de perguntas. E o \u00edndice Intensidade de Opini\u00e3o, que segue a mesma l\u00f3gica, mas para respostas intensas.<\/p>\n<p>Para identificar o n\u00edvel de polariza\u00e7\u00e3o afetiva dos brasileiros, utilizamos suas respostas quanto \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o que fazem sobre Lula e Bolsonaro em uma escala de 1 a 4, que varia de \u201cmuito favor\u00e1vel\u201d a \u201cmuito desfavor\u00e1vel\u201d. Com essas duas notas, calculamos a chamada diferen\u00e7a de afeto: quanto mais algu\u00e9m gosta de um l\u00edder e, ao mesmo tempo, rejeita o outro, maior \u00e9 essa dist\u00e2ncia e, portanto, mais polarizado afetivamente \u00e9 o indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Testamos a associa\u00e7\u00e3o entre os \u00cdndices de Express\u00e3o e Intensidade e o n\u00edvel de polariza\u00e7\u00e3o afetiva dos indiv\u00edduos, utilizando dois modelos de regress\u00e3o linear (OLS) com algumas vari\u00e1veis de controle.<\/p>\n<p><strong>Gr\u00e1fico 1: Resultado modelo OLS<\/strong><\/p>\n\n<p class=\"jota-article__reference\">Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria a partir de dados da Pew Research Center (2023)<\/p>\n<p>Os resultados mostram que, quanto maior a polariza\u00e7\u00e3o afetiva, ou seja, a dist\u00e2ncia entre o quanto o eleitor gosta de um l\u00edder e rejeita o outro, mais fortes e frequentes s\u00e3o suas opini\u00f5es sobre pol\u00edtica externa. A polariza\u00e7\u00e3o, portanto, tamb\u00e9m impulsiona o debate sobre temas internacionais.<\/p>\n<p>O estudo aponta ainda que homens e pessoas com maior escolaridade falam mais sobre pol\u00edtica externa, enquanto os mais velhos e mais escolarizados tendem a emitir opini\u00f5es mais intensas. Ao mesmo tempo, contrariando as expectativas dos estudos internacionais, os n\u00edveis de patriotismo, nacionalismo e partidarismo n\u00e3o t\u00eam efeito relevante sobre essas atitudes.<\/p>\n<p><strong>Evid\u00eancias experimentais<\/strong><\/p>\n<p>Mas \u00e9 poss\u00edvel que a polariza\u00e7\u00e3o seja a causa da express\u00e3o (e da intensidade) das opini\u00f5es das pessoas?<\/p>\n<p>Para responder a essa pergunta, conduzimos um experimento randomizado pr\u00e9-registrado, aprovado por Comit\u00ea de \u00c9tica, com uma amostra nacional representativa, recrutada pela Netquest. Ap\u00f3s consentirem, os participantes responderam a um question\u00e1rio online e foram distribu\u00eddos aleatoriamente em dois grupos de tratamento.<\/p>\n<p>Cada grupo participou de um \u201cjogo de confian\u00e7a\u201d que gerava uma experi\u00eancia positiva ou negativa com um eleitor do partido rival, uma t\u00e9cnica usada para ativar a polariza\u00e7\u00e3o afetiva, inspirada em estudos consolidados da Ci\u00eancia Pol\u00edtica e da Economia.<\/p>\n<p>O jogo pedia aos participantes que transferissem recursos fict\u00edcios para outro jogador com base em poucas informa\u00e7\u00f5es: g\u00eanero, idade, classe social e identidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>No grupo da experi\u00eancia positiva, os participantes terminaram o jogo com saldo positivo; no grupo da experi\u00eancia negativa, o saldo final foi zerado. Ao final, todos foram informados de que o resultado obtido se devia exclusivamente \u00e0 identidade pol\u00edtica do outro jogador. Quem passou pela experi\u00eancia negativa, portanto, teve sua polariza\u00e7\u00e3o ativada.<\/p>\n<p>Depois disso, os participantes responderam \u00e0s perguntas finais, que mediam suas atitudes em pol\u00edtica externa em diversos temas relacionados.<\/p>\n<p>O experimento mostrou que o tratamento ativou a polariza\u00e7\u00e3o afetiva ao reduzir o afeto pelo grupo rival, especialmente entre aqueles com a identifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais forte: os lulistas\/petistas e os bolsonaristas. Esse efeito, por\u00e9m, n\u00e3o mudou de imediato o comportamento dos participantes, mas ampliou o distanciamento afetivo em rela\u00e7\u00e3o ao grupo oposto, aumentando, ainda que de forma modesta, a disposi\u00e7\u00e3o das pessoas de opinar e de defender posi\u00e7\u00f5es mais intensas sobre pol\u00edtica externa.<\/p>\n<p>Isso mostra que a polariza\u00e7\u00e3o afetiva funciona como um mecanismo discreto, por\u00e9m decisivo, na forma\u00e7\u00e3o das opini\u00f5es pol\u00edticas das pessoas.<\/p>\n<p><strong>Quais temas de pol\u00edtica externa a polariza\u00e7\u00e3o afetiva impacta mais?<\/strong><\/p>\n<p>O tarifa\u00e7o de Donald Trump acendeu um alerta no Brasil, fazendo os brasileiros ficarem mais atentos ao que acontece no plano internacional, e tamb\u00e9m serviu de ponto de partida para investigar um dilema central da pol\u00edtica internacional: afinal, a polariza\u00e7\u00e3o enfraquece ou refor\u00e7a a uni\u00e3o nacional diante de amea\u00e7as externas?<\/p>\n<p>Os estudos anteriores indicam que, na pol\u00edtica dom\u00e9stica, a polariza\u00e7\u00e3o tende a dificultar consensos. J\u00e1 na pol\u00edtica externa, podem gerar dois movimentos distintos: de um lado, a tend\u00eancia \u00e0 uni\u00e3o nacional diante de amea\u00e7as externas; de outro, a ideia de que disputas internas deveriam permanecer restritas ao \u00e2mbito dom\u00e9stico, sem interferir na atua\u00e7\u00e3o internacional do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nosso experimento buscou tamb\u00e9m testar se indiv\u00edduos mais polarizados estariam menos dispostos a apoiar a uni\u00e3o nacional frente a uma amea\u00e7a internacional, como a imposta pelo tarifa\u00e7o de Trump.<\/p>\n<p>Quando destrinchamos os \u00edndices por temas de pol\u00edtica externa, o \u00fanico efeito do experimento apareceu na afirma\u00e7\u00e3o de que, \u201c<em>em tempos dif\u00edceis, \u00e9 importante apoiar o governo, seja de esquerda ou direita, para enfrentar amea\u00e7as estrangeiras<\/em>\u201d, como podemos observar no gr\u00e1fico.<\/p>\n<p><strong>Gr\u00e1fico 2: Efeitos do tratamento sobre atitudes de pol\u00edtica externa<\/strong><\/p>\n\n<p class=\"jota-article__reference\">Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria a partir de dados originais<\/p>\n<p>Ou seja, o indiv\u00edduo do tratamento negativo, que teve a polariza\u00e7\u00e3o afetiva ativada, mostrou-se mais inclinado a apoiar a ideia de uni\u00e3o nacional diante de amea\u00e7as externas do que os participantes do tratamento positivo.<\/p>\n<p>Isso sugere que a experi\u00eancia negativa com o grupo rival n\u00e3o altera de forma significativa as opini\u00f5es em pol\u00edtica externa, mas aumenta a disposi\u00e7\u00e3o a apoiar o governo em cen\u00e1rios de amea\u00e7a externa.<\/p>\n<p>Esses achados mostram que a polariza\u00e7\u00e3o afetiva n\u00e3o funciona da mesma forma para todos os casos: seu impacto varia conforme o tema pol\u00edtico em jogo.<\/p>\n<p><strong>O que isso nos diz sobre a polariza\u00e7\u00e3o no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Depois do tratamento, os participantes mostraram menor capacidade de identificar corretamente as posi\u00e7\u00f5es de Lula e de Bolsonaro em temas de pol\u00edtica externa. O efeito foi especialmente forte entre bolsonaristas, que passaram a errar com mais frequ\u00eancia a posi\u00e7\u00e3o de Lula sobre o Brics.<\/p>\n<p>O achado sugere que, quando a polariza\u00e7\u00e3o afetiva \u00e9 ativada, a aten\u00e7\u00e3o aos sinais enviados pelas lideran\u00e7as pol\u00edticas diminui, contrariando as evid\u00eancias dos estudos anteriores.<\/p>\n<p>Os resultados mostram que, ao contr\u00e1rio do esperado, a ativa\u00e7\u00e3o da polariza\u00e7\u00e3o afetiva reduziu a disposi\u00e7\u00e3o dos participantes em opinar sobre o tarifa\u00e7o anunciado pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/cadastro-em-newsletter-curadoria-jota-pro-tributos\">Receba de gra\u00e7a todas as sextas-feiras um resumo da semana tribut\u00e1ria no seu email<\/a><\/p>\n<p>Quem passou pelo tratamento negativo teve menor probabilidade de se posicionar tanto sobre as tarifas quanto sobre seus efeitos econ\u00f4micos. Em vez de ampliar o engajamento, a polariza\u00e7\u00e3o parece ter gerado cautela: alguns evitaram expressar posi\u00e7\u00f5es, especialmente em um tema delicado e politicamente amb\u00edguo, no qual tanto Lula quanto Bolsonaro s\u00e3o vistos como potenciais respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>O efeito n\u00e3o se estende a toda a agenda de pol\u00edtica externa, mas \u00e9 marcante no caso do tarifa\u00e7o, indicando que a polariza\u00e7\u00e3o pode produzir n\u00e3o apenas mais voz, como se costuma supor, mas tamb\u00e9m sil\u00eancio estrat\u00e9gico quando o assunto envolve riscos e incertezas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>IYENGAR, Shanto; LELKES, Yphtach; LEVENDUSKY, Matthew; MALHOTRA, Neil; WESTWOOD, Sean J. The origins and consequences of affective polarization in the United States. Annual review of political science, Annual Reviews, v. 22, p. 129\u2013146, 2019.<\/p>\n<p>MESQUITA, Lucas Ribeiro. Hip\u00f3teses para a mudan\u00e7a comportamental dos partidos pol\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o a PEB. Carta Internacional, v. 7, n. 2, p. 117\u2013126, 2012.<\/p>\n<p>NUNES, Felipe; TRAUMANN, Thomas. Biografia do Abismo: como a polariza\u00e7\u00e3o divide fam\u00edlias, desafia empresas e compromete o futuro do Brasil. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2023.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tarifa\u00e7o anunciado por Donald Trump mobilizou o Brasil. O temor de san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas levou muitos brasileiros a acompanhar de perto as negocia\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos. Mas o que explica tamanha aten\u00e7\u00e3o a um tema t\u00e3o t\u00e9cnico, pol\u00edtico e, em grande medida, distante do cotidiano do cidad\u00e3o comum? 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