{"id":19108,"date":"2025-12-10T17:05:41","date_gmt":"2025-12-10T20:05:41","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/10\/o-supremo-que-se-afasta-de-freios-e-contrapesos\/"},"modified":"2025-12-10T17:05:41","modified_gmt":"2025-12-10T20:05:41","slug":"o-supremo-que-se-afasta-de-freios-e-contrapesos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/10\/o-supremo-que-se-afasta-de-freios-e-contrapesos\/","title":{"rendered":"O Supremo que se afasta de freios e contrapesos"},"content":{"rendered":"<p>A decis\u00e3o monocr\u00e1tica de Gilmar Mendes que suspendeu trechos da Lei do Impeachment \u00e9 mais um sinal de que estamos avan\u00e7ando para um modelo de poder cada vez menos control\u00e1vel e com dificuldades de aceitar limites. O STF, que deveria ser o guardi\u00e3o do pacto constitucional, se converte no poder menos sujeito a contrapesos no Brasil.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse essa \u00faltima not\u00edcia, o que temos \u00e9 um conjunto de pr\u00e1ticas que se conformam a um padr\u00e3o. Estudos recentes, como o da <a href=\"https:\/\/fundacaofhc.org.br\/publicacao\/a-responsabilidade-pela-ultima-palavra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Funda\u00e7\u00e3o FHC<\/a>, chamam aten\u00e7\u00e3o para o uso exagerado de decis\u00f5es monocr\u00e1ticas e de julgamentos virtuais que, embora previstos, hoje s\u00e3o empregados de forma que reduz o escrut\u00ednio p\u00fablico e concentra poder.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Com isso, vemos perdas n\u00e3o apenas na din\u00e2mica interna do tribunal, mas tamb\u00e9m no enfraquecimento do debate p\u00fablico mais amplo, j\u00e1 que limita a participa\u00e7\u00e3o de especialistas e entidades que poderiam contribuir com perspectivas t\u00e9cnicas e sociais relevantes. Quando as decis\u00f5es ocorrem de forma acelerada e com pouca visibilidade, perde-se a oportunidade de construir interpreta\u00e7\u00f5es mais consistentes e de envolver a sociedade em temas que moldam diretamente o funcionamento do Estado.<\/p>\n<p>O problema central \u00e9 que instrumentos concebidos para situa\u00e7\u00f5es excepcionais passaram a ser utilizados como rotina. O julgamento virtual, que deveria agilizar o rito, acabou se tornando espa\u00e7o para decidir quest\u00f5es estruturais do Estado sem o debate p\u00fablico adequado. A decis\u00e3o monocr\u00e1tica, que deveria servir para casos urgentes, virou uma ferramenta permanente para decis\u00f5es de enorme impacto pol\u00edtico e institucional. Quando essas pr\u00e1ticas se normalizam, diminui a transpar\u00eancia e cresce a percep\u00e7\u00e3o de que o tribunal opera de maneira distante dos mecanismos tradicionais de responsabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O argumento de que \u00e9 preciso proteger o tribunal de poss\u00edveis interfer\u00eancias pol\u00edticas carrega certa ironia. Foi justamente o Supremo que, nos \u00faltimos anos, mergulhou com frequ\u00eancia no centro da disputa pol\u00edtica. N\u00e3o se trata de discutir o m\u00e9rito de cada caso, mas de reconhecer que o tribunal ultrapassou repetidamente a linha que separa o \u00e1rbitro do participante. Ao atuar com intensidade na arena pol\u00edtica, contribuiu para a escalada de tens\u00f5es. Agora, ao buscar blindagens adicionais, tenta se proteger de um ambiente que ele pr\u00f3prio ajudou a moldar.<\/p>\n<p>Democracias s\u00f3lidas n\u00e3o dependem apenas de textos constitucionais. Elas se sustentam na disposi\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de cada poder de reconhecer seus pr\u00f3prios limites e de atuar dentro de par\u00e2metros claros de controle e transpar\u00eancia. Quando uma institui\u00e7\u00e3o se acostuma a operar sem contesta\u00e7\u00e3o ou sem revis\u00e3o externa, mesmo que amparada formalmente pela lei, o resultado \u00e9 um desgaste gradual da legitimidade e uma sensa\u00e7\u00e3o de afastamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida democr\u00e1tica cotidiana. A ideia de equil\u00edbrio entre poderes n\u00e3o \u00e9 abstrata. Ela se realiza diariamente na forma como cada um deles aceita ser confrontado, revisado e questionado.<\/p>\n<p>O ponto fundamental \u00e9 que blindagem institucional \u00e9 inaceit\u00e1vel em qualquer poder. Criticamos o Congresso quando age para se proteger indevidamente. A cr\u00edtica deve valer ainda mais quando se trata do \u00f3rg\u00e3o de c\u00fapula do Judici\u00e1rio. Um sistema democr\u00e1tico exige que ningu\u00e9m esteja imune ao controle republicano.<\/p>\n<p>Quando um tribunal constitucional se coloca acima de qualquer mecanismo de responsabiliza\u00e7\u00e3o, ele se transforma em um superpoder. Isso corr\u00f3i a l\u00f3gica dos freios e contrapesos e alimenta a no\u00e7\u00e3o de que vivemos um estado de exce\u00e7\u00e3o informal, no qual decis\u00f5es excepcionais se acumulam a ponto de se tornarem regra.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 democracia madura sem responsabilidade p\u00fablica. Uma proposta urgente \u00e9 fazer com que o C\u00f3digo de \u00c9tica da magistratura se aplique integralmente tamb\u00e9m aos ministros do Supremo. A sociedade espera do \u00e1pice do Judici\u00e1rio o mais alto padr\u00e3o de conduta e transpar\u00eancia. Qualquer afastamento disso alimenta a sensa\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio e de impossibilidade de responsabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o plena do C\u00f3digo de \u00c9tica teria tamb\u00e9m o papel de dar previsibilidade \u00e0s condutas esperadas de ministros que ocupam posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o central. Isso incluiria regras claras sobre manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, participa\u00e7\u00e3o em eventos pol\u00edticos, rela\u00e7\u00f5es institucionais e at\u00e9 limites para intera\u00e7\u00f5es que possam gerar conflito de interesse. Ao estabelecer par\u00e2metros expl\u00edcitos, reduz-se a margem para interpreta\u00e7\u00f5es oportunistas e fortalece-se a confian\u00e7a de que o exerc\u00edcio do cargo est\u00e1 submetido a padr\u00f5es elevados, condizentes com a import\u00e2ncia do tribunal.<\/p>\n<p>Proteger magistrados contra persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas \u00e9 necess\u00e1rio. Mas proteger ministros contra toda forma de fiscaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 outra coisa. Em vez de fortalecer a democracia, fragiliza-se a confian\u00e7a p\u00fablica. Cada vez que naturalizamos o excepcional, afastamos um pouco mais a Constitui\u00e7\u00e3o do povo e aproximamos a l\u00f3gica de um poder sem limites. O equil\u00edbrio entre os poderes n\u00e3o depende apenas do texto da lei. Depende da pr\u00e1tica e da disposi\u00e7\u00e3o real de cada um de aceitar limites. E \u00e9 essa disposi\u00e7\u00e3o que hoje parece faltar exatamente em quem deveria ser o seu maior guardi\u00e3o.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A decis\u00e3o monocr\u00e1tica de Gilmar Mendes que suspendeu trechos da Lei do Impeachment \u00e9 mais um sinal de que estamos avan\u00e7ando para um modelo de poder cada vez menos control\u00e1vel e com dificuldades de aceitar limites. 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