{"id":18960,"date":"2025-12-05T06:13:37","date_gmt":"2025-12-05T09:13:37","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/05\/reducao-da-jornada-de-trabalho-o-pais-esta-preparado-para-mais-uma-intervencao\/"},"modified":"2025-12-05T06:13:37","modified_gmt":"2025-12-05T09:13:37","slug":"reducao-da-jornada-de-trabalho-o-pais-esta-preparado-para-mais-uma-intervencao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/12\/05\/reducao-da-jornada-de-trabalho-o-pais-esta-preparado-para-mais-uma-intervencao\/","title":{"rendered":"Redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho: o pa\u00eds est\u00e1 preparado para  mais uma interven\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>O debate sobre a redu\u00e7\u00e3o da jornada semanal no Brasil vem ganhando espa\u00e7o na arena pol\u00edtica e na sociedade civil. Se por um lado o tema \u00e9 bastante sedutor, pois dialoga com a busca por qualidade de vida, podendo ser visto at\u00e9 mesmo como um sinal de moderniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, por outro, ele pode ser visto como mais um gatilho para o desequil\u00edbrio econ\u00f4mico e social do pa\u00eds. N\u00e3o s\u00f3 porque o pa\u00eds est\u00e1 longe de possuir condi\u00e7\u00f5es estruturantes necess\u00e1rias para incorporar t\u00e3o profunda altera\u00e7\u00e3o e de forma compuls\u00f3ria, como tamb\u00e9m os dados de produtividade, custos sociais do trabalho, estrutura das empresas e ambiente de neg\u00f3cios no Brasil demonstram, \u00e0 saciedade, que n\u00e3o ser\u00e1 esta mudan\u00e7a que o far\u00e1 crescer de forma mais acelerada ou gerar novos postos de trabalho.<\/p>\n<p>Com efeito, embora o limite constitucional seja de at\u00e9 44 horas semanais de trabalho, a m\u00e9dia praticada no pa\u00eds, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/IBGE\">IBGE<\/a>) para o 1\u00ba trimestre de 2025, j\u00e1 \u00e9 de 39 horas semanais, muito pr\u00f3xima da m\u00e9dia mundial que \u00e9 de 38,2 horas semanais, conforme dados da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/OIT\">OIT<\/a>). Esta pr\u00e1tica encontra respaldo na pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o Federal que em seu art. 7\u00ba, XIII, permite a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho atrav\u00e9s da negocia\u00e7\u00e3o coletiva. Muitos setores, inclusive, j\u00e1 adotam jornadas inferiores, negociadas e ajustadas \u00e0s suas especificidades. O instrumento coletivo \u2013 acordo ou conven\u00e7\u00e3o \u2013 j\u00e1 vem sendo utilizado em larga escala e com excelentes resultados, garantindo flexibilidade e adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s diferentes realidades produtivas do pa\u00eds, sem que haja comprometimento da competitividade e da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-conversao-jota-pro-trabalhista?utm_source=site&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=11-03-2025-site-lp-cta-pro-trabalhista-lead-site-audiencias-trabalhista&amp;utm_content=site-lp-cta-pro-trabalhista-lead-site-trabalhista&amp;utm_term=audiencias\">Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Trabalhista, solu\u00e7\u00e3o corporativa que antecipa as movimenta\u00e7\u00f5es trabalhistas no Judici\u00e1rio, Legislativo e Executivo<\/a><\/p>\n<p>Alterar a Constitui\u00e7\u00e3o Federal, neste momento, para reduzir o limite da jornada de trabalho de 44 horas para 40 ou 36 horas semanais, significa trazer ao debate um elemento de ruptura de um modelo que vem dando certo e que pode trazer consequ\u00eancias desastrosas e num momento em que at\u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/STF\">Supremo Tribunal Federal<\/a> tem reconhecido o valor da negocia\u00e7\u00e3o coletiva (<a href=\"https:\/\/portal.stf.jus.br\/jurisprudenciaRepercussao\/verAndamentoProcesso.asp?incidente=5415427&amp;numeroProcesso=1121633&amp;classeProcesso=ARE&amp;numeroTema=1046\">Tema 1046<\/a>). Substituir um modelo negociado e adapt\u00e1vel por uma regra constitucional r\u00edgida e uniforme, \u00e9 desconsiderar a heterogeneidade que existe entre os setores econ\u00f4micos e produtivos, limites geogr\u00e1ficos e, o mais importante, esquecer que no Brasil a grande maioria das empresas ainda est\u00e1 enquadrada como pequena e m\u00e9dia. Apenas no Estado de S\u00e3o Paulo, a t\u00edtulo exemplificativo, cerca de 80% das ind\u00fastrias pertencem a essa categoria. Este \u00e9 o ponto fundamental para que as compara\u00e7\u00f5es com outros pa\u00edses\u2013 especialmente com os que comp\u00f5em o grupo dos mais desenvolvidos \u2013 n\u00e3o podem ser levadas em considera\u00e7\u00e3o, de forma t\u00e3o absoluta. Se a ideia \u00e9 a compara\u00e7\u00e3o, por quest\u00e3o de lealdade, o Brasil deve ser comparado aos pa\u00edses que \u00e0 ele se assemelha, economicamente ou que est\u00e3o no mesmo grupo.<\/p>\n<p>Pa\u00edses que operam com jornadas de trabalho reduzidas, como \u00e9 o caso de Luxemburgo, Noruega e B\u00e9lgica, s\u00e3o de tr\u00eas a seis vezes mais produtivos do que o Brasil, segundo dados da OIT. Ali\u00e1s, os dados da OIT revelam que nosso pa\u00eds ocupa a 100\u00aa posi\u00e7\u00e3o em produtividade por trabalhador e a 91\u00aa em produtividade por hora trabalhada, uma dist\u00e2ncia expressiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s economias que conseguiram implantar jornadas inferiores sem comprometer sua competitividade. A Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/OCDE\">OCDE<\/a>), por sua vez, ao analisar o desempenho brasileiro, aponta crescimento m\u00e9dio da produtividade inferior a 0,5% ao ano nas \u00faltimas d\u00e9cadas, em contraste com o dinamismo tecnol\u00f3gico e educacional visto no conjunto das economias avan\u00e7adas. Por \u00f3bvio, diante de dados t\u00e3o d\u00edspares, fica dif\u00edcil comparar o Brasil com tais pa\u00edses.<\/p>\n<p>A realidade internacional tamb\u00e9m desmonta a tese de que haveria uma tend\u00eancia global de ado\u00e7\u00e3o da semana de quatro dias de trabalho (4\u00d73) por imposi\u00e7\u00e3o legal. N\u00e3o existe, at\u00e9 o momento, qualquer pa\u00eds que tenha reduzido, por lei, a jornada semanal para 36 horas com preserva\u00e7\u00e3o integral dos sal\u00e1rios. As experi\u00eancias citadas como exemplo, em especial a B\u00e9lgica, dizem respeito \u00e0 possibilidade de se distribuir as mesmas horas de trabalho em quatro dias, mediante acordo entre os interessados. Por\u00e9m, o n\u00famero de trabalhadores que aderiu a esse formato, inclusive, permanece inferior a 1% da for\u00e7a de trabalho belga.<\/p>\n<p>Se a compara\u00e7\u00e3o internacional mostra que jornadas menores s\u00e3o vi\u00e1veis apenas em pa\u00edses altamente produtivos, os estudos nacionais evidenciam que no Brasil, a redu\u00e7\u00e3o legal do limite semanal resultaria em aumento expressivo dos custos do trabalho. A Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/CNI\">CNI<\/a>) estima que a migra\u00e7\u00e3o para 36 horas semanais elevaria os custos diretos da ind\u00fastria em cerca de R$ 178 bilh\u00f5es anuais, resultado da necessidade de novas contrata\u00e7\u00f5es, aumento do sal\u00e1rio-hora e reposi\u00e7\u00e3o parcial das horas n\u00e3o trabalhadas. Pesquisas da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV\/IBRE) projetam que apenas considerando o fator trabalho, a mudan\u00e7a poderia produzir retra\u00e7\u00e3o de at\u00e9 11% do PIB, pressionando pre\u00e7os, reduzindo investimentos e dificultando a capacidade de expans\u00e3o da economia.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/cadastro-em-newsletter-saideira-jota-pro-trabalhista\">Receba gratuitamente no seu email as principais not\u00edcias sobre o Direito do Trabalho<\/a><\/p>\n<p>Esses impactos se tornam ainda mais severos quando se observa o universo das micro e pequenas empresas, respons\u00e1veis por mais de 50% dos empregos formais no Brasil, segundo dados do Sebrae. Uma imposi\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, sem redu\u00e7\u00e3o salarial, criaria um cen\u00e1rio em que essas empresas teriam significativa perda de horas de produ\u00e7\u00e3o, sem que conseguissem rep\u00f4-las integralmente. E, em muitos casos, contratar um trabalhador adicional n\u00e3o seria vi\u00e1vel, seja por custo, seja por restri\u00e7\u00f5es operacionais. Esta conduta traria, como resultado, certamente, a perda de competitividade, o aumento de pre\u00e7os e da informalidade e, no limite, o fechamento de empresas ou o encerramento de muitas atividades.<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto, uma diferen\u00e7a fundamental entre a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho por via negociada (<em>soft law<\/em>) e a redu\u00e7\u00e3o imposta por lei ou altera\u00e7\u00e3o constitucional (<em>hard law<\/em>). No primeiro caso, empresas e trabalhadores avaliam suas realidades, seus ganhos de produtividade, suas margens financeiras e seus ciclos econ\u00f4micos para firmar acordos coletivos ou conven\u00e7\u00f5es coletivas de trabalho mais equilibradas. No segundo caso, uma norma uniforme e de abrang\u00eancia gen\u00e9rica, ignora a diversidade estrutural da economia brasileira, impondo custos desproporcionais e mais altos, justamente aos segmentos mais vulner\u00e1veis e com menor capacidade adaptativa.<\/p>\n<p>Antes de discutir menos horas formais de trabalho, o pa\u00eds precisa discutir mais efici\u00eancia, mais inova\u00e7\u00e3o, mais educa\u00e7\u00e3o, mais produtividade e gerar mais competitividade. A experi\u00eancia internacional mostra que jornadas mais curtas s\u00e3o consequ\u00eancia de altos n\u00edveis de produtividade \u2014 e n\u00e3o seu ponto de partida. A situa\u00e7\u00e3o f\u00e1tica \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio: maior produtividade leva \u00e0 menor jornada de trabalho.<\/p>\n<p>Por essas raz\u00f5es, embora leg\u00edtimo em suas inten\u00e7\u00f5es, o movimento que busca reduzir a jornada de trabalho pela via da imposi\u00e7\u00e3o legal, ainda n\u00e3o entendeu que as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, fiscais e produtivas no Brasil atual n\u00e3o sustentam essa inten\u00e7\u00e3o. O Brasil ainda precisa amadurecer \u2013 e muito! \u2013 sua base produtiva, ampliar sua produtividade e competitividade antes de se comprometer com uma mudan\u00e7a estrutural t\u00e3o profunda. Qualquer outra ordem significaria inverter a l\u00f3gica de desenvolvimento: tentar colher resultados antes de construir os alicerces que os tornam poss\u00edveis.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O debate sobre a redu\u00e7\u00e3o da jornada semanal no Brasil vem ganhando espa\u00e7o na arena pol\u00edtica e na sociedade civil. 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