{"id":18768,"date":"2025-11-28T18:06:07","date_gmt":"2025-11-28T21:06:07","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/11\/28\/entre-o-verbo-e-o-vazio-nauro-machado-dez-anos-depois\/"},"modified":"2025-11-28T18:06:07","modified_gmt":"2025-11-28T21:06:07","slug":"entre-o-verbo-e-o-vazio-nauro-machado-dez-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/11\/28\/entre-o-verbo-e-o-vazio-nauro-machado-dez-anos-depois\/","title":{"rendered":"Entre o verbo e o vazio: Nauro Machado dez anos depois"},"content":{"rendered":"<p>Um homem caminha no centro hist\u00f3rico de S\u00e3o Lu\u00eds. Usa chap\u00e9u, ostenta uma barba cingida no rosto pesado. Anda vagaroso, como se tivesse todo o tempo do mundo. Esse homem \u00e9 Nauro Machado, o ano \u00e9 2006 e observando-o, do outro lado da cal\u00e7ada, na Rua dos Afogados, estou eu; tenho 15 anos de idade e testemunho o seu percurso quase todos os dias, nos mesmos hor\u00e1rios, mas n\u00e3o tenho coragem de interpelar sua presen\u00e7a austera.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma janela temporal imensa entre este dia comum que citei no par\u00e1grafo anterior e o dia de hoje, o 28 de novembro, dia que sacramenta uma efem\u00e9ride para muitos ludovicenses e em especial para mim.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Dez anos em que a m\u00e3o pesada da morte fez for\u00e7a sobre a cabe\u00e7a do poeta. Dez anos atr\u00e1s eu atravessava a Av. Beira-Mar quando li a not\u00edcia derradeira: Nauro Machado havia entregue a moeda ao barqueiro; cruzando a fronteira \u00faltima que aguarda cada um de n\u00f3s. N\u00e3o fui ao seu vel\u00f3rio e nem ao seu enterro; sofri calado e muito do que eu pensei sobre ele ficou guardado ao longo desta d\u00e9cada. Muito em fun\u00e7\u00e3o disso, escrevo hoje sobre o homem que eu conheci, seja pela palavra falada, seja pela escrita.<\/p>\n<p>Imprimi meus poemas iniciais em uma papelaria na Rua de Nazar\u00e9 e, numa quarta ou quinta-feira de outubro, segui at\u00e9 a Praia Grande para mostra-lo aquilo que havia escrito. Queria uma palavra, um conselho, buscava, sobretudo uma aprova\u00e7\u00e3o dele para continuar escrevendo. Eu desejava muito enxergar a S\u00e3o Lu\u00eds que ele enxergava. Eu n\u00e3o fazia ideia ainda de que carreira seguir, mas desejava muito escrever; respirava pesado, no corpo de adolescente, aflito com a possibilidade da morte. Ler os poemas de Nauro Machado infligiam em mim aquele medo infantil, mas eu n\u00e3o consegui desviar. Uma for\u00e7a maior convergia para que eu o confrontasse.<\/p>\n<p>Ele me recebeu; aspecto severo, olhar firme. Deixou meus papeis de lado e conversou comigo talvez por dez ou quinze minutos \u2013 contudo os incont\u00e1veis fragmentos daquilo que me foi dito permanecem intacto nessa mem\u00f3ria rebelde que carrego. Perguntou o que eu j\u00e1 tinha lido. Fez cara feia quando eu falei de Vinicius de Moraes, assentiu com a cabe\u00e7a quando falei de Fernando Pessoa. Ent\u00e3o explodiram s\u00edlabas que formaram uma horda de escritores que, segundo ele, deveria conhecer. Eu n\u00e3o tinha papel, ent\u00e3o me esfor\u00e7ava para lembrar cada um: T.S. Eliot, Edgard Allan Poe, Rainer Maria Rilke, Rimbaud, Bocage, Cam\u00f5es, os heter\u00f4nimos de Pessoa, e outros tantos sobrenomes que s\u00f3 me dei conta que haviam sido suas recomenda\u00e7\u00f5es anos depois. Ao final da conversa, guardou meus papeis e pediu que retornasse com trinta dias.<\/p>\n<p>Assim como outros escritores nordestinos e nortistas, o selo de literatura \u201cregional\u201d vem acompanhado do estigma de produzir arte fora do eixo sudestino do Brasil. Nauro Machado, apesar dos devidos reconhecimentos por seus contempor\u00e2neos, imortais liter\u00e1rios ou n\u00e3o, ainda \u00e9 desconhecido por muita gente \u2013 tanto o homem como a obra. Sua estrutura narrativa \u00e9 densa e carrega em cada verso a dramatiza\u00e7\u00e3o radical da exist\u00eancia, a partir de uma leitura particular da ang\u00fastia humana que, de t\u00e3o subjetiva, torna-se universal. Nas palavras de Ivan Junqueira, a po\u00e9tica naurina trata de uma esp\u00e9cie de carvalho heideggeriano: \u201caquele que nunca se repete, porque imperceptivelmente se move em sua aparente imobilidade. E isso faz com que o reconhe\u00e7amos desde o primeiro de seus poemas at\u00e9 o \u00faltimo\u201d. Ainda nesse aspecto, Gullar uma vez escreveu que \u201c\u00c9 dif\u00edcil qualificar esses poemas escritos, por assim dizer, no avesso da linguagem. N\u00e3o \u00e9 pela compreens\u00e3o l\u00f3gica que eles nos atingem, mas pelo sortil\u00e9gio de um falar desconcertante e \u00fanico.\u201d<\/p>\n<p>Qualquer um que tenha convivido com Nauro nas ruas do centro hist\u00f3rico por mais que cinco minutos pode vaticinar o que tantos antes de mim ou depois de mim escreveram ou escrever\u00e3o sobre o poeta. A pr\u00e1xis liter\u00e1ria do eu-l\u00edrico de Nauro Machado se materializa nas pedras de cantaria da cidade e \u00e9 indissoci\u00e1vel dela. As exalta\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Lu\u00eds, seja de Gon\u00e7alves Dias ou Bandeira Tribuzzi, tentam por atenuar as injusti\u00e7as e dissabores que a cidade carrega. Carregam eles, cada um \u00e0 sua maneira, uma cidade bela e acolhedora. Embora S\u00e3o Lu\u00eds tenha seus predicados e virtudes, o poeta n\u00e3o escondeu em momento algum que, dentre o rol de agruras vividas, existia ali a farpa inc\u00f4moda com a terra natal.<\/p>\n<p>Como escreveu em \u201cC\u00e2mara Mortu\u00e1ria\u201d:<\/p>\n<p><em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em><\/p>\n<p><em>Cidade de pedra<\/em><\/p>\n<p><em>Cidade de pernas<\/em><\/p>\n<p><em>Cidade de fezes<\/em><\/p>\n<p><em>Cidade de infernos<\/em><\/p>\n<p><em>E agora com o teu sexo<\/em><\/p>\n<p><em>Dentro da minha voz.<\/em><\/p>\n<p>Seu lugar era nos becos, com os vagabundos e injusti\u00e7ados, provando o mesmo fel maligno dos desvalidos e em diversas ocasi\u00f5es juntando-se a eles na mais ingl\u00f3ria sarjeta. O homem que experimentava o ch\u00e3o do lugar, do seu lugar, seja com a sola dos sapatos, seja com a pr\u00f3pria face. A bochecha do poeta contra a pedra da rua \u2013 imagem com a qual me deparei quando reassisti \u201cInfernos\u201d, document\u00e1rio de Frederico Machado.<\/p>\n<p>A simbiose de Nauro com os transeuntes, com amigos de velhas datas e com desconhecidos, rindo e digladiando-se, vociferando versos de Augusto dos Anjos e citando trechos de Roberto Rosselini aos quatro cantos da ilha. O poeta tinha a habilidade de poucos de encadear ideias e abrir par\u00eanteses imensos sem perder a linha de racioc\u00ednio, guardando uma sacada genial, tirada de mestre, para quem quer que fosse o seu interlocutor: uma meretriz, um conterr\u00e2neo com 40 anos de amizade, um jornalista ou mesmo para um adolescente que queria valida\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Voltei ao Odylo Costa filho depois de trinta dias e Nauro Machado me entregou os manuscritos completamente rabiscados: coment\u00e1rios feitos em caneta preta e algumas marca\u00e7\u00f5es a l\u00e1pis. Pontua\u00e7\u00f5es minuciosas sobre o que eu havia parcamente produzido. Era um projeto de escritor, uma for\u00e7a insignificante que se levantava, olhando para a poesia como quem olha para uma boia de salva-vidas na ba\u00eda de S\u00e3o Marcos. Eu o havia procurado porque ansiava por algum tipo de aprova\u00e7\u00e3o, mas o que recebi foi um conselho firme: de que eu precisava ler, de que sem leitura eu n\u00e3o iria longe. \u201cTem potencial, mas voc\u00ea n\u00e3o pode ser raso, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser poeta. As pessoas acham que \u00e9 simples, mas n\u00e3o \u00e9\u201d. Nauro pode n\u00e3o ter dito exatamente assim, mas foi assim que registrei. E ele acrescentou \u201cPor favor, n\u00e3o seja um Ferreira Gullar\u201d. Levei anos para alcan\u00e7ar tanto a amplitude como a profundidade daquele conselho.<\/p>\n<p>O texto l\u00edrico, do sujeito contra si mesmo, debatendo-se a partir da carca\u00e7a existencial, que fora cantado tantas outras vezes, por tantas outras bocas e tantas outras vozes, em Nauro Machado essa s\u00faplica \u00e9 maior. A exorta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica que brada a ilha enclausurada, tal qual a vida do poeta. O endere\u00e7o postal da poesia de Nauro o aprisionou em vida, mas a sua obra \u00e9 aquilo que move a assim chamada <em>humanidade<\/em>. Nenhum outro autor que li at\u00e9 hoje conseguiu sequer chegar perto daquilo que ele atingiu, isto porque, parafraseando o poeta, precisamos da emo\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m da forma. A emo\u00e7\u00e3o est\u00e1 ali, em Hemingway, Bukowski, Kerouac, Allen Ginsberg, Garcia Lorca, Sylvia Plath, mas a pujan\u00e7a da poesia naurina, ora on\u00edrica ora visceral, toca a Linha do Equador e no instante seguinte mergulha nas galerias subterr\u00e2neas da cidade.<\/p>\n<p><em>(FRAGMENTO)<\/em><\/p>\n<p><em>Se \u00e9 s\u00f3 ex\u00edlio quando o fora<\/em><\/p>\n<p><em>Faz-se dentro a pr\u00f3pria aus\u00eancia,<\/em><\/p>\n<p><em>Para quem consigo mora<\/em><\/p>\n<p><em>Estrangeiro em sua exist\u00eancia,<\/em><\/p>\n<p><em>Sou a p\u00e1tria do ex\u00edlio agora,<\/em><\/p>\n<p><em>Nela andando em minha ess\u00eancia;<\/em><\/p>\n<p><em>Se a comida como almo\u00e7o<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00f3 mata a fome vizinha,<\/em><\/p>\n<p><em>E o verbo, alimento insosso<\/em><\/p>\n<p><em>De uma fome em mim daninha,<\/em><\/p>\n<p><em>Faz-se refei\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 osso<\/em><\/p>\n<p><em>Para a boca que \u00e9 s\u00f3 minha;<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Se pelo fio da navalha<\/em><\/p>\n<p><em>Que pela minha alma entrou,<\/em><\/p>\n<p><em>Minha exist\u00eancia \u00e9 a palha<\/em><\/p>\n<p><em>Onde o fogo se alastrou,<\/em><\/p>\n<p><em>Para o fim que me trabalha<\/em><\/p>\n<p><em>No inferno que eu pr\u00f3prio sou.<\/em><\/p>\n<p>Esta exist\u00eancia dupla, espelhada, do homem e do poeta, faz com que um caminhe por sobre as pedras da cidade e o seu Doppelg\u00e4nger rasteje pelos t\u00faneis que abrigam o mist\u00e9rio da urbe. Assim, enxergamos n\u00e3o o homem, e muito menos o poeta, mas aquilo que queremos ver, aquele indiv\u00edduo que pagou com a pr\u00f3pria vida o pre\u00e7o de existir em nome da ang\u00fastia m\u00e1xima que um corpo consegue suportar. Nauro Machado cortou e foi cortado pela palavra, a sua em primeiro lugar, e depois das alheias, que o interpretaram como um lun\u00e1tico, que o reduziram a um bo\u00eamio, andarilho errante do centro de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o rasteira da arte acaba por exacerbar uma mentalidade provinciana que n\u00e3o alcan\u00e7a a grandiosidade que Nauro Machado significou para a literatura brasileira no s\u00e9culo 20 e tamb\u00e9m no s\u00e9culo 21. Restringir o homem aos seus h\u00e1bitos e ignorar a sua mensagem; assim fui apresentado \u00e0 figura do escritor, e assim o interpretava at\u00e9 o dia que pude conversar com a carne por tr\u00e1s dos versos.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio era a sua trincheira, do lado daqui e do lado de l\u00e1, dois seres coexistindo, na frente e no verso do papel, inimigo e benfeitor, protagonista e vil\u00e3o da mesma narrativa, como se observa em \u201cO cirurgi\u00e3o de L\u00e1zaro\u201d (2010). Entre v\u00e1rios sonetos, recorto aqui dois deles:<\/p>\n<p><em>Na rachadura da carne com vida, <\/em><\/p>\n<p><em>quisera n\u00e3o haver nascido ou ser<\/em><\/p>\n<p><em>de algu\u00e9m a soma em outro repetida,<\/em><\/p>\n<p><em>at\u00e9 fazer-se em p\u00f3 e desaparecer.<\/em><\/p>\n<p><em>Ventre nenhum me abrisse da sa\u00edda<\/em><\/p>\n<p><em>que se entreabriu, para ap\u00f3s me ter<\/em><\/p>\n<p><em>como uma ideia em gozo acontecida<\/em><\/p>\n<p><em>e a estar num tr\u00e2nsito entre o Nada e o Ser!<\/em><\/p>\n<p><em>\u00d3 verbo-porta sem qualquer chaveiro<\/em><\/p>\n<p><em>para me abrir o c\u00e1rcere sombrio<\/em><\/p>\n<p><em>de um pesadelo feito o mundo inteiro.<\/em><\/p>\n<p><em>Viver talvez n\u00e3o seja mais que o nada,<\/em><\/p>\n<p><em>ap\u00f3s sabermos, como dois num cio,<\/em><\/p>\n<p><em>que o ser nasceu de uma ideia malograda<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>(\u2026)<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Minha exist\u00eancia \u00e9 igual a um pesadelo <\/em><\/p>\n<p><em>girando ainda em torno do seu centro, <\/em><\/p>\n<p><em>querendo entrar e sem poder faz\u00ea-lo <\/em><\/p>\n<p><em>naquilo a ser de quem comigo \u00e9 o dentro. <\/em><\/p>\n<p><em>Eu s\u00f3 me fa\u00e7o, enquanto vivo, pelo <\/em><\/p>\n<p><em>ser no qual, meu contudo, jamais entro, <\/em><\/p>\n<p><em>para desenred\u00e1-lo qual novelo <\/em><\/p>\n<p><em>abrindo fios de aranha em ventre adentro. <\/em><\/p>\n<p><em>Como fazer-me pois, se s\u00f3 comigo, <\/em><\/p>\n<p><em>a guerrear comigo, meu inimigo, <\/em><\/p>\n<p><em>querendo sempre o dentro, eu nunca estou? <\/em><\/p>\n<p><em>Se olhando o duplo a que sempre me oponho <\/em><\/p>\n<p><em>no pesadelo em mim de um outro sonho, <\/em><\/p>\n<p><em>meu pr\u00f3prio ser n\u00e3o sabe quem eu sou?<\/em><\/p>\n<p>A po\u00e9tica de Nauro Machado, ao passo que d\u00e1 continuidade a uma tradi\u00e7\u00e3o oriunda dos grandes escritores de l\u00edngua portuguesa, rompe com essa mesma linhagem ao colocar \u00eanfase na forma, sem deixar de lado a profundidade l\u00edrica da quest\u00e3o fundamental, alicerce da inquieta\u00e7\u00e3o existencialista: o ser no mundo que, diante da velocidade do entorno, radicaliza a pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nauro era um intelectual e seus versos emergem a partir da filosofia humanista, antropoc\u00eantrica, que tem seu ber\u00e7o ideol\u00f3gico na Europa, mas que, em S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o, encontrou um vanguardista disposto a subverte-la. E em que medida Nauro Machado subverte este pensamento?<\/p>\n<p>Ora, a poesia existencialista de Nauro Machado n\u00e3o \u00e9 apenas um exerc\u00edcio abstrato, uma formalidade conceitual. Trata-se de uma rotina baseada na corporalidade, \u201ca rachadura da carne com a vida\u201d, inscrita nas contradi\u00e7\u00f5es subjacentes do escritor com o seu lugar natal, com as injusti\u00e7as da prov\u00edncia perif\u00e9rica: \u201ccidade de fezes, cidade de infernos\u201d, evidenciando os abandonos decorrentes do subdesenvolvimento, particularidades do sul global.<\/p>\n<p>Nos escritores que s\u00e3o fontes de sua inspira\u00e7\u00e3o, a ang\u00fastia do homem ocidental \u00e9 lida e sentida como um tema universal, mas em Nauro Machado ela desce at\u00e9 o n\u00edvel da cal\u00e7ada imunda da Rua Grande, do tra\u00e7o inegoci\u00e1vel da fome, da exclus\u00e3o, dos relegados da pra\u00e7a Jo\u00e3o Lisboa, na Rua do Trapiche. \u00c9 preciso que se diga que a ruptura da poesia naurina se percebe na implos\u00e3o do soneto, que aparece repleto de excessos verbais, mas que n\u00e3o ofuscam o objeto central: o conflito insol\u00favel do sujeito no mundo.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dos europeus, ao contr\u00e1rio da tradi\u00e7\u00e3o heideggeriana que l\u00ea o mundo a partir da \u201ccasa do ser\u201d, em Nauro Macho temos a \u201cc\u00e2mara mortu\u00e1ria\u201d, o sofrimento em carne viva, seja no verso, seja na vida daquele que rabiscou o verso. N\u00e3o h\u00e1 um meio termo poss\u00edvel, n\u00e3o h\u00e1 concilia\u00e7\u00e3o entre o ser e o mundo, porque a inquietude da exist\u00eancia est\u00e1 embriagada com a ang\u00fastia. E esta embriaguez \u00e9 o que mobiliza o pr\u00f3ximo verso.<\/p>\n<p>Eu frequentemente ouvi uma hist\u00f3ria de Nauro Machado, talvez a mais bonita delas que diz mais ou menos o seguinte:<\/p>\n<p>Estava o poeta andando nas ruas do centro e no cruzamento da rua do Egito com a rua dos Afogados um carro quase o atropela; o motorista, indignado, para o ve\u00edculo, coloca a cabe\u00e7a para fora:<\/p>\n<p>\u2013Irrespons\u00e1vel, voc\u00ea n\u00e3o tem medo de morrer?<\/p>\n<p>E Nauro Machado responde:<\/p>\n<p>\u2013 E nem de viver.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 uma recusa \u00e0 morte, mas sim recusa ao medo da exist\u00eancia, sinuosa e rodeada de vicissitudes, mas que dignifica cada segundo. Vinte anos depois, revisito aquela tarde de outubro com o poeta e tudo aquilo que consegui absorver do nosso di\u00e1logo. O homem que me tornei e as escolhas que fiz; daquilo que li, que depreendi e o estilo que adotei, tudo pode ser colocado na influ\u00eancia de Nauro Machado. E hoje, quando coloco em retrospectiva, se existe alguma autenticidade naquilo que escrevo, deveras ela n\u00e3o \u00e9 minha: foi tomada de empr\u00e9stimo (e n\u00e3o pretendo devolv\u00ea-la) a Nauro Machado.<\/p>\n<p>Vive-se todos os dias, e morre-se apenas em um. Esta \u00e9 a s\u00edntese do pensamento naurino, condensado em um aforismo que, lido mil vezes ter\u00e1 mil interpreta\u00e7\u00f5es diferentes. Lido e relido, ao avesso da palavra, entre o ensurdecedor do fonema e o sil\u00eancio brutal do vazio. Exercitar o mandamento maior da poesia de Nauro Machado \u00e9 tarefa mais simples e \u00e1rdua que qualquer um de n\u00f3s pode se colocar a fazer. Mas de que outra forma valeria viver?<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um homem caminha no centro hist\u00f3rico de S\u00e3o Lu\u00eds. Usa chap\u00e9u, ostenta uma barba cingida no rosto pesado. Anda vagaroso, como se tivesse todo o tempo do mundo. 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