{"id":18557,"date":"2025-11-23T05:58:23","date_gmt":"2025-11-23T08:58:23","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/11\/23\/ser-professor-no-brasil-e-ofensa\/"},"modified":"2025-11-23T05:58:23","modified_gmt":"2025-11-23T08:58:23","slug":"ser-professor-no-brasil-e-ofensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/11\/23\/ser-professor-no-brasil-e-ofensa\/","title":{"rendered":"Ser professor no Brasil \u00e9 ofensa"},"content":{"rendered":"<p><strong>A ofensa ao professor no Brasil <\/strong><\/p>\n<p>Ser professor no Brasil tornou-se equivalente a ofensa. N\u00e3o \u00e9 exagero ret\u00f3rico. \u00c9 constata\u00e7\u00e3o emp\u00edrica. A recente divulga\u00e7\u00e3o, pelo portal <a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/sao-paulo\/procurador-cita-porsche-de-juiz-e-lamenta-sua-classe-social-inferior\">Metr\u00f3poles<\/a>, de trocas de mensagens entre membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo exp\u00f4s um sintoma profundo do desprezo estrutural pelo magist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Em um grupo de WhatsApp chamado \u201cEquipara\u00e7\u00e3o J\u00e1\u201d, procuradores reclamam n\u00e3o ganhar o mesmo que magistrados do TJSP e dizem ver \u201camigos ju\u00edzes andando de Porsche\u201d, enquanto eles n\u00e3o teriam condi\u00e7\u00f5es de \u201cacompanhar esse padr\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>A conversa termina com um trocadilho: \u201cagora estamos em uma classe social inferior\u2026 estamos nos tornando igual a <em>magis\u2026 magist\u00e9rio<\/em>\u201d.<\/strong> O sentido \u00e9 inequ\u00edvoco: parecer-se com professores, ou seja, \u201cganhar como eles\u201d, \u201cviver como eles\u201d, seria uma forma de rebaixamento social. A doc\u00eancia como sin\u00f4nimo de inferioridade.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Na esfera pol\u00edtica, outro epis\u00f3dio se soma a esse desprezo institucionalizado. Em Santa Catarina, o deputado estadual Oscar Gutz (PL) atacou a vereadora Meri Hang (PSD) dizendo que, \u201cat\u00e9 ontem, ela n\u00e3o era ningu\u00e9m, era s\u00f3 uma <a href=\"https:\/\/www.congressoemfoco.com.br\/noticia\/113693\/parlamentares-do-pl-trocam-farpas-em-live-sobre-vaga-ao-senado-em-sc\">professora<\/a>\u201d. O ataque, registrado em sess\u00e3o p\u00fablica, exp\u00f5e a ideia de que exercer o magist\u00e9rio \u00e9 \u201cn\u00e3o ser nada\u201d, de que o caminho do servi\u00e7o p\u00fablico vale mais que quem ensina.<\/p>\n<p><strong>O paradoxo dos que deveriam defender a educa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico, cuja Constitui\u00e7\u00e3o encarrega de defender a ordem jur\u00eddica, o regime democr\u00e1tico e os interesses sociais, deveria ser o primeiro a defender a educa\u00e7\u00e3o como direito fundamental (art. 205, CRFB\/88).<\/p>\n<p>Mas, nas mensagens reveladas ao p\u00fablico, alguns de seus membros, o procurador de Justi\u00e7a M\u00e1rcio S\u00e9rgio Christiano, a procuradora Val\u00e9ria Maiolini, demonstram justamente o oposto: desprezo por aquele que \u00e9 o n\u00facleo de qualquer educa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u2013 o professor.<\/p>\n<p>Sem professores, nenhum dos participantes daquelas conversas teria chegado ao ensino superior, ao bacharelado, ao concurso p\u00fablico, ao prest\u00edgio institucional e \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o mensal muito acima dos R$ 46 mil mensais.<\/p>\n<p>A ironia \u00e9 gritante: a institui\u00e7\u00e3o que deveria promover a educa\u00e7\u00e3o \u2013 e, portanto, valorizar o professor \u2013 naturaliza o rebaixamento simb\u00f3lico da doc\u00eancia. E que n\u00e3o se diga que esses procuradores s\u00e3o uma minoria que n\u00e3o representam a institui\u00e7\u00e3o MPSP. Afinal de contas, eles s\u00e3o a institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Membros do MP s\u00f3 s\u00e3o membros porque comp\u00f5em e conformam a institui\u00e7\u00e3o. Eles s\u00e3o o pr\u00f3prio MP. Eles sabem disso, tornou-se at\u00e9 pergunta de concurso para ingresso no MP: membros do MP n\u00e3o representam o MP, eles presentam o Minist\u00e9rio P\u00fablico porque s\u00e3o membros, integrantes, do MP.<\/p>\n<p>No caso catarinense, o parlamentar que representa o povo encontra em \u201cprofessora\u201d o insulto mais contundente contra sua advers\u00e1ria pol\u00edtica. O representante do povo, o agente do Estado, que deveria zelar pela eleva\u00e7\u00e3o educacional da sociedade, opta por degradar o of\u00edcio de quem constr\u00f3i essa eleva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A unanimidade ret\u00f3rica e o abandono pr\u00e1tico<\/strong><\/p>\n<p>Vivemos um tempo curioso: todos repetem que ci\u00eancia, educa\u00e7\u00e3o e tecnologia s\u00e3o o \u00fanico caminho capaz de tirar o Brasil do subdesenvolvimento. Mas, ningu\u00e9m financia a educa\u00e7\u00e3o de forma minimamente proporcional \u00e0 responsabilidade que ela carrega.<\/p>\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mec\/pt-br\/assuntos\/noticias\/2025\/janeiro\/piso-salarial-dos-professores-tem-reajuste-acima-da-inflacao\">piso salarial<\/a> dos professores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 hoje de R$ 4.867,77 para 40 horas semanais. J\u00e1 os membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico, tanto estaduais quanto federais, receberam acima do teto constitucional em cerca de 98% dos casos em 2024, segundo estudo p\u00fablico feito pela <a href=\"https:\/\/www.transparencia.org.br\/publicacoes\/98-dos-promotores-e-procuradores-do-mp-ganharam-acima-do-teto-constitucional-em-2024\/\">Transpar\u00eancia Brasil<\/a>. Para ficarmos no MPSP, a reportagem do Metr\u00f3poles informa que os membros do MP que se disseram pertencentes a uma classe inferior como a dos professores ganharam mais de R$ 70 mil.<\/p>\n<p>O contraste \u00e9 chocante: um procurador pode ganhar, no m\u00ednimo, aproximadamente dez vezes mais que um professor de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, cerca de sete vezes mais do que um professor doutor que leciona e pesquisa em universidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Na forma\u00e7\u00e3o jur\u00eddica universit\u00e1ria, observo isso diariamente. A cada semestre, na UFPR ou na UnB, pergunto no primeiro dia de aula aos alunos que carreira pretendem seguir. Em m\u00e9dia, 70% querem concursos jur\u00eddicos; na UnB, o \u00edndice chega facilmente a 90%. O restante divide-se entre advocacia e carreira diplom\u00e1tica. Nunca, em anos de doc\u00eancia, ouvi um aluno responder espontaneamente: \u201cquero ser professor\u201d.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A doc\u00eancia n\u00e3o aparece como horizonte profissional poss\u00edvel porque a sociedade ensinou que ela vale pouco.<\/p>\n<p><strong>O inc\u00f4modo necess\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Por tudo isso, retorno ao in\u00edcio. Quando um procurador se diz \u201crebaixado\u201d por se aproximar do \u201cmagist\u00e9rio\u201d, ele exp\u00f5e n\u00e3o o professor, mas a si mesmo. Quando um deputado estadual insulta sua interlocutora chamando-a de \u201cs\u00f3 professora\u201d, ele insulta a pr\u00f3pria ideia de sociedade.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m perguntar:<\/p>\n<p><strong>Ao Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo<\/strong>: como defender a ordem jur\u00eddica se desprezam quem forma o cidad\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Ao deputado Oscar Gutz (PL-SC)<\/strong>: se \u201cser professora\u201d \u00e9 ser ningu\u00e9m, ent\u00e3o quem o ensinou a ler era o qu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>E ao leitor<\/strong>: o que significa, para voc\u00ea, que a profiss\u00e3o respons\u00e1vel por tudo o que voc\u00ea sabe, inclusive sua capacidade de interpretar este texto, seja tratada como xingamento?<\/p>\n<p>Se a educa\u00e7\u00e3o vale pouco, o que vale o futuro? Se o professor \u00e9 nada, o que resta da Rep\u00fablica?<\/p>\n<p>E, sobretudo: <strong>que pa\u00eds continua de p\u00e9 quando os que deveriam elev\u00e1-lo acham gra\u00e7a em rebaixar quem o sustenta?<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ofensa ao professor no Brasil Ser professor no Brasil tornou-se equivalente a ofensa. N\u00e3o \u00e9 exagero ret\u00f3rico. \u00c9 constata\u00e7\u00e3o emp\u00edrica. A recente divulga\u00e7\u00e3o, pelo portal Metr\u00f3poles, de trocas de mensagens entre membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo exp\u00f4s um sintoma profundo do desprezo estrutural pelo magist\u00e9rio. 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