{"id":18148,"date":"2025-11-09T15:58:18","date_gmt":"2025-11-09T18:58:18","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/11\/09\/o-afeto-nao-se-compra-mas-a-ausencia-se-paga-entenda-a-lei-15-240-2025\/"},"modified":"2025-11-09T15:58:18","modified_gmt":"2025-11-09T18:58:18","slug":"o-afeto-nao-se-compra-mas-a-ausencia-se-paga-entenda-a-lei-15-240-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/11\/09\/o-afeto-nao-se-compra-mas-a-ausencia-se-paga-entenda-a-lei-15-240-2025\/","title":{"rendered":"O afeto n\u00e3o se compra, mas a aus\u00eancia se paga: entenda a Lei 15.240\/2025"},"content":{"rendered":"<p>Abandono afetivo \u00e9 a omiss\u00e3o volunt\u00e1ria, relevante e injustificada dos deveres parentais de cuidado, conviv\u00eancia, orienta\u00e7\u00e3o e apoio psicoafetivo aos filhos, especialmente crian\u00e7as e adolescentes. N\u00e3o se exige amor \u2014 que \u00e9 sentimento e n\u00e3o pode ser imposto \u2014, mas o cumprimento do dever jur\u00eddico de cuidar, positivado no ordenamento. A Lei n\u00ba 15.240, de 28 de outubro de 2025, reconhece expressamente o abandono afetivo como il\u00edcito civil, consolidando orienta\u00e7\u00e3o jurisprudencial segundo a qual as regras gerais da responsabilidade civil incidem nas rela\u00e7\u00f5es familiares, sem confus\u00e3o com alimentos ou com medidas como a perda do poder familiar.<\/p>\n<p>A responsabilidade civil por abandono afetivo estrutura-se nos elementos cl\u00e1ssicos: conduta (a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o que viole o dever de cuidado), dano (moral e, quando cab\u00edvel, material) e nexo causal. A omiss\u00e3o relevante consiste em n\u00e3o fazer o que a lei determina: aus\u00eancia sistem\u00e1tica e injustificada de presen\u00e7a, prote\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o, com impacto delet\u00e9rio no desenvolvimento da personalidade do filho. O <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/superior-tribunal-de-justica\">Superior Tribunal de Justi\u00e7a<\/a>, em precedente paradigm\u00e1tico, afirmou a juridicidade do pedido de compensa\u00e7\u00e3o por danos morais por abandono afetivo, aplicando amplamente os arts. 186 e 927 do <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/codigo-civil\">C\u00f3digo Civil<\/a> \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia e afastando o argumento de que a obriga\u00e7\u00e3o alimentar ou a perda do poder familiar excluiriam a indeniza\u00e7\u00e3o. No caso, diante de prova robusta de abalo ps\u00edquico e necessidade de psicoterapia, a indeniza\u00e7\u00e3o foi fixada em R$ 30.000,00, preservada a autonomia entre a seara alimentar (onde se discutiu o custeio terap\u00eautico) e a repara\u00e7\u00e3o moral pela viola\u00e7\u00e3o do dever de cuidado (STJ, REsp 1.887.697\/RJ, Rel. Min. <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/nancy-andrighi\">Nancy Andrighi<\/a>, DJe 23\/09\/2021)\u00b9.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/h3>\n<p>A Lei n\u00ba 15.240\/2025 opera em tr\u00eas planos. No plano principiol\u00f3gico, refor\u00e7a a dignidade da pessoa humana, o melhor interesse da crian\u00e7a e o cuidado como valor jur\u00eddico objetivo. No plano normativo, confere densidade ao entendimento de que o dever de parentalidade respons\u00e1vel tem conte\u00fado jur\u00eddico exig\u00edvel. No plano processual-material, oferece previsibilidade para a tutela indenizat\u00f3ria, sem engessar o prudente arb\u00edtrio judicial na fixa\u00e7\u00e3o do quantum, que deve equilibrar fun\u00e7\u00e3o compensat\u00f3ria e pedag\u00f3gica.<\/p>\n<p>Os tribunais estaduais consolidam a possibilidade de repara\u00e7\u00e3o. O <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/tjmt\">TJMT<\/a> reconheceu o il\u00edcito em caso de ruptura volunt\u00e1ria da conviv\u00eancia e neglig\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a filha com necessidades especiais, acentuando que pagar alimentos n\u00e3o exaure os deveres parentais, e manteve o quantum por proporcionalidade\u00b2. O <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/tjdft\">TJDFT<\/a> destacou que amar \u00e9 faculdade, mas cuidar \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o civil, admitindo a compreens\u00e3o do dano moral como <em>in re ipsa<\/em> em abandonos graves e prolongados, e afastou par\u00e2metros autom\u00e1ticos na fixa\u00e7\u00e3o do valor, que deve considerar dura\u00e7\u00e3o, intensidade do sofrimento e condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas\u00b3. O TJRO, em id\u00eantico sentido, assentou que o descumprimento do dever estatalmente imposto de cuidado enseja san\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria pela via da responsabilidade civil\u2074.<\/p>\n<p>A compensa\u00e7\u00e3o por dano moral em abandono afetivo n\u00e3o \u201ccompra\u201d o amor, nem substitui o v\u00ednculo, mas busca mitigar, dentro do poss\u00edvel, a dor, a ang\u00fastia, a frustra\u00e7\u00e3o existencial e os transtornos ps\u00edquicos gerados pela omiss\u00e3o parental. A doutrina descreve essa convers\u00e3o como transforma\u00e7\u00e3o da obriga\u00e7\u00e3o natural (moral) em obriga\u00e7\u00e3o civil, com finalidade compensat\u00f3ria e pedag\u00f3gica. A quantifica\u00e7\u00e3o observa crit\u00e9rios como gravidade e dura\u00e7\u00e3o do abandono, idade do filho ao in\u00edcio da omiss\u00e3o, exist\u00eancia de laudos psicol\u00f3gicos, sequelas ps\u00edquicas e sociais, capacidade econ\u00f4mica das partes e preven\u00e7\u00e3o geral, evitando enriquecimento sem causa. A lei corretamente n\u00e3o fixa tabelas, preservando a an\u00e1lise casu\u00edstica.<\/p>\n<p>A prova do abandono afetivo exige cuidado. Depoimentos, hist\u00f3rico de conviv\u00eancia, registros de visitas, documentos m\u00e9dicos e laudos psicol\u00f3gicos auxiliam a demonstrar a omiss\u00e3o qualificada e sua repercuss\u00e3o. A compreens\u00e3o do dano moral in re ipsa pode ser adotada em hip\u00f3teses de abandono not\u00f3rio e prolongado, reduzindo a revitimiza\u00e7\u00e3o, sem dispensar a verifica\u00e7\u00e3o do nexo e da gravidade. \u00c9 crucial distinguir aus\u00eancias justificadas \u2014 sa\u00fade, impedimentos reais \u2014 do afastamento culposo ou doloso. A Lei n\u00ba 15.240\/2025 n\u00e3o instaura responsabilidade objetiva: preserva-se a necessidade de demonstrar conduta, dano e nexo causal.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/t.me\/jotanotelegram\">Inscreva-se no canal do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> no Telegram e acompanhe as principais not\u00edcias, artigos e an\u00e1lises!<\/a><\/h3>\n<p>A autonomia entre esferas obrigacionais familiares \u00e9 ponto central. Alimentos, regidos por necessidade e possibilidade, n\u00e3o substituem o dever de cuidado e conviv\u00eancia. A adimpl\u00eancia alimentar, por si, n\u00e3o afasta a compensa\u00e7\u00e3o por dano moral quando comprovada a viola\u00e7\u00e3o grave do dever de cuidar. Por outro lado, despesas espec\u00edficas j\u00e1 contempladas em t\u00edtulo alimentar (como psicoterapia) devem ser cobradas na via pr\u00f3pria, evitando duplicidade. Medidas de suspens\u00e3o ou perda do poder familiar cumprem fun\u00e7\u00e3o protetiva e sancionat\u00f3ria, mas n\u00e3o exaurem a necessidade de compensa\u00e7\u00e3o moral pelos danos j\u00e1 causados.<\/p>\n<p>Constitucionalmente, a nova lei reafirma a paternidade respons\u00e1vel como dever jur\u00eddico. O art. 227 da Constitui\u00e7\u00e3o imp\u00f5e aos genitores obriga\u00e7\u00f5es positivas de prote\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e conviv\u00eancia. A tutela civil por meio de compensa\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria \u00e9 instrumento id\u00f4neo para recompor, ainda que imperfeitamente, o abalo experimentado, sinalizando que o abandono afetivo \u00e9 conduta reprov\u00e1vel. A fun\u00e7\u00e3o preventiva da responsabilidade civil adquire relevo: al\u00e9m de compensar a v\u00edtima, desestimula a naturaliza\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia parental.<\/p>\n<p>Na aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, os precedentes ilustram par\u00e2metros de causalidade e de quantum. A abrupta ruptura da conviv\u00eancia em tenra idade, ap\u00f3s la\u00e7os formados, com prova de ansiedade, traumas e necessidade de psicoterapia, justifica indeniza\u00e7\u00e3o compat\u00edvel com a gravidade do caso e a capacidade econ\u00f4mica do ofensor. Em situa\u00e7\u00f5es de especial vulnerabilidade do filho, a omiss\u00e3o parental agrava o dano, exigindo resposta judicial proporcional. Cada decis\u00e3o deve ser motivada, evitando f\u00f3rmulas autom\u00e1ticas e observando a singularidade do sofrimento.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaFvFd73rZZflK7yGD0I\">Inscreva-se no canal de not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> no WhatsApp e fique por dentro das principais discuss\u00f5es do pa\u00eds!<\/a>\u00a0<span>\u00a0<\/span><\/h3>\n<p>A positiva\u00e7\u00e3o do abandono afetivo como il\u00edcito civil fortalece uma cultura jur\u00eddica do cuidado. Amar permanece uma possibilidade; cuidar \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o. Onde o cuidado falta de forma culposa ou dolosa e produz dano, cabe responsabiliza\u00e7\u00e3o civil, para compensar a v\u00edtima, prevenir novas omiss\u00f5es e afirmar a dignidade de crian\u00e7as e adolescentes como n\u00facleo inegoci\u00e1vel do Estado Democr\u00e1tico de Direito.<\/p>\n<p>________________________________________________________________<\/p>\n<h3><strong>Notas de rodap\u00e9<\/strong><\/h3>\n<p>\u201c\u00c9 juridicamente poss\u00edvel a repara\u00e7\u00e3o de danos pleiteada pelo filho em face dos pais que tenha como fundamento o abandono afetivo [\u2026]\u201d com indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 30.000,00 e autonomia entre searas alimentar e indenizat\u00f3ria. STJ, REsp 1.887.697\/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, 3\u00aa Turma, j. 21\/09\/2021, DJe 23\/09\/2021.<br \/>\n\u201cAs provas [\u2026] caracterizaram o abandono afetivo e a neglig\u00eancia do genitor [\u2026] n\u00e3o basta pagar presta\u00e7\u00e3o aliment\u00edcia para dar como quitada sua obriga\u00e7\u00e3o.\u201d TJ-MT, AC 0003643-30.2017.8.11.0020, Rel. Marilsen Andrade Addario, 2\u00aa C\u00e2mara de Direito Privado, j. 08\/03\/2023, pub. 15\/03\/2023.<br \/>\n\u201cAmar \u00e9 uma possibilidade; cuidar \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o civil.\u201d Dano moral in re ipsa, crit\u00e9rios prudenciais e manuten\u00e7\u00e3o de R$ 50.000,00. TJ-DF, Apela\u00e7\u00e3o 0015096-12.2016.8.07.0006, Rel. N\u00eddia Corr\u00eaa Lima, 8\u00aa Turma C\u00edvel, j. 28\/03\/2019, DJE 04\/04\/2019, p. 404\/405.<br \/>\n\u201cO amor \u00e9 uma faculdade [\u2026], mas o cuidado, aten\u00e7\u00e3o e respeito para com o filho \u00e9 dever.\u201d Danos morais reconhecidos. TJ-RO, AC 7000916-83.2020.822.0014, 2\u00aa C\u00e2mara C\u00edvel, Rel. Des. Isaias Fonseca Moraes, j. 28\/07\/2023.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abandono afetivo \u00e9 a omiss\u00e3o volunt\u00e1ria, relevante e injustificada dos deveres parentais de cuidado, conviv\u00eancia, orienta\u00e7\u00e3o e apoio psicoafetivo aos filhos, especialmente crian\u00e7as e adolescentes. N\u00e3o se exige amor \u2014 que \u00e9 sentimento e n\u00e3o pode ser imposto \u2014, mas o cumprimento do dever jur\u00eddico de cuidar, positivado no ordenamento. 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