{"id":17972,"date":"2025-11-03T16:58:27","date_gmt":"2025-11-03T19:58:27","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/11\/03\/chacina-do-rio-expoe-impasse-sobre-luto-coletivo-numa-era-de-crise-permanente\/"},"modified":"2025-11-03T16:58:27","modified_gmt":"2025-11-03T19:58:27","slug":"chacina-do-rio-expoe-impasse-sobre-luto-coletivo-numa-era-de-crise-permanente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/11\/03\/chacina-do-rio-expoe-impasse-sobre-luto-coletivo-numa-era-de-crise-permanente\/","title":{"rendered":"Chacina do Rio exp\u00f5e impasse sobre luto coletivo numa era de crise permanente"},"content":{"rendered":"<p>A cena \u00e9 conhecida: um evento tr\u00e1gico se abate sobre o pa\u00eds, trazendo, um pouco mais para perto, a sombra da morte, da viol\u00eancia, da barb\u00e1rie de que somos feitos. Ato reflexo: de um lado do espelho, instantaneamente, chovem \u00e1udios de zap de supostos traficantes, v\u00eddeos de corpos decapitados, mensagens celebrando a morte de bandidos. Procedimento padr\u00e3o na extrema direita brasileira.<\/p>\n<p>Corta para o outro lado do espelho digital e descobrimos que a espetaculariza\u00e7\u00e3o da morte j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um elemento isolado: os mesmos corpos, rodeados de parentes enlutados, agora servem \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o contra o Estado, a pol\u00edcia e a insensibilidade geral que nos governa.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Tudo isso minutos ap\u00f3s a mais letal opera\u00e7\u00e3o policial da hist\u00f3ria do Rio de Janeiro. O que uniu os cidad\u00e3os nesse caso, desde o porteiro preocupado com a volta pra casa, passando pela jovem universit\u00e1ria que precisou abandonar a aula at\u00e9 o \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d que celebra mais um mortic\u00ednio: todos fomos devorados pela m\u00e1quina das redes e sua <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2024\/02\/plataformas-digitais-criaram-crise-permanente-diz-leticia-cesarino\/\">temporalidade de crise permanente<\/a>.<\/p>\n<p>Enquanto parte da popula\u00e7\u00e3o, habituada \u00e0 est\u00e9tica dos programas policialescos, deposita sua adrenalina no \u201czapist\u00e3o\u201d, a outra parte, tamb\u00e9m absorvida pela ansiedade \u2013 ps\u00edquica e pol\u00edtica \u2013 das plataformas recorre ao Instagram para se posicionar politicamente. E, ent\u00e3o, nos deparamos com dois modos de se relacionar com a morte, que transitam entre a indiferen\u00e7a e o espet\u00e1culo. Ambos s\u00e3o caracterizados pela extrema presen\u00e7a, pela exposi\u00e7\u00e3o, pela incessante produ\u00e7\u00e3o de imagens e palavras de ordem no instante seguinte \u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Nesses dois modos de confrontar a morte, algo est\u00e1 em falta: a suspens\u00e3o que precede o luto. Anos atr\u00e1s, em meio ao debacle da pandemia, <a href=\"https:\/\/entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br\/2020\/08\/08\/cem-mil-e-sem-luto\/\">eu relatava minha perplexidade<\/a> ao observar que, \u00e0 repentina morte de 100 mil brasileiros, seguiu-se um bastante t\u00edmido processo de enlutamento \u2013 se entendemos o luto, antes de tudo, como colapso de um estado de coisas.<\/p>\n<p>O tempo do luto \u00e9 o do vazio, da negatividade. Um tempo que conflita com o excesso, o ru\u00eddo e a verborragia caracter\u00edsticos das plataformas. Resta a pergunta: numa era em que nosso Eu, cada vez mais, se confunde com nosso perfil digital, ainda h\u00e1 espa\u00e7o para atravessar este tempo do luto?<\/p>\n<p>O arsenal de posts, stories, v\u00eddeos e \u00e1udios de zap instantaneamente compartilhados ap\u00f3s a chacina, e a intensifica\u00e7\u00e3o do nosso uso de smartphones, sugerem que viver em estado de alerta permanente tornou-se o novo normal. Foi algo que o bolsonarismo nos ensinou durante a pandemia e, talvez, nunca tenhamos deixado pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia, nossa capacidade de (re)agir politicamente \u2013 o que exige a instaura\u00e7\u00e3o de novas gram\u00e1ticas para partilhar a dor \u2013 torna-se atrofiada. Na vida urgente do digital, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para pausar e, portanto, elaborar, a indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se \u00e9 correto dizer, desde a pandemia, que a favela tem reinventado <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/sociedade\/2020-03-28\/sousa-da-redes-da-mare-quem-so-via-a-favela-pela-violencia-passou-a-enxerga-la-a-partir-do-coronavirus.html\">modos de sobreviver<\/a> e de gerar mudan\u00e7a efetiva na comunidade por meio das plataformas, \u00e9 importante pensar as consequ\u00eancias psicopol\u00edticas de nossa crescente vida mediada pelo perfil digital. Um avatar que n\u00e3o nasce, n\u00e3o morre e, tamb\u00e9m, n\u00e3o se enluta.<\/p>\n<p>Nesse mundo do espelho, para usar a <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/naomi-klein-viagem-atraves-do-espelho\/\">met\u00e1fora de Naomi Klein<\/a>, a aus\u00eancia, o ato de se retirar, que \u00e9 inerente ao luto, se confunde com a n\u00e3o presen\u00e7a. Em seu livro <em>Doppelg\u00e4nger<\/em>, Klein relata o desespero de uma aluna que \u00e9 acusada de racismo, simplesmente, por estar offline em meio \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o contra a viol\u00eancia policial nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cTodos os meus amigos me disseram que eu tinha que voltar ao Instagram e postar coisas pr\u00f3-Black Lives Matter, caso contr\u00e1rio todos pensariam que eu sou racista\u201d, afirma a jovem. O simples gesto de n\u00e3o habitar aquele espa\u00e7o foi interpretado como indiferen\u00e7a, como se enfrentar o racismo passasse, necessariamente, por refor\u00e7ar a sua identidade pessoal. \u201cHavia algo errado com uma cultura que valorizava as performances p\u00fablicas de um eu virtuoso em detrimento de uma postura de solidariedade e da constru\u00e7\u00e3o de relacionamentos mais tang\u00edveis\u201d, conclui Klein sobre o epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>Se o atual tempo de crise permanente serve muito bem \u00e0 est\u00e9tica e ao discurso da extrema direita, em sua busca por ati\u00e7ar afetos tristes como o medo e o ressentimento na popula\u00e7\u00e3o, me pergunto se os progressistas est\u00e3o sendo capazes de fabricar alternativas a esse modo de vida cronicamente online \u2013 alternativas necess\u00e1rias ao enlutamento.<\/p>\n<p>\u00c9 como se parte do Brasil estivesse muito alerta para compartilhar a sua (justa) indigna\u00e7\u00e3o com mais uma barb\u00e1rie, mas, por isso mesmo, impotente para ser transformada por ela. \u00c9 disso que trata o luto: um acontecimento que refaz o nosso modo de habitar a comunidade, a nossa gram\u00e1tica, a partir da suspens\u00e3o do sentido. Para ser luto, tem de ser no vazio.<\/p>\n<p>Enquanto o lado esquerdo da polariza\u00e7\u00e3o se infesta de imagens denunciando o massacre no Rio de Janeiro e o governo de Cl\u00e1udio Castro, do outro lado do espectro, o senso comum que navega no velho (e s\u00f3lido) imagin\u00e1rio da \u201cpol\u00edcia vs. bandido\u201d parece ganhar mais tra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e0 toa a extrema direita viu na produ\u00e7\u00e3o da chacina uma oportunidade pol\u00edtica para <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/a-chacina-do-rio-como-climax-das-narrativas-da-extrema-direita\/\">recuperar o recente terreno perdido na guerrilha digital<\/a>.<\/p>\n<p>Ao embarcar no tempo da urg\u00eancia e na est\u00e9tica do espet\u00e1culo que exp\u00f5e corpos para produzir indigna\u00e7\u00e3o 24 horas por dia, o campo progressista acaba sustentando uma barulhenta m\u00e1quina digital que, desde a pandemia, interdita qualquer possibilidade de luto. Cinco anos ap\u00f3s o mortic\u00ednio bolsonarista, permanecemos \u00f3rf\u00e3os de um outro modo de habitar o tempo, no qual seja poss\u00edvel o simples gesto de n\u00e3o partilhar o ru\u00eddo, em busca de elaborar nossas dores e, somente assim, instaurar alguma capacidade de dizer o que, at\u00e9 agora, parece indiz\u00edvel.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cena \u00e9 conhecida: um evento tr\u00e1gico se abate sobre o pa\u00eds, trazendo, um pouco mais para perto, a sombra da morte, da viol\u00eancia, da barb\u00e1rie de que somos feitos. Ato reflexo: de um lado do espelho, instantaneamente, chovem \u00e1udios de zap de supostos traficantes, v\u00eddeos de corpos decapitados, mensagens celebrando a morte de bandidos. 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