{"id":17939,"date":"2025-11-01T15:03:31","date_gmt":"2025-11-01T18:03:31","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/11\/01\/o-custo-da-negacao-as-tarifas-de-trump-e-o-lobby-que-o-brasil-finge-nao-praticar\/"},"modified":"2025-11-01T15:03:31","modified_gmt":"2025-11-01T18:03:31","slug":"o-custo-da-negacao-as-tarifas-de-trump-e-o-lobby-que-o-brasil-finge-nao-praticar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/11\/01\/o-custo-da-negacao-as-tarifas-de-trump-e-o-lobby-que-o-brasil-finge-nao-praticar\/","title":{"rendered":"O custo da nega\u00e7\u00e3o: as tarifas de Trump e o lobby que o Brasil finge n\u00e3o praticar"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil ainda finge que n\u00e3o faz lobby. Mas faz \u2014 e cada vez mais. A rodada de tarifas impostas pelos <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/estados-unidos\">Estados Unidos<\/a> sobre produtos brasileiros exp\u00f4s, mais uma vez, essa contradi\u00e7\u00e3o. Enquanto o pa\u00eds insiste em tratar a representa\u00e7\u00e3o de interesses como sin\u00f4nimo de privil\u00e9gio ou corrup\u00e7\u00e3o, foram justamente as articula\u00e7\u00f5es privadas e institucionais que conseguiram conter parte dos danos e reabrir o di\u00e1logo pol\u00edtico com Washington.<\/p>\n<p>O caso das tarifas mostrou, com clareza desconfort\u00e1vel, que o lobby brasileiro existe \u2014 apenas n\u00e3o \u00e9 reconhecido como instrumento central da representa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e da preserva\u00e7\u00e3o de interesses nacionais.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Quando o <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/donald-trump\">governo Trump<\/a> anunciou as sobretaxas a rea\u00e7\u00e3o brasileira foi imediata e previs\u00edvel: multiplicaram-se cr\u00edticas ao<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/itamaraty\"> Itamaraty<\/a>, pedidos de respostas r\u00e1pidas e cobran\u00e7as por notas de protesto. O que passou quase despercebido, por\u00e9m, foi que o principal contrapeso \u00e0 decis\u00e3o n\u00e3o veio da diplomacia tradicional, mas da leg\u00edtima articula\u00e7\u00e3o institucional do setor privado. Foi o lobby que conseguiu impor a realidade \u00e0 pol\u00edtica americana.<\/p>\n<p>Enquanto o governo brasileiro mantinha um di\u00e1logo formal com Washington, dentro dos limites e do tempo da diplomacia, empresas e confedera\u00e7\u00f5es nacionais buscaram um caminho mais direto. A Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/cni\">CNI<\/a>), por exemplo, contratou consultorias de lobby e rela\u00e7\u00f5es governamentais nos Estados Unidos para defender os interesses do setor produtivo brasileiro junto ao Congresso e ao Departamento de Com\u00e9rcio. Outras entidades empresariais seguiram o mesmo caminho, com atua\u00e7\u00e3o estruturada e registrada, voltada a demonstrar o impacto das tarifas sobre cadeias produtivas integradas entre os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>Essa atua\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve nada de obscura. Foi exercida dentro das regras locais, com registro, transpar\u00eancia e presta\u00e7\u00e3o de contas p\u00fablica. E foi ela que surtiu efeito pol\u00edtico concreto: em 28 de outubro de 2025, o Senado norte-americano aprovou, por 52 votos a 48, de forma simb\u00f3lica, um projeto de lei que revoga parte das tarifas e p\u00f5e fim ao estado de emerg\u00eancia comercial declarado contra o Brasil \u2014 medida que havia servido de base \u00e0s sobretaxas impostas por Donald Trump (<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/us\/us-senate-passes-bill-terminate-trump-tariffs-against-brazil-2025-10-28\/?utm_source=chatgpt.com\">Reuters, 28\/10\/2025<\/a>). O texto, que deve ser rejeitado na C\u00e2mara, tem efeito mais pol\u00edtico do que normativo. Mas o simples fato de ter sido votado e aprovado simbolicamente revela algo maior: a abertura institucional das negocia\u00e7\u00f5es e o reestabelecimento de canais diretos entre os presidentes Trump e Lula tamb\u00e9m s\u00e3o, em parte, resultado do trabalho persistente de lobistas, consultores e representantes brasileiros em Washington. O lobby imp\u00f4s a realidade, a abriu tamb\u00e9m as portas para a diplomacia.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Este epis\u00f3dio evidencia a diferen\u00e7a entre o modo como os Estados Unidos encaram o lobby e a maneira como o Brasil ainda o trata. L\u00e1, a representa\u00e7\u00e3o de interesses \u00e9 parte natural do funcionamento democr\u00e1tico. Aqui, continua associada a corrup\u00e7\u00e3o e privil\u00e9gio. Essa distor\u00e7\u00e3o conceitual \u00e9 a raiz do problema.<\/p>\n<p>Conforme j\u00e1 se p\u00f4de defender neste <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/artigos\/o-pl-das-fake-news-e-a-urgencia-da-regulamentacao-do-lobby-no-brasil\">espa\u00e7o<\/a>, lobby \u00e9 uma ferramenta leg\u00edtima de interlocu\u00e7\u00e3o entre Estado e sociedade. O que \u00e9 il\u00edcito tem outros nomes e j\u00e1 est\u00e1 previsto em lei: corrup\u00e7\u00e3o, tr\u00e1fico de influ\u00eancia, advocacia administrativa, entre outros. Misturar tudo em um mesmo r\u00f3tulo n\u00e3o s\u00f3 alimenta o preconceito, mas tamb\u00e9m empurra a atividade leg\u00edtima para a informalidade.<\/p>\n<p>A cultura pol\u00edtica brasileira ainda resiste em admitir que a defesa organizada de interesses tamb\u00e9m \u00e9 forma de participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. A cada vez que o tema volta \u00e0 pauta, repete-se o mesmo roteiro moralista. O problema n\u00e3o \u00e9 o lobby, mas a aus\u00eancia de uma legisla\u00e7\u00e3o que o torne rastre\u00e1vel, p\u00fablico e audit\u00e1vel. A falta de regras claras cria o terreno f\u00e9rtil para a suspeita. Em vez de disciplinar, o Brasil prefere negar. E ao negar, acaba por institucionalizar o improviso, e temer o \u201c<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/artigos\/a-reforma-tributaria-e-o-fantasma-do-lobby-mau\">fantasma do lobby mau<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>O caso das tarifas mostra com clareza o custo dessa nega\u00e7\u00e3o. Enquanto os Estados Unidos atuam com previsibilidade, permitindo que grupos de interesse exponham argumentos t\u00e9cnicos e econ\u00f4micos dentro de um sistema regulado, o Brasil ainda se prende ao tabu moral. O resultado \u00e9 que, na pr\u00e1tica, as empresas brasileiras j\u00e1 fazem lobby \u2013 s\u00f3 n\u00e3o o reconhecem como instrumento leg\u00edtimo da interlocu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Contratam intermedi\u00e1rios no exterior, pagam caro por representa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima e eficaz, mas evitam dar o mesmo nome \u00e0 atividade quando ela ocorre internamente. Exporta-se influ\u00eancia e importa-se hipocrisia.<\/p>\n<p>\u00c9 importante reconhecer que a diplomacia tradicional continua indispens\u00e1vel. Nenhum pa\u00eds pode prescindir da a\u00e7\u00e3o estatal coordenada na defesa de seus interesses. Mas o contexto das tarifas mostrou que, sozinha, ela n\u00e3o \u00e9 suficiente. O com\u00e9rcio internacional contempor\u00e2neo \u00e9 determinado por m\u00faltiplos vetores \u2013 econ\u00f4micos, legislativos, regulat\u00f3rios e eleitorais \u2013 e n\u00e3o apenas por acordos entre governos. O lobby complementa a diplomacia porque atua no n\u00edvel onde as decis\u00f5es s\u00e3o realmente tomadas: no detalhe das comiss\u00f5es, nas audi\u00eancias p\u00fablicas, na linguagem dos setores produtivos.<\/p>\n<p>O que diferencia o modelo americano do brasileiro \u00e9 a institucionaliza\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia. L\u00e1, h\u00e1 cadastros oficiais, relat\u00f3rios obrigat\u00f3rios e san\u00e7\u00f5es severas para quem descumpre a transpar\u00eancia. Aqui, h\u00e1 sil\u00eancio, desconfian\u00e7a e informalidade. O que nos falta n\u00e3o \u00e9 moral, mas m\u00e9todo. Regular o lobby significa assumir que a influ\u00eancia \u00e9 inevit\u00e1vel e que, portanto, deve ser exercida \u00e0s claras, dentro da lei. \u00c9 reconhecer que o Estado tem o dever de ouvir, mas tamb\u00e9m o direito de saber quem fala, em nome de quem e com que prop\u00f3sito.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaFvFd73rZZflK7yGD0I\">Inscreva-se no canal de not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> no WhatsApp e fique por dentro das principais discuss\u00f5es do pa\u00eds!<\/a><\/p>\n<p>A aus\u00eancia de uma lei de transpar\u00eancia do lobby n\u00e3o impede que ele exista \u2013 apenas o torna invis\u00edvel. O v\u00e1cuo normativo protege o que se quer combater e pune o que se quer legitimar. \u00c9 o pior dos mundos: quem age com \u00e9tica \u00e9 suspeito; quem atua nas sombras passa despercebido. Regular a atividade \u00e9 trazer luz ao processo, n\u00e3o estimular interesses privados. \u00c9 garantir que os representantes de interesse sejam identific\u00e1veis e que a sociedade possa fiscalizar sua atua\u00e7\u00e3o. \u00c9 transformar o di\u00e1logo em procedimento p\u00fablico.<\/p>\n<p>O lobby \u00e9, em ess\u00eancia, um mecanismo de informa\u00e7\u00e3o. Quando operado com integridade, melhora a qualidade das decis\u00f5es p\u00fablicas porque aproxima o Estado das realidades econ\u00f4micas e t\u00e9cnicas dos setores afetados. O epis\u00f3dio das tarifas mostra isso com clareza. Foi o di\u00e1logo direto entre empresas, associa\u00e7\u00f5es e autoridades americanas que produziu resultados pr\u00e1ticos em um cen\u00e1rio em que a negocia\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica, sozinha, dificilmente surtiria efeito. A influ\u00eancia leg\u00edtima imp\u00f4s a realidade \u00e0 pol\u00edtica \u2014 e isso n\u00e3o \u00e9 um dem\u00e9rito, \u00e9 um m\u00e9rito institucional.<\/p>\n<p>O Brasil ainda precisa atravessar essa curva de aprendizado. Continuar fingindo que n\u00e3o faz lobby \u00e9 uma forma de infantilismo pol\u00edtico. Em um mundo onde interesses s\u00e3o defendidos de forma profissional, negar o instrumento equivale a abdicar de poder. O pa\u00eds que deseja ser protagonista nas cadeias globais de valor precisa tamb\u00e9m ser protagonista nos f\u00f3runs de influ\u00eancia que as moldam. Regular n\u00e3o \u00e9 ceder ao interesse privado \u2014 \u00e9 disciplin\u00e1-lo com transpar\u00eancia. Regular \u00e9 dar forma ao que j\u00e1 \u00e9 fato. \u00c9 permitir que o di\u00e1logo entre Estado e sociedade seja p\u00fablico e respons\u00e1vel. \u00c9 substituir a suspeita pela transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>Negar o lobby \u00e9 negar a pol\u00edtica. Fingir neutralidade \u00e9 apenas disfar\u00e7ar influ\u00eancia. Em vez de combater o di\u00e1logo, o Brasil precisa civiliz\u00e1-lo. Porque a influ\u00eancia existe \u2014 com ou sem lei \u2014, e s\u00f3 a transpar\u00eancia transforma poder em legitimidade. O pa\u00eds que insiste em tratar o lobby como pecado continuar\u00e1 a perd\u00ea-lo para quem o trata como m\u00e9todo. E m\u00e9todo, hoje, \u00e9 soberania. O Brasil n\u00e3o precisa de menos lobby. Precisa de mais luz sobre ele \u2014 e menos medo de cham\u00e1-lo pelo nome.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil ainda finge que n\u00e3o faz lobby. Mas faz \u2014 e cada vez mais. A rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros exp\u00f4s, mais uma vez, essa contradi\u00e7\u00e3o. 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