{"id":17899,"date":"2025-10-30T20:58:37","date_gmt":"2025-10-30T23:58:37","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/30\/a-elevacao-dos-padroes-probatorios-investigativos\/"},"modified":"2025-10-30T20:58:37","modified_gmt":"2025-10-30T23:58:37","slug":"a-elevacao-dos-padroes-probatorios-investigativos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/30\/a-elevacao-dos-padroes-probatorios-investigativos\/","title":{"rendered":"A eleva\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es probat\u00f3rios investigativos"},"content":{"rendered":"<p>Uma recente decis\u00e3o do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/stj\">STJ<\/a>) reacende os abismos ainda enfrentados na efetiva\u00e7\u00e3o dos direitos humanos no sistema de justi\u00e7a penal brasileiro e os desafios impostos entre o poder\/dever punitivo do Estado e a prote\u00e7\u00e3o dos direitos e garantias fundamentais dos indiv\u00edduos. O tribunal anulou a condena\u00e7\u00e3o e determinou o trancamento imediato da a\u00e7\u00e3o penal na qual um homem foi condenado pela co-autoria na execu\u00e7\u00e3o do assassinato do advogado e ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/TSE\">TSE<\/a>), da sua esposa e da empregada do casal. [1]<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p>O crime da 113 Sul\u00a0 aconteceu em 2009, chocou o Distrito Federal e foi um dos mais marcantes na hist\u00f3ria do Brasil, n\u00e3o apenas pelo contexto f\u00e1tico de viol\u00eancia, mas pelas incongru\u00eancias, desdobramentos e falhas processuais que sucederam. Ele foi sentenciado a mais de 47 anos de pris\u00e3o pela pr\u00e1tica de triplo homic\u00eddio qualificado, mas teve a pris\u00e3o ilegal relaxada depois de permanecer mais de 15 (quinze) anos preso por crimes que n\u00e3o cometeu \u2013 uma injusti\u00e7a sem precedentes.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio foi classificado pelo pr\u00f3prio STJ como um exemplo de erro judici\u00e1rio grav\u00edssimo, uma vez que a confiss\u00e3o extrajudicial em sede de investiga\u00e7\u00e3o policial, utilizou m\u00e9todos n\u00e3o ortodoxos em desrespeito aos direitos e garantias fundamentais assegurados pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal, \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o processual vigente e ao entendimento de tribunais superiores acerca da ilicitude de m\u00e9todos viciados na fase inquisitorial bem como de condena\u00e7\u00f5es calcadas exclusivamente em elementos de investiga\u00e7\u00e3o pr\u00e9 processual n\u00e3o repetidos no curso do processo penal.<\/p>\n<p>Abuso do poder de investiga\u00e7\u00e3o, tortura, aus\u00eanca de prova judicial, cerceamento de defesa, ofesa ao devido processo legal, dentre outras falhas processuais graves foram reconhecidos por maioria pela 6\u00aa turma do STJ na an\u00e1lise do recuso apresentado num pedido de revis\u00e3o criminal negada pelo Tribunal de Justi\u00e7a do Distrito Federal e Territ\u00f3rios. O julgamento demonstrou que a busca obstinada por condena\u00e7\u00e3o a qualquer custo \u00e9 um dos maiores desrespeitos ao princ\u00edpio da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia, que no caso se materializou numa grav\u00edssima injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise do recurso aplicou entendimento pr\u00e9vio do Superior Tribunal Justi\u00e7a proferido no ARESp n\u00ba 2123334\/MG, de que a condena\u00e7\u00e3o e a pron\u00fancia (pr\u00f3pria dos procedimentos do tribunal do j\u00fari) n\u00e3o podem estar fundamentada exclusivamente em elementos colhidos durante o inqu\u00e9rito policial, sem que estes tenham sido confirmados em ju\u00edzo, sob pena de representar manifesta viola\u00e7\u00e3o ao artigo 155 do C\u00f3digo de Processo Penal, o qual estabelece que \u201co juiz formar\u00e1 sua convic\u00e7\u00e3o pela livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova produzida em contradit\u00f3rio judicial, n\u00e3o podendo fundamentar sua decis\u00e3o exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investiga\u00e7\u00e3o, ressalvadas as provas cautelares, n\u00e3o repet\u00edveis e antecipadas\u201d. [2]<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o do julgamento o ministro Sebasti\u00e3o Reis, relator do caso, ao proferir o voto afirmou: \u201c\u00c9 inadmiss\u00edvel que, no Estado Democr\u00e1tico de Direito, um acusado seja pronunciado e condenado por um tribunal de ju\u00edzes leigos, apenas com base em elementos de informa\u00e7\u00e3o da fase extrajudicial, dissonantes da prova produzida em ju\u00edzo e sob o crivo do contradit\u00f3rio\u201d. [3]<\/p>\n<p>No \u00e2mbito das teses consolidadas por esse precedente, podem ser ressaltadas, em especial, as seguintes: \u201c11.1: A confiss\u00e3o extrajudicial somente ser\u00e1 admiss\u00edvel no processo judicial se feita formalmente e de maneira documentada, dentro de um estabelecimento estatal p\u00fablico e oficial. Tais garantias n\u00e3o podem ser renunciadas pelo interrogado e, se alguma delas n\u00e3o for cumprida, a prova ser\u00e1 inadmiss\u00edvel. A inadmissibilidade permanece mesmo que a acusa\u00e7\u00e3o tente introduzir a confiss\u00e3o extrajudicial no processo por outros meios de prova (como, por exemplo, o testemunho do policial que a colheu). 11.2: A confiss\u00e3o extrajudicial admiss\u00edvel pode servir apenas como meio de obten\u00e7\u00e3o de provas, indicando \u00e0 pol\u00edcia ou ao Minist\u00e9rio P\u00fablico poss\u00edveis fontes de provas na investiga\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o pode embasar a senten\u00e7a condenat\u00f3ria. 11.3: A confiss\u00e3o judicial, em princ\u00edpio, \u00e9, obviamente, l\u00edcita. Todavia, para a condena\u00e7\u00e3o, apenas ser\u00e1 considerada a confiss\u00e3o que encontre algum sustento nas demais provas, tudo \u00e0 luz do art. 197 do CPP.\u201d<\/p>\n<p>O que chama a aten\u00e7\u00e3o para este caso \u00e9 que a atual Carta Magna, h\u00e1 mais de 37 anos, reconhece e consagra de forma expressa o princ\u00edpio da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia que \u00e9 corol\u00e1rio da preval\u00eancia dos direitos e garantias fundamentais, outro ponto que demanda reflex\u00e3o decorre do fato do Brasil ser signat\u00e1rio de diversos instrumentos internacionais de prote\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo contra as arbitrariedades do Estado e paradoxalmente ainda \u00e9 palco de falhas processuais desta natureza.<\/p>\n<p>Dentre os ensinamentos que emergem desta an\u00e1lise a conclus\u00e3o que se chega \u00e9 que a confiss\u00e3o h\u00e1 muito j\u00e1 n\u00e3o pode mais ser considerada pela Justi\u00e7a brasileira como a rainha das provas e que por mais que o Brasil assuma\u00a0 compromissos\u00a0 internacionais de prote\u00e7\u00e3o ao direitos humanos, se n\u00e3o houver uma atua\u00e7\u00e3o \u00e9tica, s\u00e9ria e racional de todos os atores do sistema justi\u00e7a penal, o risco de condena\u00e7\u00f5es injustas persistir\u00e1\u00a0 e destruir\u00e1 a cren\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Dessa forma, a busca pela mitiga\u00e7\u00e3o das falhas e dos erros judiciais representa n\u00e3o apenas um dever jur\u00eddico, mas um imperativo \u00e9tico na constru\u00e7\u00e3o de uma Justi\u00e7a mais humana, eficiente e verdadeiramente comprometida com a consolida\u00e7\u00e3o do Estado Democr\u00e1tico de Direito.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/h3>\n<p>A decis\u00e3o do STJ corrige um equ\u00edvoco lament\u00e1vel, restaura n\u00e3o s\u00f3 a liberdade mas a dignidade do homem condenado injustamente, ao mesmo tempo que exp\u00f5e que h\u00e1 muito a avan\u00e7ar no aperfei\u00e7oamento e na eleva\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es probat\u00f3rios investigativos.<\/p>\n<p>__________________________________________________________________<\/p>\n<p>[1] STJ, REsp 2232036 dispon\u00edvel em https:\/\/processo.stj.jus.br\/processo\/pesquisa\/ aplicacao=processos.ea&amp;amp;tipoPesquisa=tipoPesq uisaGenerica&amp;amp;termo=REsp%202232036<\/p>\n<p>[2] STJ, AREsp 2.123.334\/MG dispon\u00edvel em https:\/\/processo.stj.jus.br\/processo\/pesquisa\/ tipoPesquisa=tipoPesquisaNumeroRegistro&amp;amp;termo=20220 1379825&amp;amp;totalRegistrosPorPagina=40&amp;amp;aplicacao=processos.ea<\/p>\n<p>[3] https:\/\/www.stj.jus.br\/sites\/portalp\/Paginas\/Comunicacao\/Noticias\/2025\/14102 25-Sexta-Turma-anula-condenacao-e-manda-soltar-acusado-de-envolvimento-no Crime-da-113-Sul.aspx<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma recente decis\u00e3o do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) reacende os abismos ainda enfrentados na efetiva\u00e7\u00e3o dos direitos humanos no sistema de justi\u00e7a penal brasileiro e os desafios impostos entre o poder\/dever punitivo do Estado e a prote\u00e7\u00e3o dos direitos e garantias fundamentais dos indiv\u00edduos. 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