{"id":17822,"date":"2025-10-29T06:01:41","date_gmt":"2025-10-29T09:01:41","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/29\/iof-do-instrumento-extrafiscal-a-ferramenta-de-ajuste-fiscal\/"},"modified":"2025-10-29T06:01:41","modified_gmt":"2025-10-29T09:01:41","slug":"iof-do-instrumento-extrafiscal-a-ferramenta-de-ajuste-fiscal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/29\/iof-do-instrumento-extrafiscal-a-ferramenta-de-ajuste-fiscal\/","title":{"rendered":"IOF: do instrumento extrafiscal \u00e0 ferramenta de ajuste fiscal"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias, o governo federal reacendeu o debate <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tributos\">tribut\u00e1rio<\/a> nacional ao dar continuidade a uma s\u00e9rie de medidas que t\u00eam provocado intensa discuss\u00e3o e apreens\u00e3o no meio jur\u00eddico e econ\u00f4mico.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/tributos?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_tributos_q2&amp;utm_id=cta_texto_tributos_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_tributos&amp;utm_term=cta_texto_tributos_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Tributos, plataforma de monitoramento tribut\u00e1rio para empresas e escrit\u00f3rios com decis\u00f5es e movimenta\u00e7\u00f5es do Carf, STJ e STF<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Em maio desse ano, por meio do <a href=\"https:\/\/www2.camara.leg.br\/legin\/fed\/decret\/2025\/decreto-12466-22-maio-2025-797486-publicacaooriginal-175453-pe.html\">Decreto 12.466\/2025<\/a>, o governo promoveu a eleva\u00e7\u00e3o de al\u00edquotas do Imposto sobre Opera\u00e7\u00f5es Financeiras (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tributos\/iof-wikijota-o-que-e-como-funciona-calculado\">IOF<\/a>) em diversas modalidades \u2014 como opera\u00e7\u00f5es de risco sacado, aplica\u00e7\u00f5es em VGBL, remessas cambiais ao exterior, entre outras. \u00c0 \u00e9poca, o pr\u00f3prio Governo reconheceu o car\u00e1ter predominantemente arrecadat\u00f3rio da iniciativa, justificando-a pela necessidade de compensar despesas p\u00fablicas projetadas para o exerc\u00edcio seguinte.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o da sociedade civil e do <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/congresso-nacional\">Congresso Nacional<\/a> foi imediata e contundente, culminando em um recuo parcial dos aumentos, acompanhado da edi\u00e7\u00e3o da Medida Provis\u00f3ria n\u00ba 1.303\/2025. O novo texto, contudo, n\u00e3o alterou a orienta\u00e7\u00e3o fiscal da pol\u00edtica econ\u00f4mica: buscou apenas compensar a perda de arrecada\u00e7\u00e3o decorrente do recuo do IOF por meio de outros mecanismos \u2014 como a tributa\u00e7\u00e3o de investimentos at\u00e9 ent\u00e3o isentos (LCA, LCI, CRI e CRA), o aumento do imposto de renda sobre juros sobre capital pr\u00f3prio e a majora\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria para <em>bets<\/em> e <em>fintechs<\/em>. Em suma, a pol\u00edtica permaneceu a mesma; apenas mudaram-se as alavancas.<\/p>\n<p>No dia 15 de outubro, a Medida Provis\u00f3ria <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tributos\/camara-retira-mp-que-tributa-investimentos-de-pauta-e-enterra-a-proposta\">perdeu efic\u00e1cia<\/a> por n\u00e3o ter sido apreciada pela <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/camara-dos-deputados\">C\u00e2mara dos Deputados<\/a> dentro do prazo constitucional. Diante disso, o Governo j\u00e1 se mobiliza para repor a arrecada\u00e7\u00e3o frustrada, sendo o novo aumento do IOF novamente aventado como alternativa.<\/p>\n<p>Cumpre recordar, contudo, que o IOF n\u00e3o \u00e9 \u2014 nem deveria ser \u2014 um instrumento de mera arrecada\u00e7\u00e3o. Previsto no artigo 153, inciso V, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, trata-se de um tributo de natureza predominantemente extrafiscal, concebido para atuar como instrumento de pol\u00edtica monet\u00e1ria, credit\u00edcia e cambial. Sua flexibilidade normativa, que autoriza o Poder Executivo a alterar al\u00edquotas por decreto, encontra justificativa precisamente em sua fun\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria \u2014 e n\u00e3o fiscal. Ou seja, s\u00f3 se justifica para modular o comportamento econ\u00f4mico, e n\u00e3o para equilibrar o caixa do Tesouro.<\/p>\n<p>As iniciativas recentes, por\u00e9m, demonstram um uso desvirtuado dessa prerrogativa. O que deveria servir \u00e0 regula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica vem sendo convertido em atalho arrecadat\u00f3rio, comprometendo a coer\u00eancia do sistema e agravando a inseguran\u00e7a jur\u00eddica. A amplia\u00e7\u00e3o das bases de incid\u00eancia, a supress\u00e3o de isen\u00e7\u00f5es e o aumento tempor\u00e1rio de al\u00edquotas evidenciam um padr\u00e3o de comportamento governamental: a busca por receita imediata, ainda que em detrimento da racionalidade tribut\u00e1ria.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/cadastro-em-newsletter-curadoria-jota-pro-tributos\">Receba de gra\u00e7a todas as sextas-feiras um resumo da semana tribut\u00e1ria no seu email<\/a><\/h3>\n<p>O Decreto 12.466\/2025<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn1\">[1]<\/a> ilustra bem esse desvio. Ao eliminar isen\u00e7\u00f5es incidentes sobre aportes em planos VGBL e impor al\u00edquotas adicionais sobre investimentos de maior porte, interferiu diretamente em decis\u00f5es de poupan\u00e7a e investimento de longo prazo, contrariando a pr\u00f3pria l\u00f3gica regulat\u00f3ria que fundamenta o IOF.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio se agrava com a decis\u00e3o do ministro Alexandre de Moraes<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn2\">[2]<\/a>, que validou os decretos de majora\u00e7\u00e3o do imposto. Embora a decis\u00e3o encontre respaldo formal no artigo 153, \u00a71\u00ba, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, que autoriza o Executivo a modificar al\u00edquotas do IOF por decreto, ela desconsidera o limite material impl\u00edcito da extrafiscalidade. O IOF pode \u2014 e deve \u2014 ser ajustado para fins de pol\u00edtica econ\u00f4mica, mas n\u00e3o pode ser convertido em tributo fiscal disfar\u00e7ado. Ao privilegiar o aspecto formal da compet\u00eancia, o Supremo Tribunal Federal acabou por legitimar um uso arrecadat\u00f3rio e pol\u00edtico do imposto, abrindo espa\u00e7o para manipula\u00e7\u00f5es fiscais de curto prazo sem controle parlamentar efetivo.<\/p>\n<p>Essa convalida\u00e7\u00e3o judicial gera um precedente preocupante. Se o Executivo pode manejar o IOF de forma discricion\u00e1ria, com a anu\u00eancia do Judici\u00e1rio, o tributo deixa de ser um instrumento t\u00e9cnico e passa a ser uma vari\u00e1vel pol\u00edtica, sujeita \u00e0 conveni\u00eancia governamental. O resultado \u00e9 a eros\u00e3o da previsibilidade, o aumento da volatilidade normativa e o enfraquecimento do princ\u00edpio da seguran\u00e7a jur\u00eddica, pilares essenciais \u00e0 estabilidade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as recentes, somadas \u00e0 chancela do Supremo, revelam a persist\u00eancia de uma l\u00f3gica de solu\u00e7\u00f5es arrecadat\u00f3rias imediatistas, em detrimento do enfrentamento do verdadeiro problema estrutural: o desequil\u00edbrio fiscal decorrente do gasto p\u00fablico. O IOF, concebido como term\u00f4metro da pol\u00edtica econ\u00f4mica, vem sendo utilizado como v\u00e1lvula de escape fiscal.<\/p>\n<p>Ao conferir ao Governo uma \u201ccarta branca\u201d tribut\u00e1ria, a decis\u00e3o na ADI n\u00e3o apenas afeta o presente, mas projeta riscos aos governos futuros, que poder\u00e3o alterar a carga tribut\u00e1ria de um dia para o outro, sem pr\u00e9via delibera\u00e7\u00e3o parlamentar. O resultado \u00e9 um ambiente de incerteza incompat\u00edvel com o investimento produtivo e a previsibilidade que o Estado de Direito exige.<\/p>\n<p>Enquanto persistir essa invers\u00e3o de finalidade, o sistema tribut\u00e1rio brasileiro continuar\u00e1 afastando-se da coer\u00eancia e da transpar\u00eancia. A extrafiscalidade, concebida como instrumento t\u00e9cnico de regula\u00e7\u00e3o, segue sendo utilizada como pretexto arrecadat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O verdadeiro equil\u00edbrio fiscal n\u00e3o se conquista por decreto \u2014 nem por decis\u00f5es judiciais complacentes \u2014, mas por responsabilidade, transpar\u00eancia e respeito \u00e0s finalidades constitucionais dos tributos.<\/p>\n<p>____________________________________________________________<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref1\">[1]<\/a> E tamb\u00e9m os Decretos posteriores n\u00bas 12.467 e 12.499, de 2025.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref2\">[2]<\/a> Decis\u00e3o conjunta na \u00a0A\u00e7\u00e3o Declarat\u00f3ria de Constitucionalidade\u00a0<a href=\"https:\/\/portal.stf.jus.br\/processos\/detalhe.asp?incidente=7303647\">(ADC) 96<\/a>\u00a0e nas A\u00e7\u00f5es Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs)\u00a0<a href=\"https:\/\/portal.stf.jus.br\/processos\/detalhe.asp?incidente=7280244\">7827<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/portal.stf.jus.br\/processos\/detalhe.asp?incidente=7301260\">7839<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias, o governo federal reacendeu o debate tribut\u00e1rio nacional ao dar continuidade a uma s\u00e9rie de medidas que t\u00eam provocado intensa discuss\u00e3o e apreens\u00e3o no meio jur\u00eddico e econ\u00f4mico. 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